Breve resenha crítica da obra A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

Publicada originalmente em 1886, A Morte de Ivan Ilitch surge em um momento decisivo da produção do autor, posterior à sua profunda crise espiritual e existencial do final da década de 1870. Esse período de transição pessoal levou o romancista a reavaliar as bases da arte, da religião e da moralidade, resultando no abandono do fôlego épico presente em algumas de suas obras-primas anteriores, como Guerra e Paz e Anna Karenina, em favor de narrativas mais concisas, incisivas e eticamente direcionadas.

O contexto histórico da primeira edição de A Morte de Ivan Ilitch remonta ao reinado do czar Alexandre III, época caracterizada pelo endurecimento burocrático, pela rigidez administrativa da autocracia czarista e pela consolidação de uma classe média alta urbana e magistrada na Rússia imperial. A obra funciona como um ponto de inflexão na prosa tolstoiana: a economia formal da novela não diminui o alcance dramático da narrativa, mas o adensa. O autor compendia em poucas dezenas de páginas uma crítica devastadora à vacuidade da existência burguesa, transformando a finitude biológica em um tribunal ético sobre a autenticidade do viver.

O foco narrativo é heterodiegético, conduzido por um narrador em terceira pessoa extradiegético que detém uma onisciência seletiva e modulada. Esse narrador oscila estrategicamente entre o distanciamento irônico de cunho sociológico e a focalização interna, recorrendo com frequência ao discurso indireto livre para expor a intimidade psicológica das personagens. A arquitetura do enredo recusa a ordem cronológica linear e inicia-se in media res, apresentando primeiramente o funeral do protagonista. Essa escolha estrutural desloca o interesse do leitor do desfecho fático da vida de Ivan Ilitch para o processo de tomada de consciência que antecede a sua finitude.

Na cena de abertura, o velório de Ivan Ilitch Golovin revela a dinamização das relações sociais no seio do funcionalismo público de São Petersburgo. Personagens como o colega de magistratura Piótr Ivanovitch e a viúva Praskóvia Fiódorovna são retratados através da lente da inautenticidade. Em vez da comoção genuína diante do luto, a narrativa explicita os cálculos pragmáticos das personagens secundárias, que visam a promoções na carreira judiciária ou à barganha de pensões e benefícios estatais. Aplica-se aqui o conceito de reificação das relações humanas, no qual os afetos interpessoais são convertidos em transações comerciais e funcionais, evidenciando o decoro social como um mero teatro de conveniências.

Após a exposição do velório, a narrativa recua temporalmente para reconstituir a biografia do magistrado. Ivan Ilitch é apresentado como um homem comum, nem extraordinariamente virtuoso nem moralmente vil, cuja vida transcorreu segundo os parâmetros da conveniência e da conformidade com as expectativas da elite instruída. Sua escolha de carreira no aparato judiciário, o casamento arranjado com uma mulher de posição social vantajosa e o empenho na aquisição de bens materiais representam a busca incessante pelo status de um indivíduo considerado como deve ser pela sociabilidade aristocrática. A existência de Ivan pautava-se pelo alinhamento estrito às normas da burocracia, onde o indivíduo substitui o julgamento ético pessoal pelo estrito cumprimento do dever institucional.

O ponto de virada do enredo ocorre a partir de um incidente aparentemente banal: ao decorar sua nova residência em uma tentativa de emular o estilo de vida das classes abastadas, Ivan Ilitch sofre uma queda de uma escada e contunde o flanco. O que parecia uma lesão passageira desdobra-se em uma enfermidade dolorosa, progressiva e incurável. Na caracterização, Tolstói emprega um realismo anatômico e psicológico implacável, descrevendo a gradual degradação física de Ivan sem recorrer a sentimentalismos nem a eufemismos mórbidos. A casa decorada com esmero, símbolo visível de sua ascensão social, converte-se no cenário fúnebre de sua lenta decomposição.

Os médicos que atendem Ivan Ilitch tratam o corpo enfermo com o mesmo distanciamento burocrático e insensível com que o próprio magistrado tratava os réus em seu tribunal. Para a junta médica, o sofrimento humano reduz-se a uma disputa técnica entre o cego e o rim errante, espelhando a alienação institucional que o próprio Ivan ajudou a perpetuar ao longo de sua vida pública. O vocabulário clínico que o autor emprega, ao que parece, serve como uma exposição da barreira de linguagem erguida pela sociedade para mascarar a inevitabilidade da finitude.

Em contraponto à hipocrisia da família e dos médicos, surge a figura de Guerássim, o jovem serviçal camponês encarregado de cuidar de Ivan durante a fase terminal da doença. Guerássim é um personagem de contraste especular dentro da narrativa. Originário do meio rural e não corrompido pelas convenções urbanas, o jovem aceita a dor e a finitude como etapas naturais do ciclo biológico. Sua presença introduz na novela uma dimensão de alteridade e empatia autêntica, visto que Guerássim é a única figura capaz de amparar fisicamente o enfermo sem demonstrar aversão ou dissimulação, aliviando tanto o desconforto corporal do patrão como o seu isolamento existencial.

Um dos aspectos mais notáveis da prosa tolstoiana nesta obra é a utilização do recurso da desfamiliarização, conceito posteriormente sistematizado pelo formalismo russo. Tolstói opera o desnudamento das convenções sociais ao expor o caráter artificial do comportamento da elite judiciária e familiar. O olhar do enfermo, desacostumado das rotinas profissionais devido à dor, passa a enxergar as conversas formais, as partidas de carteado e os jantares de gala como atos desprovidos de sentido vital. O que antes parecia a essência de uma vida civilizada revela-se uma engrenagem mecânica projetada para ocultar a fragilidade da condição humana.

A velocidade da narrativa altera-se drasticamente ao longo do livro: os primeiros quarenta anos da vida de Ivan Ilitch, marcados pelo conformismo e pela ausência de reflexão, são narrados em um ritmo acelerado, condensados em poucos capítulos que transmitem a sensação de um tempo vazio e repetitivo. Em contrapartida, os últimos meses e semanas de agonia passam por uma dilatação temporal subjetiva. O tempo cronológico desacelera à medida que a percepção interna do protagonista se adensa, fazendo com que cada hora de sofrimento físico e conscientização moral pareça uma eternidade reflexiva.

O conflito central da novela ganha amplitude filosófica quando Ivan Ilitch tenta aplicar à sua própria situação as regras da lógica formal e os silogismos aprendidos na juventude. A famosa premissa lógica de que Cavo é homem, os homens são mortais, logo Cavo é mortal sempre lhe parecera válida para uma abstração genérica, mas totalmente inaplicável à sua individualidade singular. O magistrado confronta a incapacidade do racionalismo cartesiano e do positivismo jurídico em oferecer consolo ou explicação para o sofrimento pessoal, descobrindo que o conhecimento intelectual da mortalidade não equivale à apreensão existencial da própria finitude.

A crítica de Tolstói me parece estende-se à reificação e ao fetiche das mercadorias que caracterizavam a ascensão do capitalismo burocrático na Rússia do final do século XIX. Nesse ponto, a trajetória de Ivan reflete a redução do ser ao ter: sua felicidade dependia diretamente da aprovação alheia, do prestígio do cargo e do valor monetário dos objetos que ornamentavam sua rotina. À medida que o corpo abdica de suas funções e o isolamento se aprofunda, o protagonista percebe que a construção de sua imagem pública exigiu a renúncia sistemática de sua interioridade, resultando em uma vida falsificada desde a juventude.

Conforme a enfermidade avança, a narrativa intensifica o foco na crise interior de Ivan Ilitch. O isolamento no quarto de doente obriga-o a ter um acerto de contas histórico com a própria biografia. Ele analisa retrospectivamente suas escolhas morais, percebendo que os momentos julgados na época como cumes de realização profissional e pessoal eram, na verdade, manifestações de infantilidade e vaidade. A única infância autêntica e dotada de luminosidade afetiva pertencera ao período anterior à sua entrada nas estruturas formais de ensino e trabalho, indicando a tese tolstoiana de que a socialização burguesa desvirtua a essência ética do indivíduo.

A construção estilística dos monólogos interiores do protagonista também valem destaque, sobretudo epla capacidade do autor de aplicar intensidade quase alucinatória no terço final da novela. Tolstói articula o gemido inarticulado do corpo dolorido com a lucidez dolorosa da consciência em transformação. O espaço físico reduz-se ao leito de dor, mas o espaço psicológico expande-se para abarcar o confronto do indivíduo com a falsidade ao seu redor. Ivan percebe que a maior tortura não reside na falência dos órgãos, mas na mentira coletiva mantida por sua família e por seus médicos, que insistem em tratar sua condição terminal como um incômodo passageiro, privando-o da dignidade da despedida.

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Capa do livro Nome do Livro

A Morte de Ivan Ilitch

por Liev Tolstói

📖 Páginas: 96 🏢 Editora: Principis Minha Avaliação: 4.8/5

Ivan Ilitch acreditava ser um homem especial, não pensando no fim que todos terão igualmente um dia. Ele estava comprometido com a vida buscando ascensão profissional, status financeiro e o poder de um funcionário público do sistema judiciário da Rússia czarista. No auge da carreira ele sofre um acidente trivial que gradualmente começa a atormentá-lo. Os médicos não conseguem aliviar o sofrimento dele nem lidar com a misteriosa doença que consome sua vida. A morte de Ivan Ilitch revela o desespero que surge com a consciência despertada para a verdadeira natureza da vida.

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Quem é Apolo (Ἀπόλλων) na Mitologia Grega?

Filho de Zeus, o rei dos deuses, e da titânide Leto, Apolo é o irmão gêmeo da deusa da caça, Ártemis. Ele converge os ideais de harmonia, ordem, beleza juvenil, inspiração artística e sabedoria racional. Sua figura encarna múltiplos domínios e atribuições, variando da profecia e da música à medicina, ao tiro com arco, à luz solar e ao restabelecimento ou destruição da ordem cósmica e humana.

A narrativa de seu nascimento é marcada pelo conflito arquetípico e pela perseguição divina. Irritada com a infidelidade de Zeus, Hera proibiu que qualquer terra firme que recebesse a luz do sol acolhesse Leto em trabalho de parto. Amaldiçoada e vagando sem rumo, a titânide encontrou refúgio na ilha estéril e flutuante de Delos, que não estava presa às raízes da terra e, portanto, escapava à proibição de Hera. Após longos dias de dores intensas, Leto deu à luz Ártemis e Apolo. Ao nascer, o deus recusou o leite materno e foi nutrido com ambrósia e néctar divinos por Têmis. Imediatamente ao atingir a maturidade juvenil, declarou quais seriam seus instrumentos e domínios fundamentais: a lira, o arco recurvado e a capacidade de revelar aos mortais a vontade inabalável de seu pai, Zeus.

Com o objetivo de estabelecer seu centro oracular e espalhar sua palavra profética pelo mundo, o jovem Apolo dirigiu-se às encostas do Monte Parnaso. Lá, no sítio de Crisa, enfrentou e exterminou a temível serpente Pitón, um monstro enviado por Hera para atormentar sua mãe. Ao derrotar o réptil gigante com suas flechas infalíveis, o deus purificou o local e fundou o Santuário de Delfos. O evento mítico renomeou a profetisa local como Pítia e conferiu ao deus o epíteto de Apolo Pítio. O Oráculo de Delfos tornou-se o coração espiritual do mundo grego, onde reis, generais e cidadãos comuns buscavam orientação sobre guerras, colônias, leis e destinos pessoais. As inscrições gravadas no templo de Delfos, como a célebre máxima "Conhece a ti mesmo", refletem a própria essência apolínea de moderação, autoconhecimento e limites da condição humana diante da imortalidade dos deuses.

Vale pontuar que a figura de Apolo desdobra-se em uma dualidade moral e funcional. Como deus da medicina e da cura, sob o título de Apolo Alexícaco (aquele que afasta o mal) ou Peã, ele detém o poder de restaurar a saúde e afastar epidemias. Por meio de seu filho Asclepius, o deus transmitiu aos homens os segredos da arte médica. Contudo, essa mesma divindade que cura é a portadora das flechas douradas causadoras de pestes devastadoras. No Canto I da Ilíada de Homero, quando o sacerdote Crises roga ao deus por vingança contra os gregos, Apolo desce do Olimpo indignado e lança suas flechas infectadas sobre o acampamento grego, espalhando uma terrível praga. Essa ambivalência demonstra que o equilíbrio mantido por Apolo deriva de sua capacidade soberana de conceder tanto a ordem e a vida quanto a destruição e a morte repentina.

No campo das artes e da erudição, Apolo preside o coro das Musas no Monte Helicón, sob a alcunha de Apolo Musageta. Sua lira de sete cordas, presenteada pelo irmão Hermes em compensação pelo roubo de seus gados sagrados, produz melodias de perfeita geometria matemática e serenidade. A música apolínea representa a razão, o controle, a métrica e a elevação da alma, em contraponto direto ao frenesi orgiástico e emotivo de Dioniso. Tais rivalidades musicais são ilustradas no mito do sátiro Mártias, que ousou desafiar o deus em um duelo melódico. Derrotado pela superioridade e pelo rigor de Apolo, Mártias foi esfolado vivo como punição por sua insolência, ressaltando o caráter inflexível e severo do deus diante da desmedida humana.

Ao longo do período arcaico e clássico, Apolo passou a ser associado gradativamente à luz da verdade e, mais tarde, na era helenística e romana, assimilado diretamente a Hélio, a personificação do próprio astro solar. Como condutor da carruagem de fogo que cruza os céus diariamente, Apolo ilumina as trevas do mundo e expõe o que está oculto, consolidando sua faceta de patrono da clareza mental, do conhecimento e da justiça moral.

As narrativas amorosas de Apolo frequentemente carregam um tom trágico ou punitivo. O deus apaixonou-se pela ninfa Dafne, mas foi rejeitado por ela após o deus Eros disparar uma flecha de chumbo no coração da jovem e uma de ouro no do deus. Para escapar da perseguição de Apolo, Dafne rogou a seu pai, o deus-rio Peneu, que a transformou em um pé de louro. A partir desse momento, a folha de louro tornou-se o símbolo sagrado do deus e a coroa dada aos vencedores dos Jogos Píticos e aos grandes poetas. Em outro episódio dramático, o deus acidentalmente tirou a vida de seu jovem companheiro Jacinto com um disco desviado pelo vento Céfiro, fazendo nascer do sangue do jovem a flor que leva seu nome.

Referências Bibliográficas

BULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.

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BURKERT, Walter. Greek Religion. Reprint. Cambridge: Harvard University Press, 1987.

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HAWTHORNE, Nathaniel. Mitos gregos I: Histórias extraordinárias de heróis, deuses e monstros para jovens leitores. Rio de Janeiro: Clássicos Zahar, 2016.

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MARCH, J. Mitos clássicos. Tradução de Maria Alice Máximo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

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MATYSZAK, Philip. Os mitos gregos e romanos: Um guia das narrativas clássicas. Tradução de Camila Aline Zanon. 1. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2023.

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POUZADOUX, Claude. Contos e lendas da mitologia grega. Tradução de Eduardo Brandão. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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O que é o Oráculo de Delfos na Mitologia Grega?

O Oráculo de Delfos foi, muito provavelmente, o mais influente centro sagrado de todo o Mediterrâneo. Encravado nas encostas íngremes do monte Parnaso, na região da Fócida, o santuário délfico era, além de um local dedicado à "adivinhação", também o que podemos classificar como centro cósmico da Grécia. Conhecido como o omphalos, termo grego para umbigo, Delfos marcava o ponto exato onde, segundo a tradição mítica, duas águias soltas por Zeus nos confins opostos do universo teriam se encontrado. Essa centralidade geográfica traduzia-se em uma proeminência espiritual sem precedentes, onde pólis e indivíduos buscavam a orientação divina de Apolo para tomar decisões estratégicas, instituir leis, traçar rotas coloniais ou purificar culpas morais e religiosas.

A narrativa de fundação de Delfos diz da própria transição do pensamento mítico grego, marcando a passagem de um culto primordial fundamentado em forças telúricas e místicas para a ordem apolínea, pautada pela luz, pela razão e pela justiça divina. Originalmente, o local abrigava um oráculo dedicado a Gaia, a Terra-Mãe, e era guardado por uma serpente monstruosa chamada Piton. Quando Apolo, ainda jovem, tomou posse do santuário, ele combateu e abateu a serpente com suas flechas sagradas. Para expiar a contaminação ritual pelo derramamento de sangue divino, o deus submeteu-se a um período de purificação no vale de Tempe. Ao retornar legitimado, Apolo estabeleceu seu próprio culto e tomou o título de Apolo Pítio, consagrando o local como o oráculo definitivo da verdade e da ordem. A transformação da criatura em cinzas abaixo do templo perpetuou a presença de uma energia telúrica latente, agora subordinada ao domínio ordenador do deus sol.

No núcleo do templo de Apolo, a mediação humana entre o plano divino e os mortais cabia à Pítia, a sacerdotisa do oráculo. Escolhida entre as mulheres da região de Delfos, a Pítia atuava como o receptáculo vivo do pneuma divino. O processo divinatório demandava rituais rigorosos de purificação tanto da sacerdotisa quanto dos consulentes. No dia marcado para a consulta, geralmente o nono dia de cada mês durante os meses quentes, a Pítia banhava-se nas águas sagradas da fonte Castália, realizava libações e vestia trajes rituais que simulavam a virgindade e a devoção absoluta ao deus. Paralelemente, os sacerdotes verificavam se a vontade divina permitia a consulta através do sacrifício de uma cabra. Caso o animal tremesse adequadamente ao ser aspergiado com água fria, o sinal era interpretado como a aquiescência de Apolo.

No interior do adyton, a câmara mais reservada e inacessível do templo, a Pítia assentava-se sobre um tripé de bronze posicionado sobre uma fenda na rocha. As fontes antigas descrevem que dessa fenda emanavam vapores aromáticos que induziam a sacerdotisa a um estado de transe extático, a chamada entheos, termo grego que significa estar possuída pelo divino. Enquanto inalava esses vapores, mastigava folhas de loureiro, a planta sagrada de Apolo, e bebia da água da fonte Kassotis, a Pítia balbuciava palavras desconexas e oráculos fragmentados. Especulações modernas sugerem a presença de gases hidrocarbonetos como o etileno emergindo de falhas geológicas sob o templo, mas, dentro do horizonte mítico e religioso grego, o transe era a manifestação indubitável da voz de Apolo expressando o destino invencível.

A interpretação desses enunciados extáticos dependia do corpo de sacerdotes e profetas de Delfos, que traduziam o transe da Pítia em hexâmetros dactílicos, o verso solene da poesia épica. A ambiguidade estratégica desses versos tornou-se uma das características mais célebres do oráculo. As respostas oraculares raramente ofereciam diretrizes simplistas, exigindo dos consulentes um profundo esforço de hermenêutica e reflexão ética. O caso de Creso, rei da Lídia, ilustra com precisão essa natureza enigmática: ao perguntar se deveria marchar contra o Império Persa, o oráculo respondeu que, ao cruzar o rio Hális, ele destruiria um grande império. Creso interpretou a profecia como uma garantia de vitória, contudo, o império destruído na batalha subsequente foi o seu próprio. Da mesma forma, o mito de Édipo é estruturado a partir das profecias délficas que, longe de serem evitadas pelas ações humanas, cumpriam-se justamente por causa dos esforços desesperados dos mortais para escapar ao fado.

Para além do caráter divinatório individual, Delfos funcionou como o principal catalisador político e legislativo do mundo grego. Durante o período de colonização arcaica, entre os séculos VIII e VI a.C., nenhum grupo de colonos fundava uma nova cidade sem antes consultar a autoridade moral do oráculo. Os sacerdotes délficos detinham um vasto conhecimento geográfico e geopolítico, acumulado pelo fluxo contínuo de embaixadores e viajantes. Assim, a sanção divina legitimava novas constituições e promovia alianças pacíficas entre cidades rivais. As famosas inscrições gravadas no pronau do templo de Apolo, tais como Gnothi seauton (conhece-te a ti mesmo) e Meden agan (nada em excesso), sintetizavam o ideal de sofrosina, a moderação e o autoconhecimento essenciais para a ordem da pólis.

Com o passar dos séculos, as sucessivas guerras civis gregas, a hegemonia macedônica e a posterior dominação romana enfraqueceram a autonomia do santuário. No entanto, a aura mística de Delfos permaneceu viva até a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, culminando com o encerramento definitivo das atividades oraculares sob o édito do imperador Teodósio I no final do século IV. 

Referências Bibliográficas

BURKERT, Walter. Greek Religion. Reprint. Cambridge: Harvard University Press, 1987.

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DETIENNE, Marcel. Mestres da verdade na Grécia arcaica. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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DODDS, E. R. Os gregos e o irracional. 1. ed. São Paulo: Editora Escuta, 2002.

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GIEBEL, Marion. O Oráculo de Delfos. 1. ed. São Paulo: Odysseus Editora, 2014.

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GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

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VERNANT, J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.

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Revista Todas as Letras abre chamada de artigos para dossiê sobre Historiografia Linguística no Brasil

A Revista Todas as Letras anunciou a abertura do período de submissões para o dossiê temático "Pesquisas brasileiras em Historiografia Linguística: o estado da arte", que integrará o terceiro volume de 2027 da publicação. Organizada pelos professores Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos e Ronaldo de Oliveira Batista, ambos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a edição busca mapear, divulgar e preservar o panorama atual da produção científica nacional na área, reunindo relatórios de pesquisas concluídas ou em andamento.

A iniciativa surge em consonância com a realização no país da décima sétima edição da Conferência Internacional sobre a História das Ciências da Linguagem (ICHoLS XVII), celebrando o evento internacional e documentando o contexto brasileiro. Os trabalhos submetidos podem abordar desde as linhas e temas de pesquisa mais privilegiados até os tipos de fontes primárias utilizadas, recortes de periodização, parâmetros de análise e conceitos teóricos empregados no campo.

Os interessados têm até o dia 31 de dezembro de 2026 para enviar seus artigos. A avaliação de todos os textos será realizada por pareceristas especializados por meio do sistema de blind review, garantindo o anonimato dos autores. A comissão organizadora recomenda que os pesquisadores consultem atentamente as Diretrizes para Autores no site do periódico antes de efetuarem o envio da submissão.

Mais informaçõeshttps://editorarevistas.mackenzie.br/tl/announcement/view/250

O editor deste blog sugere a leitura dos seguintes livros…

BATISTA, Ronaldo de Oliveira. Historiografia da linguística. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2019.

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BATISTA, Ronaldo de Oliveira. Introdução à historiografia da linguística. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2013.

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Revista Signo abre chamada de artigos sobre literatura infantil e juvenil e o Manifesto por um Brasil Literário

A Revista Signo anunciou a abertura de chamada de trabalhos para o dossiê temático da sua edição de 2027, volume 52, número 104. A publicação busca reunir pesquisas focadas em discutir os avanços e retrocessos na literatura infantil e juvenil tendo como ponto de partida o “Manifesto por um Brasil Literário”, documento idealizado e publicado pelo escritor Bartolomeu Campos de Queirós no âmbito da Feira Literária de Paraty em 2009.

O dossiê acolherá estudos de caráter teórico, metodológico ou analítico sobre práticas de mediação de leitura, incentivando reflexões sobre a forma como a contemporaneidade tem ressignificado a premissa de Queirós de que a literatura deve estar presente em todos os espaços frequentados pela infância. Além disso, a proposta dá especial relevância à produção acadêmica que estabeleça diálogo direto com as obras, temáticas e trajetórias de Bartolomeu Campos de Queirós.

A organização do volume está a cargo dos professores e pesquisadores Flávia Brocchetto Ramos, da Universidade de Caxias do Sul, Fabiana Giovani, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Fernando Azevedo, da Universidade do Minho, em Portugal.

Os pesquisadores interessados em submeter seus artigos deverão enviar as propostas entre 1º de dezembro de 2026 e 1º de fevereiro de 2027. A divulgação dos pareceres e aceites está prevista para o mês de abril de 2027, enquanto a publicação oficial do dossiê ocorrerá em maio do mesmo ano.

Mais informaçõeshttps://seer.unisc.br/index.php/signo/announcement/view/500

O editor deste blog sugere a leitura dos seguintes livros…

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Sobre ler, escrever e outros diálogos. 2. ed. São Paulo: Global Editora, 2019.

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QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. O fio da palavra. 2. ed. São Paulo: Global Editora, 2020.

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Chamada Letras - Revista Conexão Letras abre chamada de artigos para dossiê sobre Língua e História

A Revista Conexão Letras divulgou a abertura de submissões para a sua 35ª edição, que abordará a relação entre Língua e História a partir de diversas perspectivas teóricas. O dossiê temático conta com a organização das professoras doutoras Valéria Neto de Oliveira Monaretto (UFRGS), Silvana Silva (UFRGS) e Luciana Pilatti Telles (FURG).

A proposta busca contemplar a expansão dos estudos históricos na linguagem, reunindo pesquisas de áreas como Linguística Histórica, História das Ideias Linguísticas, Sociolinguística Histórica, Análise do Discurso, Linguística da Enunciação, Estudos Feministas na Historiografia, entre outras abordagens epistemológicas. A publicação pretende acolher trabalhos em diálogo com a História que demonstrem como as características linguísticas constituem os fatos históricos, assim como análises sobre o impacto dos elementos sócio-históricos na linguagem, com clara delimitação de seus pressupostos teóricos.

Pesquisadores e docentes interessados devem enviar seus artigos até o dia 23 de outubro de 2026, diretamente pelo sistema de submissões da revista, disponível no portal de periódicos da UFRGS, assegurando o cumprimento integral das diretrizes de publicação do periódico.

Mais informaçõeshttps://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/announcement/view/2235

O editor deste blog sugere a leitura dos seguintes livros…

FLORES, Valdir do Nascimento et al. Dicionário de linguística da enunciação. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2009.

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COLOMBAT, Bernard; FOURNIER, Jean-Marie; PUECH, Chistian. Uma história das ideias linguísticas. Tradução de Marli Quadros Leite e Jacqueline Léon. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2017.

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CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2004.

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