Quem é Helena (Ἑλένη) na Mitologia Grega?

Reconhecida na antiguidade clássica como o paroxismo da beleza feminina, Helena é uma personagem dramática, mas também um complexo arquétipo mitológico cuja existência articula as noções de erotismo, soberania, tragédia e fatalidade. A sua narrativa cruza a genealogia dos deuses olímpicos com a dinâmica social e política da Idade do Bronze grega, servindo como uma das, quiçá a principal motivação para o conflito que conhecemos como a Guerra de Troia.

A origem de Helena é perpassada de contornos extraordinários que assinalam a sua natureza semidivina. Filha de Zeus, o rei dos deuses, e de Leda, rainha de Esparta, a concepção de Helena ocorreu sob uma metamorfose insólita: Zeus aproximou-se de Leda metamorfoseado em um cisne. Dessa união mítico-erótica decorre a tradição de que Leda gerou ovos dos quais nasceram Helena e o seu irmão Polideuces (imortais, frutos do poder de Zeus), conjuntamente a Castor e Clitemnestra (mortais, filhos do rei Tíndaro). Há também vertentes arcaicas que atribuem a maternidade de Helena à deusa Némesis, a personificação da vingança divina e da redistribuição do destino, o que sublinha, desde o seu nascimento, o papel de Helena como um instrumento predestinado para o reequilíbrio demográfico e a punição da húbris humana na Terra.

A beleza de Helena revelou-se uma força desestabilizadora ainda em sua juventude. Sendo ainda uma jovem em Esparta, a sua fama atrativa levou ao seu rapto por Teseu, o lendário rei de Atenas, que a ocultou na fortaleza de Afidna com o auxílio de seu companheiro Pirítoo. Contudo, enquanto Teseu se encontrava no Submundo em uma tentativa audaciosa de raptar Perséfone, os irmãos de Helena, os Dioscuros (Castor e Polideuces), marcharam contra a Ática, resgataram a irmã e trouxeram de volta a Esparta a herdeira da casa real.

Conforme Helena atingia a idade matrimonial, a sua estirpe e atratividade sem paralelos atraíram à corte de Tíndaro os mais poderosos príncipes, reis e heróis de toda a Grécia. Diante da iminência de um conflito civil provocado pela rivalidade entre os pretendentes rejeitados, o astuto Odisseu, rei de Ítaca, propôs uma solução diplomática que moldaria para sempre a geopolítica do mundo mítico: o Juramento de Tíndaro. Todos os pretendentes foram obrigados a jurar sobre o sacrifício de um cavalo que respeitariam a escolha do noivo e que defenderiam o casamento escolhido contra qualquer homem que tentasse tomar Helena por força ou astúcia. Com o pacto selado, Menelau, príncipe de Micenas e irmão de Agamêmnon, foi escolhido como esposo de Helena, tornando-se rei consorte de Esparta.

A frágil estabilidade alcançada no Peloponeso foi rompida por eventos de ordem cosmogônica. Durante o matrimônio de Peleu e Tétis, a deusa Éris (a Discórdia), enfurecida por não ter sido convidada, lançou entre as divindades o Pomo da Discórdia, uma maçã de ouro com a inscrição "Para a mais bela". A disputa resultante entre Hera, Atena e Afrodite exigiu a intervenção de Zeus, que designou o príncipe troiano Páris (também chamado Alexandre) como juiz da contenda. Cada uma das deusas ofereceu a Páris uma recompensa suprema: Hera prometeu o domínio político sobre a Ásia; Atena ofereceu a sabedoria invencível nas batalhas; e Afrodite prometeu a mão da mulher mais bela do mundo. Páris concedeu o prêmio a Afrodite, selando o destino da casa real de Tróia.

Enviado em missão diplomática a Esparta, Páris foi acolhido por Menelau sob os sagrados preceitos da xenia (o código de hospitalidade grego). Contudo, estimulado pela promessa e pelo poder irresistível de Afrodite, o príncipe troiano seduziu e partiu com Helena para a Ásia Menor, levando consigo não apenas a rainha, mas também parte dos tesouros reais de Esparta. As fontes clássicas oscilam de modo ambivalente sobre a voluntariedade de Helena nesse ato: enquanto certas tradições acusam-na de adultério e traição, outras a retratam como vítima de rapto involuntário ou de uma compulsão divina inquestionável infligida pela deusa do amor.

A fuga ou rapto de Helena acionou imediatamente o Juramento de Tíndaro. Menelau apelou ao seu irmão Agamêmnon, rei dos reis em Micenas, que convocou a coligação de soberanos aqueus, entre os quais Aquiles, Odisseu, Ájax e Diomedes, para montar uma frota lendária de mais de mil navios rumo a Tróia. Helena transformou-se, assim, na causa formal da Guerra de Troia, uma conflagração devastadora de dez anos que culminaria na destruição sistemática da cidadela de Ílion.

Na Ilíada de Homero, a figura de Helena é tratada com notável densidade psicológica e elegância poética. Longe de ser uma vilã unidimensional, Helena surge na epopeia como uma mulher consciente do peso de sua presença e dilacerada pelo remorso e pela autocrítica. No famoso episódio da Teoscopia, no Canto III da Ilíada, Helena surge no alto das muralhas troianas ao lado do rei Príamo, apontando e descrevendo os líderes gregos para os anciãos de Troia. Príamo a inocenta explicitamente do conflito, atribuindo a responsabilidade do desastre aos deuses. Contudo, na intimidade de seus aposentos, Helena expressa profundo desgosto por suas escolhas e pela covardia de Páris, sentindo saudades de sua terra natal, de seu antigo esposo e de sua filha Hermíone.

A ambiguidade de Helena desdobrou-se em reinterpretações dramáticas e filosóficas ao longo da Antiguidade. Na tragédia As Troianas, de Eurípides, Helena defende sua vida perante Menelau argumentando que foi um mero joguete no plano das divindades e no julgamento de Páris. Já na sua peça Helena, Eurípides adota uma variante do mito difundida anteriormente pelo poeta Estesícoro: a verdadeira Helena jamais esteve em Troia; em seu lugar, Hera moldou um fantasma (eidolon) feito de nuvens, enquanto a verdadeira rainha espartana permanecia casta e protegida no Egito durante todos os dez anos de guerra.

Após a queda de Troia e a morte de Páris e de seu irmão Deífobo, Menelau reencontrou Helena nas cinzas da cidade. Embora intencionasse executá-la por sua deslealdade, o rei grego caiu novamente sob o encanto de sua beleza ao revê-la e perdoou-a. De acordo com a Odisséia, Helena retornou a Esparta ao lado de Menelau, onde reassumiu o seu papel como rainha digna e serena, recebendo Telêmaco em sua corte e utilizando poções medicinais para abrandar a dor das memórias da guerra.

Referências Bibliográficas

EURÍPIDES. As Troianas. Tradução de Trajano Vieira. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2021.

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GEORGE, Margaret. Helena de Tróia. 1. ed. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2009.

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GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

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GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

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HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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HUGHES, Bettany. Helena de Troia: Deusa, princesa e prostituta. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

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KÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.

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