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O que é Silepse na Língua Portuguesa?

Muitas vezes, quando estudamos as regras rígidas de concordância nominal e verbal, somos levados a acreditar que a língua opera apenas sob um sistema estrito de correspondências formais. Aprendemos que o adjetivo deve se alinhar perfeitamente ao gênero e ao número do substantivo ao qual se refere, assim como o verbo deve espelhar com exatidão a pessoa e o número do sujeito. No entanto, a língua é um organismo vivo, moldado pela sensibilidade, pela psicologia humana e pela intenção comunicativa de quem fala ou escreve. É precisamente nesse território de criatividade e expressividade que surge a silepse.

Conhecida como uma figura de construção ou figura de sintaxe, a silepse é definida como a concordância que se faz não com os termos explicitamente expressos na oração, mas sim com a ideia, o sentido ou o conceito que está subentendido no contexto. Em termos mais simples, trata-se de uma concordância ideológica e não puramente gramatical. A palavra possui origem grega e remete ao conceito de reunião ou compreensão conjunta, refletindo a capacidade mental do receptor de associar o termo explícito ao pensamento implícito que o emissor deseja transmitir.

Na gramática, a silepse manifesta-se em três frentes distintas: no gênero, no número e na pessoa gramatical.

A silepse de gênero manifesta-se quando ocorre uma aparente discordância entre o masculino e o feminino. Isso ocorre com frequência quando nos referimos a nomes de cidades que, embora gramaticalmente masculinos ou neutros, atraem o adjetivo para o feminino em virtude da palavra subentendida "cidade". Ao afirmarmos, por exemplo, que a histórica Ouro Preto continua encantadora, percebemos que o adjetivo feminino não concorda diretamente com o substantivo próprio masculino, mas sim com a ideia implícita de que Ouro Preto é uma cidade. Outro exemplo clássico envolve os pronomes de tratamento. Quando nos dirigimos a uma autoridade masculina dizendo que Vossa Excelência parece muito preocupado com os rumos da votação, operamos uma silepse de gênero. Embora o pronome possua forma feminina, o adjetivo concorda com o sexo real do interlocutor.

Por sua vez, a silepse de número acontece quando há um descompasso planejado entre as formas do singular e do plural. Esse tipo é extremamente comum no uso de substantivos coletivos ou de termos que denotam um agrupamento de indivíduos. Se enunciarmos que a multidão se reuniu diante do palácio e gritavam por reformas urgentes, identificamos a silepse de número. O substantivo coletivo está no singular, mas o verbo posterior assume a terceira pessoa do plural porque concorda com a pluralidade de pessoas que compõem aquela multidão. O mesmo raciocínio se aplica à famosa construção cotidiana em que se afirma que aquela turma de amigos eram inseparáveis, onde o verbo concorda com a multiplicidade de membros e não com a unidade formal do substantivo.

Finalmente, a silepse de pessoa é aquela que envolve as pessoas do discurso, geralmente ocorrendo quando o próprio falante se inclui em um sujeito que está expresso na terceira pessoa do plural. Trata-se de um recurso de forte apelo estilístico e de engajamento social. Quando dizemos que os professores precisamos lutar por uma educação pública de qualidade, percebemos que o sujeito se encontra formalmente na terceira pessoa do plural. No entanto, o verbo é conjugado na primeira pessoa do plural. Ao flexionar o verbo dessa maneira, o emissor revela que ele próprio também é professor, incluindo-se ativamente no grupo mencionado. Um dos exemplos literários mais célebres desse fenômeno pertence a Machado de Assis, que escreveu que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos, mesclando a terceira pessoa do sujeito com a primeira do verbo para assumir sua própria identidade carioca.