O que significa CONVERSÃO SOMÁTICA para a Psicanálise?

Diferente das doenças psicossomáticas contemporâneas ou das afecções puramente orgânicas, o sintoma de conversão possui uma "gramática": ele fala, expressa um desejo recalcado e obedece a uma lógica simbólica, funcionando como um substituto de uma representação mental que foi banida da consciência.

A Gênese do Conceito e o Salto do Psíquico para o Somático

O termo "conversão" foi introduzido por Sigmund Freud na década de 1890, marcando sua ruptura definitiva com a neurologia puramente anatomopatológica da época. Em suas colaborações iniciais com Josef Breuer, documentadas em Estudos sobre a Histeria (1895), Freud observou que pacientes histéricas apresentavam paralisias, cegueiras ou tremores que não correspondiam à distribuição dos nervos periféricos, mas sim à ideia popular ou subjetiva que o paciente tinha de seus órgãos. Freud postulou que, quando um afeto ligado a uma representação traumática torna-se insuportável para o ego, a mente opera uma clivagem: a representação é recalcada (enviada ao inconsciente), mas a "soma de excitação" (o quantum de afeto) ligada a ela precisa de um destino. Na histeria, esse destino é o corpo.

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Estudos sobre a histeria

Sigmund Freud

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Este fenômeno é o que Freud chamou de "salto do psíquico para a inervação somática". O corpo torna-se o palco onde o conflito é encenado. O sintoma de conversão não é um simples defeito biológico; ele é uma formação de compromisso entre uma pulsão sexual reprimida e a defesa que se opõe a ela. No caso clínico clássico de Elisabeth von R. (1895), as dores nas pernas da paciente não eram causadas por lesões nervosas, mas simbolizavam sua incapacidade de "dar um passo à frente" em uma situação moralmente conflituosa ligada ao seu cunhado. O corpo, portanto, empresta sua funcionalidade para expressar o que a palavra não pôde dizer.

A Lógica do Simbolismo e a Zona Erógena

Para que a conversão ocorra, é necessário que haja uma "complacência somática", um conceito desenvolvido por Freud no Caso Dora (Fragmento da Análise de um Caso de Histeria, 1905). Isso significa que o órgão ou a função corporal escolhida para o sintoma já possui uma predisposição, seja por uma leve fragilidade orgânica ou, mais comumente, por seu significado erógeno na história libidinal do sujeito. A conversão não escolhe qualquer parte do corpo ao acaso; ela seleciona zonas que podem servir como substitutos genitais ou que carregam um peso metafórico.

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Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria ("O caso Dora" ) e outros textos

Sigmund Freud

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A conversão somática reafirma a teoria da sexualidade infantil. O sintoma é, em última instância, a realização de um desejo sexual infantil que sofreu o recalque. Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Freud esclarece que a capacidade do corpo de se tornar um veículo para a neurose reside na polimorfia da libido. Na conversão, a zona afetada (como a garganta em um caso de tosse histérica ou os olhos em uma cegueira psicogênica) é "hiper-investida" de libido, passando a funcionar como se fosse um órgão sexual. O sintoma, portanto, proporciona uma satisfação substitutiva (embora dolorosa ou limitante), o que explica a resistência do paciente em abrir mão da doença, a famosa "lucratividade secundária" da neurose.

O Sentido do Sintoma e a Diferença entre Conversão e Psicossomática

É imperativo distinguir, sob o rigor terminológico, a conversão somática do fenômeno psicossomático. Na psicanálise lacaniana e na escola psicossomática de Paris (Pierre Marty), argumenta-se que, na conversão, o sintoma é um significante. Ele possui um sentido decifrável através da associação livre; ele está inserido na cadeia de linguagem do sujeito. Se um paciente tem uma paralisia no braço porque "queria bater em alguém mas se proibiu", o braço está simbolizando uma ação proibida. O sintoma é uma metáfora.

Já no fenômeno psicossomático puro (como uma úlcera ou uma psoríase grave), Jacques Lacan sugere em O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) que há uma "holófrase", onde o significante se solidifica no corpo sem remeter a outra coisa. Na conversão, o corpo é "escrito" pelo desejo; na psicossomática, o corpo é "ferido" por uma falha na simbolização. A conversão somática preserva a integridade do órgão na maioria das vezes (a cegueira histérica não destrói a retina), enquanto a psicossomática envolve lesão tecidual. A histeria usa o corpo para falar; o psicossomático sofre no corpo o que não pôde sequer ser formulado como conflito psíquico.

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O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise

Jacques Lacan

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O Papel do Fantasma e a Identificação na Conversão

A conversão não se sustenta apenas pela memória de um trauma real, mas pela relação do sujeito com o seu "fantasma" (fantasia inconsciente). Em A Interpretação dos Sonhos (1900) e em escritos posteriores sobre metapsicologia, Freud demonstra que o sintoma de conversão é uma estrutura multideterminada. Ele pode representar, simultaneamente, o desejo do sujeito e o castigo por esse desejo. Além disso, a conversão é fortemente alimentada pelo mecanismo de identificação.

Uma histérica pode desenvolver um sintoma de conversão (como uma tosse ou um desmaio) ao se identificar com outra pessoa com quem ela partilha um desejo inconsciente ou um complexo de culpa. Essa "infecção psíquica", como Freud descreveu, mostra que a conversão somática é uma forma de comunicação pré-verbal. O corpo do histérico é permeável ao desejo do Outro. Através da conversão, o sujeito tenta responder à pergunta fundamental da histeria: "O que é ser uma mulher?" ou "O que o Outro quer de mim?". O sintoma corporal é uma tentativa desesperada e cifrada de dar corpo a essa resposta impossível, transformando a carne em uma escrita simbólica que aguarda a intervenção do analista para ser traduzida em palavras.

Evolução Clínica e o Destino da Conversão na Contemporaneidade

Embora as grandes paralisias e "arc-en-ciel" (arcos histéricos) descritos por Jean-Martin Charcot em Salpêtrière tenham se tornado menos comuns na clínica atual, a conversão somática permanece viva sob novas roupagens. A psicanálise contemporânea observa que o "salto para o somático" hoje se manifesta em síndromes de dor crônica, fibromialgias de fundo psicogênico e crises não-epilépticas de origem psíquica. O rigor clínico exige que o analista não ignore o corpo, mas que o escute como um texto.

A cura na psicanálise, no que tange à conversão, não visa o silenciamento do corpo por meio de medicamentos, mas a "re-tradução" do sintoma. Como postulado em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), o sintoma é um sinal de que o ego não conseguiu lidar com a angústia de outra forma. Ao reintegrar o afeto à sua representação original através da palavra no setting analítico, o quantum de energia que sustentava a conversão é liberado, e o corpo pode cessar sua encenação. A conversão somática prova, assim, a premissa fundamental da psicanálise: que o ser humano não é apenas um organismo biológico, mas um corpo pulsional atravessado pela linguagem e pelo desejo.

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Inibição, sintoma e angústia

Michel Plon e Clarisse Meireles

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Referências Bibliográficas

BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Rio de Janeiro: Imago, 1895. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 2).

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1900. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 4 e 5).

FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria (Caso Dora). Rio de Janeiro: Imago, 1905. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 7).

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1905. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 7).

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. Rio de Janeiro: Imago, 1926. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 20).

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998 [1964].

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998 [1966].

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1967.

MARTY, Pierre. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

NASIO, Juan-David. A histeria ou a criança magnífica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1991.

O que significa FASE ORAL para a Psicanálise?

A Fase Oral representa um dos marcos iniciais da subjetividade humana na metapsicologia freudiana. É o momento em que o corpo deixa de ser apenas um organismo biológico para se tornar um mapa de zonas erógenas, onde a pulsão encontra seu primeiro destino e o psiquismo inicia sua jornada de diferenciação entre o "eu" e o "mundo externo". Para compreender a profundidade desse conceito, é preciso abandonar a visão simplista de que se trata apenas do ato de se alimentar; trata-se, fundamentalmente, da primeira organização da libido e da gênese das relações objetais.

A Descoberta da Sexualidade Infantil e a Pulsão Oral

A fundamentação teórica da Fase Oral encontra seu marco inicial na obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), de Sigmund Freud. Neste texto revolucionário, Freud subverte a compreensão da época ao afirmar que a sexualidade não emerge na puberdade, mas possui raízes profundas na infância. A Fase Oral é descrita como a primeira fase da organização sexual pré-genital, situando-se aproximadamente do nascimento aos dezoito meses de vida.

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Um Caso de Histeria, Três Ensaios Sobre Sexualidade e Outros Trabalhos

Sigmund Freud

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O conceito central aqui é a zona erógena. Freud postula que certas áreas da pele ou das mucosas, quando estimuladas de determinada maneira, produzem uma sensação de prazer de qualidade específica. Na fase oral, essa zona é a boca, incluindo lábios, língua e todo o aparato bucal. É crucial notar o que Freud denomina como "apoio" (Anlehnung): a pulsão sexual inicialmente se satisfaz apoiada em uma função vital indispensável à preservação da vida, a alimentação. Contudo, rapidamente ela se torna independente. O bebê que continua a sugar o mamilo, o dedo ou a chupeta após estar saciado não busca mais o leite (necessidade biológica), mas sim o prazer da excitação da mucosa oral (desejo pulsional).

Neste estágio, o objeto da pulsão é o seio materno. A boca é o primeiro órgão que aparece como zona erógena e que faz exigências de ordem libidinal ao psiquismo. A atividade sexual oral está intimamente ligada à incorporação. Incorporar significa, literalmente, levar para dentro do corpo, mas psiquicamente representa o protótipo da identificação. Ao "comer" o objeto, o bebê o torna parte de si, estabelecendo a base para o que Freud explorará mais tarde em Luto e Melancolia (1917), onde a identificação narcísica com o objeto perdido é descrita como um processo de introjeção oral.

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Luto e melancolia: Precedido por Transitoriedade

Sigmund Freud

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A Ambivalência e a Fase Canibalesca

À medida que a teoria psicanalítica evoluiu, a Fase Oral foi refinada e subdividida. Karl Abraham, em sua obra Contribuições à Teoria da Libido (1924), trouxe uma contribuição seminal ao dividir a fase oral em duas subfases distintas: a fase oral precoce (sucção) e a fase oral-sádica (canibalesca). Essa distinção é vital para entender a origem da agressividade e da ambivalência afetiva.

Na fase oral precoce, o prazer advém puramente do sugar. Não há, ainda, uma distinção clara entre o bebê e o objeto. É um estado de narcisismo primário onde o seio é sentido como parte do próprio corpo. No entanto, com o surgimento da dentição e o desenvolvimento da capacidade motora, a relação com o objeto muda drasticamente. O ato de morder introduz a agressividade na economia libidinal. Aqui, o prazer não é mais apenas passivo (receber o alimento/prazer), mas ativo e destrutivo (morder, triturar, destruir o objeto).

Essa transição marca o nascimento da ambivalência. O bebê ama o objeto (seio) que o satisfaz, mas também deseja destruí-lo através da mordida. A "Fase Canibalesca" é, portanto, o berço dos sentimentos contraditórios. Em Totem e Tabu (1913), Freud utiliza essa lógica para explicar o banquete totêmico original: o ato de devorar o pai é, simultaneamente, um ato de amor (identificação por incorporação) e de ódio (destruição). Na clínica, a fixação ou regressão a este ponto oral-sádico está frequentemente ligada a estruturas depressivas e melancólicas, onde a agressividade voltada contra o objeto incorporado acaba por ferir o próprio ego do sujeito.

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Totem e Tabu

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Melanie Klein e a Fantasia Inconsciente no Estágio Oral

Se Freud e Abraham lançaram as bases, foi Melanie Klein quem expandiu as fronteiras do que acontece na mente do bebê durante a fase oral. Em obras como A Psicanálise de Crianças (1932) e Inveja e Gratidão (1957), Klein desloca o foco da biologia para o mundo das fantasias inconscientes e das relações objetais precoces. Para Klein, a fase oral é dominada pela relação com o "objeto parcial": o seio.

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Inveja e gratidão e outros ensaios

Melanie Klein

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O psiquismo primitivo, ainda incapaz de integrar aspectos contraditórios, utiliza o mecanismo de cisão (splitting). O bebê não percebe uma mãe total, mas sim um "seio bom" (que alimenta, acalma e está presente) e um "seio mau" (que frustra, demora a chegar ou é sentido como persecutório). Essa é a essência da Posição Esquizoparanóide. A pulsão de morte, projetada para fora, transforma o seio mau em um perseguidor, enquanto a pulsão de vida investe o seio bom como uma fonte de segurança absoluta.

A incorporação oral assume aqui um papel dramático. O bebê "engole" as experiências. Se a gratidão prevalece (derivada da satisfação oral), o seio bom é introjetado de forma estável, servindo como núcleo para um ego forte. No entanto, se a inveja, que Klein descreve como uma expressão direta da pulsão de morte, for excessiva, o bebê deseja atacar o seio para roubar seus conteúdos bons ou estragá-los, de modo que não precise mais depender dele. Essa dinâmica oral estabelece o modelo para todos os relacionamentos futuros: a capacidade de receber, de confiar e de lidar com a falta e a gratidão.

Fixação, Regressão e Traços de Caráter Oral

A importância da Fase Oral não termina na infância; ela reverbera na vida adulta através dos processos de fixação e regressão. Se uma criança sofreu privações severas (frustração excessiva) ou mimos desmedidos (satisfação excessiva) durante este estágio, a libido pode permanecer "presa" a este modo de satisfação, moldando o que a psicanálise chama de caráter oral.

O caráter oral é marcado por uma relação específica com o mundo e com o conhecimento. Pessoas com fixações orais tendem a ser "vorazes", não apenas em relação à comida, mas em relação a informações, afeto e atenção. Existe uma dependência estrutural do objeto externo para a manutenção da autoestima. A linguagem cotidiana preserva essa herança psicanalítica quando usamos termos como "devorar um livro", "engolir um sapo" ou descrevemos alguém como "amargo" ou "doce".

Na psicopatologia, a regressão ao nível oral é visível em transtornos alimentares (anorexia e bulimia), adições (alcoolismo e tabagismo) e em certos estados psicóticos onde a barreira entre o eu e o outro se dissolve, mimetizando a indistinção primitiva da amamentação. Em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud discute como o medo da perda do objeto (angústia de separação) tem suas raízes na dependência absoluta do período oral. A boca permanece como um canal de comunicação primordial com a realidade: é por onde o sujeito clama, protesta e, fundamentalmente, onde o primeiro contato com o Outro é estabelecido.

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O futuro de uma ilusão e outros textos

Sigmund Freud

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A Dimensão Simbólica: Da Necessidade ao Desejo

Por fim, é essencial compreender que a Fase Oral opera a transição da ordem da necessidade para a ordem do desejo. Jacques Lacan, retornando a Freud, enfatiza que o objeto da pulsão não é o objeto real (o leite), mas o que ele representa na relação com o Outro. O "Objeto Pequeno a", conceito lacaniano desenvolvido ao longo de seus seminários, tem na fase oral seu primeiro representante: o seio enquanto falta.

O seio não é apenas algo que preenche a boca; é algo que falta e, por faltar, inaugura a busca. O desejo humano nasce no hiato entre a necessidade biológica saciada e o prazer que resta como um rastro. A fala, ato eminentemente oral, surge justamente quando o objeto físico está ausente. O bebê que começa a balbuciar ou a usar fonemas para chamar a mãe está transformando o prazer oral de sucção em um prazer de emissão sonora, substituindo o seio pela palavra.

A Fase Oral, portanto, é o fundamento da alteridade. É através da boca que o sujeito descobre que o mundo não é uma extensão de si mesmo, que existe algo "lá fora" que pode ser incorporado ou rejeitado. A sofisticação desse estágio reside no fato de que ele organiza a estrutura do vazio. Sem a experiência do preenchimento e da perda oral, o sujeito não teria um lugar psíquico para o desejo. Assim, a fase oral deixa de ser apenas uma etapa cronológica do desenvolvimento infantil para se tornar uma dimensão permanente da estrutura humana, regendo a forma como consumimos a cultura, as relações e a própria vida.

Referências Bibliográficas

ABRAHAM, Karl. Contribuições à Teoria da Libido: Ensaios sobre a Formação do Caráter e o Desenvolvimento da Libido. Rio de Janeiro: Imago, 1970.

FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237.

FREUD, Sigmund (1913). Totem e Tabu. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud
. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. 13, pp. 13-194.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Inibição, Sintoma e Angústia (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KLEIN, Melanie. A Psicanálise de Crianças (1932). Rio de Janeiro: Imago, 1997.

KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4: A Relação de Objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

A Estrutura da Neurose Obsessiva na Psicanálise: Isolamento do Afeto e Dúvida Paralisante

Na tradição psicanalítica inaugurada por Sigmund Freud, a neurose obsessiva ocupa um lugar central na compreensão dos mecanismos de defesa e das formações sintomáticas. Freud, em textos como Obsessões e Fobias (1895) e Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926), descreve a neurose obsessiva como marcada por uma economia psíquica específica, na qual o sujeito se vê aprisionado em uma rede de pensamentos compulsivos, rituais e dúvidas intermináveis. O núcleo da estrutura obsessiva está na tentativa de controlar o desejo inconsciente por meio de defesas rígidas, entre as quais se destacam o isolamento do afeto e a dúvida paralisante.

O isolamento do afeto consiste em separar o conteúdo ideativo de sua carga emocional. O obsessivo pode enunciar uma representação, mas a vivência afetiva correspondente é desligada, como se houvesse uma clivagem entre pensamento e emoção. Esse mecanismo permite que o sujeito fale de temas intensos sem se implicar afetivamente, mantendo uma distância que lhe confere aparente controle. Já a dúvida paralisante emerge como efeito dessa cisão: o sujeito não consegue decidir, pois cada representação é esvaziada de afeto, tornando-se equivalente às demais. A dúvida, nesse sentido, não é apenas cognitiva, mas estrutural, paralisando o ato e mantendo o sujeito em um estado de indecisão crônica.

O isolamento do afeto como defesa obsessiva

Freud descreve o isolamento como um mecanismo defensivo típico da neurose obsessiva. Em Inibições, Sintomas e Ansiedade, ele observa que o obsessivo consegue pensar em conteúdos traumáticos ou proibidos sem experimentar o afeto correspondente. Essa operação é distinta do recalque clássico, pois não elimina a representação, mas apenas a sua tonalidade emocional. O sujeito obsessivo pode, por exemplo, falar de morte, sexualidade ou culpa de forma aparentemente neutra, como se estivesse descrevendo um objeto distante.

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Inibição, sintoma e angústia

Sigmund Freud

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Esse isolamento cumpre uma função: proteger o eu contra a irrupção de afetos intensos que poderiam desestabilizá-lo. Contudo, o preço é alto. Ao desligar o afeto da representação, o obsessivo cria um vazio emocional que se traduz em frieza, rigidez e incapacidade de se engajar plenamente na vida. O isolamento do afeto também explica a tendência obsessiva à intelectualização e à racionalização: o sujeito prefere lidar com ideias abstratas, cálculos e raciocínios intermináveis, evitando o contato direto com a dimensão pulsional.

Autores posteriores, como Anna Freud em O Ego e os Mecanismos de Defesa (1936), reforçam essa leitura, destacando que o isolamento é uma defesa sofisticada, mas que conduz a uma esterilidade afetiva. Jacques Lacan, por sua vez, ao retomar a neurose obsessiva em seu Seminário V: As Formações do Inconsciente (1957-58), enfatiza que o isolamento do afeto é uma estratégia para manter o desejo à distância, evitando o risco de confrontar-se com a falta estrutural que o desejo implica.

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Defesas do ego: Leitura didática de seus mecanismos

Wilson Castello de Almeida

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A dúvida paralisante e a impossibilidade da decisão

A dúvida obsessiva não é simples hesitação. Trata-se de uma paralisia estrutural que impede o sujeito de decidir e agir. Freud, em Obsessões e Fobias, descreve pacientes que passam horas ou dias tentando resolver questões aparentemente banais, como escolher um caminho ou realizar uma tarefa simples. Essa dúvida não decorre de falta de informação, mas da impossibilidade de atribuir valor diferenciado às representações, já que o afeto foi isolado.

A dúvida paralisante é, portanto, o correlato clínico do isolamento do afeto. Sem afeto, não há hierarquia entre as ideias, e o sujeito permanece preso em um circuito interminável de raciocínios. Lacan interpreta essa dinâmica como uma forma de evitar o ato. O obsessivo teme o ato porque este o colocaria em relação direta com o desejo e com a castração. A dúvida, nesse sentido, é uma defesa contra o risco de se implicar subjetivamente. O obsessivo prefere adiar, calcular, revisar, em vez de se comprometer com uma escolha que o confrontaria com sua falta.

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O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente

Jacques Lacan

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Essa paralisia decisória também se manifesta nos rituais obsessivos. O sujeito realiza atos repetitivos não para concluir uma tarefa, mas para evitar a decisão. O ritual funciona como adiamento infinito, mantendo o sujeito em uma zona de segurança ilusória. Freud já havia observado que os rituais obsessivos são tentativas de neutralizar a angústia, mas acabam reforçando a prisão do sujeito em sua própria dúvida.

A articulação entre isolamento do afeto e dúvida paralisante

O isolamento do afeto e a dúvida paralisante não são mecanismos independentes, mas aspectos complementares da estrutura obsessiva. O isolamento cria o terreno para a dúvida, ao esvaziar as representações de sua carga emocional. A dúvida, por sua vez, reforça o isolamento, ao impedir que o sujeito se comprometa com qualquer decisão que poderia reintroduzir o afeto. Trata-se de um círculo vicioso que mantém o obsessivo em estado de suspensão permanente.

Do ponto de vista clínico, essa articulação explica a dificuldade do tratamento da neurose obsessiva. O paciente pode falar longamente de seus sintomas, mas sem afeto, o que dificulta a interpretação. Além disso, a dúvida paralisante se estende ao próprio processo analítico: o obsessivo questiona incessantemente o sentido das interpretações, hesita em associar livremente, e muitas vezes se refugia em raciocínios intermináveis. O analista precisa, portanto, encontrar estratégias para romper esse circuito, reintroduzindo o afeto na fala e confrontando o sujeito com sua responsabilidade no ato.

Lacan propõe que o tratamento da neurose obsessiva deve visar o deslocamento da posição subjetiva em relação ao desejo. O obsessivo precisa reconhecer que sua dúvida não é falta de informação, mas defesa contra o desejo. Ao interpretar o isolamento do afeto e a dúvida paralisante como tentativas de evitar a castração, Lacan abre caminho para uma clínica que não busca apenas reduzir sintomas, mas transformar a relação do sujeito com o ato e com o desejo.

Considerações finais: a neurose obsessiva como estrutura

A neurose obsessiva, na psicanálise, não é apenas um conjunto de sintomas, mas uma estrutura que organiza a vida psíquica do sujeito. O isolamento do afeto e a dúvida paralisante são manifestações dessa estrutura, revelando a lógica defensiva que sustenta o obsessivo. Ao desligar o afeto das representações e ao paralisar a decisão, o sujeito obsessivo evita o confronto com o desejo e com a castração, mas paga o preço de uma vida marcada pela esterilidade afetiva e pela indecisão crônica.

A psicanálise, desde Freud até Lacan, oferece ferramentas para compreender e tratar essa estrutura. O desafio clínico é romper o círculo vicioso entre isolamento e dúvida, reintroduzindo o afeto na fala e possibilitando que o sujeito se confronte com sua responsabilidade no ato. Esse processo não é simples, mas é fundamental para que o obsessivo possa sair da prisão de sua dúvida e se abrir à dimensão do desejo.

Referências Bibliográficas

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro: Imago, 1936.

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1926.

FREUD, Sigmund. Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O Homem dos Ratos). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1909.

FREUD, Sigmund. Obsessões e fobias. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1895.

GREEN, André. O discurso vivo: uma teoria psicanalítica da afasia. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1953-1954.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1957-1958.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

O que significa CLIVAGEM DO EGO na Psicanálise?

A clivagem do ego é um daqueles conceitos que parecem simples à primeira vista, “o eu dividido”, mas que, quando levados a sério, desestabilizam qualquer visão unitária e homogênea do sujeito. Em vez de um ego coerente, transparente a si mesmo, a psicanálise freudiana, sobretudo em sua fase tardia, introduz a ideia de um Eu que pode sustentar simultaneamente posições contraditórias em relação à realidade, sem que uma anule a outra. Essa coexistência paradoxal, longe de ser mero detalhe técnico, toca o núcleo da teoria da defesa, da relação com a realidade e da própria concepção de estrutura psíquica.

O termo “clivagem” (Spaltung, Ichspaltung) aparece em Freud desde cedo, em articulação com a histeria, a hipnose e a “clivagem da consciência”, mas é apenas nos textos tardios, em especial “O fetichismo” (1927), “A clivagem do eu no processo de defesa” (1938) e o “Esboço de psicanálise” (1940), que ele ganha estatuto conceitual preciso, ligado à problemática da negação (Verleugnung) e à relação do ego com a realidade. A partir daí, a clivagem do ego será retomada e reelaborada por diversos autores, como Melanie Klein, Bion, Winnicott, Green, entre outros, que deslocam o acento da psicose e do fetichismo para o campo mais amplo das neuroses, dos estados-limite e da clínica contemporânea.

Conceituação freudiana da clivagem do ego

Em “O fetichismo” (1927), Freud descreve pela primeira vez, de modo explícito, a clivagem do ego como um fenômeno em que duas atitudes psíquicas em relação à realidade coexistem no mesmo sujeito. O contexto é a recusa da castração: diante da percepção da ausência de pênis na mulher, o menino é confrontado com uma realidade que contraria uma expectativa narcísica e pulsional. A resposta não é simplesmente o recalque (Verdrängung), mas algo mais complexo: uma parte do ego reconhece a realidade da castração, enquanto outra parte a desmente (Verleugnung), mantendo a crença na existência de um pênis materno ou de um substituto fetichista.

Freud insiste no caráter paradoxal dessa situação: não se trata de uma oscilação entre crença e descrença, mas de uma coexistência simultânea de duas posições incompatíveis, que não se anulam e tampouco se integram. O fetichista “sabe” e “não sabe” ao mesmo tempo; ou melhor, uma parte do ego sabe, outra não quer saber. A clivagem do ego é, então, a solução encontrada para evitar uma ruptura mais radical do aparelho psíquico: em vez de um colapso, o ego se divide, permitindo que duas correntes psíquicas se mantenham lado a lado.

No texto “A clivagem do eu no processo de defesa” (1938), Freud retoma o problema, ampliando-o. Ele se pergunta como é possível que o ego, confrontado com uma exigência pulsional incompatível com a realidade, não sucumba à desorganização. A resposta é que o ego “se cliva”: uma parte se submete à realidade, outra se mantém fiel à exigência pulsional, sustentando a negação da realidade. A clivagem, nesse sentido, não é apenas um mecanismo de defesa entre outros, mas uma forma de articulação entre defesas distintas, em particular, entre a negação (Verleugnung) e o recalque (Verdrängung).

No “Esboço de psicanálise” (1940), Freud generaliza ainda mais a noção, sugerindo que a clivagem do ego não é exclusiva da psicose, mas pode estar presente em estados mais próximos da neurose. Ele observa que, mesmo na psicose, o ego raramente se separa inteiramente da realidade; ao contrário, mantém-se uma relação parcial com ela, ao lado de uma recusa. Isso reforça a ideia de que a clivagem é um modo de compromisso: o ego não abdica totalmente da realidade, mas também não renuncia à satisfação pulsional que a contraria.

Laplanche e Pontalis, no “Vocabulário da Psicanálise”, sublinham esse ponto: a clivagem do ego designa a coexistência, no ego, de duas atitudes em relação à realidade, uma que a reconhece, outra que a nega, sem que haja influência recíproca entre elas. Não se trata, portanto, de fragmentação caótica, mas de uma divisão organizada, ainda que paradoxal, que permite ao sujeito manter, ao mesmo tempo, um vínculo com a realidade e uma produção de desejo que a desmente.

Clivagem, Verleugnung e relação com a realidade

A clivagem do ego está intrinsecamente ligada ao mecanismo de negação (Verleugnung), tal como Freud o descreve no contexto do fetichismo e da psicose. Diferentemente do recalque, que opera sobre representações pulsionais, expulsando-as da consciência e remetendo-as ao inconsciente, a negação incide sobre a percepção da realidade: o sujeito percebe algo, mas recusa reconhecê-lo como tal. A percepção não é apagada; ela é, por assim dizer, “desautorizada”.

No caso paradigmático da castração, o menino vê a ausência de pênis na mulher, mas recusa aceitar o que vê. A percepção é registrada, mas o juízo é negado. A clivagem do ego é a forma estrutural que torna possível essa operação: uma parte do ego admite a percepção e o juízo correspondente (“a mulher não tem pênis”), outra parte os desmente (“ela tem um pênis, ou algo equivalente”). O fetiche funciona como um compromisso entre essas duas posições: é um substituto que, ao mesmo tempo, lembra e desmente a castração.

Freud distingue, assim, dois eixos:

  • Eixo da realidade: ligado à função de prova de realidade do ego, à sua capacidade de reconhecer as limitações impostas pelo mundo externo.
  • Eixo pulsional: ligado às exigências do Id, ao desejo de manter uma crença ou uma fantasia que garante certa economia de prazer e de proteção narcísica.

A clivagem do ego é o dispositivo que permite que esses dois eixos coexistam sem se anularem. Ela não é, portanto, uma simples defesa “contra” a realidade, mas uma forma de manter, simultaneamente, um vínculo com a realidade e uma zona de desmentido que preserva o investimento pulsional.

É importante diferenciar a clivagem do ego de outros fenômenos aparentados, como a fragmentação do ego ou a clivagem de objetos (splitting of the object). A fragmentação do ego, tal como descrita em certos quadros psicóticos graves, implica uma desorganização profunda da unidade do Eu, com perda da coesão e da continuidade da experiência de si. Já a clivagem do ego, no sentido freudiano, supõe uma certa organização: as duas partes clivadas mantêm uma forma de estabilidade, ainda que não se reconheçam mutuamente.

Por outro lado, a clivagem de objetos, tal como desenvolvida por Melanie Klein, refere-se à divisão do objeto em “bom” e “mau”, em função das posições esquizoparanóide e depressiva. Embora haja afinidades entre esses usos do termo “clivagem”, não se trata do mesmo conceito. Em Freud, a ênfase recai sobre a divisão do próprio ego em relação à realidade; em Klein, sobre a divisão do objeto e das imagos, como defesa contra angústias persecutórias e depressivas.

A relação com a realidade é, assim, o ponto nevrálgico da clivagem do ego. Freud insiste que, na psicose, o sujeito não rompe simplesmente com a realidade; ele a recusa em certos pontos, ao mesmo tempo em que a reconstrói segundo as exigências do desejo. A clivagem permite que uma parte do ego continue a operar de modo relativamente adaptado, enquanto outra parte se engaja em uma produção delirante ou fetichista. Essa duplicidade é o que torna a clínica tão complexa: o sujeito pode, em certos domínios, mostrar-se perfeitamente “realista”, enquanto, em outros, permanece submetido a uma negação radical.

Desenvolvimentos pós-freudianos do conceito

A partir de Freud, o conceito de clivagem do ego será retomado e transformado por diversos autores, que o deslocam para outros campos da psicopatologia e da teoria. Melanie Klein, por exemplo, faz da clivagem (splitting) um mecanismo central da posição esquizoparanóide, em que o objeto é dividido em “bom” e “mau” para lidar com angústias persecutórias intensas. Embora Klein fale sobretudo de clivagem de objetos, a consequência é também uma clivagem do ego, na medida em que o sujeito se identifica com aspectos parciais do objeto.

Bion, por sua vez, descreve modalidades de clivagem ligadas à incapacidade de metabolizar experiências emocionais. Em sua teoria do pensamento, a clivagem pode ser entendida como uma forma de expulsar elementos beta (experiências não pensadas) para o exterior, impedindo sua transformação em elementos alfa. A clivagem, nesse contexto, não é apenas um mecanismo de defesa, mas um obstáculo ao próprio processo de simbolização.

Winnicott introduz nuances importantes ao pensar a clivagem em relação ao falso self e às falhas ambientais. Em certos casos, o sujeito pode desenvolver uma organização defensiva em que uma parte do self se adapta às exigências externas, enquanto outra parte permanece encapsulada, não integrada à experiência consciente. Embora Winnicott não use sempre o termo “clivagem do ego” no sentido estrito freudiano, sua descrição de um self dividido, com áreas não comunicantes, ressoa fortemente com a problemática da Ichspaltung.

Autores como André Green retomam a clivagem em articulação com o “negativo” na psicanálise. Green enfatiza que a clivagem pode operar não apenas como divisão entre duas posições, mas como apagamento, “desinvestimento” de certas áreas da experiência psíquica. A clivagem, nesse sentido, pode estar na base de estados de vazio, de “psicose branca”, em que não há delírio manifesto, mas uma espécie de apagamento da vida psíquica.

Na tradição francesa, a distinção entre clivagem do ego, clivagem das imagos e fragmentação do ego é cuidadosamente trabalhada. A clivagem do ego é pensada como um mecanismo de defesa de tipo psicótico, que visa evitar a angústia de fragmentação e de morte. A clivagem das imagos, por sua vez, é considerada um mecanismo mais frequente em estados-limite, em que o sujeito divide as figuras de objeto em boas e más para evitar a perda do objeto e o recurso a defesas mais radicais. A fragmentação do ego, finalmente, é vista como um processo de descompensação psicótica acabada, em que a unidade do Eu se rompe.

Ferenczi, em seus estudos sobre o trauma e a identificação com o agressor, descreve formas de clivagem psíquica em que a criança, diante de um abuso, identifica-se com o agressor e introjeta sua figura, ao preço de uma perda de confiança em seus próprios sentidos. O ego, nesse contexto, pode ficar “fora de ação”, com predominância do Id e do Supereu, o que aproxima a clivagem do ego de uma resposta extrema ao trauma. Essa linha será retomada por autores que pensam a “perversão traumática” e as saídas não neuróticas para o trauma.

Clivagem, estrutura e clínica contemporânea

A clivagem do ego, tal como se consolidou na tradição psicanalítica, não pode ser reduzida a um mecanismo pontual, restrito ao fetichismo ou à psicose. Ela se tornou um operador conceitual para pensar uma série de fenômenos clínicos que escapam ao modelo clássico da neurose de transferência, centrado no recalque e na formação de compromisso.

Na clínica dos estados-limite, por exemplo, é frequente observar sujeitos que mantêm, lado a lado, representações e atitudes contraditórias, sem que isso produza conflito neurótico no sentido estrito. Em vez de conflito entre desejo e defesa, há uma espécie de coexistência de registros não integrados: o sujeito pode, em um momento, reconhecer a dependência de um objeto, e, em outro, negar radicalmente essa dependência, sem que uma posição seja elaborada à luz da outra. A clivagem do ego, aqui, funciona como defesa contra angústias de desintegração e de perda de objeto, mas ao preço de uma dificuldade de simbolização e de historicização.

Na clínica da perversão, a clivagem do ego continua a ser um conceito central. O fetichista, por exemplo, pode levar uma vida aparentemente “normal” em muitos aspectos, mantendo um vínculo com a realidade e com as normas sociais, enquanto, em outro registro, permanece submetido à lógica fetichista, que desmente a castração e organiza a sexualidade em torno de um objeto parcial. A clivagem permite que essas duas correntes coexistam: uma parte do ego sabe que o fetiche é um substituto, outra parte o trata como condição absoluta da excitação sexual.

Na psicose, a clivagem do ego se articula com outros mecanismos, como a rejeição (Verwerfung) e a projeção. Em certos quadros, é possível observar que o sujeito mantém uma relação relativamente preservada com a realidade em alguns domínios, enquanto, em outros, está submetido a uma construção delirante. A clivagem do ego, nesse caso, é o que permite que o sujeito não se desorganize por completo, mas também o que impede uma integração mais ampla da experiência.

A clínica contemporânea, marcada por quadros que não se encaixam facilmente nas categorias clássicas de neurose e psicose, tem levado muitos autores a pensar a clivagem do ego como um mecanismo estruturalmente presente em diversas configurações subjetivas. Em vez de perguntar apenas “há ou não há clivagem?”, a questão passa a ser: “como a clivagem opera neste sujeito?”, “entre quais registros ela se estabelece?”, “que tipo de compromisso ela sustenta entre realidade e desejo?”.

Do ponto de vista técnico, isso implica uma atenção particular às contradições não elaboradas no discurso do analisando, às zonas de não comunicação entre diferentes registros de experiência, às “ilhas” de realidade psíquica que não se articulam entre si. A interpretação, nesse contexto, não visa apenas levantar o recalque, mas, muitas vezes, favorecer uma certa comunicação entre partes clivadas do ego, sem precipitar uma integração forçada que poderia ser vivida como ameaçadora.

A clivagem do ego, portanto, não é apenas um conceito descritivo, mas um operador clínico que orienta a escuta e a intervenção. Ela convida o analista a considerar que, em um mesmo sujeito, podem coexistir, de modo relativamente estável, posições incompatíveis em relação à realidade, ao desejo, ao objeto. Em vez de buscar uma unidade imaginária do Eu, a psicanálise, ao levar a sério a Ichspaltung, assume a heterogeneidade constitutiva do sujeito e a complexidade de suas defesas.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund (1893-1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2. 

FREUD, Sigmund (1927). Fetichismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, pp. 175-185. 

FREUD, Sigmund ([1938] 1940). A divisão do ego no processo de defesa. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1975. v. 23, pp. 309-312. 

BION, Wilfred. R. (1962). Aprender da Experiência. São Paulo: Blucher, 2021.

GREEN, André. (1983). O trabalho do negativo. Rio Grande do Sul: Artmed, 2009.

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O que significa NEUROSE para a Psicanálise?

Para Sigmund Freud e seus sucessores, a neurose não é uma falha orgânica, mas uma solução de compromisso: uma tentativa do psiquismo de lidar com conflitos internos insolúveis entre os desejos pulsionais e as exigências da realidade ou da moralidade. É, em essência, o modo como o sujeito se organiza frente à castração e ao desejo.

A Formação do Sintoma e o Conflito Psíquico

A pedra angular para entender a neurose reside na dinâmica entre as instâncias psíquicas. Em sua obra A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud já delineava o funcionamento do aparelho psíquico, mas é em O Ego e o Id (1923) que a estrutura do conflito neurótico se torna mais nítida. A neurose nasce de um antagonismo entre o Id (reservatório das pulsões), o Ego (o mediador com a realidade) e o Superego (a herança do Complexo de Édipo e das normas sociais).

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O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos

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O processo tem início com o recalque (Verdrängung). Quando uma representação pulsional, geralmente de natureza sexual ou agressiva, é considerada incompatível com as exigências do Ego ou do Superego, ela é expulsa da consciência e enviada ao Inconsciente. No entanto, o recalque nunca é plenamente bem-sucedido. O material recalcado mantém sua carga energética (libido) e busca constantemente o retorno à consciência. O sintoma neurótico surge, então, como um "substituto" dessa satisfação pulsional impedida. Ele é uma formação de compromisso: satisfaz parcialmente o desejo de forma cifrada (para que o Ego não o reconheça e sofra) e, ao mesmo tempo, pune o sujeito através do sofrimento, satisfazendo as exigências do Superego.

Nesse sentido, o sintoma não é um erro do sistema, mas uma produção criativa do inconsciente. Como Freud argumenta em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), o sintoma é um sinal de que o Ego está tentando se defender de uma angústia que ele percebe como um perigo iminente. A neurose é, portanto, o resultado de uma defesa que falhou em sua totalidade, mas que logrou êxito em transformar o conflito em uma representação simbólica penosa.

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Inibição, sintoma e angústia

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O Complexo de Édipo e a Estruturação do Desejo

Não se pode falar em neurose sem abordar o Complexo de Édipo, que Freud descreve como o "complexo nuclear das neuroses". Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), estabelece-se que a sexualidade humana não nasce pronta, mas se desenvolve através de fases (oral, anal, fálica). É na fase fálica que o drama edípico se desenrola, servindo como o momento em que o sujeito se posiciona diante da Lei e da alteridade.

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Três ensaios sobre a teoria da sexualidade

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A neurose é, fundamentalmente, uma dificuldade de ultrapassar ou resolver o impasse edípico. O neurótico é aquele que permanece fixado aos objetos primordiais (os pais) e que não consegue processar plenamente a ameaça de castração. Para a psicanálise, a castração não é uma mutilação física, mas uma operação simbólica que impõe um limite ao gozo narcísico. Ao aceitar que não se pode "ser tudo" para a mãe e que o pai (enquanto função) representa a lei que proíbe o incesto, o sujeito entra na ordem da cultura e do desejo.

Na neurose, essa aceitação é parcial ou ambivalente. O sujeito "sabe" da castração, mas age como se não soubesse, ou sofre excessivamente por ela. O desejo do neurótico é sempre um desejo insatisfeito ou adiado, pois ele está preso na tentativa de responder ao que o Outro deseja dele. Freud demonstra que a identificação com as figuras parentais durante o Édipo forma o Superego, que no neurótico atua com uma crueldade desmedida, gerando o sentimento de culpa inconsciente, combustível essencial para a manutenção do sofrimento neurótico.

As Variantes Clínicas: Histeria e Neurose Obsessiva

Dentro da estrutura neurótica, a psicanálise distingue principalmente a histeria e a neurose obsessiva, cada uma com seu "dialeto" particular de sofrimento. A histeria, amplamente discutida nos Estudos sobre a Histeria (1895), escritos com Josef Breuer, caracteriza-se pela conversão. Aqui, o conflito psíquico é transposto para o corpo. O corpo histérico é um corpo simbólico, que "fala" através de paralisias, cegueiras ou dores que não possuem base anatômica, mas que seguem a lógica das representações mentais. O ponto central da histeria é a questão sobre o feminino e o desejo do Outro; a histérica se pergunta: "O que é ser uma mulher?".

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Por outro lado, a neurose obsessiva, detalhadamente analisada por Freud no caso clínico conhecido como O Homem dos Ratos (1909), manifesta-se no plano do pensamento. O conflito é deslocado para ideias obsessivas, rituais compulsivos e uma dúvida paralisante. Enquanto o histérico converte a angústia em sintoma corporal, o obsessivo tenta isolar o afeto da ideia. Ele se engaja em rituais mentais ou físicos para "anular" pensamentos "maus", revelando uma luta constante contra impulsos agressivos e uma submissão masoquista ao Superego.

Jacques Lacan, em seus seminários, especialmente no Seminário 3: As Psicoses e no Seminário 5: As Formações do Inconsciente, refinou essas distinções. Para Lacan, a neurose é definida pela posição do sujeito em relação ao Grande Outro (o campo da linguagem e das leis sociais). Na neurose, o sujeito utiliza o sintoma como uma forma de sustentar sua pergunta existencial, mantendo o desejo vivo através da falta. A diferença clínica reside em como o sujeito se protege do encontro com o Real, aquilo que é impossível de simbolizar.

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Angústia, Transferência e a Direção do Tratamento

A angústia é o afeto que não engana e é o motor que muitas vezes leva o sujeito à análise. Em Inibição, Sintoma e Angústia, Freud altera sua teoria inicial, propondo que a angústia não é apenas libido represada, mas um sinal de alerta do Ego diante de uma ameaça de perda de objeto ou castração. O neurótico sofre de uma angústia que ele não consegue nomear, e o sintoma surge justamente como uma tentativa de ligar essa angústia a algo concreto, dando-lhe uma "morada".

O tratamento da neurose na psicanálise não visa a "cura" no sentido de um retorno a uma normalidade estatística, mas sim a uma reorganização da economia libidinal do sujeito. Isso ocorre através da transferência, conceito que Freud explorou profundamente em A Dinâmica da Transferência (1912). Na análise, o paciente projeta no analista figuras de sua história infantil, permitindo que o conflito neurótico seja reatualizado e trabalhado no "aqui e agora" da sessão. É o que Freud chamou de "neurose de transferência".

Ao falar, o neurótico começa a perceber a lógica de seus sintomas e o modo como ele se repete em suas escolhas amorosas e profissionais. A análise busca desvelar o fantasma inconsciente que sustenta a neurose. O objetivo é que o sujeito possa passar do "sofrimento neurótico", que é paralisante e repetitivo, para a "infelicidade comum" ou, preferencialmente, para uma posição onde ele possa responsabilizar-se pelo seu desejo e encontrar formas de gozo que não passem necessariamente pelo sacrifício de si mesmo. Como Lacan pontuou, trata-se de levar o sujeito a confrontar o vazio deixado pela castração sem recuar diante dele.

A Neurose na Contemporaneidade e o Mal-Estar na Cultura

Para concluir a explanação sobre a neurose, é fundamental observar sua dimensão social, discutida por Freud em O Mal-Estar na Civilização (1930). A tese central é que a cultura exige a renúncia pulsional. Para vivermos em sociedade, precisamos recalcar nossos impulsos agressivos e sexuais primários. Esse recalque social é o solo fértil para a neurose. Portanto, a neurose é, em certa medida, o preço que pagamos pela civilização.

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No entanto, as manifestações da neurose mudam conforme o contexto histórico. Se na época de Freud a repressão sexual era o grande motor das histerias, hoje vivemos em uma sociedade que impera o "imperativo de gozo". O Superego contemporâneo não diz apenas "não faça", mas também "aproveite, consuma, seja feliz a qualquer custo". Essa mudança de paradigma cria novas formas de sofrimento neurótico, muitas vezes mascaradas sob rótulos modernos como depressão, ansiedade generalizada ou síndrome de burnout.

Ainda assim, a estrutura subjacente permanece a mesma: o sujeito em conflito com sua própria falta e com a impossibilidade de satisfação total. A psicanálise mantém sua relevância ao oferecer um espaço onde o sujeito não é apenas um conjunto de sintomas a serem eliminados por medicação, mas um ser de linguagem que possui uma verdade singular escondida em seus tropeços, esquecimentos e sofrimentos. A neurose, podemos assim afirmar, é o testemunho da humanidade do sujeito, de sua capacidade de simbolizar o que lhe dói e de sua busca incessante por um sentido em meio ao caos pulsional.

Referências Bibliográficas

BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1895). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 4 e 5. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 7. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O homem dos ratos) (1909). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 10. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id (1923). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

DOR, Joël. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus, 1991.

O que significa CONTEÚDO LATENTE DO SONHO para a Psicanálise?

Para Sigmund Freud, o sonho não é um fenômeno puramente somático ou um subproduto aleatório da atividade cerebral durante o sono, mas sim um ato psíquico pleno de sentido, uma formação do inconsciente que obedece a leis estruturais rigorosas. A distinção entre o que o sonhador recorda ao despertar, o conteúdo manifesto, e o significado oculto que subjaz a essa narrativa, o conteúdo latente, é o que permite a transição de uma observação superficial para uma investigação profunda da subjetividade humana. O conteúdo latente não é imediatamente acessível à consciência; ele é o conjunto de pensamentos, desejos e restos diurnos que foram submetidos a uma complexa transformação para que pudessem figurar na cena onírica.

A Natureza dos Pensamentos Oníricos Latentes e o Desejo Inconsciente

No cerne do conteúdo latente reside o desejo inconsciente. Para a psicanálise, o sonho é, invariavelmente, a realização (disfarçada) de um desejo reprimido. No entanto, o conteúdo latente não é composto exclusivamente por esse desejo em seu estado bruto. Ele é uma amálgama complexa que inclui os chamados "restos diurnos", impressões, preocupações ou percepções do dia anterior que permaneceram "não resolvidas", e processos de pensamento intelectuais que, embora lógicos, foram atraídos para o sistema inconsciente. O conteúdo latente é, portanto, o "texto original" que o trabalho do sonho se encarrega de traduzir em imagens.

A força motriz que transforma esses pensamentos latentes em um sonho manifesto é sempre um desejo infantil recalcado. Freud postula que os restos diurnos, por si só, não possuem energia suficiente para criar um sonho; eles precisam se associar a uma moção pulsional antiga, geralmente oriunda da infância, que empresta sua carga libidinal para que o pensamento consiga romper a barreira do sono. Assim, o conteúdo latente é o lugar onde a biografia do sujeito se encontra com sua economia pulsional. É um material denso, frequentemente contraditório e carregado de afetos que a consciência considera inaceitáveis. Enquanto o conteúdo manifesto é uma narrativa linear (ou quase isso), o conteúdo latente é um nó de associações que se ramifica em múltiplas direções na psique do indivíduo.

A importância de rigorizar o conceito de conteúdo latente reside no fato de que ele não é uma "tradução literal" reversa. Não se chega ao conteúdo latente apenas substituindo símbolos por significados fixos, como propunham as antigas chaves dos sonhos. O conteúdo latente é singular a cada sujeito. Ele é construído através das cadeias associativas que emergem durante o processo de análise. Quando o analisando associa livremente sobre os elementos do seu sonho, ele está, na verdade, percorrendo o caminho inverso do trabalho do sonho, desfazendo as condensações e deslocamentos para reencontrar as trilhas de pensamento que compõem o material latente.

O Trabalho do Sonho e a Deformação Onírica

A relação entre o conteúdo latente e o conteúdo manifesto é mediada pelo que Freud denominou "Trabalho do Sonho" (Traumarbeit). É crucial compreender que o conteúdo latente não é o sonho em si, mas o material que o precede. O trabalho do sonho não "cria" pensamentos, ele apenas os transforma. Essa transformação ocorre sob a égide da censura psíquica, uma instância que impede que os desejos inconscientes cheguem à consciência em sua forma nua e crua, o que provocaria o despertar pelo angústia. Portanto, o conteúdo latente precisa passar por uma "deformação onírica" (Traumentstellung) para se tornar manifesto.

Os mecanismos principais dessa deformação são a condensação e o deslocamento. Na condensação, múltiplos elementos do conteúdo latente são reunidos em uma única representação no conteúdo manifesto. Um único personagem no sonho pode carregar traços de várias pessoas reais, ou uma palavra pode sintetizar diversos conceitos complexos. Isso torna o conteúdo manifesto muito mais curto e lacônico do que a riqueza do conteúdo latente. No deslocamento, a carga afetiva de uma ideia importante é transferida para uma ideia insignificante, fazendo com que o que é central nos pensamentos latentes apareça como um detalhe trivial no sonho, e vice-versa.

Além desses, o trabalho do sonho utiliza a figuração (ou consideração pela representabilidade), que consiste na transformação de pensamentos abstratos em imagens visuais, e a elaboração secundária, que tenta dar uma fachada de coerência lógica ao sonho manifesto antes que ele chegue à consciência. Compreender o conteúdo latente exige, portanto, que o analista saiba identificar essas operações. O conteúdo latente é a matéria-prima bruta; o conteúdo manifesto é o produto final manufaturado e censurado. A psicanálise foca no "processamento" desse material, reconhecendo que o conteúdo latente é onde reside a verdade subjetiva do sujeito, protegida por camadas de disfarces.

O Papel da Linguagem e do Simbolismo na Latência

Embora o conteúdo latente seja predominantemente composto por pensamentos verbais no sistema pré-consciente, sua manifestação no sonho recorre a uma linguagem arcaica e pictográfica. Freud argumenta que o sonho regride da palavra à imagem. No entanto, essa imagem não é um símbolo estático. Um erro comum é confundir o conteúdo latente com uma interpretação simbólica universal. Embora existam símbolos oníricos que possuem significados recorrentes em uma cultura (como o uso de objetos longos para representar o falo), o conteúdo latente é, antes de tudo, determinado pela história pessoal do sonhador.

A linguagem do conteúdo latente é a linguagem do Inconsciente: ela não conhece a contradição, não conhece o tempo e não conhece o "não". No conteúdo latente, dois desejos opostos podem coexistir sem conflito lógico. É apenas na tentativa de se tornar manifesto que esses conflitos geram as lacunas, as bizarrias e os absurdos que observamos no relato do sonho. A tarefa analítica de descobrir o conteúdo latente é comparável à decifração de um hieroglifo ou de um rébus, onde as imagens não devem ser lidas pelo seu valor estético, mas pela sua função gramatical e associativa dentro da gramática do desejo do sujeito.

A terminologia "latente" implica algo que está escondido, mas que exerce pressão. O conteúdo latente não é passivo; ele é dinamicamente ativo. Ele busca expressão constantemente. O sonho é apenas uma das vias (a via regia) de acesso a esse material. Outras formações do inconsciente, como atos falhos, chistes e sintomas neuróticos, também bebem desse mesmo manancial de pensamentos latentes. O que diferencia o sonho é o estado de suspensão da motilidade (o sono), que permite que essa pressão se transforme em uma experiência alucinatória visual em vez de uma ação no mundo exterior.

A Clínica e a Reconstrução do Conteúdo Latente

Na prática clínica, o conteúdo latente nunca é acessado de forma direta ou total. Ele é uma reconstrução teórica baseada no relato do paciente e em suas associações livres. O analista não "adivinha" o conteúdo latente; ele ajuda o paciente a tecer as conexões que foram desfeitas pelo trabalho do sonho. O critério de verdade para o conteúdo latente não é uma correspondência histórica objetiva, mas a eficácia da interpretação em produzir um movimento na economia psíquica do sujeito, muitas vezes resultando no alívio de sintomas ou em um novo entendimento sobre seus impasses existenciais.

O limite dessa exploração é o que Freud chamou de "umbigo do sonho" (Traumnabel). Em todo sonho, há um ponto em que as associações se tornam tão densas e obscuras que não podem mais ser desenredadas. Esse é o ponto onde o conteúdo latente mergulha no desconhecido, tocando o real da pulsão que escapa à significação pela linguagem. Aceitar a existência do conteúdo latente é reconhecer que o sujeito não é senhor em sua própria casa; há um "outro" texto sendo escrito abaixo da superfície da consciência, um texto que dita os termos de nossos desejos e angústias.

A investigação do conteúdo latente também revela a dimensão ética da psicanálise. Ao confrontar o sonhador com o que é latente, o analista o confronta com sua própria alteridade interna. O conteúdo latente revela que o que consideramos "estranho" no sonho é, na verdade, o que nos é mais íntimo (o infamiliar ou unheimlich). Portanto, o estudo do conteúdo latente não é apenas um exercício intelectual de interpretação, mas um processo de subjetivação, onde o indivíduo passa a se responsabilizar por esses pensamentos que, embora latentes, são constitutivos de quem ele é.

Referências Bibliográficas

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

DOR, Joël. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Rio de Janeiro: Taurus, 1989. 

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LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

NASIO, Juan-David. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

O que significa RESISTÊNCIA para a Psicanálise?

Longe de ser um mero obstáculo ao tratamento, a resistência é a manifestação clínica de que o processo terapêutico tocou em pontos nevrálgicos do psiquismo do sujeito. Para compreender o que ela significa, é preciso abandonar a ideia de que o paciente "não quer melhorar" de forma deliberada; trata-se, na verdade, de uma força automática e inconsciente que visa manter o status quo de um equilíbrio psíquico, ainda que esse equilíbrio seja sustentado pelo sofrimento neurótico.

A Gênese da Resistência e sua Relação com o Recalque

A descoberta da resistência por Sigmund Freud ocorreu quase simultaneamente ao nascimento da própria psicanálise. Nos primórdios, durante a fase da técnica hipnótica e do método catártico, Freud percebeu que, ao se aproximar das lembranças traumáticas dos pacientes, encontrava uma força que impedia a emersão desses conteúdos à consciência. Em Estudos sobre a Histeria (1895), obra escrita em colaboração com Josef Breuer, Freud postula que a resistência é a expressão clínica daquilo que, na teoria, ele denomina recalque (Verdrängung).

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Estudos sobre a histeria

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O recalque é o mecanismo de defesa pelo qual o Eu afasta da consciência representações (ideias, imagens, memórias) que são incompatíveis com as exigências éticas, estéticas ou morais do sujeito. No entanto, o material recalcado não é destruído; ele permanece ativo no Inconsciente, exercendo uma pressão constante para retornar à consciência. Quando o analista utiliza a Associação Livre para traçar o caminho de volta a essas origens, a mesma força que outrora expulsou a ideia do campo consciente agora se manifesta como um bloqueio ao trabalho analítico.

Portanto, a resistência é o "recalque em ação" durante a sessão. Ela prova que a neurose não é um vácuo de informação, mas um conflito dinâmico de forças. Como Freud aponta em A Interpretação dos Sonhos (1900), o censor que atua na elaboração do sonho é o mesmo que produz a resistência no divã. A resistência protege o indivíduo do desprazer que a revelação do desejo inconsciente traria, mantendo a "paz" psíquica à custa do sintoma.

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A interpretação dos sonhos

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A Dinâmica das Cinco Formas de Resistência

Com o avanço de sua obra, especialmente em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud sistematizou a resistência, dividindo-a em cinco fontes distintas, provenientes das diferentes instâncias do aparelho psíquico. Essa distinção é crucial para o rigor técnico, pois permite ao analista identificar de onde parte a oposição ao tratamento.

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O futuro de uma ilusão e outros textos

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As três primeiras fontes originam-se no Eu (Ego):

  1. Resistência de Recalque: É a necessidade de manter as defesas contra as representações pulsionais.

  2. Resistência de Transferência: Ocorre quando o paciente reatualiza conflitos infantis na figura do analista, usando a relação presente para evitar a recordação do passado.

  3. Ganho Secundário da Doença: O Eu se apega ao sintoma porque ele oferece algum tipo de compensação ou facilitação na vida externa (como atenção ou fuga de responsabilidades).

A quarta fonte é a Resistência do Isso (Id), que Freud chama de "necessidade de elaboração" (Durcharbeitung). O Isso resiste à mudança devido à inércia psíquica e à viscosidade da libido. Mesmo após o Eu ter aceitado conscientemente uma interpretação, o Inconsciente continua a repetir os mesmos padrões de descarga pulsional, exigindo um tempo prolongado de trabalho analítico para que os caminhos associativos sejam efetivamente alterados.

Finalmente, a quinta fonte é a Resistência do Supereu (Superego). Esta é, talvez, a mais difícil de manejar, pois manifesta-se como um sentimento de culpa inconsciente e uma necessidade de punição. Aqui, o paciente não quer melhorar porque o sofrimento do sintoma satisfaz a exigência de punição de um Supereu tirânico. Em casos graves, isso se traduz na Reação Terapêutica Negativa, onde cada progresso na análise é seguido por uma piora deliberada do estado do paciente.

A Resistência de Transferência e o Atuar

Um dos momentos mais críticos e, paradoxalmente, mais produtivos da análise é quando a resistência assume a forma de Transferência. Em seu artigo técnico Recordar, Repetir e Elaborar (1914), Freud explica que o paciente, em vez de recordar o que foi recalcado, "atua" (acting out) o conflito através de suas ações e sentimentos em relação ao analista.

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Fundamentos da clínica psicanalítica

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A resistência de transferência transforma o analista em uma figura do passado (pai, mãe, rival). O paciente pode tornar-se excessivamente dócil, apaixonado ou hostil. Nesses momentos, o fluxo de associações livres costuma ser interrompido. O silêncio do paciente é, frequentemente, o signo mais claro de que uma resistência de transferência está em jogo, ele parou de falar porque está vivenciando algo intenso em relação à pessoa do terapeuta que não consegue verbalizar.

É fundamental compreender que a transferência não é um erro do processo, mas o terreno onde a batalha da cura deve ser travada. A resistência faz com que o passado seja vivido como presente. O desafio técnico consiste em transformar esse "atuar" em "recordar". Ao manejar a resistência de transferência, o analista ajuda o paciente a perceber que seus sentimentos atuais são, na verdade, repetições de clichês psíquicos antigos. Sem a análise da resistência, a psicanálise se tornaria apenas uma sugestão intelectual, incapaz de promover uma mudança estrutural no sujeito.

O Manejo Técnico: Da Interpretação à Elaboração

O tratamento da resistência evoluiu drasticamente ao longo da história da psicanálise. Inicialmente, Freud acreditava que bastava comunicar ao paciente o significado de seus sintomas (dar o "nome" ao recalcado) para que a cura ocorresse. Contudo, ele logo percebeu que o conhecimento intelectual não é suficiente para dissolver a resistência.

A regra de ouro passou a ser: a análise deve começar por onde o paciente apresenta sua maior resistência. Em A Dinâmica da Transferência (1912), fica claro que o analista não deve lutar contra o paciente, mas ajudá-lo a reconhecer as forças que o impedem de falar. Interpretar a resistência antes de interpretar o conteúdo recalcado é um princípio técnico basilar. Se o analista interpreta um conteúdo profundo enquanto a resistência do Eu está alta, o paciente apenas negará a interpretação ou a aceitará de forma puramente intelectual, sem efeito terapêutico.

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A Transferência

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A Elaboração (Durcharbeitung) é o processo que se segue à interpretação da resistência. É um trabalho de "formiguinha", onde o sujeito deve confrontar repetidamente suas resistências em diversos contextos da vida. É através da elaboração que a resistência do Isso e do Supereu é gradualmente vencida. É um período de luto e renúncia: o sujeito precisa abrir mão do prazer (ainda que doloroso) contido no sintoma em favor de uma nova organização subjetiva. O rigor terminológico aqui nos lembra que a análise não é um insight súbito, mas um processo laborioso de superação das forças opostas à mudança.

A Resistência como Ferramenta Diagnóstica e Ética

Por fim, é necessário entender que a resistência diz algo sobre a singularidade do sujeito. Cada paciente resiste à sua própria maneira, e a forma da resistência revela a estrutura de sua defesa. Na clínica lacaniana, por exemplo, Jacques Lacan subverteu parte dessa discussão ao afirmar, em seus primeiros seminários (como o Seminário 2), que "não há resistência do paciente, há apenas resistência do analista".

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O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise

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Embora pareça uma crítica a Freud, Lacan ressalta que a resistência muitas vezes é alimentada quando o analista tenta forçar um saber ou se coloca no lugar de um "mestre" que sabe o que é melhor para o sujeito. Quando o analista insiste em uma direção que o paciente não pode seguir, ele cria uma barreira. Assim, a resistência torna-se um sinalizador ético: ela indica que o analista deve dar um passo atrás, renunciar ao seu desejo de curar (furor sanandi) e escutar o que o silêncio ou a interrupção do paciente está tentando anunciar.

A resistência, portanto, não deve ser vista como um sinal de fracasso. Pelo contrário, ela é a prova de que o tratamento é real. Onde há fumaça (resistência), há fogo (desejo inconsciente). Ela é o material de trabalho por excelência. Ao atravessar suas resistências, o sujeito não apenas se livra de um sintoma, mas adquire uma nova posição diante da própria vida, reconhecendo as leis que regem seu Inconsciente.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund (1893-1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2.

FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação dos Sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4

FREUD, Sigmund (1912). A Dinâmica da Transferência. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4, pp. 133-143.

FREUD, Sigmund (1914). Recordar, Repetir e Elaborar (Novas Recomendações sobre a Técnica da Psicanálise II). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 12, pp. 193-203.

FREUD, Sigmund (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 20, pp. 107-207.

LACAN, J. (1954-1955). O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. (2001). Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E.; PLON, M. (1998). Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.