| Capa do DVD do filme O Babadook |
Assisti ao "O Babadook" (2014) por volta do ano de 2022, para utilizá-lo como material de análise em uma palestra que apresentei naquele ano. Aquilo que partiu de uma obrigação acadêmica acabou se tornando uma das experiências psicológicas mais profundas que a arte fílmica já me proporcionou. Dirigido por Jennifer Kent, o longa utiliza-se do terror psicológico não apenas para causar angústia, mas para encenar o precipício do trauma não elaborado. O gênero do horror frequentemente serve como um espelho deformante da psique humana, e aqui a convenção da casa mal-assombrada é descaracterizada dos típicos floreios sobrenaturais externos para focar no seu verdadeiro centro gravitacional: a angústia reprimida. A narrativa acompanha Amelia, uma mãe "solo" exausta, e seu filho de seis anos, Samuel. A dinâmica familiar nasce marcada por um luto violento e nunca nomeado, já que o pai da criança faleceu num acidente de carro justamente enquanto levava a esposa ao hospital para dar à luz. Esse fato fundador, o nascimento imbricado à morte, estabelece um conflito inconsciente profundo que perpassa toda a obra.
O monstro título, Babadook, não surge como uma ameaça externa, mas como uma metáfora do que a psicanálise nomeia de retorno do recalcado, um conceito fundamental na teoria freudiana. A dor da perda e, fundamentalmente, o ressentimento inconfessável que Amelia nutre pelo próprio filho foram empurrados para o inconsciente durante anos. Samuel serve, ao mesmo tempo, como sustentação psíquica e emocional para a mãe e um lembrete do evento traumático, o que gera um afeto ambivalente: o dever consciente de proteger e amar colide diretamente com uma pulsão de rejeição. É a partir do momento em que a negação desse conflito se torna insustentável que a figura grotesca do livro infantil ganha corpo. O Babadook surge como a materialização psíquica desse luto suspenso, uma força obsessiva que ganha densidade à medida que é reprimida.
O livro pop-up, encontrado de forma misteriosa nas prateleiras do quarto de Samuel, serve como o gatilho da quebra do recalque. A leitura daquelas páginas ilustradas em preto e branco introduz uma fala proibida na casa. A própria frase central do livro ("se é por palavra ou por olhar, do Babadook não vai se livrar") funciona como uma premonição do sintoma psíquico. Quanto mais Amelia tenta ignorar a presença da criatura, rasgando o livro ou queimando suas páginas, mais a projeção ganha força no espaço físico do lar. A tentativa desesperada de destruição do objeto reflete a defesa do ego contra verdades insuportáveis, uma negação que apenas alimenta o peso daquilo que se quer esconder.
Samuel, por sua vez, parece atuar como o sintoma visível da patologia familiar. Seu comportamento hiperativo, invasivo e marcado por episódios de pânico expressa a ansiedade que alicerça o ambiente, como um radar emocional para a hostilidade velada da mãe. O garoto percebe intuitivamente a ameaça que ronda a casa porque sente, antes de qualquer confirmação racional, a falta de sustentação afetiva da figura materna. As armas caseiras que ele constrói obsessivamente não são ferramentas para combater um monstro mitológico, mas mecanismos de defesa contra o colapso do seu próprio ambiente protetor. A conduta da criança irrita a comunidade e afasta os parentes, isolando ainda mais a dupla e acelerando o processo de desagregação psíquica da casa.
O espaço físico do filme é outro elemento de destaque, já que foi, do meu ponto de vista, muito bem planejado para servir como extensão direta da mente da protagonista. A arquitetura da residência, dominada por tons frios, azuis desbotados e cinzas, reflete o estado depressivo e a estagnação do tempo vivido por Amelia. À medida em que a narrativa avança e o esgotamento do sono se acumula, as fronteiras entre a realidade objetiva e o delírio psicótico se dissolvem. O cansaço crônico age como o estimulante que enfraquece as barreiras da consciência, permitindo que a sombra do pai morto e a culpa maternal tomem conta da percepção da personagem. O monstro ganha voz, gestos e contornos na medida exata em que a fachada de mãe devotada começa a rachar.
Nesse sentido, ao que me parece, o horror em "O Babadook" não se concentra na possibilidade da morte física, mas na violência da transformação do amor em agressão pura. A possessão gradual vivida no segundo ato representa o momento em que a pulsão de morte assume o controle da psique de Amelia. Quando a raiva represada durante anos finalmente transborda, a criatura fala através da própria mãe, direcionando a violência verbal e física para a criança. Essa inversão do papel maternal expõe a culpa que Amelia carrega por sobreviver ao acidente e a raiva por ter sido "abandonada" à própria sorte na maternidade. O verdadeiro terror para a protagonista é encarar a existência do seu próprio desejo destrutivo.
Diferente de histórias de exorcismo convencionais, onde a resolução depende da tentativa de expulsar do mal, a obra compreende a natureza indestrutível da dor não integrada. O confronto com a figura sombria exige a renúncia à negação e o reconhecimento da vulnerabilidade. O processo de elaboração psíquica exige de Amelia olhar diretamente para o horror e dar-lhe um lugar, em vez de tentar aniquilá-lo. Ao aceitar a presença da perda e expressar verbalmente os sentimentos interditados, a protagonista altera a dinâmica de poder com a criatura, retirando do Babadook sua capacidade de dominação absoluta.
Particularmente, fiquei impressionado com a jornada construída por Jennifer Kent, a qual soube dar contornos muito singulares na sua ao longa, sobretudo ao demonstrar que o trauma não é algo a ser superado de forma definitiva, mas integrado à história do sujeito. O lar, antes símbolo do sufocamento gerado pelo silêncio e da dor guardada, passa por uma reestruturação afetiva quando o tabu é quebrado. Ao permitir que o luto finalmente ganhe espaço para existir, a relação entre mãe e filho deixa de ser pautada pelo fantasma do passado e passa a se alimentar no presente.