17/10/2026

Revista Kairós da Faculdade Católica de Fortaleza abre chamada para submissão de artigos e trabalhos em Filosofia e Teologia

Revista Kairós da Faculdade Católica de Fortaleza abre chamada para submissão de artigos e trabalhos em Filosofia e Teologia

A Revista Kairós, periódico acadêmico vinculado à Faculdade Católica de Fortaleza e classificado como Qualis A4, está com chamada aberta para o recebimento de artigos originais, resenhas críticas e traduções para a composição de sua próxima edição. A iniciativa é voltada a pesquisadores, docentes e estudantes de pós-graduação das áreas de Filosofia e Teologia que desejam divulgar os resultados de suas investigações científicas, apresentar reflexões críticas sobre obras recentes ou disponibilizar em língua portuguesa textos de relevante valor para o debate acadêmico contemporâneo.

Embora a publicação adote a temática livre, todas as contribuições submetidas devem obrigatoriamente manter vínculo direto com as discussões filosóficas ou teológicas. Vale destacar que a revista opera sob o regime de fluxo de publicação contínua. Contudo, os autores interessados em integrar o próximo número do periódico devem realizar a submissão de seus trabalhos impreterivelmente até o dia 10 de novembro de 2026, garantindo assim tempo hábil para o cumprimento de todas as etapas do processo editorial e de avaliação por pares.

Todas as orientações detalhadas referentes à normalização dos textos, às diretrizes formais para os autores e às especificidades do fluxo de avaliação técnica encontram-se totalmente acessíveis para consulta direta no site oficial da Revista Kairós.

Quem é Alcínoo na Mitologia Grega?

Quem é Alcínoo na Mitologia Grega?

Na tradição épica transmitida principalmente pela Odisseia de Homero, ele Alcínoo é filho de Nausítoo e neto do próprio deus Poseidon, o poderoso senhor dos mares, o que confere à linhagem real uma aura simultaneamente divina e marítima. O povo feácio, governado por Alcínoo, habitava originariamente a região de Hipéreia, mas, devido à constante pressão e às ameaças dos Ciclopes, criaturas dotadas de imensa força física e destituídas de laços civilizatórios, Nausítoo liderou a migração de toda a comunidade para a distante e isolada ilha de Esquéria. Nesse refúgio protegido pelas marés, os feácios desenvolveram uma civilização singular, marcada por extraordinária prosperidade material, palácios opulentos, jardins exuberantes e, acima de tudo, uma habilidade náutica sem precedentes no mundo conhecido, capaz de dispensar o uso de lemes ou timões em suas embarcações velozes e inteligentes.

O momento de maior proeminência de Alcínoo na mitologia ocorre quando o herói Odisseu, após naufragar e lutar furiosamente contra as tormentas enviadas por Poseidon, consegue alcançar exausto as praias de Esquéria. Despojado de suas riquezas, coberto de sal e lama, e reduzido à mais absoluta vulnerabilidade, o rei de Ítaca é encontrado pela jovem princesa Nausícaa, filha de Alcínoo, que, guiada por inspiração divina, acolhe o estrangeiro e o orienta a buscar o palácio real. É nesse ponto que a figura de Alcínoo se sobressai de maneira brilhante, pois, ao receber em sua corte o homem maltrapilho cuja identidade ainda permanece oculta, o monarca não demonstra desdém ou desconfiança excessiva, mas sim a mais pura e irrestrita prática da xenia, o sagrado código grego de hospitalidade que obriga o anfitrião a proteger, alimentar e honrar o hóspede antes de indagar seu nome ou procedência.

No palácio de Alcínoo, a recepção converte-se em um verdadeiro banquete de civilização. O rei ordena que se preparem banquetes pródigos, oferece vestimentas limpas e promove celebrações com cantos e danças executadas pelos melhores bardos da ilha. É particularmente comovente e significativo o episódio em que o aedo Demódoco entoa canções sobre os sofrimentos dos heróis na Guerra de Troia, levando o próprio Odisseu a derramar lágrimas ocultas ao escutar suas próprias façanhas imortalizadas em versos. Observando a comoção do misterioso visitante, Alcínoo demonstra uma sensibilidade ímpar: interrompe o canto, demonstra respeito profundo pela dor do hóspede e, com extrema delicadeza, finalmente convida-o a revelar sua verdadeira identidade e a narrar as provações por que tem passado.

A narrativa subsequente de Odisseu perante a corte de Alcínoo constitui um dos núcleos mais fascinantes de toda a literatura grega, englobando os relatos sobre os Ciclopes, a feiticeira Circe, as Sereias e a descida ao Hades. Durante todo esse tempo, Alcínoo atua tanto como um ouvinte atento e fascinado, como o guardião generoso que valida a dignidade do herói. A postura do soberano feácio contrasta fortemente com a brutalidade e a inospitalidade demonstradas por outros personagens encontrados por Odisseu em suas longas andanças, reafirmando que a verdadeira grandeza de um governante reside na magnanimidade, na justiça e no respeito pelos desamparados enviados pelos deuses.

Além de sua hospitalidade, Alcínoo é cercado por uma família notável e por uma corte harmoniosa. Ele é casado com a rainha Arete, uma mulher dotada de tamanha sabedoria e autoridade moral que o próprio povo de Esquéria a reverenciava como a uma divindade e recorria a ela para a solução de litígios e disputas políticas. Juntos, Alcínoo e Arete fomentaram um ambiente de paz, onde a arte, a navegação e o deleite estético coexistiam em perfeita harmonia, fazendo de Esquéria um reduto quase utópico em meio a um mundo dilacerado por guerras, rivalidades cruéis e dissabores divinos.

Cumprindo o seu papel de anfitrião supremo, Alcínoo não se limita a oferecer abrigo e escuta compassiva; ele assume o compromisso irrevogável de garantir o retorno seguro de Odisseu à sua terra natal. Para isso, mobiliza os célebres navios feácios, embarcações mágicas que cruzam os mares em velocidade fulminante, transportando o herói adormecido diretamente para as praias de Ítaca. Esse ato de solidariedade marítima, contudo, acarreta consequências drásticas, pois ao retornar para o porto de Esquéria, a embarcação que transportara Odisseu é petrificada por Poseidon, irado pelo fato de seu próprio sangue ter auxiliado o rival, cumprindo assim uma antiga profecia que previa o isolamento da ilha por altas montanhas de pedra. Apesar da advertência divina e do revés iminente, Alcínoo mantém-se firme em seus princípios éticos, demonstrando que a lealdade à hospitalidade sagrada está acima do temor aos caprichos dos deuses.

Referências Bibliográficas

  • BRANDÃO, J. S. Mitologia grega. 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.
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  • HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
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  • GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. Tradução de Victor Jabouille. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
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  • HESÍODO. Teogonia: A Origem dos Deuses. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Editora Iluminuras, 2000.
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16/10/2026

Quem são os Argonautas (Ἀργοναῦται Argonautai) na Mitologia Grega?

Quem são os Argonautas (Ἀργοναῦται Argonautai) na Mitologia Grega?

O termo Argonautas designa os tripulantes da nau Argo, um navio mitológico construído com a intervenção direta da deusa Atena e projetado para empreender uma viagem considerada impossível. Liderados pelo herói Jasão, esses heróis notáveis uniram-se em uma missão: navegar desde Iolcos, na Tessália, até as distantes e misteriosas terras da Cólquida, situadas nas margens do Mar Negro, com o objetivo de resgatar o cobiçado Velocino de Ouro, também conhecido como Velo de Ouro. Esta jornada não representa apenas um feito físico de navegação e combate, mas consagra-se como o arquétipo primordial da viagem heroica coletiva, antecedendo inclusive a famosa Guerra de Troia e reunindo a nata dos heróis de uma geração anterior à de Aquiles e Odisseu.

Na cidade de Iolcos, o trono pertencia por direito a Esão, mas o poder foi usurpado por seu meio-irmão Pélias. Para salvaguardar a vida de seu herdeiro legítimo, Jasão foi enviado ainda criança para ser criado pelo centauro Quíron, célebre por sua sabedoria e por instruir os maiores heróis da Hélade. Anos mais tarde, já adulto e determinado a reclamar a herança que lhe pertencia por sangue, Jasão retornou a Iolcos. No entanto, um aviso oracular pesava sobre Pélias, alertando-o para que temesse um homem que se apresentasse calçado com apenas uma sandália. Ao cruzar um rio caudaloso no caminho para a cidade, Jasão ajudou uma velhinha, que na verdade era a deusa Hera, protetora implacável de muitos heróis, e, no esforço da travessia, perdeu uma de suas sandálias na lama. Quando se apresentou perante o usurpador com o pé descalço, Pélias compreendeu o perigo, mas arquitetou um plano astuto: concordou em devolver a coroa sob a condição de que Jasão realizasse uma empresa supostamente suicida, a de recuperar o Velocino de Ouro.

O Velocino de Ouro era a pele de carneiro alado que pertencera a Crisómalo, animal enviado por Hermes para salvar Frixo e Hele do sacrifício iminente. Ao chegar à Cólquida, Frixo sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu o velo dourado ao rei Eetes, pendurando-o em um carvalho sagrado dentro de um bosque dedicado a Ares, onde era permanentemente vigiado por um dragão colossal que jamais dormia. Sob a supervisão de Jasão, o mestre construtor Argos erigiu a nau Argo, uma embarcação inovadora equipada com cinquenta remos e dotada de um pedaço de madeira falante retirado do carvalho oracular de Dodona na sua proa, capaz de emitir profecias e orientar os navegantes.

Jasão convocou os maiores expoentes da mitologia. Entre os cinquenta tripulantes que embarcaram na nau figuravam nomes lendários como Héracles, acompanhado por seu jovem escudeiro Hilas; os gêmeos Dioscuros, Castor e Pólux, célebres por suas habilidades em combate e domínio de cavalos; Orfeu, o músico divino cuja lira mágica tinha o poder de enfeitiçar as feras, acalmar as tempestades e até mesmo embalar o sono do dragão guardião; Teseu, o futuro matador do Minotauro; Atalanta, a intrépida caçadora etólia; Peleu, pai de Aquiles; além de adivinhos renomados como Anfiarau e Idmon. Esta constelação de talentos singulares garantia que a expedição possuísse recursos para enfrentar tanto ameaças físicas quanto prodígios de natureza sobrenatural.

O trajeto percorrido pelos Argonautas foi pontuado por provações extraordinárias que testaram os limites da coragem humana e a coesão do grupo. Logo nas primeiras etapas, na ilha de Lemnos, os heróis depararam-se com uma comunidade habitada exclusivamente por mulheres, que haviam assassinado seus maridos devido à ira de Afrodite; dali resultou uma união temporária que garantiu a continuidade das linhagens. Posteriormente, na Mísia, a expedição sofreu perdas dolorosas quando o jovem Hilas foi seduzido e tragado pelas ninfas das fontes, levando Héracles e Polifemo a abandonarem a viagem para procurá-lo desesperadamente na floresta. Mais adiante, os navegantes enfrentaram o tirano Âmico na terra dos bébricios, um gigante arrogante que desafiava todos os forasteiros para o pugilato mortal e que acabou derrotado pelo vigor de Pólux. 

O périplo continuou com o encontro com o rei cego Fineu, atormentado pelas Harpias, criaturas aladas que roubavam ou contaminavam toda a comida que ele tentava ingerir. Com a ajuda dos filhos de Boreu, os ventos do norte que também integravam a tripulação, as Harpias foram afugentadas, e em gratidão Fineu revelou aos Argonautas o segredo para ultrapassar o obstáculo mais temido da rota: as Simplégades, rochas simpáticas ou rochas móveis que colidiam violentamente entre si, esmagando qualquer navio que ousasse cruzar o estreito. Seguindo o conselho do adivinho, os heróis soltaram uma pomba; ao verem que a ave atravessou perdendo apenas algumas penas da cauda, remaram com força sobre-humana e conseguiram romper o bloqueio, estabilizando permanentemente as rochas perigosas de acordo com as leis do destino. 

Ao chegarem finalmente à Cólquida, Jasão deparou-se com a hostilidade do rei Eetes, que recusou-se a entregar o Velocino de Ouro, impondo provas aparentemente intransponíveis. O herói precisaria subjugar dois touros ferozes de cascos de bronze que expeliam fogo pelas narinas, arar com eles um campo sagrado e semear os dentes de um dragão, dos quais brotaria instantaneamente um exército de guerreiros terrestres prontos para destruí-lo. É neste ponto crítico que a intervenção divina e a paixão humana alteram o curso da história. Sensibilizadas pela causa de Jasão, as deusas Hera e Atena apelaram a Afrodite para que seu filho Eros fizesse com que Medeia, a filha feiticeira do rei Eetes, se apaixonasse perdidamente pelo líder dos Argonautas. Dotada de vastos conhecimentos em poções e feitiçaria, Medeia forneceu a Jasão um unguento mágico que o tornou invulnerável ao fogo e ao ferro dos touros, além de orientá-lo a lançar uma pedra no meio dos guerreiros brotados da terra, fazendo com que lutassem entre si até a morte.

Apesar de cumprir todas as exigências de Eetes, Jasão percebeu que o rei planejava traí-lo e incendiar a nau Argo durante a noite. Com a ajuda decisiva de Medeia, que traiu a própria pátria e a família por amor, Jasão invadiu o bosque sagrado, adormeceu o dragão vigilante com os vapores de poções sopradas pela feiticeira e apropriou-se do cobiçado Velocino de Ouro. Imediatamente, a nau partiu em fuga vertiginosa, levando consigo a jovem princesa e seu irmão menor, Absirto. A viagem de regresso, conhecida na tradição mítica como a nostoi dos Argonautas, foi igualmente dificultosa e repleta de desvios geográficos fantásticos, exigindo que o navio navegasse por rios imensos da Europa central, contornasse as costas do Mediterrâneo ocidental, resistisse aos encantos mortais das Sereias, esquivasse-se dos monstros marinhos Cila e Caríbdis, e superasse o gigante de bronze Talos na ilha de Creta.

De volta a Iolcos, embora o Velocino tenha sido entregue a Pélias, a promessa do trono não foi cumprida de forma pacífica, desdobrando-se em tragédias familiares orquestradas pelas maquinações de Medeia.

Referências Bibliográficas

  • RODES, Apolônio de. Argonáuticas. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.
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  • EURÍPIDES. Medeia. Tradução de Trajano Vieira. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.
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  • GRAVES, Robert. Os Mitos GregosBox com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
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  • KERÉNYI, Karl. Mitologia dos gregos: A história dos heróis. 1. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2015.
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  • APOLODORO. Biblioteca mitológica. 1. ed. Madrid: Ediciones Akal, 2023.
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O que é o Tártaro (Τάρταρος) na Mitologia Grega?

O que é o Tártaro (Τάρταρος) na Mitologia Grega?

Nas narrativas fundacionais da tradição helênica, especialmente na Teogonia, de Hesíodo, o Tártaro figura em um duplo papel: ele é simultaneamente um deus primordial, gerado nas origens do cosmos a partir do Caos, e o abismo subterrâneo mais profundo que se possa conceber. A cosmologia dos antigos gregos concebia o universo de maneira simétrica e vertical. Segundo a célebre métrica hesiódica, a distância que separa a superfície da terra do Tártaro é equivalente àquela que vai da terra até o céu. Para ilustrar essa imensidão de forma concreta, os poetas épicos frequentemente recorriam à imagem de uma bigorna de bronze que, se lançada dos céus, cairia durante nove dias e nove noites até alcançar a superfície terrestre, e precisaria de mais nove dias e nove noites de queda ininterrupta para, finalmente, atingir as profundezas sombrias do Tártaro.

Essa imensidão é descrita nas fontes mitológicas como um local lúgubre, úmido, cercado por uma tripla camada de noite e revestido por raízes de terra e do mar estéril. Não se trata meramente de uma extensão do Hades, o reino subterrâneo comum que recebia as almas da generalidade dos mortais após o falecimento. O Hades e o Tártaro mantêm uma separação rigorosa na topografia sagrada dos antigos gregos. Enquanto o Hades funcionava como a morada genérica e sombria dos mortos, governado pelo deus homônimo e por sua consorte Perséfone, o Tártaro representava o ponto mais inferior e extremo do universo, operando estritamente como uma prisão de segurança máxima voltada para os inimigos mais perigosos do poder olímpico.

A função primária do Tártaro no mito grego antigo consistia em servir de cárcere para aquelas entidades cujo poder representava uma ameaça existencial ao equilíbrio do cosmos. O exemplo mais notório dessa dinâmica de confinamento envolve a queda dos Titãs. Após a brutal Titanomaquia, a década de guerra encarniçada travada entre a geração anterior dos deuses titânicos liderada por Cronos e a nova ordem ascendente comandada por Zeus, os vencidos foram sumariamente arremessados para as profundezas do Tártaro. Para garantir que jamais pudessem retornar à luz ou perturbar o firmamento, os deuses olímpicos cercaram o abismo com muralhas de bronze intransitáveis e colocaram os Hecatônquiros, gigantes de cem braços e cinquenta cabeças, como fiéis e implacáveis sentinelas de sua prisão perpétua.

Além dos Titãs, o Tártaro abrigou outras criaturas monstruosas que desafiaram a supremacia de Zeus e dos olímpicos. Um caso emblemático é o de Tífon, um monstro alado de proporções titânicas, gerado por Gaia em retaliação à derrota de seus filhos anteriores, que foi lançado no abismo após um combate titânico contra o senhor dos raios. Da mesma forma, figuras humanas que cometeram hybris, ou seja, uma insolência extrema e imperdoável contra a autoridade e as leis divinas, encontraram no Tártaro o cenário de suas punições eternas. Diferente do Hades, onde as almas vagavam como sombras melancólicas sem grandes tormentos físicos, o Tártaro era o local reservado para a retribuição exemplar, onde criminosos mitológicos de escol sofriam suplícios perpétuos que simbolizavam a justiça poética e a desproporção de seus atos em vida.

Entre os habitantes mais célebres submetidos aos tormentos do Tártaro figuram figuras como Sísifo, Tântalo e Íxion. Tântalo, cuja audácia incluiu desafiar a presciência dos deuses servindo-lhes a carne de seu próprio filho em um banquete, foi condenado a submergir em águas cristalinas sob o reflexo de árvores frutíferas, experimentando uma fome e uma sede eternas que jamais poderiam ser saciadas, pois a água recuava e os frutos se elevavam assim que ele tentava alcançá-los. Sísifo, rei de Corinto que enganou a própria morte por duas ocasiões, recebeu como pena empurrar incessantemente uma imensa rocha morro acima, apenas para vê-la rolar de volta à base todas as vezes em que se aproximava do cume. Íxion, por sua vez, foi atado a uma roda de fogo em eterno movimento giratório pelos ares do abismo como castigo por sua tentativa de seduzir Hera.

Com o passar dos séculos, a percepção cultural e religiosa a respeito do Tártaro sofreu transformações substanciais, absorvendo influências de correntes filosóficas e místicas como o Orfismo e o Pitagorismo, e posteriormente dialogando com a escatologia de outras civilizações na Antiguidade tardia. Se nos poemas homéricos e hesiódicos o local era estritamente uma prisão geopolítica para deuses destronados e grandes transgressores míticos, nas narrativas posteriores ele passou a ser encarado de forma mais ampla como o destino punitivo pós-morte para qualquer alma cujo comportamento terrenal estivesse maculado por crimes imperdoáveis contra a ética e a religiosidade helênica. Essa evolução conceitual pavimentou o caminho para que, no imaginário ocidental subsequente, o conceito de Tártaro fosse frequentemente assimilado ou comparado às ideias de inferno e condenação eterna.

Referências Bibliográficas

BULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.

GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

KÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.

VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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15/10/2026

Revista Transmutare Prorroga Prazo de Submissão para Dossiê sobre Inteligência Artificial e Docência no Ensino Superior

Revista Transmutare Prorroga Prazo de Submissão para Dossiê sobre Inteligência Artificial e Docência no Ensino Superior

A Revista Transmutare anunciou a prorrogação do prazo de submissão de artigos para o dossiê temático "Da Pedagogia Digital à Inteligência Artificial: Desafios da Docência no Ensino Superior". Os pesquisadores interessados em contribuir para esse debate fundamental sobre o futuro da educação universitária têm agora até o dia 20 de outubro de 2026 para enviar seus trabalhos inéditos.

O dossiê busca analisar criticamente as profundas transformações pelas quais passa a docência no ensino superior com a expansão acelerada da pedagogia digital e da Inteligência Artificial. A proposta incentiva reflexões abrangentes sobre os impactos epistemológicos, pedagógicos e institucionais dessas tecnologias no ambiente acadêmico, levantando questões essenciais sobre como a IA redefine o trabalho docente e quais são os limites e oportunidades no contexto universitário.

Entre os eixos temáticos de interesse para a publicação, destacam-se a pedagogia digital e os ecossistemas algorítmicos na universidade, o uso da Inteligência Artificial Generativa no ensino superior, as aplicações de IA na pesquisa científica universitária, além do desenvolvimento de competências digitais docentes e frameworks de autoavaliação.

A comissão organizadora do dossiê é formada pelos professores doutores Eniel do Espírito Santo, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Luiz Carlos Sacramento da Luz, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e André Luiz Carvalho Ottoni, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O periódico tem como editor responsável o professor doutor Oséias Santos de Oliveira, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Os textos submetidos devem ser artigos originais alinhados ao campo da Educação e com extensão compreendida entre 35.000 e 45.000 caracteres com espaços, seguindo rigorosamente as Diretrizes para Autores disponibilizadas pela revista. A previsão oficial de publicação do volume completo é para abril de 2027.

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Quem são as Erínias (Ἐρινύες) na Mitologia Grega?

Quem são as Erínias (Ἐρινύες) na Mitologia Grega?

A origem das Erínias varia conforme as fontes clássicas, refletindo a complexidade e a mutabilidade dos mitos ao longo dos séculos. Uma das versões mais tradicionais e arcaicas aponta que elas emergiram das profundezas do cosmos logo após a castração de Urano por seu filho Cronos. Quando o sangue ferino do deus deposto atingiu a terra, Gaia, surgiram essas criaturas temíveis, dotadas de uma natureza primordial que antecedia o próprio reinado de Zeus e a estabilização do Olimpo. Em contrapartida, outras tradições literárias, com destaque para a obra do dramaturgo Ésquilo, atribuem a maternidade das Erínias à deusa Nix, a Noite, acentuando o caráter sombrio, ctônico e noturno de suas essências. Independentemente da linhagem específica aceita, é consenso que habitavam as regiões mais recônditas do inframundo, seja o sombrio Tártaro ou o Érebo, de onde ascendiam à superfície terrestre sempre que um crime de sangue ou uma infração moral grave clamava por reparação.

A representação física e iconográfica das Erínias traduz visualmente o horror associado aos seus domínios e funções punitivas. Tradicionalmente descritas como mulheres aladas de aspeto medonho, possuíam traços que infundiam pânico imediato naqueles que ousavam desafiá-las. Em vez de madeixas humanas, suas cabeças eram emolduradas por dezenas de serpentes venenosas que se contorciam incessantemente, e seus olhos frequentemente vertiam lágrimas de sangue. Munidas de chicotes sibilantes e tochas acesas, elas perseguiam os infratores incansavelmente por mares e terras, negando-lhes o repouso e a paz de espírito. Esse tormento psicológico e físico muitas vezes conduzia a vítima à loucura total, transformando o criminoso em um pária consumido pela culpa e pelo terror perpétuo.

O escopo de atuação das Erínias concentrava-se primariamente nos crimes que violavam a sagrada ordem familiar e os juramentos solenes. O derramamento de sangue parental, o parricídio, o matricídio e a quebra de hospitalidade eram faltas imperdoáveis que ativavam imediatamente a fúria dessas deidades. Enquanto divindades como Nêmesis puniam a soberba e os excessos direcionados aos deuses, as Erínias focavam implacavelmente nas transgressões cometidas pelos mortais contra seus semelhantes no âmbito doméstico e moral. A literatura clássica exemplifica magistralmente essa dinâmica na tragédia de Orestes, que, após assassinar sua própria mãe Clitemnestra para vingar a morte de Agamenon, passa a ser implacavelmente caçado pelas Erínias, as quais exigiam o pagamento de sangue, sem aceitar justificativas atenuantes para o matricídio.

Curiosamente, a força dessas deidades era tão temida que os antigos gregos frequentemente evitavam pronunciar seu verdadeiro nome, temendo atrair sua atenção indesejada. Em substituição, empregavam eufemismos reverentes, chamando-as de Eumênides, que significa "as bondosas" ou "as benevolentes", numa tentativa mágica de aplacar sua cólera por meio do elogio dissimulado. Em Atenas, eram igualmente referidas como Semnai Theai, ou seja, as deusas veneradas. Essa dualidade entre o pavor absoluto que inspiravam e a necessidade de apaziguá-las demonstra como o culto às Erínias estava profundamente enraizado nos rituais de purificação e nos sacrifícios propiciatórios, onde lhes eram oferecidos carneiros negros e libações de hidromel para restaurar a harmonia entre os homens e os poderes ctônicos.

A evolução mitológica das Erínias vai em direção a uma importante transformação institucional e cultural retratada na tragédia grega, especialmente na Oesteia de Ésquilo. No julgamento de Orestes perante o tribunal do Areópago, a deusa Atena intervém para mediar o conflito entre a justiça arcaica da vingança privada, representada pelas Erínias, e a nova justiça cívica, baseada no julgamento racional por um corpo de jurados. Ao final do processo, Orestes é absolvido pelo voto de Minerva, e as Erínias, inicialmente furiosas com a recusa de sua prerrogativa milenar, são convencidas por Atena a aceitar um novo papel na polis ateniense. De entidades marginalizadas e temidas, transformam-se em protetoras benevolentes da cidade e da fertilidade da terra, consolidando a transição mítica do caos primordial da vingança de sangue para a ordem civilizada da justiça institucionalizada do Estado.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, J. S. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015, 3 v.

BULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.

CAMPBELL, J. O herói de mil faces. 1ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2024.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.

ESQUILO. Orestéia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides. Tradução de Mário da Gama Kury. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

VERNANT, J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.

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14/10/2026

Revista Fórum Linguístico Abre Chamada para Dossiê sobre Ensino, Materiais Didáticos e Fortalecimento de Comunidades Minorizadas

Revista Fórum Linguístico Abre Chamada para Dossiê sobre Ensino, Materiais Didáticos e Fortalecimento de Comunidades Minorizadas

A Revista Fórum Linguístico anunciou a abertura de chamadas de artigos para o dossiê temático intitulado "Ensino e materiais didáticos: a educação em prol do fortalecimento das comunidades minorizadas". A iniciativa busca reunir pesquisas no campo da Linguística Aplicada que conectem a prática docente e a produção de materiais didáticos, voltados tanto para a Língua Portuguesa quanto para línguas adicionais, ao engajamento social em defesa da equidade, do fortalecimento da democracia e da garantia dos direitos de grupos historicamente marginalizados.

O dossiê é organizado pelos pesquisadores Dra. Rita de Cássia Souto Maior (UFAL), Dra. Maria Teresa Tedesco Vilardo Abreu (UERJ), Dr. Silvio Nunes da Silva Júnior (UPE-Garanhuns) e pelo doutorando Me. Nedson Antônio Melo Nogueira (UFAL/CAPES). A proposta ganha relevância diante da crescente onda de preconceito e discriminação observada nas interações sociais, ambientes educacionais e redes digitais.

A chamada convida trabalhos acadêmicos que adotem uma perspectiva interseccional e inclusiva para enfrentar a invisibilidade e a marginalização nas salas de aula. As produções submetidas devem articular discussões teórico-práticas que envolvam diversos grupos minorizados, como mulheres, negros e negras, povos indígenas, comunidade LGBTQIAPN+, pessoas em situação de rua, pessoas com deficiência, idosos e famílias de baixa renda.

Os artigos e propostas podem dialogar com diferentes dimensões analíticas e pedagógicas, cobrindo tópicos fundamentais da educação contemporânea. O objetivo central da publicação é reunir contribuições científicas que colaborem diretamente para a construção de uma prática educacional verdadeiramente anticolonialista, democrática e ética.

Os autores interessados em submeter seus trabalhos devem ficar atentos às datas informadas pela comissão editorial. O período de submissão de artigos estará aberto de 1º de agosto a 1º de novembro, com previsão de publicação do dossiê para o segundo semestre de 2027.

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