Príamo foi o rei de Troia durante a devastadora Guerra de Troia, e cuja sua vida é marcada por episódios de derrocada, ressurgimento, esplendor e, por fim, uma ruína brutal que simboliza o próprio fim da era dos heróis clássicos.
Filho do rei Laomedonte, a história da infância de Príamo já começa marcada pelo trauma e pela intervenção divina. Originalmente batizado como Podarces, o jovem príncipe viu sua cidade natal ser atacada e saqueada por Héracles (Hércules). Esse primeiro saque de Troia ocorreu porque Laomedonte, famoso por sua deslealdade, recusou-se a entregar a recompensa prometida a Héracles após o herói ter libertado a cidade de um monstro marinho enviado por Posídon. Na expedição punitiva de Héracles, Laomedonte e quase todos os seus filhos foram mortos. Podarces foi capturado e reduzido à condição de escravo. Sua vida foi salva por sua irmã, a princesa Hesíone, que negociou sua liberdade oferecendo a Héracles o seu próprio véu de ouro como resgate. Foi a partir desse ato de redenção que o jovem príncipe abandonou o nome Podarces e assumiu a alcunha de Príamo, designação que, na etimologia popular grega, deriva do verbo priamai, significando "o resgatado" ou "o comprado".
Restabelecido no trono troiano, Príamo reconstruiu a cidade, elevando Troia a um patamar incomparável de riqueza, fortificação e influência na região do Helesponto. Troia tornou-se célebre por suas muralhas consideradas intransponíveis, as quais foram construídas, segundo a tradição, pelos próprios deuses Posídon e Apolo, e por seus telhados dourados. Sob a regência de Príamo, o reino alcançou uma era de prosperidade marcada pelo respeito dos povos vizinhos e por uma corte numerosa e imponente.
A genealogia de Príamo é vastíssima e possui um papel fundamental na vastidão da narrativa da mitologia grega. Fontes clássicas atribuem-lhe dezenas de filhos e filhas, tradicionalmente cinquenta ao todo, nascidos de suas várias esposas e concubinas. Sua esposa principal e rainha consorte foi Hécuba, figura igualmente trágica com quem gerou dezenove ou vinte filhos, incluindo os personagens mais determinantes do ciclo troiano: Heitor, o nobre defensor e príncipe herdeiro de Troia; Páris, cuja sedução e rapto de Helena desencadearam a guerra; Cassandra, a profetisa amaldiçoada cujos avisos eram eternamente ignorados; Heleno, o vidente; Dêifobo e Troilo. Essa vasta progênie transformou Príamo no patriarca supremo de uma dinastia brilhante, mas também selou seu sofrimento, pois ele testemunharia a morte violenta da imensa maioria de seus descendentes.
Quando os reis aqueus (gregos) marcharam contra Troia para reaver Helena, Príamo já era um homem de idade avançada, fisicamente impossibilitado de combater na linha de frente. Sua liderança durante o cerco de dez anos manifestou-se, assim, não no manejo das armas, mas no conselho, na dignidade e na piedade religiosa. No poema épico Ilíada, de Homero, Príamo aparece no topo das Portas Celas, observando os combates ao lado dos anciãos do conselho. É marcante a humanidade com que ele trata Helena: em vez de culpá-la pela tragédia e pela devastação que se abatiam sobre seu povo, o idoso rei demonstra compaixão, atribuindo a responsabilidade do conflito às vontades inescrutáveis dos deuses.
O momento de maior destaque de Príamo, e uma das passagens mais comoventes de toda a literatura ocidental, ocorre no Canto XXIV da Ilíada. Após o terrível duelo em que Aquiles mata Heitor, o herói grego profana o cadáver do príncipe troiano, arrastando-o diariamente ao redor do sepulcro de seu companheiro Pátroclo. Diante do sacrilégio e tomado por uma dor insuportável, Príamo decide realizar um ato de audácia e humildade sem precedentes: abandona a segurança do seu palácio, remove as insígnias reais que carregava e, sob a proteção invisível do deus Hermes, entra oculto no acampamento inimigo durante a noite.
Ao alcançar a tenda de Aquiles, o soberano de Troia ajoelha-se diante do assassino de seu filho, beija as mãos sanguinárias que exterminaram tantos de seus herdeiros e suplica pelo corpo de Heitor para que este receba os ritos fúnebres adequados. Príamo apela aos sentimentos de Aquiles pedindo-lhe que se lembre de seu próprio pai, Peleu, um ancião que também aguardava o retorno do filho. A imagem do rei majestoso prostrado aos seus pés fez com que Aquiles deixasse, momentaneamente, sua fúria se apaziguar; os dois homens choraram juntos suas perdas, unidos por uma dor compartilhada que ia além do conflito. Tocado pela grandeza moral do monarca, Aquiles concede o cadáver de Heitor e estabelece uma trégua de doze dias para os funerais, demonstrando o poder da piedade (eusebeia) do soberano troiano.
Apesar desse breve momento de paz, o destino de Príamo ilustra como a guerra alcança todos os indivíduos. O fim do rei é narrado com crudeza na tradição épica e reelaborado na Eneida, de Virgílio. Vendo a cidade tomada pelas chamas e o massacre de sua família, Príamo tenta vestir suas velhas armaduras para defender seus altares domésticos. No entanto, sem forças e dominado pela desesperança, ele é arrastado até o altar de Zeus por Neoptólemo (também chamado Pirro), o implacável filho de Aquiles. Diante dos olhos de Hécuba e de suas filhas, e logo após testemunhar o assassinato de seu filho Polites, Príamo é brutalmente executado por Neoptólemo no próprio santuário, selando a profanação da cidade e o colapso absoluto de Troia.
Referências Bibliográficas
EURÍPIDES. As Troianas. Tradução de Trajano Vieira. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2021.
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LESKY, A. A tragédia grega. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.
VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. Tradução de Rosa Freire Aguiar. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
VIRGÍLIO. Eneida.Tradução de Carlos Alberto Nunes. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2016.