Advertisement

20/08/2026

O que é e qual a função do Travessão na Língua Portuguesa?

professor-lingua-portuguesa
Professor de Língua Portuguesa escrevendo em um quadro

O travessão (—) é um dos sinais de pontuação mais expressivos e versáteis da Língua Portuguesa. Frequentemente confundido com o hífen (-) e com a meia-risca (–), este traço horizontal de extensão maior desempenha um papel fundamental na estruturação textual, na organização das falas em discursos diretos e no direcionamento da leitura. Gramatical e estilisticamente, o travessão serve não apenas como um delimitador de unidades sintáticas, mas também como um recurso dinâmico capaz de atribuir ritmo, ênfase e clareza à escrita.

A primeira e mais conhecida função do travessão está na estruturação do discurso direto. Nos textos narrativos, o sinal é empregado para indicar a alternância de vozes entre os interlocutores, marcando o início da fala de um personagem. Adicionalmente, o travessão serve para isolar o inciso do narrador, isto é, a intervenção na qual se explica quem está falando ou de que maneira a declaração foi proferida, inserindo-o no meio da fala do personagem ou após ela. Essa utilização permite que o leitor identifique com precisão a fronteira entre a voz narrativa e a voz dos elementos constituintes da história, conferindo fluidez e tom dramático aos diálogos.

Para além de sua aplicação no campo da narrativa e dos diálogos, o travessão exerce uma função sintática essencial no interior do período: o isolamento de elementos intercalados. Nesse contexto, o travessão duplo opera de modo análogo aos parênteses ou às vírgulas, sendo utilizado para separar explicações, comentários do autor, apostos explicativos, enumerações ou orações de caráter acessório. Quando o redator opta pelo travessão em detrimento da vírgula para isolar um trecho, ele busca imprimir um destaque visual e enfático maior à informação contida entre os traços. Por outro lado, ao preferir o travessão em lugar dos parênteses, o autor garante que a intercalação permaneça mais integrada ao fluxo natural da leitura, evitando o isolamento excessivo que os parênteses costumam criar.

📖 Leia também: O que é e qual a função do ponto final na Língua Portuguesa?

Ainda no contexto da pontuação sintática, o travessão pode ser empregado de forma simples, ou seja, sem a necessidade de um segundo travessão para fechar o segmento. Isso ocorre com frequência quando o elemento intercalado ou explicativo é posicionado no final da frase. Nesse caso, o travessão substitui recursos como o ponto final precedido de vírgula ou os dois-pontos, destacando uma conclusão, um resumo ou uma consequência da ideia apresentada na primeira parte do enunciado. Essa estratégia estilística confere um ar de sofisticação e corte incisivo ao encerramento do período.

Vale ressaltar a relevância da diferenciação gráfica entre o travessão, o hífen e a meia-risca, ponto que demanda atenção rigorosa. Enquanto o hífen é um elemento morfológico utilizado na união de palavras compostas, na divisão silábica e na ênclise, a meia-risca é reservada para indicar intervalos numéricos ou conexões entre dois pontos. O travessão, por sua extensão gráfica superior, é o único sinal destinado às funções sintáticas e discursivas descritas.

Referências Bibliográficas

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.

Comprar na Amazon

BECHARA, Evanildo. Gramática Escolar da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

Comprar na Amazon

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa: Edição com gabarito. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.

Comprar na Amazon

CUNHA, Celco; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora Lexikon, 2025.

Comprar na Amazon

HOUAISS, Antônio. Pequeno Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.

Comprar na Amazon

LIMA, Carlos Henrique da Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!



Qual é o alinhamento correto da lista de referências ao final de um trabalho acadêmico?

professor-tutorial
Professor escrevendo a palavra tutorial em um quadro

Ao finalizar um trabalho acadêmico, a seção de referências exige um cuidado especial, pois é nela que se demonstra a seriedade da pesquisa e o respeito às normas científicas. O alinhamento correto das referências segue um padrão estabelecido pelas normas da ABNT ou de outros estilos reconhecidos, como APA ou Chicago, dependendo da instituição ou revista. No caso da ABNT, que é o mais utilizado no Brasil, o alinhamento deve ser feito à esquerda, em espaço simples entre linhas, com separação de uma linha em branco entre cada referência. Esse alinhamento justificado à esquerda garante legibilidade e uniformidade, evitando que o texto fique visualmente fragmentado ou difícil de acompanhar.

📖 Leia também: Como formatar um trabalho científico em folha tamanho A4 no Word seguindo as regras da ABNT?

É importante observar que não se utiliza recuo de parágrafo na primeira linha das referências, mas sim um alinhamento contínuo, em bloco. Isso significa que cada entrada começa exatamente na margem esquerda, sem deslocamentos. Além disso, os elementos da referência, como autor, título, edição, local e editora, devem ser apresentados na ordem prescrita pela norma escolhida, mantendo rigor ortográfico e gramatical impecável. O uso de itálico em títulos de livros e periódicos, bem como a padronização de maiúsculas e minúsculas, também faz parte da formatação correta.

Para ilustrar de maneira prática, imagine que você está elaborando a seção de lista de referências ao final de sua monografia. Um exemplo adequado seria:

SILVA, João. Metodologia da pesquisa científica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2020.

Observe que o texto deve estar alinhado à esquerda, sem recuo, com espaçamento simples e uma linha em branco separando-o da próxima referência. Esse padrão deve ser mantido em todas as entradas, criando uma apresentação uniforme e clara.



19/08/2026

O que é Narrador não confiável na Teoria da Literatura?

O narrador não confiável é uma das figuras mais complexas e fascinantes da literatura, pois desafia o leitor a questionar a verdade do relato e a própria natureza da ficção. Esse tipo de narrador, cuja credibilidade é comprometida, transforma a leitura em um exercício de interpretação e desconfiança, exigindo do leitor uma postura crítica diante do texto.

Na teoria literária, o conceito de narrador não confiável foi formulado por Wayne C. Booth em The Rhetoric of Fiction (1961), obra fundamental para os estudos narratológicos. Booth define o narrador confiável como aquele que age de acordo com as normas e valores implícitos da obra, enquanto o narrador não confiável se desvia dessas normas, revelando incoerências, omissões ou distorções. Essa inconfiabilidade pode manifestar-se de diversas formas: por meio da mentira deliberada, da ingenuidade, da loucura, da parcialidade ou da manipulação consciente do leitor.

A literatura está repleta de exemplos emblemáticos. Um dos mais célebres é Humbert Humbert, narrador de Lolita (1955), de Vladimir Nabokov. Humbert tenta justificar sua obsessão por uma menina de doze anos, utilizando uma linguagem sedutora e erudita que mascara a monstruosidade de seus atos. O leitor, seduzido pela eloquência do narrador, é levado a duvidar de sua própria percepção moral. Nabokov constrói, assim, uma narrativa em que o fascínio estético se mistura ao desconforto ético, tornando o leitor cúmplice involuntário da manipulação.

Outro exemplo clássico é o de Nick Carraway, narrador de O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald. Embora pareça objetivo, Nick revela-se parcial e contraditório, especialmente em relação ao protagonista Jay Gatsby. Sua visão idealizada do “sonho americano” contamina o relato, e o leitor percebe que a verdade dos fatos é filtrada por uma sensibilidade ambígua. Fitzgerald utiliza essa inconfiabilidade para denunciar a hipocrisia e o vazio moral da sociedade dos anos 1920.

Em A Consciência de Zeno (1923), de Italo Svevo, o narrador Zeno Cosini escreve suas memórias como parte de um tratamento psicanalítico. Ele tenta justificar suas falhas e vícios, mas suas próprias contradições o traem. O leitor percebe que Zeno mente para si mesmo, e que sua narrativa é uma tentativa de autopersuasão. O romance, apresentado como um diário publicado por seu psiquiatra, explicita o jogo entre verdade e ficção, entre confissão e autoengano.

A inconfiabilidade também pode surgir da ingenuidade. Em O Apanhador no Campo de Centeio (1951), de J. D. Salinger, o jovem Holden Caulfield narra sua experiência de forma impulsiva e emocional. Sua visão do mundo é limitada pela imaturidade, e o leitor precisa interpretar suas palavras para compreender o que realmente acontece. A força do romance reside justamente nessa tensão entre o olhar inocente e a realidade adulta que o ultrapassa.

No campo do mistério, O Assassinato de Roger Ackroyd (1926), de Agatha Christie, é um marco. O narrador, Dr. Sheppard, omite informações cruciais e manipula o leitor até o desfecho surpreendente, em que se revela o verdadeiro culpado. Christie foi criticada por “trapacear” o leitor, mas sua técnica inaugurou uma nova forma de suspense psicológico, baseada na desconfiança da voz narrativa.

A inconfiabilidade pode ainda ser usada para explorar o fantástico. Em A Vida de Pi (2001), de Yann Martel, o protagonista narra duas versões de sua sobrevivência após um naufrágio: uma fabulosa, com animais, e outra brutalmente realista. O leitor é convidado a escolher qual acreditar, e a própria escolha revela mais sobre a natureza humana do que sobre os fatos.

A teoria contemporânea ampliou o conceito. Peter J. Rabinowitz propôs que a inconfiabilidade depende da relação entre o narrador e sua “audiência narrativa”, isto é, o público interno da ficção. Já Ansgar Nünning deslocou o foco para o leitor, sugerindo que a inconfiabilidade é uma estratégia interpretativa: o leitor identifica sinais textuais, contradições, lacunas, incoerências, e decide se o narrador é digno de confiança. Greta Olson, por sua vez, defende que a confiabilidade deve ser vista como um espectro, variando entre a total credibilidade e a completa falsidade.

Essas abordagens mostram que o narrador não confiável não é apenas um personagem mentiroso, mas um dispositivo estético e cognitivo. Ele obriga o leitor a participar ativamente da construção do sentido, a desconfiar da linguagem e a reconhecer que toda narrativa é, em alguma medida, uma ficção. A inconfiabilidade, portanto, não é um defeito, mas uma potência literária: ela revela a fragilidade da verdade e a complexidade da percepção humana.

Na literatura brasileira, o exemplo mais notável é Brás Cubas, de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Narrando após a morte, Brás Cubas ironiza sua própria existência e ridiculariza os valores da sociedade. Sua voz é cínica, contraditória e profundamente subjetiva. Machado antecipa, com genialidade, o narrador moderno que não busca convencer, mas provocar o leitor.

Referências Bibliográficas

Booth, Wayne C. A Retórica da Ficção. 1. ed. Campinas-SP: Eleia, 2022.

Comprar na Amazon

Christie, Agatha. O assassinato de Roger Ackroyd. 1. ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2014.

Comprar na Amazon

FITZGERALD, F. Scott. O Grande Gatsby. Tradução de Vanessa Barbara. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Comprar na Amazon

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2014.

Comprar na Amazon

MARTEL, Yann. A Vida de Pi. Tradução de Alexandre Boide. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Magnética, 2026.

Comprar na Amazon

NABOKOV, Vladimir. Lolita. Tradução de Sergio Flaksman. 1. ed. São Paulo: Alfaguara, 2011.

Comprar na Amazon

SALINGER, J. D. O Apanhador no Campo de Centeio. Tradução de Caetano W. Galindo. 1. ed. São Paulo: Todavia, 2019.

Comprar na Amazon

SVEVO, Italo. A Consciência de Zeno. Tradução de Ana Cláudia Santos. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.

Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!



O meu iD muda se eu trocar de universidade ou de país?

logo-orcid
ORCID (Open Researcher and Contributor ID) logo with tagline.

Como revisor de textos acadêmicos, frequentemente observo dúvidas recorrentes entre pesquisadores em fase de transição de carreira, especialmente quanto à permanência do seu número de identificação ao mudarem de vínculo institucional ou de país de residência. Respondendo de forma direta e categórica: não, o seu código não muda sob nenhuma hipótese, pois a premissa fundamental de um identificador digital persistente é acompanhar a pessoa física ao longo de toda a sua vida acadêmica, independentemente da instituição a qual esteja vinculada ou da nação onde desenvolva suas investigações.

O sistema foi concebido justamente para resolver o problema crônico da ambiguidade de nomes em publicações, homônimos e mudanças de sobrenome. Portanto, quando você altera seu vínculo funcional ou se muda para o exterior, a sequência numérica de 16 dígitos atribuída ao seu perfil permanece estritamente a mesma. O que deve mudar é apenas o conteúdo descritivo contido dentro da sua conta, garantindo que o seu registro acadêmico reflita com exatidão o seu momento profissional presente, sem jamais romper o histórico de suas contribuições anteriores.

Para realizar essa atualização na prática, o procedimento é simples e deve ser feito diretamente na plataforma do provedor. O primeiro passo consiste em acessar o painel de configurações da conta e adicionar o novo endereço de e-mail fornecido pela sua nova universidade ou centro de pesquisa. Logo em seguida, é indispensável definir esse novo correio eletrônico como o endereço principal de contato, mantendo o e-mail da instituição anterior ou um e-mail pessoal secundário na lista de acessos. Essa medida de segurança evita que você perca o acesso ao sistema caso a universidade antiga desative sua conta institucional. Após a gestão dos e-mails, você deve avançar para a seção de empregos e adicionar a nova afiliação institucional, informando o nome oficial da nova universidade, o departamento, o cargo ocupado e a data de início, mantendo o vínculo anterior devidamente registrado com a data de término correspondente.

📖 Leia também: Como vincular o ID Lattes ao identificador ORCID?

Para ilustrar essa dinâmica no cotidiano acadêmico, considere o caso hipotético da Dra. Mariana Silva. Durante o seu doutorado na Universidade de São Paulo, no Brasil, ela cadastrou seu perfil e publicou diversos artigos associados ao seu número exclusivo. Ao aceitar uma proposta de pós-doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido, a pesquisadora não criou uma nova conta nem solicitou alteração no seu código. Em vez disso, ela simplesmente realizou o login na plataforma, adicionou o e-mail da instituição britânica, definiu a nova universidade como seu vínculo empregatício atual e atualizou a localização do seu perfil para o Reino Unido. O código numérico original continuou exatamente o mesmo, e toda a sua produção científica pregressa desenvolvida no Brasil permaneceu unificada com os novos artigos produzidos no exterior.

A manutenção contínua e precisa dessas informações garante que agências de fomento, editoras internacionais e colaboradores em qualquer parte do mundo consigam rastrear todo o seu patrimônio intelectual.



O que é Herói Trágico na Teoria da Literatura?

professor-literatura
Professor de Literatura escrevendo em um quadro

Aristóteles foi o primeiro teórico a sistematizar as dinâmicas da tragédia, estabelecendo que a função essencial desse gênero dramático é suscitar no espectador os sentimentos de terror e piedade. O terror advém do reconhecimento de que a desgraça que se abate sobre a personagem poderia ocorrer com qualquer um de nós; a piedade surge da constatação de que o sofrimento imposto ao protagonista excede, em escala, a severidade do seu erro original.

Essa reação emocional integrada culmina na catarse, o processo de purificação ou clarificação afetiva que permite ao público processar os abalos existenciais encenados no palco. Todavia, a catarse só se viabiliza se o protagonista possuir características específicas. Se uma pessoa absolutamente justa sofresse uma derrocada sem qualquer justificativa, o sentimento gerado no público seria de indignação moral ou repulsa, e não de piedade. Por outro lado, se um indivíduo perverso sofresse o castigo merecido, haveria um senso de justiça cumprida, mas não a comoção trágica.

📖 Leia também: O que significa Hamartia na Mitologia Grega?

O vetor central da ruína do herói trágico reside na hamartia, conceito frequentemente traduzido como "erro trágico" ou "falha de julgamento". A hamartia não se confunde com o pecado no sentido teológico do termo, tampouco com a perversidade vilã. Ela refere-se a uma escolha equivocada tomada em estado de ignorância parcial ou motivada por um impulso desmedido, conhecido como hubris. A hubris representa a desmedida, a arrogância ou o orgulho excessivo que leva o indivíduo a ultrapassar os limites impostos pelos deuses, pelas leis humanas ou pela própria ordem natural.

À medida que o herói age sob o impacto de sua hubris e incorre na hamartia, a trama avança inevitavelmente em direção à peripécia, que consiste na reviravolta repentina da sorte. A situação do protagonista inverte-se drasticamente, passando da prosperidade à calamidade. Esse momento de virada é acompanhado ou seguido pela anagnórise, o reconhecimento ou a descoberta dolorosa da verdade. O herói trágico toma consciência, tarde demais, de sua responsabilidade no próprio destino e da ilusão em que vivia.

A manifestação mais perfeita dessa estrutura encontra-se na obra-prima de Sófocles, Édipo Rei. O rei de Tebas encarna de maneira exemplar a definição aristotélica de herói trágico. Édipo é um governante sábio, corajoso e devotado ao seu povo, admirado por ter decifrado o enigma da Esfinge e salvo a cidade. Contudo, ao buscar cessar a peste que assola Tebas, ele promete punir o assassino do antigo rei Laio com vigor implacável.

A hubris de Édipo manifesta-se em sua autoconfiança racional e em sua recusa inicial em aceitar os avisos do vidente cego Tirésias. Certo de sua própria justiça e capacidade intelectual, Édipo conduz a investigação com obstinação moral admirável, sem perceber que o criminoso que procura é ele próprio. A sua hamartia foi ter tentado fugir do oráculo de Apolo, matando um desconhecido em um cruzamento de estradas no passado sem saber que se tratava de seu pai biológico, e posteriormente casando-se com a rainha Jocasta, sua mãe.

📖 Leia também: O que significa Anagnórise ou Reconhecimento na Mitologia Grega?

O momento crucial de anagnórise em Édipo Rei ocorre simultaneamente à peripécia: ao descobrir as suas verdadeiras origens e o cumprimento involuntário da profecia, a iluminação interior de Édipo resulta no seu cegamento físico deliberado. Ele fura os próprios olhos com os alfinetes do vestido de Jocasta, assumindo a dor e a culpa de seu ato, aceitando o exílio de Tebas. A grandeza trágica de Édipo não reside na inocência, mas na dignidade épica com que ele encara a vergonha e a punição ao tomar plena consciência de seu destino.

De forma análoga, em Antígona, também de Sófocles, presenciamos o confronto trágico entre duas obrigações morais irreconciliáveis. Antígona desafia o decreto do rei Creonte que proibia o sepultamento de seu irmão Polinice. O herói trágico nesta peça desdobra-se tanto em Antígona, disposta a morrer em nome das leis divinas e familiares, quanto em Creonte, cuja hubris política o impede de ceder até que sua família seja completamente destruída. Ambos sustentam posições legítimas sob determinados prismas, porém levadas a um inflexível radicalismo que conduz à catástrofe.

Nas obras de Ésquilo, como na trilogia Orestéia, e nas tragédias de Eurípedes, a exemplo de Medeia e As Bacantes, observa-se a mesma tensão entre a vontade individual e as forças transcendentes. Em Eurípedes, contudo, a tragédia ganha nuances mais psicológicas: as paixões humanas incontroláveis, como o ciúme devastador de Medeia, funcionam como a engrenagem que destrói a própria vida da personagem e a de todos ao seu redor.

Com o advento do Renascimento, a tragédia passa por uma transformação profunda. Se no mundo grego o destino era ditado pelos deuses e pelo fatum, no teatro da Idade Moderna, em especial na obra de William Shakespeare, o destino desloca-se para o interior do sujeito. O herói trágico shakespeariano é movido por dilemas morais, contradições psicológicas e falhas de caráter intrínsecas à natureza humana.

Em Macbeth, a hubris assume a forma da ambição desmedida. Macbeth é inicialmente um general honrado e corajoso, mas a profecia das bruxas e a incitação de Lady Macbeth despertam nele um desejo incontrolável de poder. Sua hamartia é o assassinato do rei Duncan, ato que viola a ordem sagrada e desencadeia uma espiral ininterrupta de tirania e paranoia. Ao contrário de Édipo, que erra por ignorância, Macbeth tem plena consciência da imoralidade de seus atos, o que torna seu tormento psicológico ainda mais brutal até a sua derrocada final.

Em Hamlet, o erro trágico manifesta-se sob a forma da paralisia analítica e da dúvida metódica. O príncipe da Dinamarca recebe do fantasma de seu pai a missão de vingar o seu assassinato cometido por Cláudio. No entanto, o excesso de reflexão de Hamlet, sua busca por uma certeza absoluta e a constante melancolia adiam a ação decisiva, resultando na morte trágica de praticamente toda a corte dinamarquesa, incluindo a inocente Ofélia e a rainha Gertrudes.

Da mesma forma, em Otelos, a falha trágica do general mouro é a sua vulnerabilidade à manipulação e ao ciúme doentio cultivado por Iago. A incapacidade de Otelo em enxergar a pureza de Desdêmona o leva a cometer um crime irreversível, seguido pelo terrível momento de anagnórise no qual ele percebe o erro monstruoso que cometeu e tira a própria vida. Em todas essas obras shakespearianas, a nobreza de espírito do protagonista contrasta dolorosamente com a imperfeição de suas escolhas, garantindo a permanência do efeito catártico.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a concepção clássica do herói de estirpe real ou nobre deu lugar à figura do homem comum. A literatura moderna passa a problematizar a tragédia não mais no âmbito dos palácios ou dos mitos, mas nas ruínas da vida cotidiana, do trabalho alienado e da opressão social.

A peça A Morte de um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller, representa o ápice dessa reformulação conceitual. Miller defendia explicitamente que o homem comum é um sujeito tão apto ao sentimento trágico quanto os reis da antiguidade. O protagonista Willy Loman é um vendedor decadente que se recusa a aceitar o fracasso do "sonho americano". Sua hubris reside no apego obstinado a uma ilusão de sucesso e popularidade, e sua hamartia é a incapacidade de encarar a realidade de sua vida e de seus filhos, terminando por cometer suicídio para que o filho Biff receba o dinheiro do seguro de vida.

Na literatura narrativa, personagens de romances do realismo e do modernismo frequentemente absorvem traços do herói trágico clássico. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bento Santiago constrói a narrativa de sua própria vida sob a sombra do ciúme e da paranoia, destruindo seus laços afetivos com Capitu e Escobar. Embora o romance machadiano utilize a ironia e a ambiguidade moderna, a trajetória de Bentinho carrega a marca inconfundível do isolamento e da autodestruição resultantes de suas próprias obsessões morais.

📖 Leia também: O que é Anti-herói na Teoria da Literatura?

Ao longo dos séculos XIX e XX, a concepção clássica do herói de estirpe real ou nobre deu lugar à figura do homem comum. A literatura moderna passa a problematizar a tragédia não mais no âmbito dos palácios ou dos mitos, mas nas ruínas da vida cotidiana, do trabalho alienado e da opressão social.

A peça A Morte de um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller, representa o ápice dessa reformulação conceitual. Miller defendia explicitamente que o homem comum é um sujeito tão apto ao sentimento trágico quanto os reis da antiguidade. O protagonista Willy Loman é um vendedor decadente que se recusa a aceitar o fracasso do "sonho americano". Sua hubris reside no apego obstinado a uma ilusão de sucesso e popularidade, e sua hamartia é a incapacidade de encarar a realidade de sua vida e de seus filhos, terminando por cometer suicídio para que o filho Biff receba o dinheiro do seguro de vida.

Na literatura narrativa, personagens de romances do realismo e do modernismo frequentemente absorvem traços do herói trágico clássico. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bento Santiago constrói a narrativa de sua própria vida sob a sombra do ciúme e da paranoia, destruindo seus laços afetivos com Capitu e Escobar. Embora o romance machadiano utilize a ironia e a ambiguidade moderna, a trajetória de Bentinho carrega a marca inconfundível do isolamento e da autodestruição resultantes de suas próprias obsessões morais.

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. Poética. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2015.

Comprar na Amazon

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 1. ed. Rio de Janeiro: Livraria Garnir, 2024.

Comprar na Amazon

ESQUILO. Orestéia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides. Tradução de Mário da Gama Kury. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

Comprar na Amazon

EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. 5. ed. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

Comprar na Amazon

EURÍPIDES. Medeia. Tradução de Mário da Gama Kury. 5. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

Comprar na Amazon

FRYE, N. Anatomia da crítica. 1ª ed. Campinas-SP: Sétimo Selo, 2026.

Comprar na Amazon

MILLER, Arthur. A morte de um caixeiro-viajante. Tradução de José Rubens Siqueira. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Comprar na Amazon

SHAKESPEARE, W. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira]. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2015.

Comprar na Amazon

SHAKESPEARE, W. Macbeth. Jandira–SP: Principis, 2021.

Comprar na Amazon

SHAKESPEARE, W. Otelo. [Tradução de Lawrence Flores Pereira]. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2017.

Comprar na Amazon

SÓFOCLES. A trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Tradução de Mário da Gama Kury. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

Comprar na Amazon

STEINER, George. A morte da tragédia. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.

Comprar na Amazon

VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia Antiga. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.

Comprar na Amazon

Comprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!



O que é Sublime na Teoria da Literatura?

professor-literatura
Professor de Literatura escrevendo em um quadro

Se a categoria do belo se associa tradicionalmente à harmonia, à proporção, à justa medida e ao apaziguamento dos sentidos, o sublime opera numa esfera radicalmente distinta. Ele habita o território do desmedido, do incomensurável, da vertigem e da comoção avassaladora. Trata-se da experiência artística e psíquica em que o indivíduo se vê diante de algo tão grandioso, medonho ou infinito que suas faculdades ordinárias de percepção são temporariamente sobrepujadas, gerando um sentimento ambivalente de fascínio e terror, pequenez e elevação.

Para compreendermos o impacto do sublime no campo literário, é imprescindível traçar a trajetória de sua formulação conceitual. A gênese do debate remonta à Antiguidade Clássica, mais precisamente ao tratado atribuído a Pseudo-Longino, intitulado Do Sublime, datado do século I d.C. Nesse texto pioneiro, a questão era abordada sob o prisma da retórica e do estilo. Para Longino, o sublime representava o ápice do grande estilo, a capacidade oratória ou poética de arrebatar e extasiar o ouvinte ou leitor. O objetivo não era simplesmente persuadir ou agradar, mas conduzir a alma a um estado de transe ou elevação espiritual por meio da força das ideias, da intensidade das paixões e da nobreza das metáforas.

📖 Leia também: O que é Decoro na Teoria da Literatura?

Encontramos essa dimensão longiniana em manifestações monumentais da literatura universal, como na épica de Homero ou nos cantos de A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Ao descrever a ascensão pelas esferas celestes no Paraíso, Dante continuamente admite a incapacidade da linguagem humana de registrar a visão divina, atingindo o sublime exatamente no ponto em que o texto poético esbarra nos limites do dizível para fazer o leitor experimentar o deslumbre do inefável.

No século XVIII, contudo, o conceito passou por uma profunda transfiguração filosófica, desvinculando-se do mero artifício retórico para se tornar uma categoria estética e psicológica autônoma. O marco inicial dessa transformação surge com o filósofo britânico Edmund Burke em sua obra Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo, publicada em 1757. Burke deslocou o eixo do sublime da técnica verbal para a experiência emotiva do sujeito, definindo-o como a emoção mais forte que o espírito humano é capaz de sentir.

Segundo a tese empirista de Burke, a origem do sublime reside em tudo o que é capaz de incitar as ideias de dor, perigo, terror, escuridão, solidão, imensidão e infinito. Contudo, para que essa vivência resulte em um prazer estético, o que o autor denomina delight ou deleite, é necessário que o observador mantenha uma distância de segurança em relação ao perigo real. O terror experimentado na arte não destrói o sujeito, mas estimula os seus nervos e sua imaginação, provocando uma sensação paradoxal de arrebatamento.

A virada promovida por Burke forneceu a matéria-prima estética para o surgimento do romance gótico e do pré-romantismo europeu. Romances como Os Mistérios de Udolpho, de Ann Radcliffe, e Frankenstein, de Mary Shelley, exemplificam admiravelmente o sublime burkeano. Na obra de Shelley, a figura da criatura não é apenas assustadora; ela encarna a desmesura e o horror da ultrapassagem dos limites humanos. Da mesma forma, as descrições das montanhas geladas de Chamonix e das paisagens árticas desoladas atuam não como meros cenários, mas como catalisadores da pequenez humana perante as forças indomáveis da natureza e da ambição científica desmedida.

Ainda no final do século XVIII, Immanuel Kant conferiu ao conceito o seu tratamento filosófico mais rigoroso e influente na Crítica da faculdade do juízo (1790). Distinguindo o belo do sublime, Kant sustentou que, enquanto o belo se refere à forma do objeto e traz consigo uma sensação de limitação, o sublime é encontrado em um objeto desprovido de forma, à medida que este sugere a ilimitabilidade e a totalidade. Kant dividiu a experiência em duas modalidades principais: o sublime matemático e o sublime dinâmico.

O sublime matemático ocorre quando nos deparamos com grandezas espaciais ou temporais absolutamente esmagadoras, como a vastidão do oceano, o céu estrelado ou o abismo do tempo geológico. A imaginação humana tenta abarcar essa imensidão, mas falha miseravelmente, gerando um sentimento inicial de dor e incompetência. Todavia, a razão intervém e percebe que somos capazes de conceber o conceito de infinito, mesmo sem podermos visualizá-lo completamente. Dessa superação surge a dor convertida em prazer e o reconhecimento da dignidade suprassensível do espírito humano.

Já o sublime dinâmico manifesta-se quando confrontamos o poderio avassalador da natureza, como tempestades furiosas, vulcões em erupção ou furacões. Sentimos a nossa vulnerabilidade física enquanto seres materiais, mas simultaneamente descobrimos uma resistência moral interior que transcende o medo da destruição física.

Na história da literatura, a transição para o Romantismo transformou o sublime na linguagem por excelência do sujeito moderno. O poeta inglês John Milton, embora anterior ao Romantismo, já antecipara no século XVII esse sublime kantiano e dinâmico em O Paraíso Perdido, ao desenhar a figura monumental de Satanás e a arquitetura cósmica da queda dos anjos. Mais tarde, no Romantismo pleno, poetas como Lord Byron, em A Peregrinação de Childe Harold, e Johann Wolfgang von Goethe, em Os Sofrimentos do Jovem Werther, colocaram o indivíduo em constante diálogo com as forças do cosmos. A contemplação da natureza tempestuosa torna-se o espelho do caos interior da alma romântica, um sentimento em que a dor da existência e o fascínio pela imensidão se fundem indissociavelmente.

Ainda no século XIX, um dos maiores monumentos da literatura ocidental constrói toda a sua arquitetura sobre as fundações do sublime: o romance Moby Dick, de Herman Melville. A baleia branca perseguida pelo capitão Ahab encarna, a um só tempo, as dimensões matemática e dinâmica descritas por Kant, aliadas ao terror burkeano. Moby Dick é a brancura cega, a imensidão insondável dos mares, o poder destrutivo e incontrolável que desafia o intelecto e a vontade do homem. A obsessão de Ahab converte-se em uma trágica e sublime busca pelo absoluto, em que o confronto com o monstro marinho expõe tanto a fragilidade da condição humana quanto o seu orgulho desmedido.

📖 Leia também: O que é Carnavalização na Teoria da Literatura?

É crucial destacar que o sublime não se restringiu à literatura europeia ou norte-americana, nem permaneceu engessado no século XIX. Na literatura brasileira, encontramos reflexos profundos dessa categoria adaptada a diferentes projetos estéticos. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o célebre capítulo do delírio de Brás Cubas apresenta uma das mais vertiginosas figurações do sublime na nossa língua. Alçado ao topo de uma montanha sobre o lombo de um hipopótamo, o protagonista é confrontado pela figura colossal da Natureza ou Pandora. A visão do desfile de todos os séculos da humanidade, devorados indiferentemente pelo tempo, provoca no espectador um sentimento de estupefação e pequenez absoluta diante do abismo da história universal.

No século XX, o sublime desfez-se do aparato metafísico e romântico para adquirir contornos existenciais e ontológicos. A literatura modernista e contemporânea passou a investigar o sublime no cotidiano, na vertigem do vazio ou na falência da própria linguagem. Em A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, assistimos a uma jornada sublime desencadeada por um evento aparentemente insignificante: o confronto da protagonista com uma barata no quarto de empregada. O pavor inicial desdobra-se em um desnudamento metafísico, onde G.H. é despojada de suas camadas sociais e do seu ego para encarar o neutro, o vivo primordial e a imensidão assustadora do ser. A escrita de Lispector atinge o sublime justamente ao tentar enunciar a dissolução das fronteiras do 'eu' e o terror de ser tragado pelo absoluto da existência.