03/10/2026

O que significa Lugar fictício na Teoria da Literatura?

Trata-se de espaços inventados pelo autor, que não existem na realidade empírica, mas que ganham consistência, verossimilhança e densidade simbólica dentro da obra. Não se tratam de mero cenários: eles servem como extensões da narrativa, como projeções de valores culturais, sociais e psicológicos, e muitas vezes se tornam personagens em si mesmos.

Um dos exemplos mais célebres é Macondo, criado por Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão. Macondo não é apenas uma vila fictícia na Colômbia; é um espaço mítico que condensa a história da América Latina, com suas contradições, violências, esperanças e desilusões. A vila nasce do nada, floresce, entra em decadência e finalmente desaparece, refletindo o ciclo da própria história latino-americana. O lugar fictício aqui não é um detalhe, mas o eixo da narrativa: sem Macondo, a saga da família Buendía não teria a mesma força simbólica.

Outro exemplo notável é Yoknapatawpha County, criado por William Faulkner. Esse condado fictício do sul dos Estados Unidos é palco de quase toda a sua obra, funcionando como um microcosmo da sociedade sulista, com suas tensões raciais, tradições aristocráticas decadentes e dramas familiares. Faulkner constrói um espaço tão detalhado que chega a desenhar mapas, dando ao leitor a sensação de que Yoknapatawpha existe de fato. O lugar fictício, nesse caso, é uma estratégia para universalizar questões locais, transformando o sul dos EUA em metáfora da condição humana.

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Na literatura brasileira, temos exemplos igualmente marcantes. José J. Veiga, em A casca da serpente, cria uma cidade fictícia que se torna palco de estranhos acontecimentos, explorando o absurdo e o fantástico como forma de crítica social. Outro caso é o de Guimarães Rosa, que, embora se inspire em geografias reais do sertão mineiro, constrói um sertão literário que transcende o espaço físico. Em Grande sertão: veredas, o sertão é simultaneamente real e imaginário, um lugar de travessia existencial, onde Riobaldo vive sua saga de amor, guerra e reflexão metafísica. O sertão rosiano é um espaço simbólico, que ultrapassa a geografia para se tornar uma metáfora da vida.

Os lugares fictícios também podem assumir formas mais alegóricas. Em A República, de Platão, encontramos a descrição da cidade ideal, que não existe, mas serve como modelo filosófico. Da mesma forma, em Utopia, de Thomas More, a ilha descrita é um espaço inventado para discutir a organização política e social. Esses lugares não são apenas cenários narrativos, mas instrumentos de reflexão crítica sobre a realidade.

A literatura fantástica e de ficção científica explora intensamente os lugares fictícios. Pensemos em Terra do Nunca, de J. M. Barrie, onde Peter Pan vive aventuras eternas. Esse espaço é a materialização do desejo de escapar da maturidade e permanecer na infância. Ou ainda em Gotham City, nos quadrinhos do Batman, que, embora inspirada em Nova Iorque, é uma cidade fictícia que concentra os dilemas da modernidade urbana: crime, corrupção, vigilância e esperança. Em 1984, de George Orwell, temos a Oceânia, um lugar fictício que representa o totalitarismo extremo, funcionando como alerta político e social.

O lugar fictício, portanto, cumpre múltiplas funções. Ele pode ser:

  • Um reflexo da realidade, como Macondo ou Yoknapatawpha.

  • Uma metáfora existencial, como o sertão de Guimarães Rosa.

  • Um espaço alegórico, como Utopia ou Oceânia.

  • Um território do imaginário, como Terra do Nunca.

O que une todos esses exemplos é o fato de que o lugar fictício não é apenas inventado: ele é construído com lógica interna, coerência narrativa e densidade simbólica. O leitor, ao adentrar esses espaços, aceita a suspensão da descrença e passa a habitar mundos que, embora inexistentes, se tornam reais na experiência da leitura.

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Além disso, os lugares fictícios dialogam com a memória coletiva e individual. Eles podem ser inspirados em espaços reais, mas transformados pela imaginação. Guimarães Rosa, por exemplo, conhecia profundamente o sertão mineiro, mas o reinventou literariamente. García Márquez se inspirou em sua cidade natal, Aracataca, para criar Macondo. Faulkner se baseou em Lafayette County, no Mississippi, para inventar Yoknapatawpha. A ficção, nesse sentido, não nega a realidade, mas a transfigura.

O lugar fictício é estudado pela crítica literária como parte da construção do espaço narrativo. Autores como Mikhail Bakhtin, ao falar do cronotopo, destacam a relação entre tempo e espaço na literatura. O lugar fictício é um cronotopo específico, que articula dimensões temporais e espaciais em função da narrativa. Gaston Bachelard, em A poética do espaço, também contribui para pensar como os espaços imaginários se relacionam com a experiência humana. Michel Foucault, ao propor o conceito de heterotopia, oferece outra chave de leitura: os lugares fictícios podem ser vistos como heterotopias, espaços outros, que revelam e questionam a ordem social.

Referências Bibliográficas

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FAULKNER, William. O som e a fúria. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: Ditos e escritos. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, vol. 4.

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eric Nepomuceno. 129. ed. Rio de Janeiro: Record, 1977.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 22. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

ORWELL, George. 1984. Tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

PLATÃO. A República. Tradução de Fábio Meneses Santos. Jandira–SP: Principis, 2021.

VEIGA, José J. A Casca da Serpente. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

Gigantomachia Dialetheia: Revista Das Questões abre chamada para dossiê sobre o ente contraditório e a filosofia do paradoxo

A Revista Das Questões lançou uma nova chamada para submissões voltada a explorar um dos temas mais desafiadores e persistentes da história do pensamento ocidental: a contradição e o paradoxo na filosofia. Organizado pelos editores Gabriel Azevedo Cruz, Aleph Cedrim Barbalho e Gabriel Loureiro, o dossiê intitulado Gigantomachia Dialetheia: O Problema do Ente Contraditório convoca pesquisadores de diferentes correntes teóricas para debater como a filosofia tem lidado tradicionalmente com aquilo que muitas vezes encarou como seu maior oponente.

Ao longo da história, desde as argumentações críticas de Górgias e Sócrates até as estratégias céticas, kantianas e as reviravoltas realistas do século XX, o pensamento ocidental tem sido marcado por uma perene tentativa de escapar da contradição para preservar a coerência harmônica dos sistemas ontológicos e epistemológicos. No entanto, o edital aponta que esses espectros desviantes continuam reaparecendo e colapsando sistemas baseados na consonância interna, figurando como o grande fantasma que assombra a produção metafísica.

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Diante desse cenário, a proposta do dossiê é reunir investigações de origens múltiplas que ofereçam maneiras produtivas de incluir itens inconvenientes como o paradoxo e a contradição dentro de sistemas lógicos, ontológicos, metafísicos e epistemológicos. Busca-se, em suma, uma filosofia voltada para essa inimizade interna, compreendendo a Gigantomachia Dialetheia como um vasto campo de disputas entre posturas robustas que tentam solucionar o mais difícil problema do filosofar.

A chamada está aberta para o envio de artigos, ensaios, entrevistas, resenhas e traduções. Podem participar filósofos da paraconsistência, dialeteístas, dialéticos, céticos, pensadores da paradoxico-metafísica, teóricos da espectralidade, deleuzeanos, neohegelianos, metafísicos românticos e paradoxólogos em geral. Os interessados devem enviar suas contribuições até o dia 31 de dezembro de 2026.

O que significa Zona Erógena para a Psicanálise?

Quando Sigmund Freud introduziu o conceito de zona erógena no início do século vinte, ele revolucionou a clínica dos adoecimentos psíquicos e subverteu a própria ideia de instinto, isso porque, para a psicanálise, o ser humano não é guiado majoritariamente por uma sexualidade instintual voltada à reprodução, como ocorre com a maioria dos animais, mas sim por uma pulsão que se constrói e se organiza a partir de marcas corporais e relacionais da cada indivíduo. Nesse contexto, a zona erógena surge não como uma região anatômica pré-determinada para o prazer genital, mas como qualquer parte da pele ou das mucosas capaz de se tornar ponto de referência de uma excitação de qualidade sexual através de estímulos adequados.

A origem desse conceito está ligada à obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, publicada em 1905, na qual Freud rompe com a visão clássica que reduzia o sexual ao genital e ao adulto. A zona erógena é, para o fundador da psicanálise, um local do corpo onde a pulsão obtém satisfação. É fundamental distinguir a pulsão, que é um conceito limite entre o psíquico e o somático, do instinto biológico. Enquanto o instinto possui um objeto fixo e um fim pré-determinado pela natureza, a pulsão caracteriza-se pela sua plasticidade, variabilidade de objetos e pela busca incessante de descarga de tensão. A fonte da pulsão reside no próprio corpo, mais especificamente nas zonas erógenas, que funcionam como portais de captação e emissão de energia psíquica.

O processo de erogenização de uma região do corpo ocorre muito cedo na vida do sujeito e está intimamente atrelado às rotinas de cuidado dispensadas pelos cuidadores primários, geralmente mãe e pai. A boca do bebê, por exemplo, é a primeira grande zona erógena a se constituir. Inicialmente, o ato de sugar o seio materno cumpre uma função puramente autoconservativa, que é a nutrição. No entanto, no próprio ato de mamar, o calor do leite, o contato com a pele e o ritmo da sucção produzem um prazer suplementar que excede a necessidade orgânica de saciar a fome. É nesse momento que ocorre o desgarramento da pulsão em relação à função biológica. A criança descobre que o ato de sugar em si, mesmo na ausência do alimento, gera uma sensação prazerosa. O bebê passa então a chuchar o próprio polegar ou outros objetos, inaugurando o autoerotismo e consolidando a cavidade oral como uma zona erógena primordial.

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À medida que o desenvolvimento psíquico e corporal avança, o investimento libidinal se desloca para outras regiões da superfície do corpo. O controle dos esfíncteres e as exigências da educação transformam a região anal em uma segunda grande zona erógena. Na fase anal, a retenção e a expulsão das fezes tornam-se meios de obter prazer e, ao mesmo tempo, instrumentos de negociação e controle nas relações com os adultos. O corpo da criança passa a ser um campo de forças onde o prazer corporal se entrelaça com as demandas da cultura e do amor do outro. Mais tarde, com o despertar da curiosidade infantil e a percepção das diferenças anatômicas, a região genital assume o protagonismo na fase fálica, culminando na complexa organização do complexo de Édipo.

Contudo, constitui um erro teórico limitar as zonas erógenas apenas aos orifícios corporais tradicionais, como boca, ânus e genitais. Em desenvolvimentos posteriores da teoria psicanalítica, fica claro que a qualidade de erogeneidade é intrínseca à própria pele e às superfícies sensoriais. Qualquer segmento do corpo pode funcionar como uma zona erógena, desde que receba o investimento da libido. A pele, em especial, atua como um envelope psíquico, uma interface de contato entre o mundo interno e a realidade externa. O toque, o acolhimento físico, o olhar e até mesmo a voz do cuidador exercem a função de catalisadores na constituição do esquema corporal erógeno. Quando a mãe acaricia a pele do filho ou fala com ele de maneira afetuosa, ela está, em termos psicanalíticos, cartografando o corpo da criança e erogenizando seus tecidos.

Essa flexibilidade da zona erógena explica fenômenos clínicos complexos, como os sintomas de conversão histérica e os distúrbios psicossomáticos. Na histeria, uma parte do corpo sem qualquer alteração orgânica identificável pode simular uma paralisia, uma dor crônica ou uma anestesia. Freud percebeu que essas manifestações ocorrem porque a região afetada foi hiper-investida libidinalmente, tornando-se o substituto de uma zona erógena reprimida e o veículo para a expressão inconsciente de um conflito sexual. O sintoma corporal passa a falar aquilo que a linguagem verbal não pôde articular, demonstrando como a geografia do corpo inconsciente difere da geografia estudada pela anatomia médica.

A erogeneidade também se conecta com a teoria dos afetos e com o modo como o sujeito estabelece suas relações interpessoais. O conceito de narcisismo, introduzido posteriormente na metapsicologia freudiana, assinala que o próprio eu se constitui a partir do investimento na totalidade do corpo erógeno. O eu não é apenas uma estrutura mental, mas é, antes de tudo, um eu corporal, derivado da projeção de uma superfície. A integração das diferentes zonas erógenas parciais em uma organização genital adulta não apaga a presença dessas zonas pré-genitais. Na vida sexual adulta madura, o preliminar da atividade sexual recupera exatamente essas áreas pré-genitais, integrando o olhar, a escuta, a pele e a mucosa oral na dinâmica do prazer.

Por outro lado, quando o desenvolvimento libidinal sofre fixações ou regressões intensas em determinadas fases, as zonas erógenas correspondentes podem manter uma primazia excessiva no funcionamento psíquico. Um indivíduo com uma fixação oral marcante pode buscar a satisfação de suas angústias através de comportamentos compulsivos ligados à ingestão de alimentos, ao uso de substâncias ou à dependência verbal. Do mesmo modo, traços de caráter marcados pela rigidez, pela obsessividade com o controle ou pela avareza frequentemente remetem a um investimento não elaborado na zona erógena anal. A psicanálise nos ensina que a forma como lidamos com os impulsos oriundos dessas zonas molda a nossa personalidade, os nossos escolhas amorosas e até mesmo a nossa capacidade de sublimação e criação artística.

A contribuição de autores pós-freudianos ampliou de forma significativa o estudo da erogeneidade. Donald Winnicott enfatizou o papel da maternagem na sustentação do corpo infantil, demonstrando que a manipulação física adequada do bebê permite a personalização, que é o processo pelo qual a psique se aloja no corpo. Jacques Lacan, por sua vez, releu o conceito freudiano à luz da linguagem e da estrutura do inconsciente. Para Lacan, as zonas erógenas são zonas de borda, fendas ou aberturas na superfície do corpo, tais como os lábios, a margem do ânus, a fenda palpebral e o meato auditivo. Essas bordas se caracterizam por uma estrutura anatômica de corte, sendo os locais de onde emergem os objetos causadores do desejo.

A erogeneidade, segundo a perspectiva lacaniana, está profundamente ligada ao fato de que o ser humano é um ser de linguagem, habitado pelo signo e atravessado pelo discurso do outro. O corpo humano não nasce erógeno por natureza; ele é esculpido pelo significante. É a palavra do adulto, marcada pelo afeto e pelo desejo, que recorta o corpo da criança e extrai dele o gozo, transformando o organismo biológico em um corpo pulsional. A borda erógena funciona como o ponto de articulação entre o interior psíquico e o exterior simbólico, o local onde o sujeito tenta se reapropriar daquela parcela de satisfação que foi perdida na entrada para a ordem da cultura.

É crucial destacar que a erogeneidade não é um dado estático ou definitivo, mas uma condição dinâmica que flutua ao longo de toda a existência do sujeito. Em situações de dor, enfermidade física ou sofrimento psíquico intenso, a libido submete as regiões corporais a redistribuições energéticas drásticas. Uma dor de dente, para citar o exemplo clássico de Freud, faz com que toda a energia psíquica e o interesse do sujeito se concentrem exclusivamente naquela pequena zona erógena inflamada, retirando o investimento do mundo exterior. Da mesma forma, nos processos de luto e melancolia, a perda do objeto amado pode desencadear uma erogenização dolorosa do próprio eu, onde o corpo do sujeito passa a ser o palco do sofrimento e da punição psíquica.

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A relevância teórica e prática da zona erógena está no fato de que ela impede o sujeito de recair em visões dualistas que separam categoricamente a mente do corpo. Na psicanálise, o corpo não é uma máquina nem um invólucro passivo da mente, mas sim a matéria-prima do psiquismo. Toda representação psíquica possui um enraizamento na experiência corporal erógena. As fantasias inconscientes, os sonhos, as produções artísticas e as manifestações sintomáticas trazem, em sua estrutura profunda, as marcas das pulsões parciais e das superfícies sensoriais que lhes deram origem.

Ao escutar um paciente no setting analítico, o psicanalista está atento tanto ao conteúdo manifesto de suas palavras, quanto à forma como o corpo se faz presente na fala. As metáforas utilizadas, as queixas somáticas, a relação com a alimentação, com o sono e com a intimidade revelam os caminhos e descaminhos do investimento nas zonas erógenas ao longo da história do sujeito. O trabalho analítico possibilita que o indivíduo rearticule sua história pulsional, ressignifique traumas inscritos na superfície corporal e encontre novas formas de satisfação que sejam menos dolorosas e mais integradas à sua subjetividade.

Referências Bibliográficas

ANZIEU, Didier. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1988.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Tradução de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LAPLANCHE, Jean. Novos fundamentos para a psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

REMHU Abre Chamada de Artigos para Dossiê sobre Políticas e Legislações Migratórias Contemporâneas

A REMHU, Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, editada pelo Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), está com inscrições abertas para o recebimento de artigos voltados ao dossiê Políticas e legislações migratórias contemporâneas: entre securitização e garantia de direitos. A publicação integra o volume 35 do periódico, com previsão de lançamento para o ano de 2027. Os interessados podem submeter seus trabalhos no período compreendido entre 1º de outubro de 2026 e 30 de abril de 2027, em cinco idiomas diferentes: português, inglês, espanhol, francês ou italiano.

A iniciativa acadêmica parte de um diagnóstico profundo sobre a guinada restritiva e seletiva observada nas políticas migratórias em âmbito global, abrangendo tanto o Norte quanto o Sul Global. De acordo com a chamada, as tradicionais legislações focadas na proteção dos direitos humanos vêm perdendo espaço para abordagens de caráter estritamente securitário. Esse cenário é moldado por narrativas de segurança nacional, contaminação cultural e substituição étnica, resultando no crescimento expressivo das deportações e na criminalização não apenas de migrantes e seus descendentes, mas também de ativistas e organizações humanitárias que prestam solidariedade.

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O dossiê acadêmico destaca ainda o retorno preocupante da guerra como mecanismo de regulação de conflitos, a reinvenção da figura do inimigo estrangeiro e a acentuada erosão dos direitos das pessoas em mobilidade na América Latina, região historicamente reconhecida por tradições de acolhimento e flexibilidade normativa. Em contrapartida, o periódico também abre espaço para análises voltadas às experiências de resistência protagonizadas por coletivos migrantes e pela sociedade civil organizada.

Entre os principais eixos temáticos sugeridos para as submissões estão a construção de muros materiais e imateriais, as políticas de terceirização e remigração, a fragilização do direito de refúgio e asilo, a racialização das normativas migratórias e a islamofobia nos sistemas de controle de fronteiras. Também são incentivados estudos sobre os impactos diretos das deportações em crianças migrantes e o papel fundamental desempenhado pelas redes solidárias.

02/10/2026

Revista FIDES Abre Edital para Submissão de Artigos sobre Direito, Trabalho e Tecnologia

A Revista FIDES — Filosofia do Direito, do Estado e da Sociedade lançou oficialmente o seu trigésimo primeiro edital, abrindo o prazo para o recebimento de artigos científicos e resenhas destinados à composição da sua próxima edição. Com foco central na seção temática voltada para a intersecção entre direito, trabalho e tecnologia, o periódico acadêmico aceitará submissões até o dia 4 de outubro de 2026. O lançamento do volume está programado para ocorrer entre os meses de novembro e dezembro de 2026.

Vinculada à produção interdisciplinar e sediada em Natal, a publicação eletrônica semestral e de acesso gratuito prioriza investigações científicas alinhadas ao tema central, embora o Conselho Editorial mantenha a prerrogativa de contemplar outras temáticas relevantes. A expectativa da organização é selecionar até vinte trabalhos inéditos redigidos em português ou inglês.

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Para participar, os interessados devem observar as regras de autoria, que permitem a submissão de um trabalho individual e um em coautoria por pesquisador, respeitando o limite máximo de dois autores por texto. Quanto à extensão exigida, os artigos científicos devem possuir entre 8 e 20 laudas, enquanto as resenhas precisam conter de 8 a 15 páginas. Todos os manuscritos passarão pelo rigoroso processo de avaliação por pares no sistema duplo-cego, garantindo o rigor acadêmico, e os autores dos trabalhos aprovados receberão certificados de publicação.

Os envios devem ser realizados por meio do endereço eletrônico submissoesrevistafides@gmail.com, acompanhados da verificação rigorosa das diretrizes do edital, do artigo-modelo e do guia de padronização de referências disponibilizados pela revista. O edital completo pode ser acessado diretamente neste link do Google Drive.

Revista Logos & Culturas da Faculdade Católica de Fortaleza Recebe Artigos de Filosofia e Teologia até Novembro de 2026

A Revista Logos & Culturas, vinculada à Faculdade Católica de Fortaleza, está com inscrições abertas para o recebimento de trabalhos inéditos voltados ao próximo número do periódico. Pesquisadores, acadêmicos e estudiosos das áreas de filosofia e teologia podem submeter artigos científicos, resenhas e traduções até o dia 1 de novembro de 2026.

A chamada possui temática livre, exigindo apenas que os textos mantenham vínculo direto com as discussões filosóficas ou teológicas. Classificada com o Qualis B1, a publicação busca consolidar um espaço de diálogo rigoroso entre esses dois campos do saber, promovendo o intercâmbio de ideias e a circulação de conhecimento qualificado.

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Embora o periódico adote o fluxo de publicação contínua, os autores interessados em integrar a próxima edição devem observar rigorosamente o prazo estabelecido para que as produções passem por todas as etapas editoriais necessárias, incluindo a avaliação por pares.

Todas as diretrizes de formatação, normas de normalização, orientações detalhadas para submissão e informações sobre o processo de avaliação estão disponíveis no site oficial da Faculdade Católica de Fortaleza, plataforma onde também deve ser efetivado o envio dos documentos. Questões específicas ou dúvidas remanescentes podem ser encaminhadas diretamente para a equipe editorial por meio do endereço eletrônico periodicos@catolicadefortaleza.edu.br.

Quem são os Mirmidões na Mitologia Grega?

Conhecidos como o exército lendário comandado pelo destemido herói Aquiles durante a Guerra de Troia, esses guerreiros tessálicos possuem uma origem enraizada no mito, na etimologia e nas dinâmicas de poder entre os deuses do Olimpo. 

A palavra "mirmidão" e o seu plural "mirmidões" (ou mirmídones) derivam diretamente do termo grego antigo myrmex, que significa literalmente "formiga". A tradição mítica grega oferece duas vertentes principais para explicar a origem desse povo e a sua associação simbólica e literal com os insetos sociais. A primeira tradição remonta à genealogia divina e ao herói epônimo Mirmidão. Segundo essa vertente clássica, Mirmidão era filho do próprio Zeus e de Eurimedusa, filha de Cleitor (ou Aquelau).

Para seduzir e possuir a jovem mortal, o rei dos deuses recorreu a uma de suas costumeiras metamorfoses, transformando-se em uma formiga. Da união entre o deus supremo sob a forma de um inseto e a mortal Eurimedusa nasceu Mirmidão, que viria a se tornar o ancestral lendário de um grupo tribal que herdou o seu nome, estabelecendo a semente de um povo intimamente ligado à terra e ao trabalho incansável.

A segunda vertente, contudo, é a mais difundida e poeticamente elaborada na literatura clássica, tendo sido perpetuada por autores como Ovídio em suas Metamorfoses e repassada ao longo dos séculos. Essa versão coloca a criação dos Mirmidões no contexto da ilha de Egina. A narrativa relata que Hera, tomada pelo ciúme que nutria pelas amantes de seu esposo Zeus, lançou uma terrível praga sobre a ilha que levava o nome de Egina, uma das ninfas seduzidas pelo pai dos deuses. A pestilência devastou a população local, exterminando homens, mulheres e animais, e deixando o rei Éaco, filho de Zeus e Egina, praticamente só em um reino desolado e desprovido de súditos.

Em seu desespero diante da visão dos mortos e do silêncio assustador que tomou conta de sua terra, Éaco elevou uma ardente prece a Zeus. Olhando para um carvalho sagrado dedicado ao pai celestial, o rei observou uma fileira interminável de formigas que subiam pelo tronco da árvore carregando alimentos com disciplina, coordenação e força desproporcional ao seu tamanho.

Inspirado por aquela visão, Éaco suplicou a Zeus que lhe concedesse tantos cidadãos quanto o número daquelas formigas para repovoar a sua cidade e reerguer o seu reino. Zeus atendeu às preces de seu filho e, durante a noite, transformou as milhares de formigas em seres humanos. Na manhã seguinte, Éaco despertou e encontrou uma multidão de novos súditos, aos quais batizou de Mirmidões em homenagem à sua origem.

Essa gênese mítica moldou a natureza psicológica, física e social do povo mirmidão. Assim como as formigas das quais descendiam ou foram transformados, os Mirmidões eram caracterizados por uma disciplina inabalável, uma resistência física prodigiosa e uma lealdade absoluta à coletividade e ao seu líder. Eles não eram guerreiros movidos pelo desejo de glória individual ou por devaneios poéticos, mas sim uma força coesa, altamente organizada, feroz e destituída de hesitação. Suas armaduras, frequentemente descritas em tons escuros ou acobardados que remetiam à carapaça das formigas, refletiam a sobriedade e a funcionalidade de sua essência.

Mais tarde, quando Peleu, filho de Éaco, foi exilado da ilha de Egina devido à morte acidental (ou assassinato) de seu meio-irmão Foco, ele emigrou para a Tessália e levou consigo uma parte substancial dos Mirmidões. Ali, estabeleceu-se na região de Ftia, onde o exército se consolidou. Com a morte ou o envelhecimento de Peleu, a liderança desse exército extraordinário passou para o seu filho com a ninfa Tétis: Aquiles, o maior e mais temível dos guerreiros gregos.

Na Ilíada de Homero, os Mirmidões desempenham um papel crucial no curso da Guerra de Troia. Quando Aquiles, profundamente ofendido pelo rei Agamêmnon, decide retirar-se do combate e manter-se em suas tendas à beira do mar, os Mirmidões também cessam a luta. A ausência desse contingente de soldados desequilibra dramaticamente o conflito em favor dos troianos liderados por Héctor, demonstrando que a força dos aqueus dependia visceralmente do braço de Aquiles e da massa guerreira que o acompanhava. 

Somente quando Pátroclo, o companheiro mais amado de Aquiles, veste a armadura do herói e lidera os Mirmidões de volta ao campo de batalha é que os troianos são empurrados de volta às suas muralhas. A atuação dos Mirmidões na guerra serve como emblema da ideia de um organismo coletivo perfeito, onde a individualidade se dissolve em prol do objetivo militar comandado por seu chefe supremo.

Na posteridade e na linguagem figurada, a imagem dos Mirmidões transpassou a mitologia para se converter em uma metáfora cultural e política. O termo passou a designar seguidores incondicionais, executores de ordens sem questionamento ou subordinados que cumprem tarefas difíceis e rigorosas com cega obediência e eficácia cirúrgica.

Referências Bibliográficas

BULFINCH, Thomas. O livro da Mitologia: A Idade da fábula. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Martin Claret, 2024.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.

SILVA, A. B. Entendendo Algoritmos: Um Guia Ilustrado Para Programadores e Outros Curiosos. 1. ed. São Paulo: Novatec, 2017.

HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço.1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.

STEPHANIDES, Menelaos. Box Coleção Mitologia Grega. 4. ed. São Paulo: Editora Odysseus, 2019.