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O que é Deuteragonista na Teoria da Literatura?

Etimologicamente, a palavra Deuteragonista deriva do grego antigo, combinando o prefixo deuteros, que significa segundo, com agōnistēs, que designa o combatente, o ator ou aquele que compete nos jogos. Na fundação da tragédia grega, o espetáculo era composto essencialmente por um coro e por um único ator destacado, inovação atribuída ao lendário Téspis. Esse primeiro ator, o protagonista, travava um diálogo lírico com o coro, mas as possibilidades de conflito interpessoal eram severamente limitadas pela ausência de um interlocutor individualizado no palco. Foi o dramaturgo Ésquilo quem promoveu uma verdadeira revolução na história da literatura e das artes cênicas ao introduzir o segundo ator, isto é, o deuteragonista.

A introdução do deuteragonista por Ésquilo não representou apenas uma mudança quantitativa no elenco, mas um salto qualitativo fundamental na arquitetura narrativa. Com a presença de duas vozes individuais em cena, emergiu a possibilidade do diálogo propriamente dito, o dia-logos, a confrontação direta de perspectivas, a dialética das paixões humanas e a criação da tensão dramática. Mais tarde, Sófocles acrescentaria o tritagonista, o terceiro ator, expandindo ainda mais o tecido das relações interpessoais; contudo, a relação binária primária entre o primeiro e o segundo ator permaneceu como o eixo fundamental da tragédia clássica e, posteriormente, do romance e da ficção moderna.

Ao migrar do teatro para as formas narrativas em prosa e verso, como a epopeia, a novela e o romance, o conceito de deuteragonista manteve a sua essência funcional, adaptando-se às exigências da linguagem escrita. Na teoria literária contemporânea, o deuteragonista distingue-se claramente da figura genérica do personagem secundário ou figurante. Enquanto o personagem secundário cumpre funções pontuais de ambientação ou suporte informativo, o deuteragonista possui uma centralidade ativa na intriga. Ele é a segunda figura de maior relevância na hierarquia da obra, mantendo uma ligação umbilical com o protagonista, influenciando diretamente as suas decisões, servindo como catalisador de transformações internas e participando ativamente dos eventos culminantes da narrativa.

As funções narrativas do deuteragonista são múltiplas e profundamente refinadas. A primeira e talvez mais evidente delas é a função de contraste ou espelhamento, frequentemente conceituada na crítica anglo-saxã como foil. Por meio da justaposição de personalidades, temperamentos e visões do mundo, o autor consegue evidenciar os traços distintivos do protagonista sem a necessidade de intervenções explicativas de um narrador onisciente. O deuteragonista atua como uma lente que amplia as virtudes, as falhas, as angústias ou os dilemas morais do personagem principal.

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Outra função fulcral é a de confidente ou ressonador. Na ficção, a vida interior dos personagens precisa ser exteriorizada de modo orgânico para que o leitor tenha acesso aos seus pensamentos e motivações. O deuteragonista oferece a escuta e a palavra necessárias para que o protagonista expresse dúvidas, planos e vulnerabilidades sem que a narrativa caia no recurso artificial do monólogo contínuo. Além disso, o deuteragonista atua costumeiramente como o fiel da balança moral ou o imperativo prático que força o protagonista à ação, funcionando como o estopim de viradas decisivas no enredo.

Para ilustrar a riqueza teórica do termo, a história da literatura universal oferece exemplos imperecíveis. Na Ilíada de Homero, a estrutura do poema épico ganha a sua maior voltagem dramática a partir da relação entre Aquiles e Pátroclo. Aquiles, o maior dos guerreiros gregos e protagonista indiscutível do poema, retira-se da batalha tomado pelo orgulho ferido. É a figura de Pátroclo, seu companheiro e deuteragonista, que assume o papel de catalisador da tragédia. Ao vestir a armadura de Aquiles e tombar em combate frente a Heitor, Pátroclo provoca o colapso emocional do herói e o seu inevitável retorno à guerra. Sem Pátroclo, a trajetória de Aquiles careceria do componente afetivo e trágico que confere profundidade humana à obra homérica.

Miguel de Cervantes também presenteou a literatura mundial com uma dupla célebre da ficção: Dom Quixote e Sancho Pança. Sancho Pança é o modelo perfeito do deuteragonista por antítese e complementaridade. Se o fidalgo manchego encarna o idealismo exasperado, a loucura poética e a busca pela cavalaria andante, Sancho representa o pragmatismo popular, o bom senso na realidade terrena e as necessidades materiais imediatas. O diálogo ininterrupto entre o cavaleiro e seu escudeiro ao longo das estradas da Espanha não é apenas um recurso cômico, mas o próprio motor filosófico da narrativa. Sancho Pança não é um mero ajudante; ele é a força que humaniza Quixote e que, no processo, é transformada por ele, demonstrando a reversibilidade e a riqueza da dinâmica deuteragônica.

Ainda no âmbito da ficção do século XIX, a literatura inglesa nos legou a obra Frankenstein, de Mary Shelley, na qual a relação entre o criador Victor Frankenstein e a sua Criatura se desdobra em uma complexa duplicidade. A Criatura atua como um deuteragonista atípico e aterrorizante, espelhando a arrogância prometeica do seu criador e funcionando como o seu duplo sombrio. Cada ação da Criatura reconfigura o destino de Victor, tornando impossível analisar a psicologia do protagonista sem o constante contraponto do seu horrendo produto. Em contrapartida, no plano da estrutura em abismo e do enquadramento narrativo do mesmo romance, o capitão Robert Walton também assume funções deuteragônicas ao escutar e registrar a confissão de Frankenstein, servindo como o elo de sanidade e testemunho para o leitor.

Na esfera da literatura policial e da focalização narrativa, Sir Arthur Conan Doyle produziu uma solução genial com o Doutor John Watson no universo de Sherlock Holmes. Watson não é apenas o deuteragonista que acompanha Holmes nas investigações mais perigosas; ele é a voz narrativa, o cronista e o mediador intelectual da história. Diante da mente genial, porém fria e exalta de Holmes, Watson representa o leitor médio, com sua empatia, sua surpresa e sua perplexidade. O raciocínio dedutivo de Holmes brilha com intensidade justamente porque é filtrado pelo olhar impressionado e zeloso de seu fiel companheiro, demonstrando como o deuteragonista pode assumir a importante tarefa de organizar a própria recepção da obra.

No drama elisabetano de William Shakespeare, encontramos manifestações extraordinárias do deuteragonista tanto no polo da aliança amorosa e leal quanto no polo do antagonismo manipulador. Em Hamlet, Horácio surge como o deuteragonista moral da tragédia. Enquanto o príncipe de Dinamarca se debate no mar de dúvidas, melancolia e desilusão, Horácio permanece como a figura de estoicismo, razão e lealdade inabalável. Ao final, quando a tragédia consome a corte de Elsinore, é a Horácio que Hamlet confia a missão suprema de sobreviver para contar a sua história ao mundo. Já na tragédia Otelo, o vilão Iago opera em um espaço híbrido entre o antagonista implacável e o deuteragonista ativo. É Iago quem conduz a ação dramática, sussurrando o veneno do ciúme no ouvido de Otelo e moldando os acontecimentos com tal maestria que a crítica literária muitas vezes questiona se a centralidade do texto pertence ao mouro de Veneza ou ao seu pérfido manipulador.

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Voltando o olhar para a literatura de língua portuguesa, o mestre Machado de Assis oferece em Dom Casmurro um estudo exemplar da força do deuteragonista na construção da ambiguidade ficcional. Capitu é a deuteragonista absoluta do romance. Toda a narrativa retrospectiva do enciumado Bentinho orbita ao redor da figura enigmática dos olhos de ressaca. Capitu não tem voz direta na narrativa, pois a história nos é contada pela perspectiva parcial e obsessiva do narrador-personagem; no entanto, a sua presença magnética, a sua vivacidade e a sua inteligência condicionam cada página do livro. Sem a opacidade fascinante de Capitu, o universo psicológico de Bentinho desmoronaria, evidenciando como um deuteragonista pode dominar a imaginação do leitor mesmo quando privado da autoridade do foco narrativo.

Também na narrativa épica e fantástica do século XX, como em O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien, a figura de Samwise Gamgee em relação a Frodo Baggins exemplifica a elevação do deuteragonista ao ápice da força moral da história. Enquanto Frodo carrega o fardo físico e mental do Um Anel, sucumbindo gradativamente à sua influência corrompida, Sam atua como o suporte emocional, o protetor e a consciência ética da jornada. O próprio autor britânico chegou a registrar em suas correspondências que considerava Sam o verdadeiro herói da saga, demonstrando como a dinâmica entre protagonista e deuteragonista pode sutilmente inverter papéis ao longo de uma longa travessia narrativa.

A partir desses exemplos e de suas fundamentações dramáticas, pode-se perceber que o deuteragonista é o elemento que retira o protagonista do solipsismo, forçando-o a agir, a reagir, a mudar e, em última análise, a revelar a sua essência humana perante o leitor.

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. Poética. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2015.

BRAIT, Beth. A personagem. 1ª ed. São Paulo: Contexto, 2017.

CANDIDO, Antonio, et al. A personagem de ficção. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.

REIS, Carlos Alves. Dicionario De Narratologia. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 2000.

TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.

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