O conceito de Protagonista na Teoria da Literatura

A figura do personagem constitui um dos pilares mais complexos e fascinantes de toda a teoria literária. Quando nos debruçamos sobre a estrutura de uma narrativa, percebemos que o texto ficcional não se sustenta apenas pela sucessão cronológica de acontecimentos, mas sim pela força motriz daquelas entidades que vivenciam, provocam e sofrem os impactos da ação dramática. No topo dessa hierarquia de actantes e agentes da ficção, encontra-se o protagonista. A compreensão profunda desse conceito exige que ultrapassemos a definição puramente dicionarizada que o reduz ao "personagem principal", adentrando os domínios da evolução estética, da psicologia da recepção e das intrincadas engrenagens da arquitetura textual.

Para traçarmos a gênese conceitual do protagonista, é incontornável o retorno à Antiguidade Clássica, especificamente à Poética de Aristóteles. No contexto do teatro grego, a palavra carrega em sua etimologia os termos protos, que significa primeiro, e agonistés, que se traduz como ator ou lutador. Assim, originalmente, o protagonista era o primeiro competidor, o ator principal que liderava o drama em cena, distinguindo-se do deuteragonista (o segundo ator) e do tritagonista (o terceiro ator). Na ótica clássica, a relevância dessa figura estava intrinsecamente ligada à mímesis, ou seja, à imitação da vida e das ações humanas. O protagonista da tragédia antiga deveria ser um indivíduo de elevada estirpe, cujas virtudes e, sobretudo, cujos erros de julgamento, a chamada hamartia, desencadeavam uma reviravolta irreversível em seu destino, conduzindo o público à experiência da catarse, a purificação emocional por meio do terror e da piedade.

Com o advento da modernidade e o surgimento do romance como gênero literário dominante a partir do século XVIII, a concepção de protagonista sofreu uma transformação radical. A literatura abandonou a exclusividade dos deuses, reis e heróis mitológicos para dar voz ao homem comum, imerso em dilemas cotidianos, burgueses e psicológicos. Nesse novo cenário, o conceito expandiu-se para além da mera centralidade cênica, tornando-se o eixo de convergência de todos os vetores da diegese, o universo ficcional no qual a história se processa. O protagonista moderno passa a ser definido pela natureza de seu desejo e pela intensidade do conflito que ele enfrenta ao longo da jornada ficcional.

Na estrutura clássica da narrativa, o protagonista é aquele que possui um objetivo claro, cuja busca desestabiliza o estado inicial de equilíbrio da trama. Essa busca estabelece o que chamamos de intriga, um encadeamento causal de eventos que testa os limites e a coerência interna do personagem. É fundamental compreender que a relevância do protagonista não se mede simplesmente pelo número de páginas em que ele aparece, mas sim pelo seu impacto causal no desenvolvimento do enredo. Ele é a força volitiva que empurra a narrativa para a frente. Quando esse personagem toma uma decisão, o mundo ficcional ao seu redor reage; quando ele falha, as consequências reverberam por todo o tecido da obra.

Contrapondo-se ao protagonista, surge a figura do antagonista. Na teoria da narrativa, o antagonista não deve ser interpretado de forma maniqueísta como o vilão malévolo da história, mas sim como a força de oposição que cria o obstáculo necessário para que o protagonista revele sua verdadeira essência. O conflito entre o protagonista e o antagonista constitui a medula espinhal da tensão dramática. Esse antagonista pode ser corporificado em outro personagem, mas também pode manifestar-se de formas mais abstratas, como as pressões da sociedade, as forças da natureza ou as próprias contradições psicológicas internas do protagonista, configurando o que a crítica chama de conflito interno.

A densidade de um protagonista está intimamente relacionada à sua construção psicológica e tipológica. O teórico inglês E. M. Forster introduziu uma distinção clássica que ainda hoje norteia os estudos literários: a divisão entre personagens planos e personagens redondos. O protagonista ideal, sobretudo na tradição do realismo e do modernismo, tende a ser um personagem redondo, ou seja, uma construção tridimensional, dotada de complexidade, contradições internas e capacidade de surpreender o leitor de maneira convincente. Ao contrário dos tipos sociais ou das caricaturas, que permanecem estáticos, o protagonista redondo é dinâmico. Ele se transforma sob a pressão dos acontecimentos, de modo que o indivíduo que encerra a narrativa raramente é o mesmo que a iniciou.

Essa transformação é o núcleo, por exemplo, do romance de formação, ou Bildungsroman, um subgênero em que acompanhamos o amadurecimento físico, moral e psicológico do protagonista desde a juventude até a maturidade. Nesse percurso, a identidade do protagonista é moldada pelo confronto entre suas aspirações idealistas e as duras realidades do mundo social. Exemplos magnos dessa dinâmica podem ser encontrados na literatura ocidental, onde a jornada do herói se converte em uma investigação sobre a própria condição humana e suas desilusões inevitáveis.

Outro aspecto crucial na análise do protagonista é a sua relação com o foco narrativo e a instância narrativa. Embora seja comum que o protagonista coincida com o narrador personagem, aquele que narra a história em primeira pessoa a partir de sua própria perspectiva, essa não é uma regra absoluta. Há complexos arranjos literários em que o protagonista é observado de fora por um narrador testemunha, o qual, apesar de ocupar uma posição secundária na ação, assume o papel de relatar a trajetória do verdadeiro centro de gravidade da obra. Da mesma forma, um narrador onisciente em terceira pessoa pode penetrar na mente do protagonista, expondo seus pensamentos mais íntimos por meio do fluxo de consciência ou do discurso indireto livre, técnicas que estreitam os laços de empatia e engajamento entre o leitor e o universo interior do personagem principal.

A evolução da literatura no século XX trouxe consigo uma profunda crise de valores que se refletiu diretamente na desconstrução da figura heróica, dando origem ao conceito de anti-herói. O anti-herói é um protagonista destituído das virtudes tradicionais que outrora caracterizavam os paladinos da epopeia ou os cavaleiros medievais. Ele pode ser covarde, mesquinho, alienado, indeciso ou moralmente ambíguo; contudo, ele permanece sendo o protagonista porque a narrativa continua a gravitar em torno de sua existência e de suas desventuras. A literatura contemporânea e modernista povoou-se desses protagonistas problemáticos, que refletem a fragmentação do sujeito moderno e a perda de referenciais absolutos em um mundo crescentemente burocratizado e absurdo.

Em contrapartida, existem narrativas que desafiam a própria centralidade individualizada do protagonista, propondo a existência de um protagonista coletivo. Nesses textos, o foco analítico e dramático desloca-se de um único indivíduo para um grupo humano unificado por uma condição social, uma causa política ou uma tragédia comum. Uma comunidade operária, os habitantes de um cortiço ou os soldados em uma trincheira de guerra podem atuar, em bloco, como a entidade principal que move a engrenagem do enredo. Ainda que indivíduos específicos ganhem relevo temporário nessas obras, as suas trajetórias particulares estão indissociavelmente subordinadas ao destino do coletivo, que funciona como o verdadeiro organismo vivo da narrativa.

A avaliação do papel do protagonista também não pode prescindir do conceito de verossimilhança. Para que o leitor aceite a centralidade e as ações de um protagonista, este deve responder às leis internas de coerência que o próprio texto estabelece, sejam elas pautadas pelo realismo mais estrito ou pelas regras do maravilhoso e do fantástico. A verossimilhança psicológica assegura que as motivações do protagonista, por mais bizarras ou extremas que pareçam, encontrem eco em uma lógica comportamental que sustente a ilusão ficcional. Quando um protagonista age sem qualquer nexo de causalidade ou motivação inteligível dentro do universo proposto, a obra corre o risco de romper o pacto de leitura, desandando em arbitrariedade estética.

Além disso, a análise estrutural da literatura, desenvolvida pelos formalistas russos e refinada pelo estruturalismo francês, propôs uma abordagem funcional do personagem. Vladimir Propp, ao estudar os contos maravilhosos, e posteriormente Algirdas Julien Greimas, formularam o modelo actancial, no qual o personagem é despido de suas características psicológicas e analisado estritamente pela sua função sintática na intriga. Nesse modelo, o protagonista assume o papel de Sujeito, aquele que deseja alcançar um Objeto de valor. A dinâmica narrativa se explica pela relação do Sujeito com os Doadores, Adjuvantes, Opositores e Destinatários. Essa perspectiva científica e formal demonstra que, independentemente da roupagem psicológica que receba, o protagonista desempenha uma função estrutural indispensável: ele é a constante necessária para que o sistema da narrativa opere e produza significação.

Referência Bibliográficas

ARISTÓTELES. Poética. 1ª Ed. São Paulo: Editora 34, 2015.
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AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. Edição. São Paulo: Perspectiva, 2021.
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BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 6ª Ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
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LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. 2ª Ed. São Paulo: Editora 34, 2009.
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SILVA, Frederico de Lima. O conceito de Protagonista na Teoria da Literatura. Blog Frederico Lima, julho 07, 2026. Disponível em: <https://www.fredericolima.com.br/2026/08/protagonista-teoria-literatura.html>. Acesso em: .