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O conceito de VEROSSIMILHANÇA na Teoria da Literatura

No sentido etimológico, o termo deriva do latim verisimilis (semelhante à verdade), mas reduzir sua definição a uma mera "cópia do real" seria um equívoco teórico fundamental. Na literatura, ser verossímil não significa ser verdadeiro no sentido documental ou histórico, mas sim possuir uma coerência interna que permita ao leitor suspender sua descrença. Trata-se de uma conformidade não necessariamente com o mundo exterior, mas com as leis que regem a própria narrativa. Quando ingressamos em um universo ficcional, aceitamos tacitamente um conjunto de regras; a verossimilhança é o que garante que essas regras sejam respeitadas ao longo da obra, assegurando que o encadeamento das ações pareça necessário ou provável dentro daquele contexto específico.

A Herança Aristotélica e a Diferença entre História e Poesia

O debate sobre a verossimilhança remonta à Antiguidade Clássica, especificamente à Poética de Aristóteles. O filósofo estabeleceu uma distinção crucial entre a função do historiador e a do poeta: enquanto o primeiro relata o que aconteceu (o particular, o factual), o segundo relata o que poderia acontecer de acordo com as leis da probabilidade e da necessidade (o universal). Para Aristóteles, a verossimilhança (eikos) é superior à verdade histórica porque lida com a lógica das ações humanas. Em sua visão, um "impossível verossímil" é preferível a um "possível inacreditável". Isso significa que, se uma trama é construída de tal forma que as ações dos personagens decorrem logicamente de suas motivações e situações, o leitor aceitará até mesmo elementos fantásticos. A verossimilhança aristotélica não é uma imitação servil da natureza, mas uma construção racional que busca a universalidade através da estrutura da intriga (mýthos). A tragédia, por exemplo, não precisa ser um reflexo fiel da vida cotidiana, mas deve apresentar uma progressão de eventos que o espectador reconheça como logicamente possível dentro dos parâmetros daquela representação.

Verossimilhança Externa versus Verossimilhança Interna

Ao avançarmos na análise teórica, é essencial distinguir entre dois níveis de verossimilhança que operam simultaneamente na recepção da obra. A verossimilhança externa, também chamada de referencial, é aquela que busca uma correspondência com o mundo empírico, com as convenções sociais, morais e físicas da realidade do leitor. É o que faz com que, em um romance realista do século XIX, esperemos que os personagens se comportem de acordo com as leis da gravidade e as normas de etiqueta da época. Por outro lado, a verossimilhança interna, ou estrutural, é a mais vital para a autonomia da arte. Ela refere-se à obediência aos princípios estabelecidos pela própria obra. Em um gênero como a literatura fantástica ou a ficção científica, a verossimilhança externa é frequentemente rompida (dragões voam, naves viajam na velocidade da luz), mas a verossimilhança interna deve ser férrea. Se o autor estabelece que, naquele mundo, a magia consome a energia vital do usuário, ele não pode, sem uma explicação lógica interna, permitir que um personagem use magia infinitamente sem consequências. O rompimento dessa lógica interna é o que gera o estranhamento negativo e a quebra do pacto com o leitor.

O Papel das Convenções de Gênero e a Opinião Comum

A verossimilhança também está intrinsecamente ligada ao que os formalistas russos e teóricos do estruturalismo chamavam de "motivação". Gérard Genette e Tzvetan Todorov exploraram como a verossimilhança é, muitas vezes, apenas a conformidade da obra com as normas de um gênero literário. O que é verossímil em uma epopeia de Homero não o é em um conto de Tchekhov. Além disso, existe uma dimensão ideológica no conceito: a verossimilhança está ligada à doxa, ou seja, à opinião comum e ao senso comum de uma determinada época. Uma obra é considerada verossímil quando não contradiz os preconceitos ou as expectativas do público sobre como o mundo "deveria" funcionar. No período clássico francês, por exemplo, o princípio do bienséance (decoro) ditava que um herói não poderia agir de forma vil, pois isso seria "inverossímil" para a nobreza da personagem, independentemente de heróis reais poderem ser vis. Assim, a verossimilhança revela-se não como uma janela para a realidade, mas como um espelho das convenções culturais e literárias de seu tempo.

A Verossimilhança na Pós-Modernidade e a Quebra do Ilusionismo

Na literatura contemporânea e nas vanguardas do século XX, o conceito de verossimilhança passou por profundas transformações e, em muitos casos, por contestações deliberadas. Autores como Samuel Beckett ou os expoentes do Nouveau Roman buscaram implodir a causalidade linear que sustentava a verossimilhança tradicional. Ao apresentar personagens sem passado, motivações obscuras ou espaços que se transformam de forma ilógica, esses textos denunciam o caráter artificial da "ilusão de realidade". No entanto, mesmo na quebra, a verossimilhança persiste sob novas formas: a obra passa a ser verossímil em relação ao seu próprio projeto de fragmentação. A metaficção, ao expor as engrenagens da escrita, propõe um novo pacto onde a verossimilhança não reside no conteúdo narrado, mas na honestidade da construção textual.

Referências Bibliográficas

Poética

Poética

Aristóteles

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A Poética de Aristóteles - Mímese e Verossimilhança

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