Cunhado originalmente por Aristóteles em sua obra Poética, escrita no século IV a.C., o termo deriva do grego antigo e possui uma raiz intimamente ligada à arquearia, significando, literalmente, "errar o alvo" ou "cometer um deslize". No contexto da tragédia clássica, a hamartia não deve ser simplificada como um mero desvio de caráter ou uma maldade intrínseca ao herói; antes, ela se configura como um erro de julgamento, uma falha cognitiva ou uma ação equivocada tomada em estado de ignorância, cuja consequência é o desencadeamento inevitável da ruína do protagonista.
Para compreendermos a potência desse elemento, faz-se necessário inseri-lo na dinâmica estrutural que rege o gênero trágico. O herói grego clássico não é um vilão consumado, tampouco uma figura de virtude impecável. Se fosse inteiramente depravado, sua queda não despertaria compaixão; se fosse perfeitamente virtuoso, sua ruína nos pareceria uma injustiça ultrajante, gerando revolta em vez da purificação estética. Assim, o protagonista ideal situa-se em um meio-termo moral: é um indivíduo ilustre, elevado, mas dotado de uma vulnerabilidade humana. É precisamente nessa fresta de imperfeição que se aloja a hamartia. Ela funciona como o gatilho dramático que inicia o declínio do herói de seu estado de dita para a mais profunda desgraça.
Essa falha de julgamento frequentemente caminha de mãos dadas com a hubris, termo grego que designa o orgulho desmedido, a insolência ou a arrogância espiritual que faz com que o mortal se julgue superior aos próprios deuses ou imune às leis do destino. A hubris cega o herói, impedindo-o de enxergar a realidade das circunstâncias e precipitando a hamartia.
O exemplo definitivo dessa simbiose conceitual encontra-se em Édipo Rei, obra-prima de Sófocles. A hamartia de Édipo manifesta-se em múltiplos níveis, a começar por sua tentativa obstinada de fugir ao destino traçado pelo Oráculo de Delfos, que previa que ele mataria o pai e se casaria com a mãe. Ao tentar contornar o fado por meio da razão humana, Édipo comete o erro de julgamento fatal: no caminho, mata um desconhecido em uma encruzilhada (seu verdadeiro pai, Laio) e, posteriormente, desvenda o enigma da Esfinge, assumindo o trono de Tebas e desposando a rainha viúva (sua verdadeira mãe, Jocasta). Sua falha não reside em um desejo consciente de cometer parricídio ou incesto, mas sim na ignorância factual que o conduz a esses atos terríveis sob a falsa premissa de que estava no controle de sua própria existência.
À medida que a trama se adensa, a engrenagem trágica impulsionada pela hamartia atinge a peripécia, que representa a inversão repentina da fortuna do herói. Em Édipo, a peripécia ocorre no exato momento em que o mensageiro chega com a intenção de aliviar os temores do rei, mas acaba revelando a verdade sobre sua adoção, precipitando a catástrofe. Esse momento de transição da ignorância para o conhecimento é conhecido na teoria literária como anagnorise ou reconhecimento. É a dolorosa iluminação em que o protagonista finalmente compreende o seu erro e o papel que desempenhou na sua própria destruição. Ao descobrir que o assassino que procurava e amaldiçoava era ele mesmo, Édipo cega-se fisicamente, mimetizando a cegueira metafórica em que viveu até então.
O objetivo final desse intrincado arranjo teórico é a produção da catarse no espectador ou leitor. Ao testemunhar a queda de uma figura tão grandiosa devido a um erro que qualquer ser humano poderia cometer em sua finitude e ignorância, o público experimenta uma descarga emocional purificadora, tecida pela fusão do terror perante a fragilidade da vida e da piedade pelo destino do sofredor.
Embora o conceito tenha nascido na Antiguidade clássica, a sua relevância estende-se pela história da literatura e manifesta-se com vigor na dramaturgia renascentista, especialmente no teatro de William Shakespeare. Em suas grandes tragédias, a hamartia assume contornos mais psicológicos e internalizados. No caso de Macbeth, a ambição desmedida, frequentemente apontada como sua falha trágica, atua como a força que oblitera seu senso de lealdade e moralidade, levando-o ao regicídio e a uma espiral de paranoia e tirania. Em Otelo, o mouro de Veneza, a hamartia reside em sua excessiva credulidade e na vulnerabilidade ao ciúme doentio cultivado por Iago, erro de julgamento que culmina no assassinato da inocente Desdêmona e em seu posterior suicídio após a inevitável anagnorise.
Referências Bibliográficas
ARISTÓTELES. Poética. [Tradução, introdução e notas de Paulo Pinheiro]. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2015.
Ver na AmazonBRANDÃO, J. S. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.
Ver na AmazonLESKY, A. A tragédia grega. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.
Ver na AmazonSHAKESPEARE, W. Macbeth. Jandira–SP: Principis, 2021.
Ver na AmazonSHAKESPEARE, W. Otelo. [Tradução de Lawrence Flores Pereira]. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 217.
Ver na AmazonSÓFOCLES. Édipo Rei. [Tradução de Trajano Vieira]. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2021.
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