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Por William-Adolphe Bouguereau - https://artsandculture.google.com/asset/orestes-pursued-by-the-furies/SQE-jakW_S49YA, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=81006118

Filho do poderoso rei Agamêmnon de Micenas e da rainha Clitemnestra, bem como irmão mais novo de Ifigênia e Electra, Orestes carrega em seu nome o peso de um dos mitos mais complexos sobre justiça, loucura e a transição de um sistema de vingança privada para a jurisdição cívica estruturada.

A história de Orestes ganha contornos na tragédia que abateu sua família logo após o término da Guerra de Troia. Agamêmnon, comandante supremo dos exércitos gregos, retornou vitorioso à sua terra natal, porém foi assassinado de maneira pérfida por sua própria esposa, Clitemnestra, e pelo amante dela, Egisto. Egisto pertencia a um ramo rival da mesma família, alimentando um ódio ancestral decorrente das disputas pelo trono de Micenas. Com o assassinato do rei, o trono foi usurpado e a vida de Orestes passou a correr perigo iminente. Suspeitando que Egisto também intentaria eliminá-lo para consolidar o poder, os partidários da casa real ou a própria Electra providenciaram o resgate da criança, enviando-o para o exílio na região da Fócida, sob a proteção do rei Estrofio.

Foi na Fócida que Orestes cresceu e forjou uma das amizades mais famosas da literatura clássica, estabelecendo um laço indissolúvel com Pílades, filho de Estrofio. Essa amizade tornou-se o símbolo definitivo da lealdade masculina na Antiguidade, pois Pílades acompanharia Orestes em todos os momentos críticos de sua jornada, inclusive nos instantes de maior desespero e perigo mortal. Anos mais tarde, já na idade adulta, Orestes recebeu o mandato imperativo do deus Apolo por meio de um oráculo. A divindade ordenava que ele retornasse a Micenas para vingar a morte de seu pai, executando os usurpadores. O dilema que se impunha ao jovem era de proporções titânicas: cumprir o dever sagrado de honrar o pai vingando seu sangue implicava cometer o pior dos crimes possíveis na sociedade helênica, o matricídio.

Ao retornar ocultamente a Micenas, Orestes reencontrou sua irmã Electra, que sofria humilhações sob o jugo da mãe e do padrasto. Juntos, os irmãos conspiraram para executar a vingança profetizada. Orestes adentrou o palácio real e consumou o assassinato de Egisto e, inevitavelmente, de sua própria mãe, Clitemnestra. Embora o ato tenha satisfeito as exigências arcaicas da lei de talião e restaurado a honra patriarcal segundo a ótica apolínea, as consequências psicológicas e espirituais foram imediatas e devastadoras. O sangue derramado da própria mãe despertou as Erínias, também conhecidas como Fúrias. Divindades primordiais implacáveis, as Fúrias personificavam o remorso e a vingança implacável dos crimes de sangue intrafamiliar.

Perseguido pelas Fúrias, Orestes iniciou uma penosa errância pelo mundo grego, consumido pela loucura e pela culpa atormentadora. As divindades ctônias não lhe davam trégua, exigindo sua alma e sua sanidade como preço pelo matricídio cometido. Desesperado por absolvição, Orestes buscou refúgio no santuário de Delfos, sob a proteção do próprio Apolo, que o orientara a agir. Reconhecendo seus limites diante das forças ctônias e da antiga lei, Apolo o encaminhou a Atenas, entregando o destino do jovem suplicante à justiça da deusa Atena e dos cidadãos atenienses.

Em Atenas ocorreu o célebre julgamento no Areópago, episódio que simboliza a fundação do tribunal cívico e a superação da justiça privada pela lei institucionalizada. De um lado, as Fúrias exigiam a condenação perpétua de Orestes com base na gravidade inegociável do matricídio. De outro, Apolo defendia o herói, argumentando que a vida de um pai detinha maior valor na hierarquia familiar e que a ordem de um deus olímpico não podia ser desobedecida. O júri composto por cidadãos atenienses dividiu-se exatamente ao meio. Coube a Atena dar o voto de Minerva, decidindo pela absolvição de Orestes com o argumento de que a vida de uma mulher (sua mãe) fora tirada em circunstâncias que exigiam a reparação da honra paterna e que, em caso de empate, a clemência e a fundação da ordem cívica deveriam prevalecer.

As Fúrias, profundamente indignadas com a decisão, ameaçaram praguejar a terra de Atenas com esterilidade e desgraça. Contudo, por meio de intensa persuasão e diplomacia divina, Atena apaziguou as divindades enfurecidas, oferecendo-lhes um culto especial e morada subterrânea na Ática, onde passariam a ser veneradas como as Eumênides, as benévolas protetoras da cidade. Com o veredito favorável e a purificação de seus pecados realizada nos altares sagrados, Orestes finalmente encontrou a paz espiritual, livrando-se do tormento mental que o acompanhara por tanto tempo.

Absolvido pelos deuses e pelos homens, Orestes retornou ao Peloponeso para reassumir o trono de seu pai em Micenas, herdando também o domínio de Esparta e do Epiro após desposar Hermíone, filha de Menelau e Helena. Sua linhagem prosseguiu com o nascimento de seu filho Tisâmeno, embora as lendas secundárias também registrem ramificações complexas com Erígone, filha de Egisto. A longevidade de Orestes encerrou-se de maneira curiosa segundo certas tradições tardias, que relatam sua morte aos noventa anos de idade, vítima de uma picada de serpente enquanto caminhava pela Arcádia.


Referências Bibliográficas

Capa do Livro 1
BULFINCH, Thomas. O livro da Mitologia: A Idade da fábula. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Martin Claret, 2024.
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Capa do Livro 2
BRANDÃO, J. S. Dicionário Mítico-Etimológico: Volume único. 1. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.
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Capa do Livro 3
EURÍPIDES. Electra / Orestes. Tradução de Karen Amaral Sacconi. 1. ed. São Paulo: Martin Claret, 2021.
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Capa do Livro 4
GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. Tradução de Victor Jabouille. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
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Capa do Livro 5
KÉRÉNYI, Karl. Os deuses gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.
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Capa do Livro 6
VERNANT, Jean-Pierre.; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia Antiga. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.
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Nos seus escritos pioneiros sobre a teoria da sexualidade, Sigmund Freud definiu a pulsão a partir de quatro elementos constituintes: a fonte, a pressão, a meta (ou alvo) e o objeto. A fonte refere-se ao processo somático que ocorre em um órgão ou parte do corpo; a pressão representa a quantidade de força ou a exigência de trabalho imposta ao psiquismo; a meta é invariavelmente a satisfação, alcançada através da redução da tensão e da excitação; e o objeto revela-se como aquilo através do qual, ou no qual, a pulsão pode atingir sua meta.

Uma das descobertas mais revolucionárias de Freud está na constatação de que o objeto é o elemento mais variável da pulsão. Diferente do instinto animal, que possui uma ligação pré-fixada e biologicamente determinada com o seu objeto, a pulsão humana é caracterizada pela extrema mobilidade e contingência. O objeto não está originariamente vinculado à pulsão; ele é a ela soldado apenas em virtude de sua aptidão para proporcionar a satisfação. Isso significa que o ser humano não nasce sabendo a quem ou ao que deve amar ou desejar. O objeto psíquico é achado e construído ao longo da história singular do sujeito, podendo ser uma pessoa inteira, uma parte do corpo, uma abstração, um ideal ou até mesmo um sintoma.

Quando nos referimos ao desenvolvimento psíquico infantil, o primeiro encontro com o objeto é marcado pela experiência de reencontro. Em seus ensaios sobre a sexualidade, Freud afirma celebremente que o achado do objeto é, na realidade, um reencontro. Nos primórdios da vida, o bebê vivencia um estado de desamparo original no qual a satisfação de suas necessidades vitais, como a fome, é provida por um agente externo, geralmente a figura materna. Durante a amamentação, a necessidade de alimento funde-se ao prazer erógeno da sucção. Quando a presença concreta da mãe ou do seio se ausenta, a criança busca alucinar a experiência de satisfação prévia. O objeto perdido torna-se, assim, o motor do desejo. Toda busca subsequente por um objeto na vida adulta guarda, no fundo, a nostalgia inconsciente daquele primeiro objeto primordial que prometia a satisfação plena, mas que foi irremediavelmente perdido no processo de constituição do sujeito.

Com a evolução da teoria freudiana e a introdução do conceito de narcisismo, a dinâmica do objeto ganhou novas camadas, isso porque foi nesse momento em que Freud distingue a libido do eu da libido objetal. No narcisismo primário, a energia psíquica encontra-se totalmente investida no próprio eu, que funciona como seu próprio objeto de amor. À medida que a criança se desenvolve, parte dessa energia é emitida para o exterior, investindo em objetos reais ou fantasísticos do mundo externo. Quando ocorrem perdas, decepções ou frustrações nas relações amorosas, a libido pode ser recolhida dos objetos e rebatida sobre o próprio eu, configurando o narcisismo secundário. Essa mobilidade da carga afetiva demonstra que a fronteira entre o sujeito e o objeto é "porosa", dinâmica e constantemente renegociada pela mente.

Após a morte de Freud, em 1939, o conceito de objeto passou a concentrar as maiores controvérsias e avanços teóricos da psicanálise, especialmente através da escola inglesa e das contribuições de Melanie Klein. A autora revolucionou a clínica ao propor a teoria das relações de objeto, deslocando o foco da pulsão biológica para o drama relacional fantasiado no mundo interno da criança. Para a psicanálise kleiniana, o psiquismo infantil é habitado desde o nascimento por objetos internos, os quais não são reproduções fiéis das pessoas reais do mundo exterior, mas construções mentais moldadas pelas projeções das próprias pulsões de vida e de morte do bebê.

Klein dividiu o desenvolvimento inicial em duas posições psíquicas fundamentais: a posição esquizo-paranoide e a posição depressiva. Na posição esquizo-paranoide, a mente incipiente do bebê, incapaz de integrar a complexidade do mundo, cliva o objeto em duas metades polarizadas. O seio materno, por exemplo, é percebido como um objeto bom quando gratifica e alimenta, ou como um objeto mau quando se ausenta e frustra. Esses objetos parciais são vivenciados com extrema intensidade dramática; o objeto bom é idealizado e amado, enquanto o objeto mau é temido e atacado fantasiosamente por impulsos sádicos.

Conforme a maturação psíquica avança, a criança transita para a posição depressiva, na qual começa a perceber que o objeto bom e o objeto mau são, na verdade, a mesma e única pessoa: a mãe total. Essa integração do objeto traz consigo um profundo sentimento de culpa e angústia, pois o sujeito percebe que a mesma figura que ele ama é aquela que ele atacou em suas fantasias destrutivas. Surge, então, a necessidade imperiosa de reparação do objeto danificado. A forma como cada indivíduo elabora essa transição entre objetos parciais e objetos totais delineia as bases de sua estrutura de personalidade e suas formas de se relacionar na vida adulta.

Outra contribuição importante para a compreensão do tema foi dada pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott. Ao investigar a passagem do estado de fusão inicial entre a mãe e o bebê para o reconhecimento da alteridade, o autor introduziu o conceito de objeto transicional. Esse objeto, que frequentemente se materializa em um pedaço de cobertor, um urso de pelúcia ou um som repetido pela criança, ocupa uma área intermediária de experiência entre a realidade interna e o mundo externo. O objeto transicional não é totalmente inventado pelo bebê, nem pertence exclusivamente à realidade objetiva dada pelos pais; ele habita o espaço potencial da ilusão.

O objeto transicional é a primeira posse não-eu da criança. Ele permite que o bebê tolere a ausência da mãe sem colapsar psiquicamente, servindo como uma ponte afetiva durante os momentos de separação e solidão. Winnicott enfatiza que a experiência com o objeto transicional é a raiz de toda a capacidade humana subsequente de criar, desfrutar da arte, viver a religiosidade e participar da cultura. O destino desse objeto não é ser esquecido ou chorado quando perdido, mas sofrer um desinvestimento gradual, espalhando a sua carga afetiva por todo o domínio cultural do indivíduo.

Paralelamente às abordagens britânicas, a psicanálise francesa, liderada pelo retorno a Freud promovido por Jacques Lacan, proporcionou uma leitura inteiramente nova e estruturalista ao problema. Para o psicanalista francês, o objeto não pode ser reduzido a uma entidade empírica ou a uma pessoa real com a qual se estabelece uma relação interpessoal. O autor desmistifica a ideia de que a maturação psíquica conduziria o sujeito a uma relação de objeto harmoniosa, genital ou adaptada.

Lacan formulou o conceito crucial de objeto a, também denominado objeto causa do desejo. Este termo não designa o objeto com o qual a pulsão se satisfaz, mas a falta constitutiva que põe o desejo em movimento. O objeto a é aquilo que se perdeu no momento em que a criança entrou na ordem da linguagem e da cultura. Ao ser capturado pelo significante e pelo código simbólico, o ser humano é irremediavelmente separado de sua vivência direta de gozo. O objeto a é o resto dessa operação de linguagem, uma lacuna que nunca poderá ser preenchida por nenhum objeto concreto do mundo real.

Na teoria lacaniana, os objetos do mundo que o sujeito persegue com paixão na vida cotidiana não passam de substitutos imaginários que recobrem o vazio do objeto causa do desejo. Quando alguém se apaixona por determinada pessoa ou busca obsessivamente um bem material, o que atrai esse sujeito é a promessa fantasiada de que aquele objeto finalmente tapará a sua falta estrutural. No entanto, por ser o desejo insaciável por definição, a posse do objeto revela inevitavelmente sua insuficiência, relançando o indivíduo na busca infinda por novas miragens.

A reflexão sobre o objeto também se estende para a prática da clínica psicanalítica através dos fenômenos da transferência e da contratransferência. Na sala de análise, o psicanalista é colocado pelo paciente no lugar de diversos objetos do seu passado infantil. O analista torna-se, na fantasia do analisando, o objeto de amor, de ódio, de rivalidade ou de socorro que marcou sua história primitiva. É apenas porque o terapeuta aceita encarnar temporariamente esse lugar de objeto, mantendo contudo a sua neutralidade e recusando a satisfação direta da pulsão do paciente, que o trabalho analítico pode revelar as repetições e permitir a ressignificação das neuroses.

the-temple-of-apollo
Por Helen Simonsson - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22625764

O Oráculo de Delfos foi, muito provavelmente, o mais influente centro sagrado de todo o Mediterrâneo. Encravado nas encostas íngremes do monte Parnaso, na região da Fócida, o santuário délfico era, além de um local dedicado à "adivinhação", também o que podemos classificar como centro cósmico da Grécia. Conhecido como o omphalos, termo grego para umbigo, Delfos marcava o ponto exato onde, segundo a tradição mítica, duas águias soltas por Zeus nos confins opostos do universo teriam se encontrado. Essa centralidade geográfica traduzia-se em uma proeminência espiritual sem precedentes, onde pólis e indivíduos buscavam a orientação divina de Apolo para tomar decisões estratégicas, instituir leis, traçar rotas coloniais ou purificar culpas morais e religiosas.

A narrativa de fundação de Delfos diz da própria transição do pensamento mítico grego, marcando a passagem de um culto primordial fundamentado em forças telúricas e místicas para a ordem apolínea, pautada pela luz, pela razão e pela justiça divina. Originalmente, o local abrigava um oráculo dedicado a Gaia, a Terra-Mãe, e era guardado por uma serpente monstruosa chamada Piton. Quando Apolo, ainda jovem, tomou posse do santuário, ele combateu e abateu a serpente com suas flechas sagradas. Para expiar a contaminação ritual pelo derramamento de sangue divino, o deus submeteu-se a um período de purificação no vale de Tempe. Ao retornar legitimado, Apolo estabeleceu seu próprio culto e tomou o título de Apolo Pítio, consagrando o local como o oráculo definitivo da verdade e da ordem. A transformação da criatura em cinzas abaixo do templo perpetuou a presença de uma energia telúrica latente, agora subordinada ao domínio ordenador do deus sol.

No núcleo do templo de Apolo, a mediação humana entre o plano divino e os mortais cabia à Pítia, a sacerdotisa do oráculo. Escolhida entre as mulheres da região de Delfos, a Pítia atuava como o receptáculo vivo do pneuma divino. O processo divinatório demandava rituais rigorosos de purificação tanto da sacerdotisa quanto dos consulentes. No dia marcado para a consulta, geralmente o nono dia de cada mês durante os meses quentes, a Pítia banhava-se nas águas sagradas da fonte Castália, realizava libações e vestia trajes rituais que simulavam a virgindade e a devoção absoluta ao deus. Paralelemente, os sacerdotes verificavam se a vontade divina permitia a consulta através do sacrifício de uma cabra. Caso o animal tremesse adequadamente ao ser aspergiado com água fria, o sinal era interpretado como a aquiescência de Apolo.

No interior do adyton, a câmara mais reservada e inacessível do templo, a Pítia assentava-se sobre um tripé de bronze posicionado sobre uma fenda na rocha. As fontes antigas descrevem que dessa fenda emanavam vapores aromáticos que induziam a sacerdotisa a um estado de transe extático, a chamada entheos, termo grego que significa estar possuída pelo divino. Enquanto inalava esses vapores, mastigava folhas de loureiro, a planta sagrada de Apolo, e bebia da água da fonte Kassotis, a Pítia balbuciava palavras desconexas e oráculos fragmentados. Especulações modernas sugerem a presença de gases hidrocarbonetos como o etileno emergindo de falhas geológicas sob o templo, mas, dentro do horizonte mítico e religioso grego, o transe era a manifestação indubitável da voz de Apolo expressando o destino invencível.

A interpretação desses enunciados extáticos dependia do corpo de sacerdotes e profetas de Delfos, que traduziam o transe da Pítia em hexâmetros dactílicos, o verso solene da poesia épica. A ambiguidade estratégica desses versos tornou-se uma das características mais célebres do oráculo. As respostas oraculares raramente ofereciam diretrizes simplistas, exigindo dos consulentes um profundo esforço de hermenêutica e reflexão ética. O caso de Creso, rei da Lídia, ilustra com precisão essa natureza enigmática: ao perguntar se deveria marchar contra o Império Persa, o oráculo respondeu que, ao cruzar o rio Hális, ele destruiria um grande império. Creso interpretou a profecia como uma garantia de vitória, contudo, o império destruído na batalha subsequente foi o seu próprio. Da mesma forma, o mito de Édipo é estruturado a partir das profecias délficas que, longe de serem evitadas pelas ações humanas, cumpriam-se justamente por causa dos esforços desesperados dos mortais para escapar ao fado.

Para além do caráter divinatório individual, Delfos funcionou como o principal catalisador político e legislativo do mundo grego. Durante o período de colonização arcaica, entre os séculos VIII e VI a.C., nenhum grupo de colonos fundava uma nova cidade sem antes consultar a autoridade moral do oráculo. Os sacerdotes délficos detinham um vasto conhecimento geográfico e geopolítico, acumulado pelo fluxo contínuo de embaixadores e viajantes. Assim, a sanção divina legitimava novas constituições e promovia alianças pacíficas entre cidades rivais. As famosas inscrições gravadas no pronau do templo de Apolo, tais como Gnothi seauton (conhece-te a ti mesmo) e Meden agan (nada em excesso), sintetizavam o ideal de sofrosina, a moderação e o autoconhecimento essenciais para a ordem da pólis.

Com o passar dos séculos, as sucessivas guerras civis gregas, a hegemonia macedônica e a posterior dominação romana enfraqueceram a autonomia do santuário. No entanto, a aura mística de Delfos permaneceu viva até a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, culminando com o encerramento definitivo das atividades oraculares sob o édito do imperador Teodósio I no final do século IV. 


Referências Bibliográficas

Capa do Livro 1
BURKERT, Walter. Greek Religion. Reprint. Cambridge: Harvard University Press, 1987.
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Capa do Livro 2
DETIENNE, Marcel. Mestres da verdade na Grécia arcaica. Tradução de Ivone C. Benedetti. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
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Capa do Livro 3
DODDS, E. R. Os gregos e o irracional. 1. ed. São Paulo: Editora Escuta, 2002.
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Capa do Livro 4
GIEBEL, Marion. O Oráculo de Delfos. 1. ed. São Paulo: Odysseus Editora, 2014.
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Capa do Livro 5
GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. Tradução de Victor Jabouille. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
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Capa do Livro 6
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.
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Por Jastrow - own work, from the Iliade exhibition at the Colosseum, September 2006–February 2007, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1288487

Odisseu, conhecido no mundo latino como Ulisses, ocupa uma posição absolutamente singular na mitologia grega. Enquanto a maioria dos heróis homéricos e arcaicos sobressai-se fundamentalmente pelo vigor físico, pela força bruta ou pela fúria guerreira no campo de batalha, traços corporificados exemplarmente por Aquiles e Ájax, Odisseu distingue-se pelo predomínio da inteligência, da prudência e da capacidade de adaptação às circunstâncias. Ele é o herói da mêtis, termo grego que designa a astúcia prudente, a engenhosidade prática, a destreza verbal e o raciocínio estratégico. A sua figura se sobressaiu à própria literatura da Antiguidade para se converter em um dos arquétipos fundamentais da condição humana, simbolizando a busca persistente do indivíduo pelo retorno ao lar (nostos), a perseverança diante das adversidades e o poder da mente sobre a violência irracional.

A genealogia de Odisseu conecta-o a vertentes míticas de grande complexidade. Filho de Laerte, rei da rochosa ilha de Ítaca, e de Anticleia, o herói carrega no sangue a herança de ancestrais marcantes. Por via materna, ele é neto de Autólico, figura lendária famosa por sua esperteza, capacidade de dissimulação e artimanhas, traços que Autólico teria herdado de seu próprio pai, o deus Hermes, mensageiro divino e protetor dos viajantes, dos comerciantes e dos ladrões. A tradição atribui ao próprio Autólico o ato de ter batizado o neto com o nome de Odisseu, derivado da raiz verbal odyssasthai, que remete à ideia de "aquele que causa ou sofre ressentimento", prenunciando uma vida marcada por hostilidades divinas e sofrimentos contínuos.

Rei de Ítaca, um pequeno e pedregoso reino insular no Mar Jônio, Odisseu era casado com Penélope, mulher de célebre fidelidade e perspicácia, e pai de Telêmaco. Diferentemente de monarcas que governavam territórios opulentos e vastos, o senhor de Ítaca conhecia o trabalho da terra, a marcenaria e a navegação, atributos de um governante profundamente conectado à realidade material de seu povo e de sua terra.

Quando o príncipe troiano Páris raptou Helena, esposa do rei Menelau de Esparta, os soberanos gregos foram convocados por Agamêmnon a honrar o juramento de aliança e marchar contra a cidade de Ílion. Odisseu, ciente do oráculo que previa que seu retorno duraria vinte anos e ocorreria em estado de extrema miséria, tentou esquivar-se do conflito fingindo-se de louco. Ele semeava sal nos campos enquanto arava com um boi e um jumento pareados. Contudo, a astúcia do herói foi desmascarada pelo perspicaz Palamedes, que colocou o pequeno Telêmaco, ainda bebê, no caminho do arado. Ao desviar o instrumento para poupar a vida do filho, Odisseu demonstrou sua sanidade e viu-se obrigado a integrar a expedição grega.

Ao longo dos dez anos do cerco a Troia, narrado em grande parte na Ilíada de Homero, Odisseu firmou-se como o conselheiro mais valioso do exército aqueu. Sua atuação não se limitou à bravura em combate, mas sobressaiu-se na diplomacia, na mediação de conflitos internos, como a contenda entre Agamêmnon e Aquiles, e em missões de espionagem noturna. Foi ele quem descobriu o paradeiro de Aquiles na ilha de Ciro, disfarçado entre as filhas do rei Licomedes, usando a esperteza de expor armas diante das jovens para atrair a índole guerreira do herói.

A contribuição mais decisiva de Odisseu para o desfecho da guerra foi a concepção do famoso Cavalo de Tróia. Diante da impossibilidade de vencer as muralhas trastejadas de Ílion pela força militar direta, o herói idealizou uma estrutura colossal de madeira oca na qual se esconderam os mais bravos guerreiros gregos, enquanto o restante da frota simulação uma retirada desesperada. Convencidos de que o artefato era uma oferenda religiosa deixada pelos aqueus, os troianos introduziram o cavalo na cidade, selando a própria ruína. Odisseu demonstrou, assim, que a inteligência refinada é capaz de superar as defesas mais inexpugnáveis.

Concluída a destruição de Troia, iniciou-se a longa peregrinação de Odisseu rumo ao seu reino natal, empreitada relatada na Odisseia. O retorno, no entanto, desdobrou-se em uma errância de dez anos pontuada por infortúnios, perdas sistemáticas e provações que testaram os limites da resistência e da sanidade do herói.

A frota de Ítaca enfrentou inicialmente confrontos na terra dos Cícones e a tentação do esquecimento na ilha dos Lotófagos, cujos habitantes se alimentavam da flor de lótus, fruta mágica que apagava da memória do viajante o desejo da pátria. O momento divisor de águas na jornada ocorre na ilha dos Ciclopes, onde Odisseu e seus companheiros foram aprisionados na caverna do gigante antropófago Polifemo, filho do deus dos mares, Poseidon.

Demonstrando notável presença de espírito, Odisseu embriagou o monstro com vinho puro e identificou-se estrategicamente pelo nome de "Ninguém" (Outis). Quando o herói e seus homens cegaram o único olho de Polifemo com um estaca em brasa, o gigante gritou por socorro aos seus irmãos, afirmando que "Ninguém" o estava matando, o que fez com que os demais ciclopes ignorassem seus apelos. A fuga da caverna deu-se sob a barriga das ovelhas de Polifemo. Entretanto, ao alcançar a segurança de seu navio, tomado pelo orgulho (hybris), Odisseu gritou seu verdadeiro nome para o monstro. Furioso, Polifemo suplicou a seu pai, Poseidon, que amaldiçoasse a viagem do rei de Ítaca, garantindo que ele perdesse todos os seus companheiros e só retornasse ao lar após infindáveis sofrimentos.

A partir desse instante, a fúria do deus dos mares tornou-se a grande força opositora à jornada do herói. Nem mesmo a dádiva de Éolo, o senhor dos ventos, que presenteou Odisseu com um odre contendo os ventos desfavoráveis amarrados, pôde salvá-los: a curiosidade da tripulação fez com que o odre fosse aberto às vésperas de avistarem Ítaca, desencadeando uma tempestade catastrófica que os impeliu de volta ao alto-mar.

A trajetória subsequente foi marcada por perdas devastadoras. Na terra dos Lestrigões, gigantes canibais, quase toda a frota aqueia foi destruída, restando apenas o navio do próprio Odisseu. Ao aportarem na ilha da feiticeira Circe, seus marinheiros foram transformados em suínos. Amparado pelo deus Hermes, que lhe forneceu a planta mágica moly para neutralizar os feitiços da deusa, Odisseu logrou resgatar sua tripulação e permaneceu um ano na companhia da feiticeira. Por instrução de Circe, o herói realizou a Nekyia, a descente ritual ao mundo dos mortos (o Hades), onde consultou o espectro do adivinho Tirésias e reencontrou a alma de sua mãe, Anticleia, além de antigos companheiros da Guerra de Troia, recebendo revelações cruciais sobre o seu destino.

Ao prosseguir viagem, Odisseu resistiu ao canto mortal das Sereias, fazendo-se amarrar ao mastro de sua embarcação enquanto a tripulação navegava com os ouvidos vedados por cera, e atravessou o estreito temível guardado pelos monstros Cila e Caribde. Posteriormente, na ilha de Trinácia, os marinheiros famintos desobedeceram aos avisos sagrados e abateram os bois do deus sol, Hélio. Como punição divina, Zeus fulminou o último navio com um raio, resultando na morte de todos os companheiros de Odisseu.

Náufrago e solitário, o herói alcançou a ilha de Ogígia, habitada pela bela ninfa Calipso. Retido ali por sete anos, Odisseu recusou a oferta da imortalidade e da juventude eterna feita por Calipso, preferindo a sua mortalidade ao lado de Penélope e a reconquista de sua terra natal. Com a intervenção de Atena, sua divina padroeira, Zeus ordenou a libertação do herói. Após resistir a mais uma tempestade provocada por Poseidon, Odisseu naufragou na ilha de Esquéria, lar dos Feácios, onde foi acolhido pelo rei Alcínoo e pela princesa Nausícaa. Impressionados com a narrativa de suas desventuras, os Feácios garantiram-lhe transporte seguro até Ítaca.

Ao desembarcar finalmente em sua terra natal, vinte anos após sua partida, Odisseu encontrou o reino mergulhado no caos. Dezenas de nobres pretendentes ocupavam seu palácio, devorando seus bens e pressionando a rainha Penélope a se casar com um deles. Com o auxílio da deusa Atena, que o disfarçou sob a aparência de um velho mendigo, o herói adentrou o palácio sem ser reconhecido, revelando sua identidade apenas ao filho Telêmaco, ao fiel porqueiro Eumeu e à sua antiga ama Euricleia, que o identificou por uma cicatriz na perna.

Penélope, demonstrando uma inteligência equivalente à do marido, instituiu o desafio do arco para definir seu destino: o homem que conseguisse vergar o pesado arco de Odisseu e disparar uma flecha através das argolas de doze machados alinhados ganharia sua mão. Nenhum dos pretendentes obteve êxito na tentativa. Odisseu, ainda sob o disfarce de mendigo, tomou o arco com facilidade, realizou o feito e, com o apoio de Telêmaco e de servos leais, promoveu o massacre dos pretensos usurpadores, reestabelecendo sua autoridade soberana sobre Ítaca.

A prova final de reconhecimento entre Odisseu e Penélope deu-se por meio do segredo do leito conjugal, esculpido pelo próprio herói no tronco de uma oliveira enraizada no solo do palácio, detalhe que apenas os dois conheciam. Com a pacificação promovida pela intervenção de Atena, a harmonia foi definitivamente reestabelecida na ilha.


Referências Bibliográficas

Capa do Livro 1
BRANDÃO, J. S. Dicionário Mítico-Etimológico: Volume único. 1. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.
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Capa do Livro 2
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: Histórias de deuses e heróis. Tradução de David Jardim. 2. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
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Capa do Livro 3
GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. Tradução de Victor Jabouille. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
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Capa do Livro 4
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
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Capa do Livro 5
STEPHANIDES, Menelaos. A Odisseia. 4. ed. São Paulo: Editora Odysseus, 2011.
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