18/02/2026

É obrigatório ter graduação em psicologia ou medicina para fazer formação em psicanálise?

A questão sobre a obrigatoriedade, ou não, de possuir graduação em psicologia ou medicina para realizar formação em psicanálise é um dos temas mais debatidos no campo psicanalítico contemporâneo. A discussão envolve não apenas aspectos legais e institucionais, mas também fundamentos teóricos, concepções de transmissão, modelos de formação e divergências históricas entre escolas psicanalíticas. A psicanálise, desde Freud, constitui-se como um campo singular, com uma lógica própria de transmissão, que não se confunde com a formação universitária nem com as práticas regulamentadas por conselhos profissionais. Assim, compreender essa questão exige examinar a história das instituições psicanalíticas, a posição de Freud sobre o tema, as transformações introduzidas por Lacan e a relação entre psicanálise, psicologia e medicina no cenário brasileiro.

A posição freudiana sobre a formação do analista e a questão dos “leigos”

Sigmund Freud enfrentou diretamente o problema da formação do analista em textos fundamentais, como A questão da análise leiga (1926), Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912) e Sobre o ensino da psicanálise nas universidades (1919). Em A questão da análise leiga, Freud defende explicitamente a possibilidade de que não‑médicos exerçam a psicanálise, argumentando que a prática analítica não se reduz a um ato médico, nem se fundamenta em conhecimentos anatômicos, fisiológicos ou farmacológicos. Para Freud, o cerne da formação do analista é a análise pessoal, a supervisão e o estudo da teoria, e não a posse de um diploma universitário específico.

Freud afirma que a psicanálise não é um ramo da medicina, mas uma disciplina autônoma, fundada na investigação do inconsciente e na técnica da associação livre. Ele critica a tentativa de subordinar a psicanálise à medicina, considerando que tal movimento empobreceria o campo e limitaria sua expansão. A defesa freudiana do “analista leigo” não é um detalhe histórico, mas um ponto estrutural: a psicanálise, para Freud, não se define por uma profissão regulamentada, mas por uma posição subjetiva e por uma formação específica, que não coincide com a formação universitária.

É importante notar que Freud não rejeita a presença de médicos na psicanálise, muitos dos primeiros analistas eram médicos, mas recusa a ideia de que a medicina seja condição necessária para o exercício da psicanálise. A formação analítica, para ele, é sui generis: exige análise pessoal, estudo rigoroso e supervisão clínica, mas não requer uma graduação prévia específica.

A inflexão lacaniana e a crítica ao modelo universitário de formação

Jacques Lacan retoma e radicaliza a posição freudiana ao criticar a tentativa de institucionalizar a psicanálise segundo modelos universitários ou médicos. Em textos como Ato de Fundação (1964), Proposição de 9 de outubro de 1967 e diversos seminários, Lacan insiste que a formação do analista não pode ser reduzida a um currículo acadêmico, pois a psicanálise não é uma ciência universitária, mas uma prática que se transmite pela experiência do inconsciente.

Lacan critica o que chama de “discurso universitário”, que tende a transformar o saber em objeto de consumo e a formação em um processo burocrático. Para ele, a formação do analista é inseparável da análise pessoal e do desejo do analista, um conceito central que não pode ser avaliado por diplomas ou certificações externas. A criação do dispositivo do passe é uma tentativa de formalizar, dentro da própria comunidade analítica, um modo de verificar a formação que não dependa de títulos acadêmicos.

Assim como Freud, Lacan não exige formação em psicologia ou medicina. Pelo contrário, ele afirma que a psicanálise deve permanecer aberta a sujeitos de diversas formações, desde que se submetam ao tripé analítico: análise pessoal, supervisão e estudo teórico. A formação universitária pode ser útil, mas não é determinante.

A institucionalização da psicanálise e a questão jurídica no Brasil

No Brasil, a psicanálise não é regulamentada como profissão por conselhos federais, ao contrário da psicologia e da medicina. Isso significa que, juridicamente, não há exigência de graduação em psicologia ou medicina para exercer a psicanálise. A psicanálise é reconhecida como uma prática de natureza privada, de caráter não regulamentado, e sua formação é tradicionalmente conduzida por sociedades psicanalíticas, institutos e escolas.

Entretanto, a ausência de regulamentação não implica ausência de rigor. As instituições psicanalíticas sérias, filiadas a tradições freudianas, lacanianas, kleinianas, winnicottianas, bionianas, entre outras, mantêm critérios próprios de formação, que incluem:

  • análise pessoal prolongada;
  • supervisão clínica contínua;
  • estudo teórico sistemático;
  • participação em seminários e grupos de trabalho;
  • avaliação interna da formação.

Algumas instituições optam por exigir graduação em psicologia ou medicina, mas isso é uma escolha institucional, não uma exigência legal. Outras mantêm a tradição freudiana e lacaniana de aceitar candidatos de diversas áreas, desde que demonstrem compromisso com a formação e com a ética psicanalítica.

É importante distinguir:

  • exigência legal (não existe);
  • exigência institucional (varia conforme a escola);
  • exigência ética e formativa (sempre presente, independentemente da graduação).

A relação entre psicanálise, psicologia e medicina: convergências e tensões

A confusão entre psicanálise, psicologia e medicina decorre, em parte, da história da psicologia clínica e da psiquiatria. No Brasil, a psicologia é uma profissão regulamentada desde 1962, e o psicólogo clínico é autorizado a realizar psicoterapia. A medicina, por sua vez, regula a psiquiatria como especialidade médica. A psicanálise, porém, não se confunde com nenhuma dessas práticas.

A psicanálise não é psicoterapia no sentido técnico do termo, embora possa ter efeitos terapêuticos. Ela se funda em conceitos como inconsciente, transferência, pulsão, repetição, fantasia, desejo e interpretação, categorias que não pertencem à psicologia científica nem à medicina. A psicanálise opera no campo da fala e da escuta, e não no campo da intervenção médica ou da mensuração psicológica.

A formação universitária em psicologia pode oferecer conhecimentos úteis ao futuro analista, mas não substitui a formação psicanalítica. Da mesma forma, a formação médica pode ser relevante para compreender aspectos psiquiátricos, mas não garante a posição de analista. A formação psicanalítica é específica e exige um percurso singular, que não se reduz a diplomas.

A formação psicanalítica como experiência e transmissão: além dos diplomas

A formação do analista é, antes de tudo, uma experiência subjetiva. Freud e Lacan insistem que o analista só pode operar a partir da própria análise, que lhe permite confrontar-se com seu inconsciente, com sua transferência e com sua posição desejante. A supervisão é o espaço em que o analista em formação confronta sua prática com um analista mais experiente, elaborando impasses e refinando sua escuta. O estudo teórico é indispensável, mas não é suficiente: a teoria só ganha sentido quando articulada à experiência clínica.

Assim, a pergunta “é obrigatório ter graduação em psicologia ou medicina?” perde parte de sua força quando se compreende que a formação psicanalítica não é uma formação profissional tradicional. O analista não é definido por um diploma, mas por um percurso. A formação universitária pode ser um complemento, mas não é o núcleo da formação.

A psicanálise, enquanto campo, preserva sua autonomia ao manter um modelo de formação que não se submete às lógicas profissionais regulamentadas. Isso não significa ausência de rigor, mas rigor de outra ordem: rigor ético, rigor clínico, rigor teórico.

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Como funciona o reconhecimento do MEC para cursos de formação em psicanálise no Brasil?

Essa toca um ponto sensível: o desencontro estrutural entre a lógica jurídico‑administrativa do sistema educacional e a lógica própria da formação psicanalítica. Não se trata apenas de saber se um curso “vale” ou “não vale”, mas de interrogar o que significa, para um campo fundado na transferência, no inconsciente e na experiência singular da análise, ser capturado por dispositivos de acreditação, avaliação e certificação típicos do ensino superior.

Desde Freud, a psicanálise se constituiu como um saber clínico que não se deixa reduzir a um currículo disciplinar clássico. Em “Análise leiga”, Freud defende que o essencial da formação do analista não é um título universitário, mas a experiência de sua própria análise e a prática supervisionada. Lacan, por sua vez, radicaliza essa posição ao afirmar que “o analista só se autoriza de si mesmo… e de alguns outros”, deslocando o eixo da legitimação do registro estatal para o campo da transferência e da comunidade analítica. A questão do reconhecimento pelo MEC, portanto, não é apenas administrativa; ela reabre o debate sobre quem autoriza o analista, em que instância e segundo quais critérios.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui um ordenamento jurídico‑educacional específico, no qual o Ministério da Educação regula cursos de graduação e pós‑graduação, define diretrizes curriculares e reconhece títulos acadêmicos. A psicanálise, como ocupação livre e profissão não regulamentada, ocupa uma posição liminar nesse cenário: não há graduação em psicanálise reconhecida pelo MEC, mas há cursos de pós‑graduação lato sensu em psicanálise, bem como uma miríade de cursos livres de formação, oferecidos por sociedades psicanalíticas, institutos independentes e plataformas educacionais. 

Marco jurídico‑educacional do MEC e a posição da psicanálise

O Ministério da Educação é o órgão responsável pela regulação do ensino superior no Brasil: autoriza, reconhece e avalia cursos de graduação (bacharelados, licenciaturas, tecnólogos) e programas de pós‑graduação stricto sensu (mestrados e doutorados), além de estabelecer parâmetros para cursos de pós‑graduação lato sensu (especializações). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996) distingue a educação formal, sujeita à regulação do MEC, da educação não formal, na qual se inserem os chamados cursos livres.

No que concerne à psicanálise, dois pontos são decisivos:

  • Ausência de graduação em psicanálise reconhecida pelo MEC: não existe, na matriz oficial de cursos superiores, um bacharelado ou licenciatura em psicanálise. Qualquer oferta que prometa “graduação em psicanálise reconhecida pelo MEC” incorre em impropriedade jurídica e conceitual.
  • Reconhecimento da psicanálise como ocupação livre: a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) inclui o psicanalista sob o código 2515‑50, reconhecendo a ocupação para fins trabalhistas, previdenciários e fiscais. Isso não equivale à regulamentação profissional por lei específica, mas indica que o Estado admite a existência social da função de psicanalista.

A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso XIII, garante o livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, salvo as que exigem qualificação específica definida em lei. Como não há lei federal regulamentando a profissão de psicanalista, o exercício da psicanálise permanece juridicamente livre, desde que não se usurpe atribuições privativas de profissões regulamentadas (como atos médicos ou psicológicos definidos em lei).

Há, no Senado, projetos de lei que visam regulamentar a profissão de psicanalista, propondo inclusive a possibilidade de graduação em psicanálise e a definição de requisitos mínimos de formação (como carga horária e modalidades de especialização). Contudo, tais projetos não foram convertidos em lei até o momento, de modo que a situação atual permanece a de uma ocupação livre, com formação não unificada e sem conselho profissional próprio.

O MEC, portanto, não “reconhece a psicanálise” como graduação, mas pode reconhecer cursos de pós‑graduação lato sensu em psicanálise, desde que vinculados a instituições de ensino superior credenciadas. Já os cursos livres de formação em psicanálise, típicos das sociedades psicanalíticas, situam‑se no campo da educação não formal, fora da alçada direta de regulação do MEC, embora amparados pela LDB e por decretos que reconhecem a legitimidade dos cursos livres para fins de formação profissional.

A especificidade da formação psicanalítica e o problema da “reconhecibilidade”

A dificuldade de encaixar a formação psicanalítica nos dispositivos do MEC não é um mero acidente histórico; ela decorre da própria estrutura da psicanálise como prática fundada na transferência, na experiência do inconsciente e na singularidade do sujeito. Desde o início, Freud insistiu no chamado “tripé” da formação: análise pessoal, supervisão clínica e estudo teórico sistemático. Nenhum desses elementos se reduz a uma disciplina acadêmica convencional.

  • Análise pessoal: a experiência de ser analisado é o núcleo da formação. Trata‑se de um processo de longa duração, atravessado por resistências, repetições, formações do inconsciente, que não pode ser mensurado em créditos ou horas‑aula.
  • Supervisão: a discussão de casos sob transferência com um analista mais experiente implica uma dimensão ética e clínica que excede a lógica de “estágio supervisionado” tal como concebido em cursos universitários.
  • Estudo teórico: a leitura de Freud, Lacan e de toda a tradição psicanalítica não é apenas aquisição de conteúdo, mas trabalho de elaboração (Durcharbeitung), em que o texto ressoa na própria experiência analítica do candidato.

Lacan, ao criticar a “universitarização” da psicanálise, alerta para o risco de que o discurso universitário, centrado na transmissão de saber objetivado, neutralize a dimensão subversiva do inconsciente. A formação psicanalítica, para ele, não pode ser reduzida a um currículo; ela se dá no interior de uma Escola, entendida como dispositivo de trabalho sobre o desejo do analista, com dispositivos próprios (passe, cartel, supervisão, seminários).

Essa especificidade faz com que a “reconhecibilidade” da formação psicanalítica pelo MEC seja sempre parcial e, em certo sentido, externa. O MEC pode reconhecer:

  • a instituição de ensino superior que oferece um curso de especialização em psicanálise;
  • o curso lato sensu enquanto programa com carga horária, ementa, corpo docente e critérios de avaliação definidos.

Mas o MEC não reconhece, nem poderia reconhecer, a análise pessoal do candidato, a qualidade da supervisão, a transferência que se estabelece com o saber psicanalítico. Esses elementos, centrais para a formação, permanecem no âmbito das sociedades psicanalíticas, das escolas e dos coletivos de analistas.

É por isso que autores como Roudinesco, Green, Birman e Figueiredo insistem na tensão constitutiva entre psicanálise e instituição. A psicanálise precisa de instituições para se transmitir, mas corre o risco de se burocratizar e se afastar de sua vocação crítica quando se submete integralmente à lógica institucional. O reconhecimento pelo MEC, nesse contexto, é um reconhecimento de superfície: importante para fins acadêmicos e profissionais, mas insuficiente para garantir a formação de um analista no sentido forte do termo.

Modalidades de cursos em psicanálise e seus diferentes estatutos

Quando se pergunta se um curso de formação em psicanálise é “reconhecido pelo MEC”, é crucial distinguir as diferentes modalidades de formação existentes no Brasil, pois cada uma possui um estatuto jurídico e institucional próprio. 

Cursos livres de formação em psicanálise

São oferecidos por sociedades psicanalíticas (ligadas ou não à IPA), escolas lacanianas, institutos independentes e outras entidades de formação. Caracterizam‑se por:

  • Autonomia institucional: não dependem de autorização do MEC para funcionar, pois se enquadram na categoria de cursos livres, no âmbito da educação não formal, amparados pela LDB e por decretos correlatos.
  • Ênfase no tripé: costumam articular análise pessoal obrigatória, supervisão e seminários teóricos, aproximando‑se mais da tradição freudiana e lacaniana de formação.
  • Certificação interna: ao final, conferem um certificado ou título de “psicanalista” pela própria sociedade ou escola, sem valor acadêmico stricto sensu, mas com valor simbólico e clínico no campo psicanalítico.

Do ponto de vista do MEC, esses cursos não são “reconhecidos” porque não se trata de cursos superiores. Do ponto de vista da psicanálise, porém, muitas vezes são considerados a via privilegiada de formação, justamente por preservarem a centralidade da análise pessoal e da supervisão.

Pós‑graduações lato sensu em psicanálise

São cursos de especialização oferecidos por instituições de ensino superior credenciadas, com carga horária mínima (em geral, 360 horas), corpo docente titulado e projeto pedagógico submetido às normas do MEC.

  • Reconhecimento pelo MEC: o MEC não “reconhece a psicanálise”, mas reconhece o curso como especialização, conferindo ao egresso um certificado de pós‑graduação lato sensu em psicanálise.
  • Valor acadêmico: esse certificado pode ser utilizado para fins de pontuação em concursos, progressão na carreira docente, comprovação de titulação em contextos institucionais.
  • Limitações formativas: muitas especializações em psicanálise não exigem análise pessoal nem supervisão clínica sistemática; concentram‑se na dimensão teórica, aproximando‑se mais de um estudo acadêmico da psicanálise do que de uma formação de analista em sentido estrito.

Algumas instituições tentam articular o melhor dos dois mundos, oferecendo especializações reconhecidas pelo MEC que incluem dispositivos de análise e supervisão, muitas vezes em parceria com sociedades psicanalíticas. Ainda assim, a lógica avaliativa e curricular do MEC permanece distinta da lógica formativa psicanalítica.

Cursos de extensão e aperfeiçoamento

Há ainda cursos de extensão universitária e programas de aperfeiçoamento em psicanálise, com cargas horárias menores, voltados à atualização teórica ou à introdução à clínica psicanalítica. Esses cursos podem ser certificados por universidades, mas não configuram formação completa em psicanálise, nem especialização lato sensu.

Graduação em áreas afins com ênfase em psicanálise

Como não há graduação em psicanálise, muitos profissionais chegam à psicanálise a partir de cursos como Psicologia, Medicina, Serviço Social, Filosofia, Letras, Direito, entre outros. Em alguns casos, a graduação oferece disciplinas de orientação psicanalítica ou ênfases curriculares em psicanálise. O MEC reconhece a graduação (por exemplo, Psicologia), não a formação em psicanálise propriamente dita.

Essa pluralidade de vias formativas reforça um ponto central: o “reconhecimento pelo MEC” diz respeito ao tipo de curso (graduação, especialização, extensão) e à instituição que o oferece, não à “autorização para ser psicanalista”. A autorização, no sentido psicanalítico, continua sendo uma questão de transferência, de percurso e de inserção em uma comunidade analítica.

Tensões entre universidade, sociedades psicanalíticas e mercado de formação

O cenário brasileiro contemporâneo é marcado por uma proliferação de ofertas formativas em psicanálise: cursos livres presenciais e online, especializações lato sensu, grupos de estudo, formações em sociedades tradicionais, programas universitários de pós‑graduação que acolhem pesquisas em psicanálise, entre outros. Essa multiplicidade produz tensões específicas.

Universidade e psicanálise

A presença da psicanálise na universidade é ambígua. Por um lado, a universidade oferece um espaço de pesquisa, debate teórico e interlocução interdisciplinar fundamental para a vitalidade do campo. Programas de pós‑graduação em Psicologia, Letras, Filosofia e Ciências Humanas acolhem teses e dissertações de orientação psicanalítica, contribuindo para a elaboração conceitual e histórica da psicanálise.

Por outro lado, o discurso universitário tende a objetivar o saber, transformando a psicanálise em “teoria sobre” o sujeito, o inconsciente, a cultura, correndo o risco de esvaziar sua dimensão de prática clínica fundada na transferência. Lacan, ao formular os quatro discursos, situa o discurso universitário em oposição ao discurso analítico, justamente porque o primeiro privilegia o saber como mestre, enquanto o segundo se orienta pelo lugar do sujeito do inconsciente.

Quando a formação em psicanálise é inteiramente capturada pela universidade, corre‑se o risco de produzir “especialistas em psicanálise” sem análise, sem supervisão, sem experiência clínica efetiva. O reconhecimento pelo MEC, nesse caso, pode funcionar como um selo de qualidade acadêmica, mas não garante a formação do analista.

Sociedades psicanalíticas e escolas

As sociedades psicanalíticas, desde a IPA até as escolas lacanianas, construíram dispositivos próprios de formação, com comissões de ensino, critérios de admissão, exigência de análise pessoal e supervisão, seminários internos, etc. Nesses contextos, o título de analista é conferido pela própria instituição, após um percurso que inclui avaliações, entrevistas e, em alguns casos, dispositivos como o passe.

Essas instituições, em geral, não buscam reconhecimento pelo MEC para seus cursos de formação, justamente para preservar a autonomia do dispositivo analítico frente à lógica burocrática estatal. O reconhecimento que importa, aqui, é o reconhecimento pelos pares, pela comunidade analítica, pela transferência de trabalho.

Mercado de formação e precarização

Entre a universidade e as sociedades tradicionais, proliferam institutos e escolas que oferecem “formação em psicanálise” com promessas sedutoras: certificação rápida, baixo custo, ensino totalmente online, “reconhecimento nacional”, “registro em carteira como psicanalista”, etc.

Nesse mercado, a expressão “reconhecido pelo MEC” é frequentemente utilizada de forma confusa ou enganosa:

  • cursos livres se apresentam como “reconhecidos pelo MEC”, quando, na verdade, o MEC não regula cursos livres;
  • especializações lato sensu em psicanálise são vendidas como se o reconhecimento do curso pelo MEC implicasse reconhecimento da profissão de psicanalista, o que não é o caso;
  • promessas de “graduação em psicanálise” são feitas por instituições sem credenciamento adequado.

Essa confusão reforça a importância de distinguir, com rigor, o que o MEC efetivamente reconhece (instituições de ensino superior, cursos de graduação e pós‑graduação) e o que permanece no campo da formação psicanalítica propriamente dita, regida por outros critérios.

Critérios de escolha e responsabilidade ética do futuro psicanalista

Diante desse quadro complexo, a questão prática que se coloca para quem deseja se formar em psicanálise é: como escolher um percurso formativo que não se limite a um certificado, mas que efetivamente sustente a posição de analista?

Alguns critérios podem ser formulados, sem pretensão de exaustividade:

  • Centralidade da análise pessoal: qualquer formação que não exija, estimule ou ao menos reconheça a necessidade de uma análise pessoal prolongada está em desacordo com a tradição psicanalítica. O futuro analista precisa se confrontar com seu próprio inconsciente, suas resistências, seus pontos cegos.
  • Supervisão clínica consistente: a possibilidade de discutir casos em supervisão, com analistas experientes, é fundamental para a construção da escuta e da ética clínica.
  • Seriedade teórica: a formação deve incluir estudo sistemático de Freud, dos pós‑freudianos, de Lacan e de autores contemporâneos, evitando reduções simplificadoras ou ecléticas que dissolvam a especificidade da psicanálise.
  • Inserção em comunidade de trabalho: a psicanálise se transmite em laços de trabalho, em cartéis, seminários, grupos de estudo. A solidão do analista não é isolamento; ela se sustenta em uma rede de interlocução.
  • Transparência institucional: é importante que a instituição explicite claramente seu estatuto (curso livre, especialização lato sensu, extensão), sua relação (ou não) com o MEC, seus critérios de certificação e seus dispositivos de formação.

Do ponto de vista do MEC, o que está em jogo é a clareza sobre o tipo de curso oferecido:

  • se se trata de pós‑graduação lato sensu em psicanálise, é legítimo que a instituição destaque o reconhecimento do curso pelo MEC, desde que não confunda isso com regulamentação da profissão;
  • se se trata de curso livre de formação em psicanálise, é incorreto afirmar que o curso é “reconhecido pelo MEC”; o que se pode dizer é que ele se enquadra na categoria de cursos livres, amparados pela LDB, com validade para fins de formação profissional, sem equivaler a título acadêmico.

Para o futuro psicanalista, a questão decisiva não é apenas “ter um curso reconhecido pelo MEC”, mas sustentar um percurso de formação que articule, de modo rigoroso, análise, supervisão e estudo. O reconhecimento estatal pode ser importante para certas inserções institucionais (concursos, docência, atuação em serviços públicos), mas não substitui a autorização subjetiva que se constrói na experiência analítica e na transferência de trabalho com outros analistas.

A pergunta “o curso é reconhecido pelo MEC?” precisa ser desdobrada em outras: “que lugar o inconsciente ocupa nessa formação?”, “como se trabalha a transferência?”, “que ética orienta a prática clínica que está sendo transmitida?”. É nesse ponto que a psicanálise preserva sua singularidade: ela não se deixa reduzir a um código de curso, a uma matriz curricular ou a um selo de reconhecimento; ela se joga, sempre, na aposta de que há um sujeito do inconsciente em jogo, inclusive na formação do analista.

Referências bibliográficas

Obras psicanalíticas e teóricas

  • Freud, S. (1919/2010). “Análise leiga”. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Freud, S. (1912/2010). “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Lacan, J. (1964/2008). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
  • Lacan, J. (1967/2003). “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
  • Green, A. (2002). O discurso vivo. Rio de Janeiro: Imago.
  • Roudinesco, E. (1994). Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar.
  • Birman, J. (1994). Mal‑estar na atualidade: A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Figueiredo, L. C. (1997). Psicanálise: Elementos para a clínica contemporânea. São Paulo: Escuta.

Documentos legais e institucionais

  • Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 5º, XIII. 
  • Brasil. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 
  • Ministério do Trabalho. Classificação Brasileira de Ocupações – CBO 2515‑50 (Psicanalista). 
  • Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CES nº 248/2009 (sobre cursos livres e educação não formal, com menções à formação em psicanálise). 
  • Conselho Federal de Psicologia. Parecer nº 798/1995 (reconhece a psicanálise como atividade autônoma, não exclusiva de psicólogos). 
  • Supremo Tribunal Federal. RE 511.961/SP (decisão sobre profissões não regulamentadas e livre exercício profissional). 
  • Senado Federal. Projeto de Lei do Senado nº 101/2018, que “Regulamenta a profissão de psicanalista”.

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17/02/2026

O que significa DESMENTIDO (Verleugnung) para a Psicanálise?

O termo Verleugnung ocupa um lugar singular na obra freudiana e na tradição psicanalítica. Traduzido de modos diversos, “renegação”, “recusa”, “desmentido”, ele remete a um modo específico de defesa do eu diante de uma percepção traumática, em particular diante da percepção da castração. Diferentemente de outros mecanismos, como a Verdrängung (recalque) ou a Verneinung (negação), o desmentido implica uma relação paradoxal com a realidade: aquilo que é percebido não é simplesmente apagado ou recalcado, mas simultaneamente reconhecido e recusado, dando lugar a uma clivagem (Spaltung) do eu.

Freud só estabiliza o uso de Verleugnung tardiamente, sobretudo em textos como “Fetichismo” (1927) e “A divisão do ego no processo de defesa” (1938), mas o problema que ele nomeia com esse termo atravessa toda a sua obra: como o sujeito lida com uma percepção insuportável que, no entanto, não pode ser inteiramente apagada? A resposta freudiana, no caso paradigmático da perversão fetichista, é que o eu se divide para sustentar, lado a lado, duas atitudes contraditórias: “sei que a mulher não tem pênis” e “mesmo assim, ela tem”.

A partir daí, a noção de desmentido foi retomada, refinada e problematizada por diversos autores, Laplanche e Pontalis, Green, Lacan, entre outros, que buscaram situá-la em relação a outros destinos da pulsão e a outros modos de negação da realidade, como a foraclusão (Verwerfung) e a recusa psicótica da realidade. O desmentido, longe de ser um conceito restrito à perversão, tornou-se uma via de acesso à compreensão de certas formas de subjetivação contemporâneas, marcadas por uma relação particular com a castração, com a lei e com a alteridade.

Tradução, campo semântico e distinções conceituais

A dificuldade em traduzir Verleugnung não é apenas filológica; ela é teórica. Em alemão, o verbo verleugnen pode significar “renegar”, “desmentir”, “ocultar”, “dissimular”, implicando tanto uma recusa dirigida a outrem quanto uma recusa dirigida a si mesmo. No vocabulário psicanalítico, a escolha entre “renegação”, “recusa” ou “desmentido” não é neutra: cada termo acentua um aspecto diferente do mecanismo.

Laplanche e Pontalis, no Vocabulário da Psicanálise, sublinham que Verleugnung designa, em Freud, um mecanismo de defesa específico, distinto do recalque, e que se caracteriza por uma recusa da realidade de uma percepção, sem que esta seja propriamente recalcada. O sujeito “desmente” a realidade de um fato percebido, sobretudo a ausência de pênis na mulher, e constrói, em seu lugar, uma ficção sustentada pelo fetiche. O termo “desmentido” tem a vantagem de conservar a dimensão de um “dementi”, de um desmentir algo que, em princípio, foi reconhecido.

É crucial distinguir Verleugnung de outros termos freudianos:

  • Verdrängung (recalque): implica a expulsão de representações para o inconsciente, com a consequente formação de substitutos sintomáticos. A realidade não é negada; é o desejo que é recalcado.
  • Verneinung (negação): tal como Freud a descreve em “A negação” (1925), trata-se de uma forma de admitir um conteúdo recalcado sob a forma de uma negação (“não é minha mãe”, “não é isso que eu desejo”), permitindo o acesso ao pensamento consciente sem levantar o recalque.
  • Verwerfung (foraclusão): termo que Freud utiliza de modo pouco sistemático, mas que Lacan retoma para designar um mecanismo próprio da psicose: um significante fundamental (por exemplo, o Nome-do-Pai) é rejeitado fora do simbólico, não sendo jamais integrado.

O desmentido se situa, portanto, num ponto intermediário e paradoxal: não há foraclusão do fato percebido, pois ele é, de algum modo, reconhecido; tampouco há recalque clássico, pois a percepção não é simplesmente expulsa da consciência. O que se produz é uma duplicidade de registro: uma parte do eu aceita a realidade, outra a recusa. Essa duplicidade é o que Freud chamará de Spaltung do eu.

O desmentido na obra freudiana: da percepção da castração à clivagem do eu

Embora o termo Verleugnung apareça de modo mais sistemático apenas na segunda tópica, o problema que ele nomeia está em germe desde os primeiros textos sobre a sexualidade infantil. Em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), Freud já descreve a dificuldade da criança em aceitar a diferença anatômica dos sexos e a percepção da ausência de pênis na mulher. A criança, diante dessa percepção, pode reagir com teorias sexuais infantis que visam negar ou contornar a castração.

É, porém, em “Fetichismo” (1927) que Freud formula de maneira mais precisa o mecanismo do desmentido. O fetiche é definido como um substituto do pênis materno, um objeto que permite ao sujeito manter a crença de que a mãe não é castrada. Freud descreve o momento traumático em que a criança percebe a ausência de pênis na mulher e a impossibilidade de sustentar indefinidamente a ficção de que “ele ainda vai crescer”. Diante disso, o eu se defende por meio de uma solução paradoxal:

“O sujeito se comporta como se a mulher ainda possuísse um pênis, apesar de saber que isso não é verdade.”

Essa solução implica uma clivagem do eu: uma parte reconhece a realidade da castração, outra a desmente. O fetiche é o compromisso entre essas duas atitudes: ele é, ao mesmo tempo, um substituto do pênis perdido e um sinal da castração. Freud insiste que não se trata de simples ignorância ou de erro perceptivo; trata-se de uma recusa ativa da realidade, sustentada por um investimento libidinal intenso.

Em “A divisão do ego no processo de defesa” (1938), Freud retoma o tema e o generaliza. Ele descreve a clivagem do eu como um processo em que duas atitudes psíquicas contraditórias coexistem sem se influenciar mutuamente. O exemplo paradigmático continua sendo o fetichismo, mas Freud sugere que a clivagem pode estar presente em outros quadros, inclusive na neurose. O desmentido, nesse contexto, é o mecanismo que permite a manutenção dessa clivagem: o eu, em vez de integrar a percepção traumática, a desmente e constrói uma realidade psíquica paralela.

Essa formulação tem consequências metapsicológicas importantes:

  • Para a teoria do eu: o eu deixa de ser uma instância unitária e coerente, revelando-se internamente dividido. A Spaltung não é um fenômeno marginal, mas um modo estrutural de defesa.
  • Para a teoria da realidade: a realidade externa não é simplesmente “dada”; ela é sempre mediada pela posição do sujeito. O desmentido mostra que o sujeito pode, em certo sentido, “suspender” a realidade de um fato, sem que isso implique psicose no sentido estrito.
  • Para a teoria da perversão: a perversão não é apenas uma variação da escolha de objeto ou da meta pulsional; ela implica um modo específico de relação com a castração e com a realidade.

Desmentido, perversão e a economia da castração

O vínculo entre Verleugnung e perversão, especialmente o fetichismo, é central. Freud chega a afirmar que o desmentido é o mecanismo de defesa específico da perversão fetichista. O fetichista, ao investir libidinalmente um objeto que substitui o pênis materno, mantém viva a crença na não castração da mãe e, por extensão, na possibilidade de escapar à própria castração.

A economia da castração, nesse contexto, é profundamente alterada. Na neurose, a castração é reconhecida e, em seguida, recalcada; o conflito se dá entre o desejo e a proibição, e o sintoma é o compromisso entre essas forças. Na perversão, ao contrário, a castração é, ao mesmo tempo, reconhecida e desmentida. O fetiche funciona como um “sinal de triunfo” sobre a castração, mas também como um lembrete constante de sua ameaça.

Autores pós-freudianos aprofundaram essa leitura. André Green, por exemplo, sublinha que o desmentido implica uma “negação da negatividade”: o sujeito recusa a falta, a ausência, o vazio, tentando saturar o campo psíquico com objetos fetichizados. Isso não se limita à sexualidade; pode se estender a formas de relação com o objeto em que a alteridade é neutralizada, transformada em coisa.

Laplanche, por sua vez, ao retomar a teoria da sedução generalizada, sugere que o desmentido pode ser pensado como uma resposta do sujeito às mensagens enigmáticas do outro adulto. Diante de um excesso de significação sexual que não pode ser simbolizado, o sujeito pode recorrer a uma recusa da realidade traumática, construindo um cenário fetichista que estabiliza, de modo precário, o enigma.

A partir de Lacan, a discussão ganha outro contorno. Embora Lacan reserve o termo Verwerfung (foraclusão) para o mecanismo específico da psicose, ele não deixa de se interessar pelo desmentido. No Seminário 4 e em outros momentos, ele indica que a Verleugnung está ligada à maneira como o sujeito se posiciona diante do falo e da função paterna. O fetichista, ao desmentir a castração, tenta manter o falo no registro do imaginário, evitando sua inscrição simbólica como significante da falta.

Essa leitura permite articular o desmentido com a lógica do objeto a: o fetiche pode ser pensado como um objeto a que vem tamponar a falta, funcionando como suporte da fantasia perversa. O desmentido, então, não é apenas um mecanismo defensivo, mas uma operação estrutural que organiza o campo do desejo e do gozo.

Desmentido, negação e foraclusão: nuances clínicas e teóricas

Para preservar a precisão conceitual, é decisivo situar o desmentido em relação a outros modos de negação da realidade, especialmente a negação (Verneinung) e a foraclusão (Verwerfung).

Na negação, tal como Freud a descreve, o sujeito traz à consciência um conteúdo recalcado sob a forma de uma negação. Quando o paciente diz “não é minha mãe”, Freud lê isso como um reconhecimento indireto de que se trata, sim, da mãe. A negação é, portanto, um modo de levantar parcialmente o recalque, sem renunciar a ele. O conteúdo recalcado é admitido no pensamento, mas não no desejo.

No desmentido, a lógica é outra. Não se trata de um conteúdo recalcado que retorna sob a forma de negação, mas de uma percepção da realidade que é recusada enquanto tal. O sujeito não diz “não é verdade que a mulher não tem pênis” como simples figura de linguagem; ele sustenta, em ato, uma realidade alternativa, encarnada no fetiche. A percepção da castração não é recalcada, mas duplicada: ela existe para uma parte do eu e é desmentida por outra.

Já a foraclusão, tal como sistematizada por Lacan, implica a rejeição radical de um significante fundamental, que não chega a ser simbolizado. No caso paradigmático da psicose, o Nome-do-Pai é foracluído, o que impede a constituição do campo simbólico da castração. Quando esse significante retorna, ele o faz no real, sob a forma de fenômenos elementares, alucinações, delírios.

O desmentido, nesse sentido, não coincide com a foraclusão. No fetichismo, a castração é, de algum modo, simbolizada, caso contrário, não haveria necessidade de desmenti-la. O que se produz é uma espécie de “foraclusão parcial” ou “foraclusão localizada”, se quisermos usar uma expressão anacrônica: a castração é reconhecida, mas sua eficácia é neutralizada por meio do fetiche.

Clinicamente, essas distinções têm consequências importantes:

  • Na neurose: predominam o recalque e a negação; o desmentido pode aparecer em certos momentos, mas não organiza a estrutura.
  • Na perversão: o desmentido ocupa um lugar central, articulado à clivagem do eu e à função do fetiche.
  • Na psicose: a foraclusão do Nome-do-Pai é o mecanismo estrutural; o desmentido pode aparecer em certos fenômenos, mas não é o operador fundamental.

Contudo, a clínica contemporânea mostra formas de subjetivação que não se deixam reduzir a essas categorias clássicas. Alguns autores falam em “novas formas de desmentido” ligadas ao discurso social, à recusa coletiva da castração, à negação da finitude, da diferença, da alteridade. Nessa perspectiva, o desmentido deixa de ser apenas um mecanismo individual e passa a ser pensado também em sua dimensão sociocultural.

Considerações finais: atualidade do desmentido e suas extensões

O conceito de desmentido (Verleugnung), tal como elaborado por Freud e retrabalhado pela tradição psicanalítica, oferece uma via privilegiada para pensar a relação do sujeito com a realidade, com a castração e com a alteridade. Ele mostra que a defesa não se reduz ao recalque e que o eu não é uma instância homogênea, mas um campo de tensões e clivagens.

No fetichismo, o desmentido aparece em sua forma paradigmática: o sujeito, diante da percepção traumática da castração materna, recusa essa realidade e constrói um objeto fetichista que lhe permite manter, simultaneamente, o saber e a recusa. Essa solução, longe de ser um simples “erro” ou uma “fantasia bizarra”, revela uma lógica rigorosa: a de um sujeito que tenta escapar à castração por meio da construção de uma realidade psíquica paralela.

A partir daí, o desmentido pode ser pensado em outros registros: na clínica das perversões em geral, nas formas de adição ao objeto, nas configurações narcísicas em que a falta é sistematicamente negada, nas modalidades de laço social em que a castração simbólica é desautorizada. A psicanálise contemporânea, ao se confrontar com fenômenos como o culto à performance, a medicalização da existência, a recusa da diferença sexual, encontra no conceito de desmentido uma ferramenta para pensar a recusa da negatividade que atravessa o laço social.

Ao mesmo tempo, é preciso preservar as nuances conceituais: não confundir desmentido com negação, nem com foraclusão; não diluir o conceito a ponto de torná-lo sinônimo de qualquer forma de “negação da realidade”. A força do termo Verleugnung reside justamente em sua precisão: trata-se de uma recusa da realidade de uma percepção traumática, que dá lugar a uma clivagem do eu e a uma construção fetichista.

Em última instância, o desmentido nos confronta com uma questão ética e clínica: o que fazemos, como analistas, com essa realidade desmentida? Não se trata de “corrigir” o erro do sujeito, mas de acompanhar a lógica de sua defesa, de escutar o modo como ele sustenta, ao mesmo tempo, o saber e a recusa. A interpretação, nesse contexto, não visa simplesmente “restaurar” a realidade, mas trabalhar a partir da clivagem, fazendo emergir o ponto em que o sujeito se divide para não saber o que sabe.

É nesse ponto que o desmentido se revela não apenas como um mecanismo de defesa, mas como um operador de verdade: ele indica, com precisão, o lugar em que a verdade da castração se torna insuportável e, justamente por isso, é desmentida.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. 
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução 
sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237. 

FREUD, Sigmund (1927). Fetichismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das 
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme 
Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, pp. 175-185. 

FREUD, Sigmund ([1938] 1940). A divisão do ego no processo de defesa. In: FREUD, 
Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud
Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1975. v. 23, pp. 309
312. 

LACAN, Jacques (1956-1957). O seminário, livro 4: A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995. 

LACAN, Jacques (1959-1960). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de 
Pedro Tamen. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 

DRAWIN, Carlos; MOREIRA, Jacqueline. A Verleugnung em Freud: análise textual e considerações hermenêuticas. Psicologia USP, [S. l.], v. 29, n. 1, p. 87–95, 2018. DOI: 10.1590/0103-656420160171. Disponível em: https://revistas.usp.br/psicousp/article/view/145554. Acesso em: 15 fev. 2026.

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O que é FETICHISMO para a Psicanálise?

O tema do fetichismo, na tradição psicanalítica, é um daqueles pontos em que a teoria da sexualidade, a problemática da castração e a questão da realidade se enlaçam de modo particularmente denso. Não se trata apenas de um “gosto sexual estranho”, mas de uma formação complexa, que envolve o estatuto do objeto, a economia do desejo, a defesa frente à angústia e, em última instância, a posição do sujeito diante da diferença sexual e da lei. Desde Freud até Lacan, passando por releituras contemporâneas, o fetichismo desloca a fronteira entre normal e patológico, entre sintoma e estrutura, entre defesa e criação de realidade psíquica.

Fetichismo na obra freudiana: da teoria da sexualidade ao texto “Fetichismo” (1927)

Freud introduz o termo “fetichismo” em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), no contexto da discussão das “aberrações” do objeto sexual. Ali, ele descreve situações em que o objeto sexual “normal” é substituído por outro que mantém com ele alguma relação, mas é, em si, inadequado ao objetivo sexual genital. O fetiche é, então, definido como esse objeto substitutivo, que pode ser uma parte do corpo, um detalhe de vestuário, um material, um brilho, um cheiro, etc. 

Desde esse momento inicial, Freud sublinha dois pontos decisivos. Primeiro, que “um certo grau de fetichismo” é habitual no amor dito normal, sobretudo em fases em que o objetivo sexual genital está impedido ou diferido; segundo, que a passagem ao patológico se dá quando o fetiche deixa de ser apenas uma condição para o encontro sexual e se torna o único objeto sexual, substituindo o parceiro e o objetivo genital. A fronteira entre “normal” e “perverso” é, portanto, de grau e de função, não de natureza: o fetichismo, em sua forma extrema, radicaliza algo que já está presente na economia erótica ordinária.

O texto de 1927, “Fetichismo”, marca, porém, um giro conceitual. Freud desloca o foco da simples descrição do desvio de objeto para a articulação do fetichismo com a angústia de castração e com um tipo específico de defesa. O fetiche passa a ser pensado como um “monumento” erigido no lugar de uma percepção traumática: a constatação, por parte do menino, de que a mulher, em geral, a mãe, não possui pênis. Essa percepção desencadeia a angústia de castração, isto é, a fantasia de que o próprio sujeito poderia ser castrado. O fetiche é, então, o substituto que permite ao sujeito manter, de algum modo, a crença na existência do falo materno. 

Freud insiste no caráter ambivalente dessa solução. O fetiche é, simultaneamente, um sinal de negação e de reconhecimento da castração. Ele marca o ponto em que a percepção da ausência de pênis foi recusada, mas também o ponto em que essa percepção deixou um traço. O fetichista “sabe” e “não sabe” ao mesmo tempo: sabe que a mulher não tem pênis, mas se comporta como se o tivesse, sustentando a crença por meio do fetiche. Essa duplicidade será formalizada, mais tarde, na noção de clivagem do eu (Ichspaltung), desenvolvida por Freud em textos como “A divisão do ego no processo de defesa” (1938).

No ensaio de 1927, Freud descreve com precisão o mecanismo: o fetiche costuma fixar-se num detalhe que esteve presente no momento em que o sujeito, criança, se confrontou com a percepção da ausência de pênis na mulher. Pode ser, por exemplo, um brilho, um pedaço de roupa, um tipo de tecido, um calçado. Esse detalhe é elevado à condição de objeto privilegiado, condensando a função de “substituto do pênis” e de “recordação do perigo de castração”. O fetiche é, assim, um compromisso entre a exigência de negar a castração e a impossibilidade de apagá-la por completo.

A partir daí, o fetichismo deixa de ser apenas uma “perversão sexual” para tornar-se um paradigma de uma forma de defesa específica: a recusa (Verleugnung), que Freud distingue tanto da repressão (Verdrängung) quanto da negação (Verneinung). Na recusa, o sujeito não recalca a percepção, mas a desmente; não a expulsa para o inconsciente, mas a mantém em uma espécie de “fora de jogo”, coexistindo com uma crença contrária. O fetichismo é, então, o modelo clínico dessa coexistência paradoxal de duas atitudes psíquicas incompatíveis.

Recusa da castração, clivagem do eu e estatuto do objeto fetiche

O conceito de recusa da castração é central para compreender o fetichismo em Freud. Diferentemente da repressão, que implica o afastamento de uma representação intolerável para o inconsciente, a recusa supõe que a percepção traumática é, de certo modo, mantida, mas desmentida em seu valor de realidade. O sujeito “viu” que a mulher não tem pênis, mas decide, por assim dizer, não acreditar no que viu. Essa “decisão” não é consciente, evidentemente; trata-se de uma operação inconsciente, que reorganiza o campo da realidade psíquica.

Para que essa recusa se sustente, é necessária uma clivagem do eu. Freud descreve essa clivagem como a coexistência de duas atitudes psíquicas: uma que aceita a realidade da castração e outra que a recusa. Nenhuma das duas é abolida; ambas subsistem lado a lado, sem se integrarem. No fetichismo, isso se manifesta na conduta do sujeito: ele pode, em certos contextos, reconhecer intelectualmente a diferença anatômica entre os sexos, mas, no campo erótico, comporta-se como se a mulher fosse dotada de falo, desde que o fetiche esteja presente.

O objeto fetiche, nesse contexto, tem um estatuto muito particular. Ele não é apenas um objeto de excitação; é um operador de realidade psíquica. Sua presença garante a manutenção da crença na não castração da mulher; sua ausência expõe o sujeito ao retorno da angústia de castração. O fetiche é, portanto, um objeto-limite, situado entre a realidade externa e a realidade psíquica, entre o simbólico e o imaginário. Ele condensa uma função de substituição (substitui o pênis materno) e uma função de marca (assinala o lugar da castração).

Freud observa ainda que o fetichismo se enraíza na sexualidade infantil, especialmente na fase fálica, em que o falo é o significante privilegiado da diferença sexual. A criança, nesse momento, organiza sua experiência em torno da presença ou ausência de pênis, e a descoberta da “castração” da mulher é vivida como ameaça à própria integridade corporal. O fetiche é uma solução singular para essa ameaça: em vez de elaborar a castração como limite simbólico, o sujeito tenta contorná-la por meio de um objeto que “garante” a integridade do falo.

A partir de releituras contemporâneas, como as de Laplanche, Van Haute e Geyskens, o fetichismo freudiano tem sido retomado para pensar uma teoria da sexualidade menos normativa, na qual a centralidade da genitalidade e da “maturidade sexual” é relativizada. Esses autores mostram como, em Freud, já se esboça uma concepção da sexualidade como campo de montagens pulsionais, em que o fetichismo é um dos destinos possíveis, e não apenas um desvio patológico. 

A leitura lacaniana do fetichismo: falo, objeto a e estrutura perversa

Lacan retoma o fetichismo a partir de sua releitura estrutural da obra freudiana. Se, em Freud, o fetiche é, sobretudo, um substituto do pênis materno e uma solução para a angústia de castração, em Lacan ele será pensado em articulação com o falo como significante, com o Nome-do-Pai e com o objeto a. O fetichismo deixa de ser apenas uma “perversão sexual” para ser situado no interior de uma estrutura perversa, definida pela posição do sujeito em relação à lei e ao desejo do Outro.

No ensino de Lacan, o falo não é um órgão, mas um significante privilegiado, que marca a falta no Outro e organiza a distribuição das posições sexuadas. A castração é, então, a operação simbólica pela qual o sujeito se separa do gozo materno e se inscreve na ordem da lei, mediada pelo Nome-do-Pai. Na neurose, essa operação se realiza sob a forma da metáfora paterna; na psicose, ela falha; na perversão, ela é, de certo modo, “contornada” por uma posição específica do sujeito em relação ao falo.

O fetichismo, nesse quadro, é pensado como uma modalidade de “negação da castração” do Outro, mas não no sentido de uma simples ignorância. O fetichista sabe que a mulher é castrada, mas se coloca na posição de “tornar-se o instrumento” que vem completar o Outro, ou de produzir um objeto que faça as vezes de falo. O fetiche, então, não é apenas substituto do pênis materno; é um objeto que vela e revela a falta no Outro, sustentando uma cena em que a castração é ao mesmo tempo reconhecida e desmentida.

Lacan aproxima o fetichismo da lógica do objeto a, esse objeto causa de desejo, resto inassimilável da operação de castração. O fetiche pode ser pensado como uma forma particular de objeto a, fixado em um traço, em um detalhe, que condensa o gozo do sujeito. A diferença é que, na estrutura perversa, o sujeito se coloca na posição de “instrumento do gozo do Outro”, encenando a lei para o Outro, em vez de se submeter a ela como na neurose. Em textos como “Kant com Sade” e “Subversão do sujeito e dialética do desejo”, Lacan mostra como o perverso, e o fetichista em particular, se oferece como suporte da lei, encarnando-a de modo paradoxal.

Essa perspectiva permite compreender por que, em Lacan, o fetichismo não é reduzido a um catálogo de objetos estranhos, mas é articulado à posição subjetiva. O que define o fetichismo não é o tipo de objeto (sapatos, roupas, materiais), mas a função que esse objeto desempenha na economia do desejo e do gozo. O fetiche é o ponto em que o sujeito tenta suturar a falta no Outro, transformando-a em objeto visível, manipulável, excitante.

Ao mesmo tempo, Lacan conserva a intuição freudiana da clivagem. A recusa da castração, no fetichismo, implica uma divisão do sujeito entre o saber e o não querer saber. O fetichista, como o neurótico, está submetido à castração simbólica, mas sua resposta é diferente: em vez de se organizar em torno da falta, ele tenta produzir um objeto que “faça existir” o falo. Essa tentativa, porém, é sempre falha, o que explica a compulsão à repetição, a necessidade de reencontrar incessantemente o fetiche, de reconstituir a cena. 

Fetichismo, sexualidade e clínica: entre normalidade, perversão e cultura

Um dos aspectos mais fecundos da discussão psicanalítica sobre o fetichismo é a problematização da fronteira entre normal e patológico. Como o próprio Freud já indicava, “um certo grau de fetichismo” é constitutivo do amor sexual: a erotização de detalhes, de partes do corpo, de objetos associados ao parceiro é algo comum. O que a psicanálise introduz é a ideia de que a sexualidade humana é, em si, “perversa polimorfa”, isto é, não está naturalmente orientada para a genitalidade reprodutiva, mas se organiza por montagens pulsionais, nas quais o fetichismo é uma possibilidade entre outras. 

A passagem ao fetichismo como estrutura perversa, em sentido estrito, implica, porém, uma reorganização mais radical. Não se trata apenas de ter um “gosto” por determinado objeto, mas de depender dele para qualquer satisfação sexual, de modo que o parceiro é reduzido a suporte do fetiche ou mesmo dispensado. O fetiche torna-se o único objeto sexual, e o encontro com o outro é mediado ou substituído por esse objeto. Nessa medida, o fetichismo coloca em questão o reconhecimento da alteridade: o outro é "dessubjetivado", transformado em cenário ou em suporte do objeto.

Na clínica, isso se traduz em modalidades específicas de vínculo e de gozo. O fetichista pode apresentar uma grande capacidade de encenação, de teatralização, mas com uma dificuldade em reconhecer o outro como sujeito de desejo. A relação com o fetiche é, ao mesmo tempo, de dependência e de controle: o objeto deve estar presente, em determinadas condições, para que o gozo seja possível. A ausência do fetiche pode desencadear angústia intensa, sensação de desamparo, ou mesmo impossibilidade de excitação.

Autores contemporâneos, como André Green, Jean Laplanche, e, no Brasil, diversos psicanalistas que se debruçam sobre o tema, têm insistido na necessidade de não reduzir o fetichismo a uma curiosidade clínica ou a um diagnóstico rígido. Em vez disso, trata-se de interrogar, em cada caso, a função do objeto fetiche na economia psíquica do sujeito, sua relação com a castração, com o desejo do Outro e com a possibilidade de laço. O fetichismo pode ser, em certos contextos, uma solução relativamente estabilizadora, que evita desorganizações mais graves; em outros, pode se articular a formas de crueldade, de dessubjetivação do outro, como sublinha a literatura recente. 

No plano cultural, a psicanálise também oferece ferramentas para pensar a proliferação de objetos fetichizados na sociedade contemporânea: corpos, marcas, imagens, dispositivos tecnológicos. Sem confundir o fetichismo clínico com o “fetichismo da mercadoria” em sentido marxista, é possível, contudo, articular ambos em torno da questão do valor, do brilho, da substituição do laço com o outro por um laço com o objeto. A psicanálise, nesse ponto, contribui para uma crítica das formas de gozo contemporâneas, em que o objeto tende a ocupar o lugar de resposta à falta, prometendo uma satisfação sem castração.

Fetichismo, lei e alteridade: implicações éticas e teóricas

Tanto em Freud quanto em Lacan, o fetichismo não é apenas um fenômeno sexual; é um modo de se posicionar frente à lei e à alteridade. Em Freud, o eixo é a recusa da castração: o fetichista tenta manter uma crença na não castração da mulher, o que implica, em última instância, uma recusa da própria limitação, da própria falta. Em Lacan, essa recusa é pensada em termos de estrutura perversa: o sujeito não se submete à lei como limite, mas a encena, colocando-se na posição de instrumento do gozo do Outro.

Essa posição tem consequências éticas. A dessubjetivação do outro, frequentemente observada no fetichismo, não é um mero “efeito colateral”, mas um elemento estrutural: se o objeto é tudo, o outro é reduzido a suporte. Isso não significa que o fetichista seja necessariamente cruel ou violento; significa que, em sua economia psíquica, o reconhecimento da alteridade está comprometido pela centralidade do objeto. A clínica contemporânea, ao articular fetichismo, amor e crueldade, tem mostrado como essa estrutura pode se manifestar em relações marcadas por uma oscilação entre idealização do objeto e sua instrumentalização radical.

Ao mesmo tempo, a psicanálise evita moralizar o fetichismo. Não se trata de condenar um “desvio”, mas de compreender a lógica que o sustenta. A recusa da castração, a clivagem do eu, a fixação em um objeto que condensa o falo e a falta são respostas a uma experiência traumática, a um encontro com a diferença sexual que não pôde ser simbolizado de outro modo. O trabalho analítico, nesse contexto, não visa “normalizar” a sexualidade, mas abrir espaço para que o sujeito possa se confrontar com a castração de maneira menos defensiva, menos dependente do fetiche como garantia.

Do ponto de vista teórico, o fetichismo obriga a psicanálise a pensar a relação entre realidade psíquica e realidade material. O fetiche é um objeto real, mas seu valor é inteiramente determinado pela fantasia. Ele mostra, de forma exemplar, como o inconsciente investe o mundo de significações que não se reduzem à função ou ao uso dos objetos. Ao mesmo tempo, ele evidencia a dimensão de montagem do desejo: não há objeto “naturalmente” sexual; é a história do sujeito, suas cenas infantis, suas defesas, que conferem a um detalhe qualquer o estatuto de fetiche.

Por fim, o fetichismo recoloca a questão do limite da interpretação. Se o fetiche é um ponto em que o sujeito sustenta uma crença contra a evidência, uma recusa que se mantém apesar do saber, o analista se vê confrontado com uma resistência específica, que não se dissolve simplesmente pela interpretação. A clivagem do eu implica que o sujeito pode compreender intelectualmente o que está em jogo, sem que isso modifique sua relação com o fetiche. A clínica do fetichismo, portanto, exige uma atenção particular à transferência, à posição do analista na cena fetichista e às formas pelas quais o sujeito tenta incluí-lo ou excluí-lo de sua economia de gozo.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237. 

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FREUD, Sigmund ([1938] 1940). A divisão do ego no processo de defesa. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1975. v. 23, pp. 309 312.

LACAN, Jacques. (1956-1957). Le Séminaire, Livre IV: La relation d’objet. Paris: Seuil.

LACAN, Jacques. (1959-1960). Le Séminaire, Livre VII: L’éthique de la psychanalyse. Paris: Seuil.

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MELLO, Carlos Antônio Andrade. Um olhar sobre o fetichismo. Reverso,  Belo Horizonte ,  v. 29, n. 54, p. 71-76,  set.  2007 .   Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952007000100010&lng=pt&nrm=iso. Acesso em:  15  fev.  2026.

NEVES NETO, Antonio de Almeida. “Fetichismo em Freud e hoje”. Revista Brasileira de Psicanálise, 56(1), p. 141-154, 2022. Disponível em: https://bivipsi.org/wp-content/uploads/2022-febrapsi-revistabrasileria-v56-n1-10.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026.

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16/02/2026

O que significa ABASIOFILIA para a Psicanálise?

A abasiofilia, quando observada a partir da psicanálise, situa-se em um ponto de tensão entre fantasia inconsciente, escolha objetal, dinâmica pulsional e construção do desejo. Longe de ser apenas uma curiosidade clínica, ela convoca questões fundamentais sobre como o sujeito organiza seu erotismo, como lida com a diferença e como inscreve o corpo do outro em seu próprio cenário fantasmático. A atração por parceiros com limitações motoras, nesse sentido, não é compreendida apenas como um “interesse atípico”, mas como expressão de formações inconscientes que articulam vulnerabilidade, poder, cuidado e dependência.

Definição e lugar na economia psíquica

O termo “abasiofilia” designa a erotização da dificuldade de locomoção do outro. Na perspectiva psicanalítica, porém, o foco desloca-se da descrição comportamental para a função psíquica que essa escolha objetal cumpre. O corpo claudicante, o movimento interrompido ou a dependência física tornam-se significantes privilegiados no cenário fantasmático do sujeito, condensando representações inconscientes de fragilidade, desamparo, proteção ou domínio.

A distinção contemporânea entre parafilia e transtorno parafílico pode ser relida pela psicanálise como diferença entre um modo singular de organização do desejo e uma fixação rígida, que produz sofrimento ou impede a circulação da libido. A abasiofilia, portanto, não é por si mesma patológica; torna-se problemática quando funciona como defesa rígida contra angústias mais profundas.

Abasiofilia, fetichismo e escolha objetal

A psicanálise permite diferenciar nuances importantes:

  • Quando o foco recai sobre o objeto (cadeira de rodas, órtese, gesso), aproximamo-nos do fetichismo, no qual o objeto funciona como substituto simbólico que vela e revela uma falta.
  • Quando o núcleo da excitação é o corpo vulnerável, a deficiência pode operar como significante da castração, condensando fantasias de cuidado, reparação, domínio ou submissão.
  • Quando o sujeito busca ativamente parceiros com deficiência, podemos pensar em uma fixação objetal, na qual o outro é investido como figura que encena aspectos recalcados da própria história do sujeito.

A psicanálise não reduz esses fenômenos a categorias diagnósticas, mas os lê como soluções singulares encontradas pelo sujeito para lidar com conflitos inconscientes.

Hipóteses etiológicas em chave psicanalítica

Embora a literatura empírica seja escassa, a psicanálise oferece modelos interpretativos consistentes:

Fantasias de cuidado e reparação

A deficiência do outro pode funcionar como palco para fantasias de:

  • resgate,
  • proteção,
  • reparação de culpas infantis,
  • restauração narcísica.

O sujeito erotiza a posição de quem “cuida” ou “salva”, transformando a vulnerabilidade do outro em fonte de excitação.

Dinâmicas de poder e castração

A limitação motora pode simbolizar:

  • a castração,
  • a fragilidade do corpo,
  • a dependência primordial.

O sujeito pode erotizar essa diferença como forma de dominar a angústia ligada à própria castração, colocando-se em posição de superioridade, controle ou onipotência.

Identificação com o desamparo

Em alguns casos, a atração por corpos marcados pela limitação expressa uma identificação inconsciente com o desamparo infantil. O sujeito erotiza no outro aquilo que teme ou recusa reconhecer em si.

Fixações no desenvolvimento libidinal

A abasiofilia pode ser compreendida como:

  • fixação pré-genital,
  • defesa contra angústias de separação,
  • tentativa de manter o outro em posição não ameaçadora.

O parceiro com deficiência é percebido como menos capaz de abandonar, rejeitar ou competir.

Ética, consentimento e transferência

A psicanálise não moraliza o desejo, mas enfatiza a importância da relação com o outro como sujeito, não como objeto fetichizado. A questão ética central é se o outro é reconhecido em sua alteridade ou reduzido a peça de um roteiro fantasmático rígido.

Quando há:

  • consentimento,
  • circulação de desejo,
  • reconhecimento mútuo,

a abasiofilia pode integrar-se à vida erótica sem prejuízo. Quando há:

a relação torna-se expressão de uma dinâmica inconsciente que aprisiona ambos os parceiros.

Cultura, fantasia e imaginário social

A psicanálise também considera o papel do imaginário cultural na formação das fantasias. Representações midiáticas que associam deficiência a fragilidade, pureza, perigo ou erotismo influenciam o modo como o sujeito organiza seu desejo. A fantasia nunca é puramente individual; ela se alimenta de significantes sociais.

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