Enquanto leitores, frequentemente nos deparamos com obras que tanto nos transmitem informações intelectuais ou ideias conceituais como nos abalam profundamente, produzindo comoção, compaixão, temor ou indignação. Essa capacidade inerente ao texto literário de evocar estados emocionais intensos e conectar a subjetividade do leitor à vivência dramática das personagens encontra sua gênese teórica no conceito grego de pathos.
A origem etimológica da palavra grega páthos remete a termos como paixão, afeto, sofrimento, dor e experiência vivida. O conceito consolida-se primordialmente no pensamento filosófico da Grécia Antiga. Na tradição retórica estabelecida por Aristóteles em sua obra Retórica, o pathos faz parte da célebre tríade dos meios de persuasão e comoção discursiva, ao lado do ethos, a autoridade moral e o caráter do orador, e do logos, a estruturação lógica e racional do argumento. Enquanto o logos apela à inteligência analítica do ouvinte e o ethos constrói a credibilidade do emissor, o pathos opera diretamente sobre o universo emotivo do público, modulando suas disposições de espírito, suas paixões e suas reações sensíveis.
Quando transposto para o domínio da literatura e da teoria da narrativa, o pathos deixa de ser apenas uma estratégia de persuasão oratória para se converter na própria espinha dorsal da experiência estética tragicamente orientada ou emocionalmente densa. Trata-se da força expressiva pela qual a linguagem poética e narrativa desperta no leitor uma ressonância afetiva com a sorte, as dores e os dilemas das figuras ficcionais. Não se tratando do mero sentimentalismo vulgar ou apelo fácil às emoções superficiais, o pathos autêntico na literatura surge do confronto profundo entre a condição humana e as forças do destino, da história, da sociedade ou do desejo.
Para compreender a pertinência do pathos na literatura, é importante revisitarmos a tragédia grega clássica, forma poética em que o conceito encontra sua manifestação exemplar e fundacional. Na Poética de Aristóteles, o pathos relaciona-se intimamente com os conceitos de hamartia (o erro ou falha trágica do herói), peripeteia (a reviravolta do destino) e, de maneira decisiva, a catharsis (a purificação ou depuração das emoções do leitor ou espectador). A tragédia opera mediante a provocação conjunta de dois afetos fundamentais: o pavor ou temor, provocado pela constatação de que o sofrimento avassalador pode atingir qualquer ser humano, e a compaixão, gerada pela percepção de que a dor do herói trágico suplanta a medida exata de suas faltas.
Um exemplo incontornável dessa dinâmica manifesta-se na tragédia Édipo Rei, de Sófocles. O pathos edipiano não resulta simplesmente da descoberta estarrecedora de suas ações involuntárias, mas do movimento dramático em que o soberano de Tebas, na busca obstinada pela verdade para salvar sua cidade, converte-se no próprio agente de sua ruína. O ápice desse sofrimento, quando Édipo fura os próprios olhos ao contemplar o corpo de Jocasta e compreende o peso inelutável de seu oráculo, produz no espectador um abalo emocional devastador. A dor de Édipo não é puramente individual; ela encarna a fragilidade da razão e da soberania humanas diante das forças inalcançáveis do destino, projetando um pathos universal que ecoa através dos séculos.
Com o advento da Modernidade, o pathos passa por transformações decisivas, deslocando-se do determinismo cosmológico antigo para a complexidade psicológica e a interioridade do indivíduo. No teatro de William Shakespeare, o sofrimento adquire contornos de angustiante profundidade existencial. Em Rei Lear, o pathos atinge patamares de rara intensidade dramática. O velho rei, despojado de seu poder por suas filhas ingratas e exposto à fúria de uma tempestade devastadora na estpagem, vivencia uma desagregação mental que espelha o caos do próprio mundo. A dor de Lear, amplificada pelo reconhecimento tardio da fidelidade de Cordélia, transporta o leitor ou espectador a uma comunhão dolorosa com o desamparo humano e o envelhecimento desprovido de amparo.
No contexto do Romantismo do final do século XVIII e início do século XIX, o pathos ganha um estatuto quase absoluto, tornando-se a chave mestra da sensibilidade poética. O movimento romântico ergue a paixão, a melancolia e o sofrimento existencial à condição de vias privilegiadas de conhecimento e criação. A obra Os Sofrimentos do Jovem Werther, publicada por Johann Wolfgang von Goethe em 1774, constitui o marco zero dessa exacerbação emotiva na prosa ocidental. O romance epistolar, ao registrar as cartas desoladas do protagonista inflamado de amor impossível por Lotte, constrói uma atmosfera saturada de pathos. A dor de Werther é tão contagiante que transbordou as páginas do livro, influenciando o comportamento, a vestimenta e a própria mentalidade de uma geração inteira de leitores europeus.
Contudo, a eficácia do pathos literário não se limita às explosões passionais do Romantismo ou aos grandiosos infortúnios da tragédia clássica. No Realismo e no Naturalismo, o pathos assume uma tonalidade contida, dolorosamente cotidiana e minada por determinações sociais, biológicas ou morais. Em A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói, o leitor presencia a agonia lenta de um magistrado burocrata que descobre a falsidade de sua existência ao encarar uma doença terminal. O pathos tolstoiano constrói-se pela via do esvaziamento das ilusões burguesas: a dor física de Ivan Ilitch caminha par a par com o sofrimento moral de perceber que nunca viveu de forma autêntica. A compaixão do leitor não surge de um ato heroico, mas da identificação estarrecedora com o desamparo do homem comum diante da finitude.
Na literatura brasileira, a exploração do pathos assume contornos de extrema relevância crítica e social. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o sofrimento não é tratado de forma sentimentalista ou piegas, mas com uma contenção estilística rigorosa que potencializa o impacto emotivo da narrativa. A saga da família de Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos e a cadela Baleia em travessia pelo sertão árido expõe um pathos socialmente enraizado. O capítulo dedicado à morte da cadela Baleia exemplifica com maestria como a economia verbal e a sobriedade descritiva podem produzir uma das passagens mais comoventes da nossa literatura. O leitor é tocado não pelo excesso de adjetivação, mas pela humanização do olhar do animal e pela tragédia da miséria que priva a todos até mesmo da linguagem articulada.
Outro momento expressivo na ficção nacional encontra-se em O Cortiço, de Aluísio Azevedo. No âmbito do Naturalismo, o pathos articula-se frequentemente à degradação e ao esmagamento do indivíduo pelo meio socioeconômico e pelos impulsos biológicos. O destino da personagem Bertoleza, trabalhadora explorada que dedica sua vida e suas economias a João Romão sob a promessa da alforria e de um futuro próspero, culmina em uma cena de dor dilacerante quando se vê traída e prestes a ser entregue novamente ao cativeiro. O ato final de Bertoleza, ao rasgar a própria barriga com a faca de peixe, encarna o pathos da vítima absoluta das engrenagens da exploração capitalista e escravagista.
Para que o pathos se concretize em uma obra literária com força estética e densidade crítica, o autor vale-se de uma vasta gama de recursos formais e linguísticos. A escolha da focalização narrativa, o ritmo da frase, o uso de imagens e metáforas, a modulação dos silêncios e das elipses, bem como a construção da empatia por meio do detalhamento psicológico, são mecanismos cruciais na gestação da carga afetiva. Se um texto falha na dosagem desses elementos, o pathos degrada-se em melodrama, kitsch ou pieguice, fenômenos em que a emoção é buscada de maneira artificial, mecânica e desprovida de sustentação orgânica no enredo.
Referências Bibliográficas
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Ver na AmazonARISTÓTELES. Retórica. [Tradução de Edson Bini]. 1. ed. São Paulo: Edipro, 2017.
Ver na AmazonAUERBACH, E. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.
Ver na AmazonBARTHES, R. Fragmentos de um discurso amoroso. [Tradução de Hortênsia dos Santos]. 1ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2018.
Ver na AmazonNIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia: ou Os gregos e o pessimismo. [Tradução de Paulo César de Souza]. 1ª ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2020.
Ver na AmazonPERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica. [Tradução de Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão]. 3ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.
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SILVA, Frederico de Lima. O que é Pathos na Teoria da Literatura?. Blog Frederico Lima, julho 26, 2026. Disponível em: <https://www.fredericolima.com.br/2026/07/pathos-teoria-literatura.html>. Acesso em: .