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Professor de Literatura escrevendo em um quadro |
Aristóteles foi o primeiro teórico a sistematizar as dinâmicas da tragédia, estabelecendo que a função essencial desse gênero dramático é suscitar no espectador os sentimentos de terror e piedade. O terror advém do reconhecimento de que a desgraça que se abate sobre a personagem poderia ocorrer com qualquer um de nós; a piedade surge da constatação de que o sofrimento imposto ao protagonista excede, em escala, a severidade do seu erro original.
Essa reação emocional integrada culmina na catarse, o processo de purificação ou clarificação afetiva que permite ao público processar os abalos existenciais encenados no palco. Todavia, a catarse só se viabiliza se o protagonista possuir características específicas. Se uma pessoa absolutamente justa sofresse uma derrocada sem qualquer justificativa, o sentimento gerado no público seria de indignação moral ou repulsa, e não de piedade. Por outro lado, se um indivíduo perverso sofresse o castigo merecido, haveria um senso de justiça cumprida, mas não a comoção trágica.
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O vetor central da ruína do herói trágico reside na hamartia, conceito frequentemente traduzido como "erro trágico" ou "falha de julgamento". A hamartia não se confunde com o pecado no sentido teológico do termo, tampouco com a perversidade vilã. Ela refere-se a uma escolha equivocada tomada em estado de ignorância parcial ou motivada por um impulso desmedido, conhecido como hubris. A hubris representa a desmedida, a arrogância ou o orgulho excessivo que leva o indivíduo a ultrapassar os limites impostos pelos deuses, pelas leis humanas ou pela própria ordem natural.
À medida que o herói age sob o impacto de sua hubris e incorre na hamartia, a trama avança inevitavelmente em direção à peripécia, que consiste na reviravolta repentina da sorte. A situação do protagonista inverte-se drasticamente, passando da prosperidade à calamidade. Esse momento de virada é acompanhado ou seguido pela anagnórise, o reconhecimento ou a descoberta dolorosa da verdade. O herói trágico toma consciência, tarde demais, de sua responsabilidade no próprio destino e da ilusão em que vivia.
A manifestação mais perfeita dessa estrutura encontra-se na obra-prima de Sófocles, Édipo Rei. O rei de Tebas encarna de maneira exemplar a definição aristotélica de herói trágico. Édipo é um governante sábio, corajoso e devotado ao seu povo, admirado por ter decifrado o enigma da Esfinge e salvo a cidade. Contudo, ao buscar cessar a peste que assola Tebas, ele promete punir o assassino do antigo rei Laio com vigor implacável.
A hubris de Édipo manifesta-se em sua autoconfiança racional e em sua recusa inicial em aceitar os avisos do vidente cego Tirésias. Certo de sua própria justiça e capacidade intelectual, Édipo conduz a investigação com obstinação moral admirável, sem perceber que o criminoso que procura é ele próprio. A sua hamartia foi ter tentado fugir do oráculo de Apolo, matando um desconhecido em um cruzamento de estradas no passado sem saber que se tratava de seu pai biológico, e posteriormente casando-se com a rainha Jocasta, sua mãe.
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O momento crucial de anagnórise em Édipo Rei ocorre simultaneamente à peripécia: ao descobrir as suas verdadeiras origens e o cumprimento involuntário da profecia, a iluminação interior de Édipo resulta no seu cegamento físico deliberado. Ele fura os próprios olhos com os alfinetes do vestido de Jocasta, assumindo a dor e a culpa de seu ato, aceitando o exílio de Tebas. A grandeza trágica de Édipo não reside na inocência, mas na dignidade épica com que ele encara a vergonha e a punição ao tomar plena consciência de seu destino.
De forma análoga, em Antígona, também de Sófocles, presenciamos o confronto trágico entre duas obrigações morais irreconciliáveis. Antígona desafia o decreto do rei Creonte que proibia o sepultamento de seu irmão Polinice. O herói trágico nesta peça desdobra-se tanto em Antígona, disposta a morrer em nome das leis divinas e familiares, quanto em Creonte, cuja hubris política o impede de ceder até que sua família seja completamente destruída. Ambos sustentam posições legítimas sob determinados prismas, porém levadas a um inflexível radicalismo que conduz à catástrofe.
Nas obras de Ésquilo, como na trilogia Orestéia, e nas tragédias de Eurípedes, a exemplo de Medeia e As Bacantes, observa-se a mesma tensão entre a vontade individual e as forças transcendentes. Em Eurípedes, contudo, a tragédia ganha nuances mais psicológicas: as paixões humanas incontroláveis, como o ciúme devastador de Medeia, funcionam como a engrenagem que destrói a própria vida da personagem e a de todos ao seu redor.
Com o advento do Renascimento, a tragédia passa por uma transformação profunda. Se no mundo grego o destino era ditado pelos deuses e pelo fatum, no teatro da Idade Moderna, em especial na obra de William Shakespeare, o destino desloca-se para o interior do sujeito. O herói trágico shakespeariano é movido por dilemas morais, contradições psicológicas e falhas de caráter intrínsecas à natureza humana.
Em Macbeth, a hubris assume a forma da ambição desmedida. Macbeth é inicialmente um general honrado e corajoso, mas a profecia das bruxas e a incitação de Lady Macbeth despertam nele um desejo incontrolável de poder. Sua hamartia é o assassinato do rei Duncan, ato que viola a ordem sagrada e desencadeia uma espiral ininterrupta de tirania e paranoia. Ao contrário de Édipo, que erra por ignorância, Macbeth tem plena consciência da imoralidade de seus atos, o que torna seu tormento psicológico ainda mais brutal até a sua derrocada final.
Em Hamlet, o erro trágico manifesta-se sob a forma da paralisia analítica e da dúvida metódica. O príncipe da Dinamarca recebe do fantasma de seu pai a missão de vingar o seu assassinato cometido por Cláudio. No entanto, o excesso de reflexão de Hamlet, sua busca por uma certeza absoluta e a constante melancolia adiam a ação decisiva, resultando na morte trágica de praticamente toda a corte dinamarquesa, incluindo a inocente Ofélia e a rainha Gertrudes.
Da mesma forma, em Otelos, a falha trágica do general mouro é a sua vulnerabilidade à manipulação e ao ciúme doentio cultivado por Iago. A incapacidade de Otelo em enxergar a pureza de Desdêmona o leva a cometer um crime irreversível, seguido pelo terrível momento de anagnórise no qual ele percebe o erro monstruoso que cometeu e tira a própria vida. Em todas essas obras shakespearianas, a nobreza de espírito do protagonista contrasta dolorosamente com a imperfeição de suas escolhas, garantindo a permanência do efeito catártico.
Ao longo dos séculos XIX e XX, a concepção clássica do herói de estirpe real ou nobre deu lugar à figura do homem comum. A literatura moderna passa a problematizar a tragédia não mais no âmbito dos palácios ou dos mitos, mas nas ruínas da vida cotidiana, do trabalho alienado e da opressão social.
A peça A Morte de um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller, representa o ápice dessa reformulação conceitual. Miller defendia explicitamente que o homem comum é um sujeito tão apto ao sentimento trágico quanto os reis da antiguidade. O protagonista Willy Loman é um vendedor decadente que se recusa a aceitar o fracasso do "sonho americano". Sua hubris reside no apego obstinado a uma ilusão de sucesso e popularidade, e sua hamartia é a incapacidade de encarar a realidade de sua vida e de seus filhos, terminando por cometer suicídio para que o filho Biff receba o dinheiro do seguro de vida.
Na literatura narrativa, personagens de romances do realismo e do modernismo frequentemente absorvem traços do herói trágico clássico. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bento Santiago constrói a narrativa de sua própria vida sob a sombra do ciúme e da paranoia, destruindo seus laços afetivos com Capitu e Escobar. Embora o romance machadiano utilize a ironia e a ambiguidade moderna, a trajetória de Bentinho carrega a marca inconfundível do isolamento e da autodestruição resultantes de suas próprias obsessões morais.
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A peça A Morte de um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller, representa o ápice dessa reformulação conceitual. Miller defendia explicitamente que o homem comum é um sujeito tão apto ao sentimento trágico quanto os reis da antiguidade. O protagonista Willy Loman é um vendedor decadente que se recusa a aceitar o fracasso do "sonho americano". Sua hubris reside no apego obstinado a uma ilusão de sucesso e popularidade, e sua hamartia é a incapacidade de encarar a realidade de sua vida e de seus filhos, terminando por cometer suicídio para que o filho Biff receba o dinheiro do seguro de vida.
Na literatura narrativa, personagens de romances do realismo e do modernismo frequentemente absorvem traços do herói trágico clássico. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bento Santiago constrói a narrativa de sua própria vida sob a sombra do ciúme e da paranoia, destruindo seus laços afetivos com Capitu e Escobar. Embora o romance machadiano utilize a ironia e a ambiguidade moderna, a trajetória de Bentinho carrega a marca inconfundível do isolamento e da autodestruição resultantes de suas próprias obsessões morais.
Referências Bibliográficas
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 1. ed. Rio de Janeiro: Livraria Garnir, 2024.
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ESQUILO. Orestéia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides. Tradução de Mário da Gama Kury. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
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EURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. 5. ed. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
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EURÍPIDES. Medeia. Tradução de Mário da Gama Kury. 5. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.
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FRYE, N. Anatomia da crítica. 1ª ed. Campinas-SP: Sétimo Selo, 2026.
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MILLER, Arthur. A morte de um caixeiro-viajante. Tradução de José Rubens Siqueira. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
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SHAKESPEARE, W. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira]. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2015.
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SHAKESPEARE, W. Otelo. [Tradução de Lawrence Flores Pereira]. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2017.
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SÓFOCLES. A trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Tradução de Mário da Gama Kury. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
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STEINER, George. A morte da tragédia. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.
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VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia Antiga. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.
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