02/10/2026

Revista FIDES Abre Edital para Submissão de Artigos sobre Direito, Trabalho e Tecnologia

A Revista FIDES — Filosofia do Direito, do Estado e da Sociedade lançou oficialmente o seu trigésimo primeiro edital, abrindo o prazo para o recebimento de artigos científicos e resenhas destinados à composição da sua próxima edição. Com foco central na seção temática voltada para a intersecção entre direito, trabalho e tecnologia, o periódico acadêmico aceitará submissões até o dia 4 de outubro de 2026. O lançamento do volume está programado para ocorrer entre os meses de novembro e dezembro de 2026.

Vinculada à produção interdisciplinar e sediada em Natal, a publicação eletrônica semestral e de acesso gratuito prioriza investigações científicas alinhadas ao tema central, embora o Conselho Editorial mantenha a prerrogativa de contemplar outras temáticas relevantes. A expectativa da organização é selecionar até vinte trabalhos inéditos redigidos em português ou inglês.

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Para participar, os interessados devem observar as regras de autoria, que permitem a submissão de um trabalho individual e um em coautoria por pesquisador, respeitando o limite máximo de dois autores por texto. Quanto à extensão exigida, os artigos científicos devem possuir entre 8 e 20 laudas, enquanto as resenhas precisam conter de 8 a 15 páginas. Todos os manuscritos passarão pelo rigoroso processo de avaliação por pares no sistema duplo-cego, garantindo o rigor acadêmico, e os autores dos trabalhos aprovados receberão certificados de publicação.

Os envios devem ser realizados por meio do endereço eletrônico submissoesrevistafides@gmail.com, acompanhados da verificação rigorosa das diretrizes do edital, do artigo-modelo e do guia de padronização de referências disponibilizados pela revista. O edital completo pode ser acessado diretamente neste link do Google Drive.

Revista Logos & Culturas da Faculdade Católica de Fortaleza Recebe Artigos de Filosofia e Teologia até Novembro de 2026

A Revista Logos & Culturas, vinculada à Faculdade Católica de Fortaleza, está com inscrições abertas para o recebimento de trabalhos inéditos voltados ao próximo número do periódico. Pesquisadores, acadêmicos e estudiosos das áreas de filosofia e teologia podem submeter artigos científicos, resenhas e traduções até o dia 1 de novembro de 2026.

A chamada possui temática livre, exigindo apenas que os textos mantenham vínculo direto com as discussões filosóficas ou teológicas. Classificada com o Qualis B1, a publicação busca consolidar um espaço de diálogo rigoroso entre esses dois campos do saber, promovendo o intercâmbio de ideias e a circulação de conhecimento qualificado.

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Embora o periódico adote o fluxo de publicação contínua, os autores interessados em integrar a próxima edição devem observar rigorosamente o prazo estabelecido para que as produções passem por todas as etapas editoriais necessárias, incluindo a avaliação por pares.

Todas as diretrizes de formatação, normas de normalização, orientações detalhadas para submissão e informações sobre o processo de avaliação estão disponíveis no site oficial da Faculdade Católica de Fortaleza, plataforma onde também deve ser efetivado o envio dos documentos. Questões específicas ou dúvidas remanescentes podem ser encaminhadas diretamente para a equipe editorial por meio do endereço eletrônico periodicos@catolicadefortaleza.edu.br.

Quem são os Mirmidões na Mitologia Grega?

Conhecidos como o exército lendário comandado pelo destemido herói Aquiles durante a Guerra de Troia, esses guerreiros tessálicos possuem uma origem enraizada no mito, na etimologia e nas dinâmicas de poder entre os deuses do Olimpo. 

A palavra "mirmidão" e o seu plural "mirmidões" (ou mirmídones) derivam diretamente do termo grego antigo myrmex, que significa literalmente "formiga". A tradição mítica grega oferece duas vertentes principais para explicar a origem desse povo e a sua associação simbólica e literal com os insetos sociais. A primeira tradição remonta à genealogia divina e ao herói epônimo Mirmidão. Segundo essa vertente clássica, Mirmidão era filho do próprio Zeus e de Eurimedusa, filha de Cleitor (ou Aquelau).

Para seduzir e possuir a jovem mortal, o rei dos deuses recorreu a uma de suas costumeiras metamorfoses, transformando-se em uma formiga. Da união entre o deus supremo sob a forma de um inseto e a mortal Eurimedusa nasceu Mirmidão, que viria a se tornar o ancestral lendário de um grupo tribal que herdou o seu nome, estabelecendo a semente de um povo intimamente ligado à terra e ao trabalho incansável.

A segunda vertente, contudo, é a mais difundida e poeticamente elaborada na literatura clássica, tendo sido perpetuada por autores como Ovídio em suas Metamorfoses e repassada ao longo dos séculos. Essa versão coloca a criação dos Mirmidões no contexto da ilha de Egina. A narrativa relata que Hera, tomada pelo ciúme que nutria pelas amantes de seu esposo Zeus, lançou uma terrível praga sobre a ilha que levava o nome de Egina, uma das ninfas seduzidas pelo pai dos deuses. A pestilência devastou a população local, exterminando homens, mulheres e animais, e deixando o rei Éaco, filho de Zeus e Egina, praticamente só em um reino desolado e desprovido de súditos.

Em seu desespero diante da visão dos mortos e do silêncio assustador que tomou conta de sua terra, Éaco elevou uma ardente prece a Zeus. Olhando para um carvalho sagrado dedicado ao pai celestial, o rei observou uma fileira interminável de formigas que subiam pelo tronco da árvore carregando alimentos com disciplina, coordenação e força desproporcional ao seu tamanho.

Inspirado por aquela visão, Éaco suplicou a Zeus que lhe concedesse tantos cidadãos quanto o número daquelas formigas para repovoar a sua cidade e reerguer o seu reino. Zeus atendeu às preces de seu filho e, durante a noite, transformou as milhares de formigas em seres humanos. Na manhã seguinte, Éaco despertou e encontrou uma multidão de novos súditos, aos quais batizou de Mirmidões em homenagem à sua origem.

Essa gênese mítica moldou a natureza psicológica, física e social do povo mirmidão. Assim como as formigas das quais descendiam ou foram transformados, os Mirmidões eram caracterizados por uma disciplina inabalável, uma resistência física prodigiosa e uma lealdade absoluta à coletividade e ao seu líder. Eles não eram guerreiros movidos pelo desejo de glória individual ou por devaneios poéticos, mas sim uma força coesa, altamente organizada, feroz e destituída de hesitação. Suas armaduras, frequentemente descritas em tons escuros ou acobardados que remetiam à carapaça das formigas, refletiam a sobriedade e a funcionalidade de sua essência.

Mais tarde, quando Peleu, filho de Éaco, foi exilado da ilha de Egina devido à morte acidental (ou assassinato) de seu meio-irmão Foco, ele emigrou para a Tessália e levou consigo uma parte substancial dos Mirmidões. Ali, estabeleceu-se na região de Ftia, onde o exército se consolidou. Com a morte ou o envelhecimento de Peleu, a liderança desse exército extraordinário passou para o seu filho com a ninfa Tétis: Aquiles, o maior e mais temível dos guerreiros gregos.

Na Ilíada de Homero, os Mirmidões desempenham um papel crucial no curso da Guerra de Troia. Quando Aquiles, profundamente ofendido pelo rei Agamêmnon, decide retirar-se do combate e manter-se em suas tendas à beira do mar, os Mirmidões também cessam a luta. A ausência desse contingente de soldados desequilibra dramaticamente o conflito em favor dos troianos liderados por Héctor, demonstrando que a força dos aqueus dependia visceralmente do braço de Aquiles e da massa guerreira que o acompanhava. 

Somente quando Pátroclo, o companheiro mais amado de Aquiles, veste a armadura do herói e lidera os Mirmidões de volta ao campo de batalha é que os troianos são empurrados de volta às suas muralhas. A atuação dos Mirmidões na guerra serve como emblema da ideia de um organismo coletivo perfeito, onde a individualidade se dissolve em prol do objetivo militar comandado por seu chefe supremo.

Na posteridade e na linguagem figurada, a imagem dos Mirmidões transpassou a mitologia para se converter em uma metáfora cultural e política. O termo passou a designar seguidores incondicionais, executores de ordens sem questionamento ou subordinados que cumprem tarefas difíceis e rigorosas com cega obediência e eficácia cirúrgica.

Referências Bibliográficas

BULFINCH, Thomas. O livro da Mitologia: A Idade da fábula. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Martin Claret, 2024.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.

SILVA, A. B. Entendendo Algoritmos: Um Guia Ilustrado Para Programadores e Outros Curiosos. 1. ed. São Paulo: Novatec, 2017.

HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço.1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.

STEPHANIDES, Menelaos. Box Coleção Mitologia Grega. 4. ed. São Paulo: Editora Odysseus, 2019.

O que significa Objeto (Objekt) para a Psicanálise?

Nos seus escritos pioneiros sobre a teoria da sexualidade, Sigmund Freud definiu a pulsão a partir de quatro elementos constituintes: a fonte, a pressão, a meta (ou alvo) e o objeto. A fonte refere-se ao processo somático que ocorre em um órgão ou parte do corpo; a pressão representa a quantidade de força ou a exigência de trabalho imposta ao psiquismo; a meta é invariavelmente a satisfação, alcançada através da redução da tensão e da excitação; e o objeto revela-se como aquilo através do qual, ou no qual, a pulsão pode atingir sua meta.

Uma das descobertas mais revolucionárias de Freud está na constatação de que o objeto é o elemento mais variável da pulsão. Diferente do instinto animal, que possui uma ligação pré-fixada e biologicamente determinada com o seu objeto, a pulsão humana é caracterizada pela extrema mobilidade e contingência. O objeto não está originariamente vinculado à pulsão; ele é a ela soldado apenas em virtude de sua aptidão para proporcionar a satisfação. Isso significa que o ser humano não nasce sabendo a quem ou ao que deve amar ou desejar. O objeto psíquico é achado e construído ao longo da história singular do sujeito, podendo ser uma pessoa inteira, uma parte do corpo, uma abstração, um ideal ou até mesmo um sintoma.

Quando nos referimos ao desenvolvimento psíquico infantil, o primeiro encontro com o objeto é marcado pela experiência de reencontro. Em seus ensaios sobre a sexualidade, Freud afirma celebremente que o achado do objeto é, na realidade, um reencontro. Nos primórdios da vida, o bebê vivencia um estado de desamparo original no qual a satisfação de suas necessidades vitais, como a fome, é provida por um agente externo, geralmente a figura materna. Durante a amamentação, a necessidade de alimento funde-se ao prazer erógeno da sucção. Quando a presença concreta da mãe ou do seio se ausenta, a criança busca alucinar a experiência de satisfação prévia. O objeto perdido torna-se, assim, o motor do desejo. Toda busca subsequente por um objeto na vida adulta guarda, no fundo, a nostalgia inconsciente daquele primeiro objeto primordial que prometia a satisfação plena, mas que foi irremediavelmente perdido no processo de constituição do sujeito.

Com a evolução da teoria freudiana e a introdução do conceito de narcisismo, a dinâmica do objeto ganhou novas camadas, isso porque foi nesse momento em que Freud distingue a libido do eu da libido objetal. No narcisismo primário, a energia psíquica encontra-se totalmente investida no próprio eu, que funciona como seu próprio objeto de amor. À medida que a criança se desenvolve, parte dessa energia é emitida para o exterior, investindo em objetos reais ou fantasísticos do mundo externo. Quando ocorrem perdas, decepções ou frustrações nas relações amorosas, a libido pode ser recolhida dos objetos e rebatida sobre o próprio eu, configurando o narcisismo secundário. Essa mobilidade da carga afetiva demonstra que a fronteira entre o sujeito e o objeto é "porosa", dinâmica e constantemente renegociada pela mente.

Após a morte de Freud, em 1939, o conceito de objeto passou a concentrar as maiores controvérsias e avanços teóricos da psicanálise, especialmente através da escola inglesa e das contribuições de Melanie Klein. A autora revolucionou a clínica ao propor a teoria das relações de objeto, deslocando o foco da pulsão biológica para o drama relacional fantasiado no mundo interno da criança. Para a psicanálise kleiniana, o psiquismo infantil é habitado desde o nascimento por objetos internos, os quais não são reproduções fiéis das pessoas reais do mundo exterior, mas construções mentais moldadas pelas projeções das próprias pulsões de vida e de morte do bebê.

Klein dividiu o desenvolvimento inicial em duas posições psíquicas fundamentais: a posição esquizo-paranoide e a posição depressiva. Na posição esquizo-paranoide, a mente incipiente do bebê, incapaz de integrar a complexidade do mundo, cliva o objeto em duas metades polarizadas. O seio materno, por exemplo, é percebido como um objeto bom quando gratifica e alimenta, ou como um objeto mau quando se ausenta e frustra. Esses objetos parciais são vivenciados com extrema intensidade dramática; o objeto bom é idealizado e amado, enquanto o objeto mau é temido e atacado fantasiosamente por impulsos sádicos.

Conforme a maturação psíquica avança, a criança transita para a posição depressiva, na qual começa a perceber que o objeto bom e o objeto mau são, na verdade, a mesma e única pessoa: a mãe total. Essa integração do objeto traz consigo um profundo sentimento de culpa e angústia, pois o sujeito percebe que a mesma figura que ele ama é aquela que ele atacou em suas fantasias destrutivas. Surge, então, a necessidade imperiosa de reparação do objeto danificado. A forma como cada indivíduo elabora essa transição entre objetos parciais e objetos totais delineia as bases de sua estrutura de personalidade e suas formas de se relacionar na vida adulta.

Outra contribuição importante para a compreensão do tema foi dada pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott. Ao investigar a passagem do estado de fusão inicial entre a mãe e o bebê para o reconhecimento da alteridade, o autor introduziu o conceito de objeto transicional. Esse objeto, que frequentemente se materializa em um pedaço de cobertor, um urso de pelúcia ou um som repetido pela criança, ocupa uma área intermediária de experiência entre a realidade interna e o mundo externo. O objeto transicional não é totalmente inventado pelo bebê, nem pertence exclusivamente à realidade objetiva dada pelos pais; ele habita o espaço potencial da ilusão.

O objeto transicional é a primeira posse não-eu da criança. Ele permite que o bebê tolere a ausência da mãe sem colapsar psiquicamente, servindo como uma ponte afetiva durante os momentos de separação e solidão. Winnicott enfatiza que a experiência com o objeto transicional é a raiz de toda a capacidade humana subsequente de criar, desfrutar da arte, viver a religiosidade e participar da cultura. O destino desse objeto não é ser esquecido ou chorado quando perdido, mas sofrer um desinvestimento gradual, espalhando a sua carga afetiva por todo o domínio cultural do indivíduo.

Paralelamente às abordagens britânicas, a psicanálise francesa, liderada pelo retorno a Freud promovido por Jacques Lacan, proporcionou uma leitura inteiramente nova e estruturalista ao problema. Para o psicanalista francês, o objeto não pode ser reduzido a uma entidade empírica ou a uma pessoa real com a qual se estabelece uma relação interpessoal. O autor desmistifica a ideia de que a maturação psíquica conduziria o sujeito a uma relação de objeto harmoniosa, genital ou adaptada.

Lacan formulou o conceito crucial de objeto a, também denominado objeto causa do desejo. Este termo não designa o objeto com o qual a pulsão se satisfaz, mas a falta constitutiva que põe o desejo em movimento. O objeto a é aquilo que se perdeu no momento em que a criança entrou na ordem da linguagem e da cultura. Ao ser capturado pelo significante e pelo código simbólico, o ser humano é irremediavelmente separado de sua vivência direta de gozo. O objeto a é o resto dessa operação de linguagem, uma lacuna que nunca poderá ser preenchida por nenhum objeto concreto do mundo real.

Na teoria lacaniana, os objetos do mundo que o sujeito persegue com paixão na vida cotidiana não passam de substitutos imaginários que recobrem o vazio do objeto causa do desejo. Quando alguém se apaixona por determinada pessoa ou busca obsessivamente um bem material, o que atrai esse sujeito é a promessa fantasiada de que aquele objeto finalmente tapará a sua falta estrutural. No entanto, por ser o desejo insaciável por definição, a posse do objeto revela inevitavelmente sua insuficiência, relançando o indivíduo na busca infinda por novas miragens.

A reflexão sobre o objeto também se estende para a prática da clínica psicanalítica através dos fenômenos da transferência e da contratransferência. Na sala de análise, o psicanalista é colocado pelo paciente no lugar de diversos objetos do seu passado infantil. O analista torna-se, na fantasia do analisando, o objeto de amor, de ódio, de rivalidade ou de socorro que marcou sua história primitiva. É apenas porque o terapeuta aceita encarnar temporariamente esse lugar de objeto, mantendo contudo a sua neutralidade e recusando a satisfação direta da pulsão do paciente, que o trabalho analítico pode revelar as repetições e permitir a ressignificação das neuroses.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Ubu Editora, 2013.

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros ensaios. São Paulo: Ubu Editora, 2023.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. 1. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2019.

Revista Anais de História de Além-Mar Abre Chamada para Artigos sobre Representações do Humano e da Humanidade

A Revista Anais de História de Além-Mar lançou uma chamada internacional para a submissão de trabalhos académicos destinados ao seu próximo dossiê temático, intitulado Representações do Humano e da Humanidade, com publicação agendada para 2027. A iniciativa visa acolher investigações originais que explorem o conceito de humano não como um dado adquirido, mas sim como uma construção social e cultural dotada de temporalidades próprias. Os organizadores convidam investigadores das áreas da História, Literatura, Arte, Política, Filosofia e disciplinas afins a enviarem contributos que examinem a evolução destas representações ao longo de diferentes períodos históricos e paisagens culturais.

O dossier enquadra-se nas linhas de investigação do CHAM, integradas no seu plano estratégico para o período entre 2025 e 2029, encorajando abordagens que analisem as complexidades e multiplicidades internas da experiência humana. Entre os principais eixos temáticos aceites encontram-se o papel do poder na produção de conhecimento, os processos históricos de classificação que fundamentaram a exclusão e a subordinação, e as complexas questões ligadas à identidade, à alteridade e à outridade.

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São igualmente valorizados estudos que abordem as dicotomias do humano historicamente situadas, compreendendo categorias como humano e não humano, sub-humano e super-humano, bem como inumano e mais-que-humano. A chamada abrange ainda a construção de narrativas de inovação e ruptura com o passado, a circulação de ideias e os respetivos suportes materiais, as interações dinâmicas entre as comunidades humanas e os seus ambientes naturais, além de debates aprofundados sobre a modernidade e a pluralidade de modernidades.

As propostas de artigos devem cumprir o limite de extensão compreendido entre seis mil e doze mil palavras, incluindo todas as notas de rodapé, referências visuais e bibliografia. Os manuscritos podem ser redigidos em português, castelhano, inglês, francês ou italiano e devem ser submetidos através do website oficial da revista até ao dia 30 de novembro de 2026. Todos os textos recebidos serão submetidos a um rigoroso processo de arbitragem científica externa em regime de duplo anonimato, garantindo o mérito e a qualidade académica da edição temática prevista para 2027.

01/10/2026

O que significa Neurose para a Psicanálise?

A neurose é amplamente considerada a pedra angular sobre a qual Sigmund Freud alicerçou a arquitetura teórica e clínica da psicanálise. Esse fenômeno é compreendido no campo psicanalítico como uma condição inerente à própria constituição do sujeito cultural, representando a tentativa mais singular e refinada que o psiquismo encontra para mediar os conflitos insolúveis entre os desejos pulsionais inconscientes e as exigências normativas do mundo externo.

Atentemo-nos ao fato de que o aparelho mental humano é atravessado por forças antagônicas que operam incessantemente. De um lado, encontram-se as forças da pulsão, que buscam a satisfação imediata e a descarga de energia; de outro, tem-se a realidade concreta e as instâncias de censura moral interiorizadas durante o desenvolvimento. Quando uma moção pulsional age em busca de realização, mas é julgada inaceitável pelo Eu em função de exigências éticas ou sociais, instala-se um impasse estrutural. O psiquismo, visando preservar a integridade da consciência e evitar a vivência de um afeto insuportável, mobiliza mecanismos de defesa para afastar o conteúdo conflituoso.

O principal e mais emblemático desses mecanismos é o recalque. Por meio dessa operação fundamental, a representação psíquica do desejo proibido é retida no inconsciente, privada do acesso à mobilidade motora e à consciência. Contudo, o recalque nunca é plenamente definitivo ou totalmente eficaz. Aquilo que foi empurrado para as profundezas inconscientes mantém a sua carga energética intacta e exerce uma pressão constante para retornar à superfície. A neurose é a consequência desse retorno do recalcado. O sintoma neurótico surge como uma formação de compromisso, uma negociação inconsciente na qual o desejo recalcado consegue manifestar-se, porém de forma disfarçada, deformada e irreconhecível para o próprio sujeito. O indivíduo padece de produções mentais ou corporais cujo sentido lhe escapa completamente, pois o valor simbólico dessas manifestações permanece oculto no inconsciente.

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Nesse processo de desvio e deformação, outro conceito desempenha um papel importante: fantasia. Diante da impossibilidade de satisfação direta das exigências da pulsão na realidade objetiva, o sujeito constrói tramas imaginárias que servem de suporte para o desejo. A fantasia neurótica funciona como um palco interno onde a satisfação é alcançada de maneira velada. Não raro, o sujeito neurótico permanece aprisionado nessas construções fantasmáticas, repetindo padrões relacionais e comportamentais dolorosos sem se dar conta de que está encenando uma peça cujo roteiro foi escrito na sua mais precoce infância. Essa tendência incontrolável de reiterar vivências conflituosas é o que a psicanálise conceitua como compulsão à repetição, um fenômeno que demonstra como o passado não elaborado insiste em se fazer presente.

Historicamente, Freud dividiu as neuroses em diferentes estruturas e modalidades clínicas, sendo a histeria e a neurose obsessiva as duas formas fundamentais de apresentação. Na histeria, o conflito psíquico recalcado é convertido diretamente no corpo. Os sintomas histéricos tradicionalmente envolvem paralisias, cegueiras temporárias, dores crônicas ou anestesias corporais para as quais a medicina orgânica não encontra qualquer respaldo anatômico ou fisiológico. O corpo histérico é um corpo marcado pela linguagem, onde o membro afetado não segue as vias dos nervos biológicos, mas sim os contornos das palavras e dos significados inconscientes. Na neurose obsessiva, por sua vez, o conflito permanece no plano do pensamento. O sujeito é invadido por ideias parasitas, dúvidas excruciantes e pensamentos intrusivos dos quais não consegue se libertar, recorrendo frequentemente a rituais minuciosos e comportamentos compulsivos na tentativa desesperada de anular a angústia e prevenir desastres imaginários.

A transição entre a saúde psíquica e o adoecimento neurotico é uma questão de grau e de mobilidade energética, e não de uma ruptura radical. Todos os seres humanos civilizados carregam traços de organização neurótica, na medida em que a inserção na cultura exige indispensavelmente a renúncia a uma parcela considerável da satisfação pulsional. Ao aceitar as regras da convivência social e a lei da linguagem, o sujeito abdica do gozo pleno e imediato, tornando-se constitutivamente dividido e faltante. A diferença entre a dita normalidade e a neurose grave reside na rigidez dos mecanismos de defesa mobilizados e no custo psíquico necessário para sustentar o recalque. Quanto mais energia mental é consumida no esforço de manter os contedos indesejados sepultados, menos recursos restam para a criação, para o trabalho e para a vivência de relações afetivas satisfatórias.

O sofrimento neurótico está intimamente vinculado à angústia, que se manifesta como um sinal de alarme emitido pelo Eu quando o equilíbrio psíquico é ameaçado pela iminência do retorno do recalcado. Diferente do medo, que possui um objeto claro e delimitado no mundo exterior, a angústia neurótica é difusa e desprovida de objeto aparente. O sujeito experimenta um aperto no peito, uma sensação iminente de catástrofe ou um desassossego profundo sem conseguir articular racionalmente a origem de tal desorganização. Trata-se da irrupção de uma verdade inconsciente que pressiona para ser dita, mas que ainda não encontrou as palavras adequadas para se traduzir na consciência.

É justamente no espaço do tratamento psicanalítico que essa angústia pode encontrar uma via de metabolização e de palavra. O objetivo da análise é oferecer as condições para que o sujeito possa escutar a verdade desejante que habita a sua própria neurose. Ao longo do processo analítico, por meio da associação livre de pensamentos e da análise da transferência com o analista, o paciente é convidado a colocar em palavras aquilo que antes só conseguia expressar através do sofrimento corporal ou da repetição cega de comportamentos disfuncionais.

Ao reatar os fios de sua história e ao decifrar os enigmas guardados em seus sintomas, o sujeito neurótico ganha a oportunidade de reorganizar sua posição diante do próprio desejo e das limitações impostas pela existência. A neurose deixa de ser um destino trágico e paralisante para se tornar a matéria-prima de um trabalho de transformação pessoal. Esse reconhecimento permite ao indivíduo encarar as suas vulnerabilidade não como um fracasso individual, mas como uma marca da sua existência enquanto sujeito que sente e deseja, o qual está situado entre a força das pulsões, os mistérios da memória e a busca incessante por sentido no mundo da linguagem.

Muitas vezes, a experiência subjetiva do indivíduo acorrentado aos seus próprios conflitos inconscientes encontra paralelos marcantes na linguagem do sofrimento existencial. O sujeito dominado por dúvidas dolorosas ou por uma culpabilidade inexplicável vivencia um estado de constante vigilância interna que se assemelha ao rigor moral encontrado na tradição ascética. A luta travada no foro íntimo do neurótico reflete a antiga metáfora do conflito espiritual, na qual o espírito deseja realizar o bem, mas encontra-se prisioneiro de impulsos opostos que desconhece e não consegue dominar inteiramente. O sentimento inadequação e de falha moral que frequentemente assola o neurótico obsessivo espelha a angústia trazida pelo conceito de pecado original, onde a marca de uma transgressão ancestral parece determinar o destino de sofrimento da criatura.

Nesse contexto de busca por sentido, a neurose pode ser interpretada como uma tentativa de redenção malograda, em que o sintoma funciona como uma forma de autopunição inconsciente para expiar uma culpa cujas raízes remontam aos desejos recalcados da infância. A sensação de estar separado de sua própria essência e a busca incessante por uma plenitude perdida fazem ressoar no peito do sujeito neurótico a ideia da queda da graça, um estado de desterro no qual a harmonia primordial foi desfeita pela entrada na ordem da lei e da cultura. A dor neurótica revela-se, assim, como uma busca tortuosa pela restauração de um paraíso perdido da satisfação, um anseio por reencontrar a unidade antes da cisão instaurada pelo recalque.

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Entretanto, diferentemente da busca por um resgate metafísico ou por uma intervenção transcendental, a psicanálise oferece um caminho de escuta e de responsabilidade subjetiva. Nenhum psicanalista sério promete a salvação nem a erradicação completa do sofrimento de seu analisando, e sim oferece auxílio para que o sujeito atravesse a sua própria fantasia e desfaça os nós que o amarram à repetição dolorosa. Ao transformar o sofrimento neurótico em infelicidade comum, como observou Freud nos primórdios da psicanálise, o sujeito conquista a liberdade de decidir o que fazer com a sua própria história, desapegando-se da ilusão de uma perfeição inalcançável e aceitando a imperfeição fundamental que nos constitui como seres falantes.

A travessia de uma análise permite ao neurótico ressignificar a dor da falta estrutural. Se em um primeiro momento a limitação imposta pela realidade é vivida como um castigo insuportável ou como evidência de uma maldição pessoal, o percurso analítico possibilita integrar essa falta como a própria condição de possibilidade para a criação, para o amor e para o trabalho. A neurose, que antes se manifestava como uma amarra rígida e dolorosa, pode ceder lugar a uma existência mais flexível e criativa, na qual o sujeito deixa de ser um mero espectador passivo dos seus conflitos inconscientes para se tornar um autor com mais poderes sobre o percurso da sua vida.

Referências Bibliográficas

CHARCOT, J. M. Grande histeria Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2003. (Trabalho original publicado em 1887).

EIDELSZTEIN, A. (2008). Las estructuras clínicas a partir de Lacan. Buenos Aires: Letra Viva, 2008. (Volumes. 1-2).

FENICHEL, O. Teoria psicanalítica das neuroses. Rio de Janeiro: Atheneu, 1999. (Trabalho original publicado em 1945).

FREUD, Sigmund (1893-1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2.

FREUD, Sigmund (1894). As neuropsicoses de defesa. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 3, p. 57-82.

FREUD, Sigmund ([1901] 1905). Fragmento da análise de um caso de histeria. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 7, pp. 5-119. 

Como empregar o hífen em prefixos terminados em vogal diferente da inicial da segunda palavra?

A regra fundamental que se aplica a este caso específico estabelece que, quando o elemento prefixal encerra-se com uma vogal e o segundo elemento principia por uma vogal distinta, o hífen não deve ser utilizado. O resultado direto dessa norma é a fusão simples e direta dos dois elementos, gerando uma única palavra contínua. Essa orientação baseia-se na fluidez fonética e na tendência natural do idioma de aglutinar estruturas que não gerem choque fonocênico repulsivo ou ambiguidade de leitura.

Para ilustrar de maneira prática esse comportamento, observemos casos em que o prefixo encerra-se com a vogal o e o elemento subsequente inicia-se com a vogal a. Em formações com o prefixo auto, quando associado a vocábulos iniciados por a, ocorre a junção imediata sem qualquer elemento de ligação visual. Fenômeno idêntico se verifica quando utilizamos o prefixo extra diante de palavras iniciadas por e ou o, resultando em formações unificadas perfeitamente harmônicas no texto escrito. A ausência do hífen nesses cenários reflete o princípio da aproximação dos contrários, onde a diferença entre as vogais autoriza o colamento das estruturas.

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É imperioso destacar que essa regra de aglutinação por diferença vocal é ampla e abrange diversos prefixos comuns do nosso idioma, tais como semi, contra, neo, infra, supra e ultra. Quando o prefixo semi encarrega-se de modificar um termo iniciado pela vogal a ou e, o vocábulo resultante é escrito de forma corrida, sem interrupção. O mesmo ocorre ao combinarmos contra com palavras iniciadas por o ou e, preservando a continuidade gráfica. A lógica subjacente é invariável: a diversidade de timbres entre a última letra da primeira unidade e a primeira letra da segunda unidade é a condição necessária e suficiente para dispensar o hífen.

Contudo, para que a escrita seja impecável, o estudante deve atentar-se a nuances essenciais que interagem com essa norma. Caso a segunda palavra seja iniciada pela letra h, a presença dessa consoante muda impõe, obrigatoriamente, a utilização do hífen, independentemente da vogal em que termina o prefixo. Outra ressalva importante diz respeito aos casos em que a segunda palavra começa com as consoantes r ou s. Nessas situações específicas, não se emprega o hífen e, para manter a pronúncia correta da palavra composta, deve-se dobrar essas consoantes, resultando na grafia com rr ou ss.