Drop Down MenusCSS Drop Down MenuPure CSS Dropdown Menu

Quem é Nêmesis (Νέμεσις) na Mitologia Grega?

nemesis-deusa-da-vinganca
Nêmesis segura a roda da Fortuna, com o pé direito apoiado sobre um adversário dominado Estatueta romana de mármore, c. 150 d.C. Foto por Marshall Astor

Etimologicamente, seu nome deriva do grego antigo némesis, associado ao verbo némein, cuja tradução remete às ações de repartir igualmente, distribuir devidamente ou atribuir o pinhão justo. Em sua acepção mais remota, Nêmesis não foi concebida primariamente como um espírito de malícia ou punição cega, mas sim como a personificação da justiça distributiva e compensatória. Cabia a ela a concessão exata da felicidade ou da dor, garantindo que nenhum ser humano ultrapassasse os limites impostos à sua condição transitória.

A genealogia de Nêmesis reflete a própria complexidade de seu papel no panteão. Na tradição poética da Teogonia de Hesíodo, a deusa surge como uma das filhas primordiais da Noite, Nix. Essa filiação situa a divindade no mesmo estrato de entidades como o Destino, a Morte e o Sono, conferindo-lhe uma natureza primordial, ancestral e inevitável. Por outro lado, tradições historiográficas e mitográficas posteriores trouxeram variações significativas. Pausânias registrou a linhagem que a aponta como fruto da união dos titãs Oceano e Tétis, conectando-a às forças cósmicas das águas originárias. Mitos tardios tenderam a reelaborar sua figura como descendente direta da união entre Zeus, o ordenador supremo, e Têmis, a deusa da lei divina e da ordem moral, fusão que reforça seu caráter de instrumento punitivo da vontade dos deuses do Olimpo.

Embora descendesse de uma linhagem marcada por entidades sombrias, Nêmesis desfrutava de trânsito no Monte Olimpo, atuando diretamente como o braço executor da retribuição divina. Conhecida frequentemente pelo epíteto de "a Inevitável", a deusa era figurada na arte clássica como uma mulher alada, solene e de incontestável beleza. Sua iconografia muitas vezes se entrelaçava com a de outras divindades do panteão. Aproximava-se de Têmis pela evidente ligação com o direito e a equidade; alinhava-se a Afrodite quando os sentimentos e as paixões exigiam vingança diante do desprezo; e guardava semelhanças visuais com Deméter e Ártemis, revelando a fluidez com que o pensamento grego personificava abstrações morais em formas humanas.

O papel fundamental de Nêmesis era combater e reprimir a húbris, a desmesura ou orgulho excessivo. No cosmos grego, a húbris representava a maior de todas as faltas morais: o momento em que o mortal, embriagado pelo triunfo, pela riqueza, pela beleza ou pelo poder, esquecia os seus limites humanos e pretendia equiparar-se aos deuses ou alterar o tecido do destino. Qualquer elevação desmedida rompia o equilíbrio universal. Nêmesis agia, portanto, como uma força reativa que rebaixava os soberbos para restabelecer o nível harmonioso da existência, lembrando aos homens a sua irremediável mortalidade.

Diversos episódios da literatura mitológica exemplificam a atuação implacável de Nêmesis. No mito relativo às origens da Guerra de Troia, narra-se que Zeus, tomado de paixão por Nêmesis, buscou possuí-la. Ao tentar escapar das investidas do rei dos deuses, a deusa metamorfoseou-se em uma gansa; contudo, Zeus transformou-se em cisne e concretizou a união. Do ovo resultante dessa paixão, abandonado por Nêmesis e posteriormente chocado por Leda, nasceu Helena, cuja beleza viria a ser o estopim para a ruína de troianos e gregos.

Em outras passagens, a deusa atua diretamente na punição dos mortais. O rei Creso da Lídia, tomado por extrema soberba diante de suas fabulosas riquezas e de sua prosperidade, acabou induzido por Nêmesis a empreender uma desastrosa campanha militar contra Ciro, o Grande, fato que culminou no colapso de seu próprio reino. Do mesmo modo, ao presenciar o desdém de Narciso, que rejeitava asperamente o amor de jovens e ninfas devido ao encanto cego por si mesmo, Nêmesis atendeu às preces das vítimas desprezadas. Ao induzir um calor intenso que fez o jovem debruçar-se sobre uma fonte, a deusa fez com que ele se apaixonasse irresistivelmente pela própria imagem refletida nas águas, definhando até a morte diante de um desejo impossível.

No âmbito do culto e da devoção pública, destaca-se o santuário de Ramnunte, na Ática, localizado próximo a Maratona. Ali erguia-se um templo célebre compartilhado entre Nêmesis e Têmis. As esculturas das duas deusas foram elaboradas do mesmo bloco de mármore de Paros, o qual havia sido trazido pelos invasores persas para a confecção de um troféu de vitória antecipado. Tomados por evidente húbris, os persas julgavam a conquista de Atenas inevitável. Nêmesis, contudo, tomou o partido dos atenienses na Batalha de Maratona, encorajando suas forças e castigando a soberba dos invasores orientais. Além de Ramnunte, a deusa mantinha culto estruturado em cidades da Anatólia, como Éfeso e a ilha de Samos. Em Esmirna, adoravam-se duas manifestações simultâneas de Nêmesis, cujas características convergiam com os atributos de Afrodite, simbolizando a dualidade entre a benevolência da justiça e a dureza da punição implacável.

Culturalmente, os atenienses celebravam o festival das Neméssias, também associado às Genésias, cujo propósito precípuo residia em acalmar os espíritos dos mortos e neutralizar a sua eventual indignação contra os vivos, caso os ritos fúnebres ou a memória dos ancestrais tivessem sido negligenciados.

Com a evolução da linguagem e a assimilação da tradição clássica no Ocidente, o termo atravessou os séculos e adquiriu novos matizes semânticos. Se na Antiguidade Clássica indicava a força neutra da justiça compensatória que reequilibrava as flutuações da fortuna humana, na modernidade a palavra passou a nomear o agente que inflige uma retaliação ou, por extensão, um adversário temível e aparentemente invencível. Na cultura contemporânea, o conceito consolidou-se como o arquetípico rival ou arqui-inimigo de uma personagem, estabelecendo uma relação de oposição absoluta e, simultaneamente, de profundo espelhamento moral e intelectual.

Referências Bibliográficas

BULFINCH, T. O livro da Mitologia: A Idade da fábula. [Tradução de Luciano Alves Meira]. São Paulo: Martin Claret, 2024.

Comprar na Amazon

COMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. 1ª ed. Campinas-SP: Editora Garnier, 2025.

Comprar na Amazon

GRIMAL, P. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

Comprar na Amazon

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. [Tradução de Jaa Torrano]. São Paulo: Iluminuras, 2000.

Comprar na Amazon

VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradição de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

Qual é a forma correta de apresentar o nome de uma instituição (entidade) que atua como autor de uma obra?

Quando uma entidade, como um órgão público, uma organização internacional, uma empresa, uma universidade ou um instituto de pesquisa, é responsável pela autoria de um documento, ela deve ser tratada como autor corporativo, e seu nome precisa aparecer exatamente como é oficialmente registrado, sem abreviações indevidas ou adaptações estilísticas. Essa forma de identificação garante a precisão da referência e a rastreabilidade da fonte, aspectos essenciais para a credibilidade de qualquer produção acadêmica.

O primeiro passo é compreender que o nome da instituição deve ser apresentado de maneira integral, respeitando sua grafia oficial e a hierarquia administrativa que a compõe. Por exemplo, em uma obra publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, não se deve utilizar apenas “IBGE” ou “Instituto de Geografia e Estatística”, mas sim o nome completo, seguido da sigla entre parênteses, caso esta seja amplamente reconhecida. Assim, a forma adequada seria: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa estrutura preserva tanto a formalidade quanto a clareza, permitindo que o leitor identifique imediatamente a entidade responsável pela obra. Veja o exemplo abaixo:

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: síntese de indicadores 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

Outro ponto fundamental é a posição que o nome da instituição ocupa na referência. Em sistemas de citação como o da ABNT NBR 6023:2018, o autor corporativo aparece no início da referência, seguido do título da obra, local de publicação, editora e data. Quando o nome é extenso, recomenda-se mantê-lo completo, sem omissões, pois cada elemento pode ser determinante para distinguir a instituição de outras semelhantes. Em contextos internacionais, como nas normas da APA (American Psychological Association), o princípio é o mesmo: o nome da entidade deve ser escrito por extenso, sem inversão de ordem, e seguido do ano de publicação entre parênteses.

É importante também observar que, quando uma instituição possui subdivisões responsáveis pela autoria, como departamentos, secretarias ou comissões, o nome deve refletir essa estrutura hierárquica. Por exemplo, uma publicação elaborada pela Organização das Nações Unidas, Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais deve apresentar essa sequência completa, pois cada nível institucional contribui para a identificação precisa da autoria. Essa prática evita ambiguidades e assegura que o crédito seja atribuído corretamente.

No corpo do texto, ao citar a instituição, pode-se optar por utilizar apenas a sigla, desde que ela tenha sido previamente apresentada por extenso na primeira menção. Essa convenção é especialmente útil em textos longos, pois mantém a fluidez da leitura sem comprometer a formalidade. Contudo, na lista de referências, a forma completa deve sempre prevalecer, reforçando o caráter documental da obra.

Como deve ser formatada a data de acesso em referências de documentos consultados online, como sites ou blogs?

A citação e a referenciação de fontes digitais representam uma etapa crucial no rigor metodológico de qualquer trabalho acadêmico. Quando se consulta um artigo em um blog, uma reportagem em um portal de notícias ou uma página institucional, o conteúdo ali exposto pode sofrer alterações, atualizações ou até mesmo ser removido do ar com o passar do tempo. Por esse motivo, registrar o momento exato em que a informação foi recuperada é indispensável para garantir a rastreabilidade das fontes e a transparência do processo de pesquisa.

A Associação Brasileira de Normas Técnicas, por meio da norma vigente para elaboração de referências, determina diretrizes específicas para a inclusão do elemento cronológico de consulta. A indicação da data deve ser precedida pela expressão Acesso em: e posicionada logo após a indicação do endereço eletrônico do documento. Um detalhe fundamental, que frequentemente gera dúvidas durante o processo de editoração acadêmica, diz respeito ao formato dos meses do ano.

Diferente do que ocorre no texto corrido do trabalho, em que os meses são grafados por extenso, na seção de referências os nomes dos meses devem ser abreviados. A regra padronizada exige o uso das três primeiras letras seguidas de um ponto, utilizando letras minúsculas. A única exceção a essa norma universal do sistema bibliográfico é o mês de maio, que por ser uma palavra de apenas quatro letras, deve mantido por extenso, sem o ponto de abreviação.

Para garantir uma construção textual alinhada com as exigências dos órgãos financiadores e programas de pós-graduação, a sequência lógica de apresentação deve manter o dia em numerais arábicos, seguido do mês abreviado e do ano completo com quatro dígitos. Quando o documento online possui a indicação de sua data de publicação original, essa informação vem posicionada anteriormente ao link, preservando a diferenciação clara entre o momento em que o autor publicou o conteúdo e o momento em que o pesquisador realizou o download ou a leitura.

Além da formatação correta do dia, mês e ano, o uso apropriado das marcas tipográficas é indispensável para assegurar a coesão do elemento de referência. O ponto final deve ser inserido obrigatoriamente no encerramento de toda a estrutura referencial, marcando o encerramento da indicação da data de acesso.

Breve resenha do livro Lavoura arcaica, de Raduan Nassar

A obra Lavoura Arcaica, romance de estreia de Raduan Nassar publicado em 1975, é, digo desde já, uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea, cuja leitura deixa claro o motivo pelo qual o texto permanece imune ao passar dos anos, mantendo sua capacidade de provocar reflexões dolorosas e estéticas de altíssimo nível. A trama principal gira em torno de André, o filho rebelde e atormentado que decide abandonar a propriedade rural da família para escapar do ambiente asfixiante criado pelo patriarca, o pai Iohána. O enredo ganha impulso no momento em que Pedro, o irmão mais velho, é encarregado de encontrar André em seu refúgio secreto, um quarto modesto numa pensão provinciana, para convencê-lo a retornar ao seio familiar. A partir desse reencontro entre os dois irmãos, o livro se desdobra em longos diálogos, memórias e confissões que revelam as rachaduras irreparáveis de uma estrutura doméstica aparentemente inabalável.

Os personagens centrais formam um microcosmo tenso, sustentado por valores tradicionais de origem oriental e bíblica. De um lado, temos a figura do pai, detentor da autoridade suprema, que prega o trabalho, a ordem e a paciência na mesa de jantar como dogmas sagrados. De outro lado, encontra-se André, o narrador-personagem, cuja alma é devastada por desejos inconfessáveis e por uma ânsia incontrolável de libertação. O grande conflito da obra reside precisamente nesse choque entre a rigidez moral imposta pela tradição patriarcal e a força avassaladora do desejo individual. Esse desejo atinge seu ponto crítico na ligação incestuosa e obsessiva de André por sua irmã Ana, uma paixão subterrânea que atua como o estopim da desintegração familiar. Longe de ser um mero drama doméstico, o romance constrói uma tragédia lírica em que o dever e a transgressão se enfrentam de maneira fulminante.

A forma como Raduan Nassar constrói essa atmosfera é instigante. A narrativa adota o foco narrativo em primeira pessoa, confinando o leitor à mente agitada e febril de André. A escrita do autor não busca a simples descrição de acontecimentos, mas opera por meio do fluxo de consciência, recurso técnico em que as pensamentos, sensações, lembranças e delírios do protagonista fluem sem as amarras convencionais da pontuação linear. A prosa de Nassar é notavelmente poética, carregada de cadência musical, hipnotizante e repleta de orações longas que arrastam quem lê para dentro de uma vertigem sensorial. Além disso, destaca-se no texto a presença marcante da intertextualidade, especialmente no diálogo constante com as parábolas bíblicas, como a história do filho pródigo, que o romance desconstrói e ressignifica de forma trágica. A própria diegese, o universo fictício em que a ação se desenrola, parece suspensa em um tempo quase anacrônico, onde a lavoura física e a lavoura da alma se fundem em um mesmo espaço de dor e trabalho.

Entre os pontos fortes mais marcantes de Lavoura Arcaica, destaco a extraordinária riqueza estilística e a profundidade psicológica com que o autor aborda temas tabus. A capacidade de Nassar de transformar o suplício do desejo e a opressão familiar em uma linguagem barroca e arrebatadora é algo raro no panorama literário nacional. No entanto, ao analisar a obra criticamente, é preciso reconhecer possíveis limitações ou desafios de leitura. A densidade da prosa, somada à ausência de uma estrutura narrativa tradicional com pausas claras e enredo puramente factual, pode representar uma barreira inicial para leitores acostumados a ritmos mais dinâmicos. A atmosfera sufocante e a carga emocional incessante exigem um leitor disposto a desacelerar e a enfrentar o desconforto que o texto deliberadamente provoca.

A relevância de Lavoura Arcaica para o leitor atual permanece indiscutível. Em uma época em que as estruturas familiares, os papéis de gênero e as noções de autoridade passam por intensas revisões, o romance oferece um espelho incisivo sobre os custos da sufocação do indivíduo pelo coletivo e pelas tradições arcaicas. A luta de André contra a moralidade sufocante de sua casa ressoa com questões contemporâneas sobre identidade, saúde mental e a busca por autonomia frente a sistemas rígidos. Indico sua leitura a estudantes de literatura, pesquisadores, amantes da poesia em prosa e a todos os leitores que buscam obras profundas, capazes de desafiar a sensibilidade e o intelecto com a mesma intensidade.

Gostou da resenha? Garanta o seu exemplar na Amazon!

Capa do livro Nome do Livro

Lavoura arcaica

por Raduan Nassar

📖 Páginas: 200 🏢 Editora: Companhia das Letras Minha Avaliação: 4.8/5

Lavoura arcaica é um texto em que se entrelaçam o novelesco e o lírico, por meio de um narrador em primeira pessoa - André, o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, consequentemente, o avesso da imagem da família. É sobretudo uma aventura com a linguagem: além de fundar a narrativa, a linguagem é também o instrumento que, com seu rigor, desorganiza um outro rigor, o das verdades pensadas como irremovíveis.

Ver ou Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

Quem é Épafo (Ἔπαφος) na Mitologia Grega?

Na mitologia grega, Épafo surge como resultado de uma das muitas aventuras amorosas de Zeus. Io, sua mãe, era uma sacerdotisa de Hera, esposa de Zeus, e despertou o interesse do deus supremo do Olimpo. Para ocultar o adultério, Zeus transformou Io em uma novilha branca, mas Hera, desconfiada, exigiu o animal como presente e colocou Argos Panoptes, o gigante de cem olhos, para vigiá-la. Hermes, a mando de Zeus, matou Argos e libertou Io, que passou a vagar pelo mundo atormentada por um inseto enviado por Hera. Essa peregrinação levou-a da Grécia até o Egito, onde finalmente recuperou sua forma humana e deu à luz Épafo .

O nascimento de Épafo é, portanto, o ponto culminante de uma narrativa marcada pelo sofrimento e pela redenção. Ele simboliza o elo entre o divino e o humano, entre o Ocidente e o Oriente, e entre o amor e a perseguição. Hera, ainda tomada pelo ciúme, tentou eliminar o recém-nascido enviando os curetes para sequestrá-lo, mas Zeus interveio e puniu os responsáveis. Io, desesperada, buscou seu filho até encontrá-lo novamente, e ambos retornaram ao Egito, onde Épafo cresceu e se tornou rei.

Como soberano, Épafo é lembrado por ter fundado a cidade de Mênfis, uma das mais importantes do Egito antigo, e por ter se casado com Mênfis, filha do deus Nilo. Dessa união nasceu Líbia, que deu origem à linhagem de Agenor e Belo, figuras que perpetuam a influência de Épafo na mitologia grega. Belo, por sua vez, é pai de Dánao e Egito, cujas descendentes, as Danaides, protagonizam uma das mais célebres tragédias gregas. Assim, Épafo não é apenas um personagem isolado, mas um ponto de convergência de mitos que estruturam a genealogia de heróis e reis .

A figura de Épafo também possui uma dimensão religiosa e simbólica. No Egito, ele foi identificado com o deus Ápis, o touro sagrado venerado como manifestação de Ptah e, posteriormente, de Osíris. Essa associação revela o sincretismo entre as crenças gregas e egípcias, mostrando como os mitos se adaptavam e se fundiam conforme as culturas se encontravam. O touro, símbolo de fertilidade e força, reforça a ideia de Épafo como portador da vitalidade divina e da continuidade da vida .

Aprenda mais sobre mitologia lendo...

Capa do livro Nome do Livro

Os mitos gregos: Box com dois volumes

por Robert Graves

📖 Páginas: 1088 🏢 Editora: Nova Fronteira

Em Os Mitos Gregos: Box , você encontrará as fascinantes histórias de Midas, Narciso, Medeia, Ájax, Aquiles, Afrodite, Odisseu e muitos outros personagens icônicos da mitologia grega. O renomado escritor britânico Robert Graves mergulhou em uma pesquisa minuciosa para reunir essas lendas antigas de deuses e heróis em uma narrativa cativante, que agora está ao alcance do público moderno.

Ver ou Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

Quem é Caanto na Mitologia Grega?

Na mitologia grega, Caanto, ou Káanthos, é uma figura secundária, mas de grande valor simbólico, cuja história reflete o entrelaçamento entre o humano e o divino, o destino e a transgressão. Embora seu nome não possua etimologia segura, estudiosos sugerem que possa derivar de uma raiz que significa “cardo” ou “espinho”, o que, em sentido figurado, remete à ideia de “aquele que dificulta” ou “aquele que causa dor”. Essa interpretação, ainda que conjectural, harmoniza-se com o papel que Caanto desempenha em seu breve e trágico mito: o de um herói que, movido pela paixão e pela ira, desafia um deus e paga com a própria vida.

Caanto era filho de Oceano, uma das divindades primordiais que personificavam o rio que circunda o mundo, e irmão de Mélia, uma ninfa associada às águas doces e à fertilidade. O mito narra que Mélia foi raptada por Apolo nas proximidades de Tebas, cidade que, na tradição grega, frequentemente serve de palco para dramas de orgulho e punição. Oceano, tomado de indignação, ordenou a Caanto que partisse em busca da irmã e a trouxesse de volta. O jovem obedeceu ao pai e empreendeu sua jornada, encontrando Mélia sem grande dificuldade. Contudo, Apolo, deus da luz, da música e da profecia, recusou-se a devolvê-la. Diante dessa negativa, Caanto viu-se dividido entre o dever filial e a impotência diante da vontade divina.

A reação de Caanto foi impulsiva e trágica. Dominado pela cólera, ele incendiou o santuário de Apolo, um ato de profanação que, na mentalidade grega, representava não apenas uma ofensa pessoal, mas uma violação da ordem cósmica. O fogo, elemento purificador e destruidor, simboliza aqui a tentativa humana de confrontar o poder divino, mas também a inevitável autodestruição que acompanha tal ousadia. Apolo, em resposta, matou Caanto com uma flecha, instrumento que, em sua simbologia, une precisão e fatalidade. Assim, o herói tornou-se exemplo da fragilidade humana diante da justiça dos deuses.

O túmulo de Caanto era mostrado em Tebas, junto à fonte de Ares, o deus da guerra. Essa localização não é casual: a proximidade com Ares sugere que Caanto foi lembrado como um guerreiro, alguém que enfrentou o divino com coragem, ainda que insensata. A fonte, por sua vez, representa o fluxo da vida e da memória, perpetuando o mito do jovem que ousou desafiar o poder celestial. A presença de seu túmulo em Tebas também reforça o caráter moralizante da narrativa, pois a cidade, marcada por tragédias como as de Édipo e Antígona, é o espaço simbólico onde o orgulho humano se confronta com os limites impostos pelos deuses.

O mito de Caanto, embora breve, encerra uma reflexão profunda sobre o conflito entre dever e destino. Sua tentativa de cumprir a ordem paterna, trazer Mélia de volta, revela a tensão entre o amor familiar e a submissão à vontade divina. Ao incendiar o templo, Caanto não somente expressa sua revolta, mas também encarna o impulso humano de resistir à injustiça, mesmo quando essa resistência é inútil. Sua morte não é mera punição, mas também purificação: o herói torna-se parte da memória mítica, lembrado como aquele que, por amor e ira, ousou desafiar o deus da luz.

Aprenda mais sobre mitologia lendo...

Capa do livro Nome do Livro

DO CAOS AO OLIMPO: Uma jornada sombria e fiel às fontes da mitologia grega (Mitos gregos: As histórias originais Livro 1)

por Geraldo Leal

📖 Páginas: 238

Do Caos ao Olimpo conduz o leitor à mitologia grega como ela realmente é: sombria, violenta e sem concessões. A partir das fontes mais antigas, o livro acompanha a ascensão dos deuses desde o Caos primordial até a ordem instável do Olimpo. Aqui, a criação nasce do conflito, o poder é conquistado pela ruptura, e o governo divino se sustenta em juramentos, relâmpagos e medo.

Ver ou Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

Breve resenha do livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas, publicado por João Guimarães Rosa em 1956, é uma obra que se estrutura como uma longa e ininterrupta narrativa oral, na qual o ex-jagunço Riobaldo, agora um fazendeiro idoso e abastado, relata a história de sua vida a um interlocutor oculto e letrado vindo da cidade. A trama principal orbita em torno do período em que Riobaldo percorreu o sertão mineiro, baiano e goiano integrando bandos de jagunços em meio a guerras travadas por chefias locais. No centro dessa travessia física e espiritual, o narrador busca compreender a natureza do bem e do mal, assombrado pela dúvida permanente sobre ter ou não realizado um pacto com o Diabo nas veredas das Paredes para obter forças e derrotar seus maiores inimigos.

Ao longo desse relato repleto de memórias, sobressaem personagens de enorme densidade psicológica e simbólica. O destaque absoluto é Diadorim, companheiro de armas por quem Riobaldo nutre um afeto profundo, misterioso e angustiante, atravessado por um amor proibido que o atormenta em meio ao ambiente violento e viril da jagunçagem. Outras figuras marcantes povoam a narrativa, como o ambicioso e articulado Zé Bebelo, que representa uma tentativa de levar a lei e a política moderna ao sertão; o respeitado chefe Joca Ramiro; e o temível Hermógenes, personificação da crueldade e do diabolismo que impele Riobaldo ao seu limite ético e existencial. Sem avançar nos desfechos dramáticos que encerram essa jornada, posso afirmar que os conflitos não se restringem aos confrontos armados nas veredas e chapadões, mas se consolidam principalmente no interior do próprio narrador, dividido entre a razão, a paixão, a culpa e a fé.

A forma como Guimarães Rosa constrói essa experiência é verdadeiramente revolucionária. O tipo de narrativa adotado é a primeira pessoa com um foco narrativo homodiegético, na qual o protagonista é também a voz que rememora os fatos. O texto funciona como um monólogo dramático estruturado a partir de uma fala fluida e fragmentada, aproximando-se do fluxo de consciência. Não há capítulos nem divisões formais ao longo de mais de quatrocentas páginas; a cronologia dos fatos não segue uma linha reta, mas obedece ao ritmo das associações mentais, dúvidas e sobressaltos da memória de Riobaldo. A escrita do autor funde a fala sertaneja com construções eruditas, neologismos brilhantes, arcaísmos e uma inversão sintática quase poética, transformando o linguajar regional em uma linguagem universal de altíssima expressão estética.

Dentre os pontos fortes da obra, destaco justamente a capacidade incomparável de alinhar o regionalismo à metafísica. O sertão não aparece apenas como uma paisagem geográfica concreta, mas como um espaço alegórico do próprio mundo e da alma humana. A profundidade filosófica das reflexões de Riobaldo transforma causos de jagunços em meditações universais sobre a existência, o livre-arbítrio e o amor. Por outro lado, se fosse necessário apontar uma limitação ou desafio, mencionaria a exigência inicial que o livro impõe ao leitor. A linguagem altamente inventiva e o ritmo não linear exigem paciência e fôlego nas primeiras páginas, o que pode causar um estranhamento inicial ou certo cansaço para quem busca uma leitura puramente de entretenimento rápido ou com narrativa tradicional.

No contexto da criação literária, é possível identificar conceitos fundamentais da Teoria da Literatura aplicados com maestria. O conceito de verossimilhança interna é trabalhado de forma exemplar, pois mesmo as incertezas de Riobaldo sobre o fantástico e o diabólico tornam-se plenamente plausíveis dentro da lógica do universo sertanejo criado pelo autor. Da mesma forma, percebe-se o processo de transculturação narrativa, termo teorizado para descrever como elementos da cultura oral e popular são incorporados e ressignificados dentro das estruturas da alta literatura modernista.

Escrito na década de 50 do século passado, Grande Sertão: Veredas permanece atualíssima, pois as perguntas que afligem Riobaldo continuam sendo as mesmas que nos inquietam no século XXI: como lidar com a incerteza da vida, o medo da finitude e a dualidade entre nossas escolhas éticas? Ou seja, pode ser considerada um dos maiores monumentos da literatura em língua portuguesa, uma obra-prima que desafia as fronteiras entre a prosa e a poesia. Recomendo este livro a todos os leitores dispostos a vivenciar uma experiência literária transformadora, apreciadores de ficção profunda, estudantes de letras e qualquer pessoa que deseje compreender a riqueza cultural e existencial do Brasil.

Gostou da resenha? Garanta o seu exemplar na Amazon!

Capa do livro Nome do Livro

Grande sertão: veredas

por João Guimarães Rosa

📖 Páginas: 560 🏢 Editora: Companhia das Letras Minha Avaliação: 5/5

Publicado originalmente em 1956, Grande sertão: veredas , de João Guimarães Rosa, revolucionou o cânone brasileiro e segue despertando o interesse de renovadas gerações de leitores. Ao atribuir ao sertão mineiro sua dimensão universal, a obra é um mergulho profundo na alma humana, capaz de retratar o amor, o sofrimento, a força, a violência e a alegria.

Ver ou Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

O que é Arco de personagem na Teoria da Literatura?

O arco de personagem pode ser definido como a trajetória de transformação interior, psicológica, moral ou emocional que um indivíduo fictício atravessa ao longo de uma história. Trata-se do movimento da alma do personagem, impulsionado pelos conflitos, escolhas e consequências que a narrativa lhe impõe. Se o enredo representa os eventos externos, o que acontece ao redor e contra o protagonista, o arco de personagem é a resposta interna a esses acontecimentos, a mudança de perspectiva, a superação de uma falha moral ou, em casos trágicos, a ruína do indivíduo diante de suas próprias ilusões. O arco é a ponte de empatia entre a obra e o leitor, pois reflete a própria natureza humana, caracterizada pela inconstância, pelo aprendizado e pela inevitável transformação ao longo do tempo.

No início da narrativa, o personagem costuma ser apresentado em seu "mundo comum", portando o que a teoria dramática frequentemente chama de "mentira" ou "ilusão". Essa mentira é uma crença equivocada sobre si mesmo ou sobre o mundo, originada, na maioria das vezes, por um trauma passado ou por uma visão limitada da realidade. O personagem vive em um estado de equilíbrio imperfeito, apegado a esse defeito moral ou fraqueza psicológica. O surgimento do conflito principal força o protagonista a sair dessa zona de conforto, confrontando-o com eventos que testam repetidamente sua visão de mundo.

A partir desse atrito constante entre o desejo do personagem (o que ele quer obter no plano externo) e sua real necessidade (o que ele precisa aprender no plano interno para se tornar pleno), o arco se desenvolve. O clímax da história coincide, quase impreterivelmente, com o momento de maior tensão no arco psicológico: a hora em que o personagem deve decidir abandonar definitivamente sua antiga crença para abraçar a verdade, ou, ao contrário, sucumbir à sua própria cegueira.

As manifestações desse movimento na literatura são diversas, mas podem ser compreendidas por meio de algumas tipologias fundamentais. O arco transformador positivo, frequentemente associado ao romance de formação ou à jornada do herói, traz um indivíduo imperfeito que, ao encarar severas provações, alcança o amadurecimento e a redenção. Um exemplo clássico e brilhante dessa metamorfose encontra-se no romance Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. No início da trama, a protagonista Elizabeth Bennet se julga uma leitora perspicaz do caráter humano, contudo encontra-se profundamente cega por seus próprios julgamentos precipitados. Paralelamente, o altivo Fitzwilliam Darcy deixa-se cegar por sua soberba de classe. O arco de ambos é moldado por sucessivos desencontros, cartas reveladoras e autorreflexões dolorosas. Elizabeth precisa reconhecer a vaidade de seu próprio intelecto para enxergar Darcy com justiça, enquanto Darcy precisa despir-se do esnobismo para merecer o afeto de Elizabeth. A mudança interior precede e condiciona o desfecho feliz da trama.

Outra ilustração poderosa do arco de redenção positiva ocorre em A Morte de Ivan Ilitch, novela magistral de Lev Tolstói. Aqui, o arco de transformação atinge o ápice de sua densidade existencial. Ivan Ilitch é um burocrata medíocre que viveu toda a sua existência pautada pelas aparências, pelo status social e pelo fútil cumprimento das normas burguesas. Ao ser acometido por uma doença terminal e misteriosa, ele é forçado a encarar a iminência da morte. Todo o arco do personagem desenrola-se na agonia dessa travessia psicológica: da negação e da revolta inicial até a dolorosa constatação de que toda a sua vida fora uma mentira. Somente no leito de morte, ao sentir compaixão por seu filho e por sua esposa, Ivan Ilitch passa por uma conversão espiritual profunda, experimentando uma iluminação interior no instante supremo em que a vida física se apaga. É um arco vertiginoso, onde a tragédia do corpo viabiliza a salvação da alma.

Nem todos os arcos, porém, culminam na redenção ou na vitória moral. A literatura ocidental é prodigiosa em arcos de degradação ou queda, nos quais o personagem caminha progressivamente rumo à ruína moral, à loucura ou ao desespero. Em Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, assistimos a uma autópsia detalhada da mente humana em crise. Rodión Raskólnikov, tomado por uma teoria ideológica arrogante que divide os homens entre "comuns" e "extraordinários", comete um duplo assassinato para provar a si mesmo que está acima das leis morais convencionais. O arco de Raskólnikov não é uma simples evolução linear, mas uma espiral tortuosa de febre, delírio, isolamento social e tortura psicológica. A queda moral do protagonista é imediata ao ato, mas seu arco longo abrange a dolorosa ruína de seu orgulho intelectual até que a aceitação do castigo e o amor de Sônia permitam os primeiros passos de sua regeneração no epílogo.

Ainda na seara dos arcos trágicos e destrutivos, cumpre mencionar O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. O Doutor Jekyll, movido pelo desejo de separar o lado sombrio da natureza humana de sua vertente virtuosa, cria uma poção que liberta Edward Hyde, a personificação de seus impulsos mais vis. O arco de Jekyll é o do declínio irresistível: a ilusão inicial de controle cede lugar ao vício, à perda gradativa da vontade e, por fim, à aniquilação completa da identidade do médico, consumida pela monstruosidade que ele próprio alimentou.

Há também o arco de sustentação ou arco plano, no qual o protagonista não sofre uma mudança interna substancial, mas serve como um catalisador de transformações para o mundo e para as pessoas ao seu redor. Personagens como Sherlock Holmes, criado por Arthur Conan Doyle, mantêm sua essência psicológica praticamente inalterada ao longo de suas aventuras. O fascínio da narrativa não reside em ver Holmes mudar, mas em testemunhar como sua mente brilhante reorganiza o caos do mundo externo, alterando o destino daqueles que o cercam.

Dito isso, não se pode negligenciar a sofisticação moderna do arco ambíguo ou de desconstrução, tão caro à literatura contemporânea e ao realismo psicológico. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bento Santiago constrói o relato de sua própria vida com o fito de "atacar os dois extremos e ligar as duas pontas da vida". O arco de Bentinho é a metamorfose da inocência lírica da juventude em um ciúme doentio, corrosivo e obsessivo na maturidade. Contudo, a genialidade machadiana reside na dúvida: o leitor testemunha o arco de um homem que se transforma em um monstro de amargura e solidão, mas a narração em primeira pessoa impede a certeza absoluta sobre se a traição de Capitu foi um fato do enredo ou uma criação da mente cada vez mais distorcida do próprio protagonista.

Referências Bibliográficas

CAMPBELL, J. O herói de mil faces. 1ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2024.

Ver na Amazon

FORSTER, E. M. Aspectos do romance. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2005.

Ver na Amazon

VOGLER, C. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. 1ª ed. São Paulo: Seiva, 2024.

Ver na Amazon

WEILAND, K. M. Criando Arcos de Personagem: O Grande Guia do Autor para Unir Estrutura Narrativa, Trama e Desenvolvimento de Personagem (Ajudando Escritores a se Tornarem Autores). Tradução de Caetano Barsoteli. Hackensack: Babelcube Inc., 2023.

Ver na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

O que é Heteróclito na gramática da Língua Portuguesa?

Na Língua Portuguesa, o termo heteróclito designa palavras que fogem ao padrão regular de flexão, ou seja, vocábulos que apresentam uma forma anômala ou irregular em relação às regras morfológicas estabelecidas. A palavra vem do grego heteróklitos, que significa “de outra declinação” ou “fora da regra”. Em gramática, o heteróclito é aquilo que não se enquadra nos paradigmas usuais de conjugação ou declinação, tornando-se uma exceção dentro do sistema linguístico.

Quando falamos de heteróclito, estamos nos referindo, sobretudo, a substantivos e adjetivos que não seguem o modelo esperado de flexão de gênero ou número. Por exemplo, a palavra “cão” apresenta plural “cães”, que não corresponde ao padrão regular de acréscimo do sufixo “-s” ou “-es”. Da mesma forma, “alemão” forma o plural “alemães”, e não “alemãos”. Essas irregularidades são classificadas como heteróclitas porque se afastam da norma mais previsível. Outro caso interessante é o substantivo “mal”, cujo plural é “males”, e não “mals”. A irregularidade, nesse sentido, é o traço que caracteriza o fenômeno.

O heteróclito pode se manifestar também em adjetivos. Um exemplo clássico é “bom”, cujo plural é “bons”, mas o feminino é “boa”, e não “boma”. Essa variação, aparentemente simples, revela como a língua cria soluções próprias para manter a eufonia e a tradição histórica de sua formação. A irregularidade, portanto, não é fruto do acaso, mas resultado de processos fonológicos e etimológicos que moldaram o português ao longo dos séculos.

É importante destacar que o heteróclito não deve ser confundido com o erro linguístico. Trata-se de uma categoria reconhecida pela gramática normativa, que identifica e descreve essas formas como legítimas, ainda que excepcionais. O estudo dos heteróclitos é fundamental para compreender a riqueza e a complexidade da língua, pois eles revelam como o português preserva traços de sua origem latina e, ao mesmo tempo, adapta-se às necessidades comunicativas dos falantes.

Outro aspecto relevante é que os heteróclitos, por serem exceções, exigem memorização e prática constante. Não há como prever suas formas apenas pela aplicação das regras gerais; é necessário conhecê-los individualmente. Por isso, dicionários e gramáticas costumam dedicar atenção especial a essas palavras, indicando suas flexões corretas e alertando para possíveis confusões.

O que é Deuteragonista na Teoria da Literatura?

Etimologicamente, a palavra Deuteragonista deriva do grego antigo, combinando o prefixo deuteros, que significa segundo, com agōnistēs, que designa o combatente, o ator ou aquele que compete nos jogos. Na fundação da tragédia grega, o espetáculo era composto essencialmente por um coro e por um único ator destacado, inovação atribuída ao lendário Téspis. Esse primeiro ator, o protagonista, travava um diálogo lírico com o coro, mas as possibilidades de conflito interpessoal eram severamente limitadas pela ausência de um interlocutor individualizado no palco. Foi o dramaturgo Ésquilo quem promoveu uma verdadeira revolução na história da literatura e das artes cênicas ao introduzir o segundo ator, isto é, o deuteragonista.

A introdução do deuteragonista por Ésquilo não representou apenas uma mudança quantitativa no elenco, mas um salto qualitativo fundamental na arquitetura narrativa. Com a presença de duas vozes individuais em cena, emergiu a possibilidade do diálogo propriamente dito, o dia-logos, a confrontação direta de perspectivas, a dialética das paixões humanas e a criação da tensão dramática. Mais tarde, Sófocles acrescentaria o tritagonista, o terceiro ator, expandindo ainda mais o tecido das relações interpessoais; contudo, a relação binária primária entre o primeiro e o segundo ator permaneceu como o eixo fundamental da tragédia clássica e, posteriormente, do romance e da ficção moderna.

Ao migrar do teatro para as formas narrativas em prosa e verso, como a epopeia, a novela e o romance, o conceito de deuteragonista manteve a sua essência funcional, adaptando-se às exigências da linguagem escrita. Na teoria literária contemporânea, o deuteragonista distingue-se claramente da figura genérica do personagem secundário ou figurante. Enquanto o personagem secundário cumpre funções pontuais de ambientação ou suporte informativo, o deuteragonista possui uma centralidade ativa na intriga. Ele é a segunda figura de maior relevância na hierarquia da obra, mantendo uma ligação umbilical com o protagonista, influenciando diretamente as suas decisões, servindo como catalisador de transformações internas e participando ativamente dos eventos culminantes da narrativa.

As funções narrativas do deuteragonista são múltiplas e profundamente refinadas. A primeira e talvez mais evidente delas é a função de contraste ou espelhamento, frequentemente conceituada na crítica anglo-saxã como foil. Por meio da justaposição de personalidades, temperamentos e visões do mundo, o autor consegue evidenciar os traços distintivos do protagonista sem a necessidade de intervenções explicativas de um narrador onisciente. O deuteragonista atua como uma lente que amplia as virtudes, as falhas, as angústias ou os dilemas morais do personagem principal.

Outra função fulcral é a de confidente ou ressonador. Na ficção, a vida interior dos personagens precisa ser exteriorizada de modo orgânico para que o leitor tenha acesso aos seus pensamentos e motivações. O deuteragonista oferece a escuta e a palavra necessárias para que o protagonista expresse dúvidas, planos e vulnerabilidades sem que a narrativa caia no recurso artificial do monólogo contínuo. Além disso, o deuteragonista atua costumeiramente como o fiel da balança moral ou o imperativo prático que força o protagonista à ação, funcionando como o estopim de viradas decisivas no enredo.

Para ilustrar a riqueza teórica do termo, a história da literatura universal oferece exemplos imperecíveis. Na Ilíada de Homero, a estrutura do poema épico ganha a sua maior voltagem dramática a partir da relação entre Aquiles e Pátroclo. Aquiles, o maior dos guerreiros gregos e protagonista indiscutível do poema, retira-se da batalha tomado pelo orgulho ferido. É a figura de Pátroclo, seu companheiro e deuteragonista, que assume o papel de catalisador da tragédia. Ao vestir a armadura de Aquiles e tombar em combate frente a Heitor, Pátroclo provoca o colapso emocional do herói e o seu inevitável retorno à guerra. Sem Pátroclo, a trajetória de Aquiles careceria do componente afetivo e trágico que confere profundidade humana à obra homérica.

Miguel de Cervantes também presenteou a literatura mundial com uma dupla célebre da ficção: Dom Quixote e Sancho Pança. Sancho Pança é o modelo perfeito do deuteragonista por antítese e complementaridade. Se o fidalgo manchego encarna o idealismo exasperado, a loucura poética e a busca pela cavalaria andante, Sancho representa o pragmatismo popular, o bom senso grounded na realidade terrena e as necessidades materiais imediatas. O diálogo ininterrupto entre o cavaleiro e seu escudeiro ao longo das estradas da Espanha não é apenas um recurso cômico, mas o próprio motor filosófico da narrativa. Sancho Pança não é um mero ajudante; ele é a força que humaniza Quixote e que, no processo, é transformada por ele, demonstrando a reversibilidade e a riqueza da dinâmica deuteragônica.

Ainda no âmbito da ficção do século XIX, a literatura inglesa nos legou a obra Frankenstein, de Mary Shelley, na qual a relação entre o criador Victor Frankenstein e a sua Criatura se desdobra em uma complexa duplicidade. A Criatura atua como um deuteragonista atípico e aterrorizante, espelhando a arrogância prometeica do seu criador e funcionando como o seu duplo sombrio. Cada ação da Criatura reconfigura o destino de Victor, tornando impossível analisar a psicologia do protagonista sem o constante contraponto do seu horrendo produto. Em contrapartida, no plano da estrutura em abismo e do enquadramento narrativo do mesmo romance, o capitão Robert Walton também assume funções deuteragônicas ao escutar e registrar a confissão de Frankenstein, servindo como o elo de sanidade e testemunho para o leitor.

Na esfera da literatura policial e da focalização narrativa, Sir Arthur Conan Doyle produziu uma solução genial com o Doutor John Watson no universo de Sherlock Holmes. Watson não é apenas o deuteragonista que acompanha Holmes nas investigações mais perigosas; ele é a voz narrativa, o cronista e o mediador intelectual da história. Diante da mente genial, porém fria e exalta de Holmes, Watson representa o leitor médio, com sua empatia, sua surpresa e sua perplexidade. O raciocínio dedutivo de Holmes brilha com intensidade justamente porque é filtrado pelo olhar impressionado e zeloso de seu fiel companheiro, demonstrando como o deuteragonista pode assumir a importante tarefa de organizar a própria recepção da obra.

No drama elisabetano de William Shakespeare, encontramos manifestações extraordinárias do deuteragonista tanto no polo da aliança amorosa e leal quanto no polo do antagonismo manipulador. Em Hamlet, Horácio surge como o deuteragonista moral da tragédia. Enquanto o príncipe de Dinamarca se debate no mar de dúvidas, melancolia e desilusão, Horácio permanece como a figura de estoicismo, razão e lealdade inabalável. Ao final, quando a tragédia consome a corte de Elsinore, é a Horácio que Hamlet confia a missão suprema de sobreviver para contar a sua história ao mundo. Já na tragédia Otelo, o vilão Iago opera em um espaço híbrido entre o antagonista implacável e o deuteragonista ativo. É Iago quem conduz a ação dramática, sussurrando o veneno do ciúme no ouvido de Otelo e moldando os acontecimentos com tal maestria que a crítica literária muitas vezes questiona se a centralidade do texto pertence ao mouro de Veneza ou ao seu pérfido manipulador.

Voltando o olhar para a literatura de língua portuguesa, o mestre Machado de Assis oferece em Dom Casmurro um estudo exemplar da força do deuteragonista na construção da ambiguidade ficcional. Capitu é a deuteragonista absoluta do romance. Toda a narrativa retrospectiva do enciumado Bentinho orbita ao redor da figura enigmática dos olhos de ressaca. Capitu não tem voz direta na narrativa, pois a história nos é contada pela perspectiva parcial e obsessiva do narrador-personagem; no entanto, a sua presença magnética, a sua vivacidade e a sua inteligência condicionam cada página do livro. Sem a opacidade fascinante de Capitu, o universo psicológico de Bentinho desmoronaria, evidenciando como um deuteragonista pode dominar a imaginação do leitor mesmo quando privado da autoridade do foco narrativo.

Também na narrativa épica e fantástica do século XX, como em O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien, a figura de Samwise Gamgee em relação a Frodo Baggins exemplifica a elevação do deuteragonista ao ápice da força moral da história. Enquanto Frodo carrega o fardo físico e mental do Um Anel, sucumbindo gradativamente à sua influência corrompida, Sam atua como o suporte emocional, o protetor e a consciência ética da jornada. O próprio autor britânico chegou a registrar em suas correspondências que considerava Sam o verdadeiro herói da saga, demonstrando como a dinâmica entre protagonista e deuteragonista pode sutilmente inverter papéis ao longo de uma longa travessia narrativa.

A partir desses exemplos e de suas fundamentações dramáticas, pode-se perceber que o deuteragonista é o elemento que retira o protagonista do solipsismo, forçando-o a agir, a reagir, a mudar e, em última análise, a revelar a sua essência humana perante o leitor.

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. Poética. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2015.

Ver na Amazon

BRAIT, Beth. A personagem. 1ª ed. São Paulo: Contexto, 2017.

Ver na Amazon

CANDIDO, Antonio, et al. A personagem de ficção. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.

Ver na Amazon

REIS, Carlos Alves. Dicionario De Narratologia. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 2000.

Ver na Amazon

TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.

Ver na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

Breve resenha do livro A Rosa do Povo, Carlos Drummond De Andrade

Ao ler A Rosa do Povo, publicado em 1945 por Carlos Drummond de Andrade, fui imediatamente levado para um dos momentos mais densos e angustiantes do século XX. Escrito entre os anos de 1943 e 1945, este livro se revelou para mim não apenas como a obra mais extensa e madura do poeta mineiro, mas também como um registro poético visceral de uma época marcada pelas feridas abertas da Segunda Guerra Mundial e pelas sombras da ditadura do Estado Novo no Brasil. A sensação que tive ao percorrer seus cinquenta e cinco poemas foi a de presenciar o encontro definitivo entre a sensibilidade de um indivíduo acuado e o clamor ruidoso de uma coletividade que buscava respirar em meio à barbárie.

Embora se trate de um livro de poesias e não de uma narrativa ficcional tradicional, A Rosa do Povo possui uma espinha dorsal temática tão coesa que funciona quase como a trama de um grande drama histórico e humano. O eixo central que atravessa a leitura é a profunda tensão entre a angústia individual do poeta e a necessidade imperiosa de engajamento social. O livro capta o sentimento de ruína e esgotamento de um mundo em conflito, ao mesmo tempo em que investiga a possibilidade de reconstrução da esperança. É como se acompanhássemos uma jornada em que o indivíduo, inicialmente soterrado pela náusea diante da injustiça e da reificação das relações humanas, tenta abrir caminho até o outro, transformando seu canto solitário em uma voz compartilhada com a multidão.

Ao longo desse percurso poético, destaco a presença de figuras emblemáticas que atuam como verdadeiros personagens e símbolos do conflito central da obra. O próprio eu lírico se constrói como um sujeito dividido, preso à sua classe social e às suas limitações, mas desejoso de romper o isolamento, como se vê no clássico poema em que uma flor frágil e feia consegue furar o asfalto cinzento da cidade. Além do poeta-observador, surgem no texto o povo trabalhador, a figura humanitária de Charlie Chaplin, os mortos na Batalha de Stalingrado, o amigo e mestre Mário de Andrade e a própria cidade do Rio de Janeiro, então capital do país e palco de intensas transformações urbanas e sociais. O grande conflito da obra reside justamente no confronto entre o tédio existencial, a impotência diante da violência política e a busca por uma solidariedade revolucionária capaz de vencer a opressão.

O que mais me impressionou durante a leitura foi a evolução estética e o modo de escrita adotado por Drummond nesta fase de sua carreira. Diferente do humor sutil e do tom levemente piadístico que caracterizavam seus primeiros livros modernistas, A Rosa do Povo adota uma dicção solene, grave e profundamente séria. A voz poética se alterna habilmente entre a primeira pessoa do singular, que expõe o drama íntimo e existencial do poeta, e a primeira pessoa do plural, que assume a voz coletiva da humanidade sofredora. A estrutura dos poemas é predominantemente construída em versos livres e brancos, utilizando imagens de inspiração surrealista, elipses e uma refinada reflexão metalinguística. Poemas voltados para o fazer poético revelam que, para o autor, escrever em tempos de destruição exige penetrar no reino das palavras com rigor e paciência, descartando sentimentos superficiais.

Entre os pontos fortes da obra, considero a incrível capacidade de Drummond de associar a precisão formal ao engajamento político sem jamais cair no panfletarismo simplista. O livro consegue ser, ao mesmo tempo, um documento histórico vibrante e uma meditação poética universal sobre a dor, o amor, o tempo e a morte. A riqueza das metáforas e a construção de símbolos inesquecíveis, como a rosa nascida do asfalto que representa a esperança e a poesia resistente, conferem ao texto uma beleza dolorosa e duradoura. A habilidade do autor em transitar do plano cotidiano e banal das ruas da cidade para abstrações filosóficas e políticas de altíssimo nível é simplesmente brilhante.

Por outro lado, identifico algumas possíveis limitações que podem desafiar certos leitores durante a apreciação do livro. A densidade do contexto histórico exige um conhecimento prévio sobre o ambiente político dos anos 1940, tanto no cenário brasileiro quanto no internacional, sob o risco de se perderem referências essenciais contidas nos versos. Além disso, a complexidade hermética de alguns poemas, repleta de metáforas intrincadas e estruturas sintáticas exigentes, pode tornar a leitura árdua para quem espera uma poesia de assimilação rápida ou de apelo puramente emotivo. Essa exigência de paciência e releitura atenta é, contudo, o preço a se pagar por uma obra de tamanha profundeza.

Apesar dessas exigências, a relevância de A Rosa do Povo para o leitor contemporâneo é absoluta e perturbadora. Lendo o livro hoje, percebe-se como suas inquietações continuam assustadoramente atuais: o sentimento de alienação no espaço urbano, a mercantilização da vida, as ameaças do autoritarismo e a busca por um sentido coletivo em épocas de incerteza e crise social. Drummond nos convida a não nos anestesiarmos diante do sofrimento alheio e a questionar o papel da arte e da palavra na transformação da realidade.

Gostou da resenha? Garanta o seu exemplar na Amazon!

Capa do livro Nome do Livro

A rosa do povo

por Carlos Drummond de Andrade

📖 Páginas: 238 🏢 Editora: Record Minha Avaliação: 4.5/5

A poesia de Carlos Drummond de Andrade não precisa de manual crítico para ser apreciada. A obra se basta. Mas em se tratando de A rosa do povo , o contexto histórico em que o livro foi escrito e publicado ajuda a dar ainda mais sentido aos 55 poemas que compõem essa obra-prima, publicada em 1945, quando o poeta completou 43 anos.

Ver ou Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

Revista Organon abre chamada para edição especial sobre os 60 anos de obra marcante de Émile Benveniste

A prestigiada revista Organon, editada no âmbito dos Estudos Linguísticos, anunciou a abertura da chamada de artigos para a sua 83ª edição, dedicada ao tema "Tendências recentes em linguística benvenistiana: os 60 anos da publicação de Problemas de Linguística Geral I". Sob a organização da professora doutora Heloisa Monteiro Rosário, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e da professora doutora Gabriela Barboza, da Universidade Federal do Rio Grande, esta edição comemorativa celebra as seis décadas de lançamento da obra seminal de Émile Benveniste, um dos nomes mais destacados e influentes da linguística do século vinte.

O volume pretende oferecer um panorama abrangente sobre a atualidade e o alcance das contribuições benvenistianas para os debates contemporâneos. A proposta destaca Benveniste como uma figura incontornável tanto no processo de constituição da ciência da linguagem quanto na formação atual dos profissionais da área, ao problematizar a própria significância do linguístico e a responsabilidade social do fazer do linguista. Estudos recentes assinados por pensadores como Agamben, Dufour, Faraco, Flores, Mignolo e Viveiros de Castro demonstram como as proposições do autor transitam com vigor entre a tradição e a renovação do conhecimento, fundamentando pesquisas inovadoras que se desdobram não apenas nos Estudos Linguísticos, mas em diversos campos das Ciências Humanas.

A comissão editorial receberá contribuições que contemplem uma ampla diversidade de abordagens ligadas ao pensamento benvenistiano. Entre os tópicos de interesse estão a relação entre Saussure e Benveniste, o alcance das ideias do linguista nos debates atuais da Linguística Geral e da Antropologia da Linguagem, bem como o uso de suas fontes de pesquisa e manuscritos como aportes teórico-metodológicos. Além disso, a chamada contempla reflexões sobre o papel de Benveniste na formação docente e de pesquisadores na atualidade e o diálogo de sua produção com outras disciplinas humanas.

Os pesquisadores interessados em submeter seus trabalhos originais têm até o dia 8 de setembro de 2026 para realizar o envio através dos canais oficiais do periódico. O processo aceita artigos redigidos em português, francês, inglês e espanhol, promovendo uma discussão ampla e internacionalizada sobre a herança e os novos rumos do pensamento de Émile Benveniste.

Mais informaçõeshttps://seer.ufrgs.br/index.php/organon/announcement/view/2223

Quem é Tétis (Thétis) na Mitologia Grega?

tetis-thetis
Cabeça de Tetis de uma película avermelhada, 510–500 a.C. - Louvre

Na mitologia grega, Tétis é uma das principais divindades marinhas, sendo uma das cinquenta nereidas (considerada a mais bonita dentre elas), filhas de Nereu e da oceânide Dóris. Sua figura é marcada por uma ambiguidade fascinante: ao mesmo tempo em que é uma ninfa do mar, associada à beleza e à fluidez das águas, também desempenha papéis decisivos em narrativas que envolvem os deuses olímpicos e os heróis mortais. A tradição literária costuma descrevê-la como “a deusa dos pés prateados”, epíteto que aparece tanto em Hesíodo quanto em Homero, e que reforça sua ligação com o brilho e a pureza das águas marinhas.

A genealogia de Tétis é reveladora. Como filha de Nereu, o “velho do mar”, e de Dóris, ela pertence a uma linhagem de divindades aquáticas que simbolizam a vastidão e a fertilidade do oceano. Sua avó, a titânide Tétis (com grafia distinta em grego: Τηθύς), é frequentemente confundida com a nereida, mas trata-se de uma entidade diferente, ligada à geração dos rios e mares. Essa confusão é comum em português, mas não ocorre em grego, onde a distinção entre Θέτις (Thetis) e Τηθύς (Tethys) é clara.

A vida de Tétis é marcada por episódios que expressam sua proximidade com os deuses olímpicos. Criada por Hera, a rainha dos deuses, Tétis nutria grande amizade por ela. Em um momento crucial, recolheu Hefesto quando este foi lançado do Olimpo por Zeus, demonstrando compaixão e cuidado. Sua relação com Zeus, contudo, é mais complexa. O soberano dos deuses desejava unir-se a ela, mas Tétis resistiu, temendo ferir Hera. Em algumas versões, foi o próprio Zeus quem a repudiou, pois um oráculo havia anunciado que o filho concebido por Tétis poderia destroná-lo. Esse vaticínio também envolvia Posídon, que igualmente se apaixonara pela nereida. Para evitar que a profecia se cumprisse, Zeus decidiu casá-la com um mortal: Peleu, rei da Fítia, descendente de Éaco e amigo de Héracles.

A união foi celebrada na presença dos deuses e das musas, mas não sem resistência da própria Tétis, que se transformava em diversos elementos para escapar do noivo. Apenas quando Peleu, instruído pelo centauro Quíron, conseguiu segurá-la firmemente, ela retornou à forma natural e aceitou o matrimônio. Da união nasceram sete filhos, entre os quais Aquiles, o mais famoso. A tentativa de Tétis de purificar seus filhos da mortalidade paterna é um aspecto dramático de sua história: expunha-os ao fogo para eliminar o elemento humano, mas esse processo resultava na morte das crianças. Quando tentou fazê-lo com Aquiles, Peleu interveio, salvando-o. Irritada, Tétis abandonou o marido e retornou ao fundo do mar.

A relação de Tétis com Aquiles é central para compreender sua importância na mitologia. Como mãe protetora, ela acompanhou o herói ao longo de sua vida, tentando afastá-lo dos perigos e consolando-o em suas tristezas. Contudo, não pôde evitar o destino que o aguardava: a morte na guerra de Tróia. A inevitabilidade do destino, mesmo diante da intervenção divina, é um tema recorrente na mitologia grega, e Tétis encarna essa tensão entre amor materno e fatalidade. Após a morte de Aquiles, ela assumiu a proteção de Neoptólemo, filho do herói, perpetuando sua função de guardiã.

A figura de Tétis também é significativa no contexto da guerra de Tróia. Foi em seu casamento com Peleu que ocorreu o famoso episódio da maçã dourada, lançada por Éris, a deusa da discórdia, e que desencadeou os eventos que culminariam no conflito. Assim, Tétis, ainda que indiretamente, está ligada ao início da guerra que se tornaria o cenário da Ilíada.

Do ponto de vista simbólico, Tétis representa a força do mar e sua capacidade de transformação. Sua habilidade de metamorfosear-se em diferentes elementos durante a tentativa de escapar de Peleu é uma metáfora da fluidez e da imprevisibilidade das águas. Além disso, sua condição de mãe que busca proteger o filho contra o destino inexorável reflete a dimensão trágica da mitologia grega, em que nem mesmo os deuses podem alterar o curso estabelecido pelo Destino.

Literariamente, Tétis aparece em obras fundamentais como a Ilíada, onde sua relação com Aquiles é explorada em profundidade. Homero a descreve como uma deusa compassiva, que intercede junto a Zeus em favor do filho, pedindo que os aqueus sejam punidos para que Aquiles recupere sua honra. Essa intervenção mostra sua influência no plano divino, ainda que limitada pela vontade dos deuses maiores e pelo destino.

Em Hesíodo, na Teogonia, Tétis é mencionada como parte da genealogia divina, reforçando sua posição entre as nereidas. Sua presença em diferentes tradições literárias demonstra a relevância que adquiriu como personagem mitológica, não apenas como mãe de Aquiles, mas como símbolo da ligação entre o mundo humano e o divino, entre a fragilidade mortal e a potência imortal.

Referências Bibliográficas

APOLODORO. Biblioteca mitológica. 1ª ed. Madrid: Ediciones Akal, 2023.

Comprar na Amazon

HOMERO. Ilíada. [Tradução de Frederico Lourenço]. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

Comprar na Amazon

HOMERO. Odisseia. [Tradução direta do grego de Frederico Lourenço]. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

Comprar na Amazon

VERNANT, J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.

Comprar na Amazon

VIDAL-NAQUET, P. Código Limpo: Habilidades Práticas do Agile Software. Tradução de Jônatas Batista Neto. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!

O que é Verbo na Língua Portuguesa?

O verbo é uma das classes gramaticais mais complexas e fascinantes da Língua Portuguesa, pois desempenha um papel central na estrutura das orações e na expressão das ações, estados, fenômenos e processos que constituem o discurso. O verbo é a palavra que indica o que acontece, o que se faz, o que se sente ou o que se é. Ele é o núcleo do predicado e, portanto, o elemento que confere dinamismo à linguagem, permitindo que o falante situe os acontecimentos no tempo e estabeleça relações entre sujeito e ação.

Do ponto de vista morfológico, o verbo é uma palavra variável, ou seja, sofre flexões que indicam pessoa, número, tempo, modo e voz. Essas flexões são fundamentais para a concordância verbal e para a coerência sintática da frase. Por exemplo, na oração “Eu estudo todos os dias”, o verbo “estudo” está flexionado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, indicando uma ação habitual realizada pelo sujeito “eu”. Essa capacidade de adaptação morfológica faz do verbo um instrumento poderoso de expressão, capaz de situar o enunciado em diferentes contextos temporais e modais.

A conjugação verbal é o conjunto de formas que um verbo pode assumir, e na Língua Portuguesa ela se organiza em três conjugações principais, definidas pelas terminações do infinitivo: a primeira conjugação, terminada em “-ar” (como “amar”), a segunda em “-er” (como “viver”) e a terceira em “-ir” (como “partir”). Cada uma dessas conjugações apresenta padrões próprios de flexão, embora existam também verbos irregulares que não seguem esses modelos e exigem atenção especial do falante e do escritor.

📖 Leia também: O que é Substantivo?

Além das flexões, o verbo também se caracteriza por sua capacidade de indicar diferentes modos de ação. O modo indicativo expressa fatos considerados reais ou certos; o subjuntivo, hipóteses, desejos ou possibilidades; e o imperativo, ordens, pedidos ou conselhos. Essa distinção modal é essencial para compreender a intenção comunicativa do enunciador. Por exemplo, “Ele estuda” (indicativo) difere de “Que ele estude” (subjuntivo) e de “Estuda!” (imperativo), cada forma revelando uma nuance distinta de sentido e de relação entre o falante e o interlocutor.

No campo semântico, os verbos podem ser classificados conforme o tipo de ação que expressam. Há verbos de ação, como “correr” ou “escrever”; verbos de estado, como “ser” e “estar”; e verbos de fenômeno da natureza, como “chover” ou “nevar”. Também se distinguem os verbos transitivos, que exigem complemento para completar seu sentido (“amar alguém”), dos intransitivos, que possuem sentido completo por si mesmos (“dormir”). Essa distinção é fundamental para a análise sintática, pois determina a estrutura do predicado e a presença de objetos diretos ou indiretos.

Outro aspecto relevante é a voz verbal, que indica a relação entre o sujeito e a ação. Na voz ativa, o sujeito pratica a ação (“O aluno escreveu o texto”); na voz passiva, o sujeito recebe a ação (“O texto foi escrito pelo aluno”); e na voz reflexiva, o sujeito pratica e recebe a ação simultaneamente (“O aluno se feriu”). Essas variações permitem ao falante manipular o foco da informação e construir diferentes perspectivas sobre o mesmo fato.

Breve resumo do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha

Ao terminar a leitura de Os Sertões, descobri o motivo dela ser considerada uma das melhores narrativas da literatura brasileira. A obra, publicada em 1902, é fruto da experiência de Euclides da Cunha como correspondente na Guerra de Canudos (1896–1897), e se tornou um marco da literatura brasileira por unir reportagem, ciência e arte em uma narrativa monumental.

O livro não segue uma trama ficcional tradicional, mas organiza-se em três grandes partes que constroem um panorama completo do sertão nordestino e da tragédia de Canudos:

  • A Terra: descrição minuciosa da geografia, clima, fauna e flora do sertão. A seca aparece como a maior calamidade da região, moldando a vida e a resistência de seus habitantes.

  • O Homem: análise do sertanejo, sua psicologia, costumes e crenças. Aqui surge a figura central de Antônio Conselheiro, líder religioso que atraiu milhares de seguidores para Canudos.

  • A Luta: relato detalhado da Guerra de Canudos, com as quatro expedições militares enviadas pelo governo republicano contra o arraial. É nesta parte que a narrativa ganha dramaticidade, mostrando a fome, a miséria e a violência que marcaram o conflito.

Embora não seja um romance, alguns personagens se destacam:

  • Antônio Conselheiro: figura mística e carismática, visto por Euclides como símbolo da resistência sertaneja.
  • Os sertanejos: retratados como coletividade, enfrentando tanto a natureza hostil quanto a repressão brutal do Estado.

  • O Exército Republicano: aparece como força organizada, mas também como agente de destruição, revelando a crueldade da guerra.

O grande conflito é entre o Brasil oficial, representado pelo governo e suas tropas, e o Brasil profundo, encarnado pelos sertanejos de Canudos. Essa oposição revela as tensões sociais e culturais de um país em formação.

A escrita de Euclides da Cunha é densa, erudita e marcada por contrastes. Ele mistura termos científicos com regionalismos populares, criando uma linguagem única. O estilo é angustiado e conflituoso, refletindo o sofrimento que descreve. Há uso frequente de figuras de linguagem, assindetismo e polissíndeto, o que dá ritmo e intensidade ao texto.

A narrativa é em terceira pessoa, predominantemente descritiva e analítica. Não é linear como um romance, mas estruturada em blocos temáticos. Primeiro constrói o cenário, depois apresenta os personagens e, por fim, narra os acontecimentos da guerra. Essa organização reforça o caráter quase científico da obra, mas sem perder o tom épico.

Em minha leitura, Os Sertões se mostrou uma obra incrível, que exige esforço, mas recompensa com uma visão profunda do Brasil. É ao mesmo tempo reportagem, tratado científico e epopeia literária. Sua força está em revelar a tragédia de Canudos como símbolo da luta entre o Brasil oficial e o Brasil real, entre poder e resistência.

Gostou da resenha? Garanta o seu exemplar na Amazon!

Capa do livro Nome do Livro

Os sertões

por Euclides da Cunha

📖 Páginas: 368 🏢 Editora: Principis Minha Avaliação: 5/5

Os sertões é dividido em seções. A primeira parte, ''A terra'', são considerações técnicas e científicas a respeito do solo, do clima e do espaço geográfico do sertão baiano.A segunda parte, ''O homem'', traz características antropológicas a respeito do sertanejo, com todos os seus conflitos sociais, políticos e psicológicos. A última parte, ''A luta'' narra a Guerra de Canudos desde o início. A verossimilhança da obra é marcada pela rica apresentação de características do espaço, tempo, personagens, como Antônio Conselheiro, e contexto histórico pelo narrador-observador.

Ver ou Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!