Odisseu, conhecido no mundo latino como Ulisses, ocupa uma posição absolutamente singular no vasto panteão da mitologia grega. Enquanto a maioria dos heróis homéricos e arcaicos sobressai-se fundamentalmente pelo vigor físico, pela força bruta ou pela fúria guerreira no campo de batalha, traços corporificados exemplarmente por Aquiles e Ájax, Odisseu distingue-se pelo predomínio da inteligência, da prudência e da capacidade de adaptação às circunstâncias. Ele é o herói da mêtis, termo grego que designa a astúcia prudente, a engenhosidade prática, a destreza verbal e o raciocínio estratégico. A sua figura transcendeu a própria literatura da Antiguidade para se converter em um dos arquétipos fundamentais da condição humana, simbolizando a busca persistente do indivíduo pelo retorno ao lar (nostos), a perseverança diante das adversidades e o poder da mente sobre a violência irracional.
A genealogia de Odisseu conecta-o a vertentes míticas de grande complexidade. Filho de Laerte, rei da rochosa ilha de Ítaca, e de Anticleia, o herói carrega no sangue a herança de ancestrais marcantes. Por via materna, ele é neto de Autólico, figura lendária famosa por sua esperteza, capacidade de dissimulação e artimanhas, traços que Autólico teria herdado de seu próprio pai, o deus Hermes, mensageiro divino e protetor dos viajantes, dos comerciantes e dos ladrões. A tradição atribui ao próprio Autólico o ato de ter batizado o neto com o nome de Odisseu, derivado da raiz verbal odyssasthai, que remete à ideia de "aquele que causa ou sofre ressentimento", prenunciando uma vida marcada por hostilidades divinas e sofrimentos contínuos.
Rei de Ítaca, um pequeno e pedregoso reino insular no Mar Jônio, Odisseu era casado com Penélope, mulher de célebre fidelidade e perspicácia, e pai de Telêmaco. Diferentemente de monarcas que governavam territórios opulentos e vastos, o senhor de Ítaca conhecia o trabalho da terra, a marcenaria e a navegação, atributos de um governante profundamente conectado à realidade material de seu povo e de sua terra.
Quando o príncipe troiano Páris raptou Helena, esposa do rei Menelau de Esparta, os soberanos gregos foram convocados por Agamêmnon a honrar o juramento de aliança e marchar contra a cidade de Ílion. Odisseu, ciente do oráculo que previa que seu retorno duraria vinte anos e ocorreria em estado de extrema miséria, tentou esquivar-se do conflito fingindo-se de louco. Ele semeava sal nos campos enquanto arava com um boi e um jumento pareados. Contudo, a astúcia do herói foi desmascarada pelo perspicaz Palamedes, que colocou o pequeno Telêmaco, ainda bebê, no caminho do arado. Ao desviar o instrumento para poupar a vida do filho, Odisseu demonstrou sua sanidade e viu-se obrigado a integrar a expedição grega.
Ao longo dos dez anos do cerco a Troia, narrado em grande parte na Ilíada de Homero, Odisseu firmou-se como o conselheiro mais valioso do exército aqueu. Sua atuação não se limitou à bravura em combate, mas sobressaiu-se na diplomacia, na mediação de conflitos internos, como a contenda entre Agamêmnon e Aquiles, e em missões de espionagem noturna. Foi ele quem descobriu o paradeiro de Aquiles na ilha de Ciro, disfarçado entre as filhas do rei Licomedes, usando a esperteza de expor armas diante das jovens para atrair a índole guerreira do herói.
A contribuição mais decisiva de Odisseu para o desfecho da guerra foi a concepção do famoso Cavalo de Troia. Diante da impossibilidade de vencer as muralhas trastejadas de Ílion pela força militar direta, o herói idealizou uma estrutura colossal de madeira oca na qual se esconderam os mais bravos guerreiros gregos, enquanto o restante da frota simulação uma retirada desesperada. Convencidos de que o artefato era uma oferenda religiosa deixada pelos aqueus, os troianos introduziram o cavalo na cidade, selando a própria ruína. Odisseu demonstrou, assim, que a inteligência refinada é capaz de superar as defesas mais inexpugnáveis.
Concluída a destruição de Troia, iniciou-se a longa peregrinação de Odisseu rumo ao seu reino natal, empreitada relatada na Odisseia. O retorno, no entanto, desdobrou-se em uma errância de dez anos pontuada por infortúnios, perdas sistemáticas e provações que testaram os limites da resistência e da sanidade do herói.
A frota de Ítaca enfrentou inicialmente confrontos na terra dos Cícones e a tentação do esquecimento na ilha dos Lotófagos, cujos habitantes se alimentavam da flor de lótus, fruta mágica que apagava da memória do viajante o desejo da pátria. O momento divisor de águas na jornada ocorre na ilha dos Ciclopes, onde Odisseu e seus companheiros foram aprisionados na caverna do gigante antropófago Polifemo, filho do deus dos mares, Poseidon.
Demonstrando notável presença de espírito, Odisseu embriagou o monstro com vinho puro e identificou-se estrategicamente pelo nome de "Ninguém" (Outis). Quando o herói e seus homens cegaram o único olho de Polifemo com um estaca em brasa, o gigante gritou por socorro aos seus irmãos, afirmando que "Ninguém" o estava matando, o que fez com que os demais ciclopes ignorassem seus apelos. A fuga da caverna deu-se sob a barriga das ovelhas de Polifemo. Entretanto, ao alcançar a segurança de seu navio, tomado pelo orgulho (hybris), Odisseu gritou seu verdadeiro nome para o monstro. Furioso, Polifemo suplicou a seu pai, Poseidon, que amaldiçoasse a viagem do rei de Ítaca, garantindo que ele perdesse todos os seus companheiros e só retornasse ao lar após infindáveis sofrimentos.
A partir desse instante, a fúria do deus dos mares tornou-se a grande força opositora à jornada do herói. Nem mesmo a dádiva de Éolo, o senhor dos ventos, que presenteou Odisseu com um odre contendo os ventos desfavoráveis amarrados, pôde salvá-los: a curiosidade da tripulação fez com que o odre fosse aberto às vésperas de avistarem Ítaca, desencadeando uma tempestade catastrófica que os impeliu de volta ao alto-mar.
A trajetória subsequente foi marcada por perdas devastadoras. Na terra dos Lastrigões, gigantes canibais, quase toda a frota aqueia foi destruída, restando apenas o navio do próprio Odisseu. Ao aportarem na ilha da feiticeira Circe, seus marinheiros foram transformados em suínos. Amparado pelo deus Hermes, que lhe forneceu a planta mágica moly para neutralizar os feitiços da deusa, Odisseu logrou resgatar sua tripulação e permaneceu um ano na companhia da feiticeira. Por instrução de Circe, o herói realizou a Nekyia, a descente ritual ao mundo dos mortos (o Hades), onde consultou o espectro do adivinho Tirésias e reencontrou a alma de sua mãe, Anticleia, além de antigos companheiros da Guerra de Troia, recebendo revelações cruciais sobre o seu destino.
Ao prosseguir viagem, Odisseu resistiu ao canto mortal das Sereias, fazendo-se amarrar ao mastro de sua embarcação enquanto a tripulação navegava com os ouvidos vedados por cera, e atravessou o estreito temível guardado pelos monstros Cila e Caribde. Posteriormente, na ilha de Trinácia, os marinheiros famintos desobedeceram aos avisos sagrados e abateram os bois do deus sol, Hélio. Como punição divina, Zeus fulminou o último navio com um raio, resultando na morte de todos os companheiros de Odisseu.
Náufrago e solitário, o herói alcançou a ilha de Ogígia, habitada pela bela ninfa Calipso. Retido ali por sete anos, Odisseu recusou a oferta da imortalidade e da juventude eterna feita por Calipso, preferindo a sua mortalidade ao lado de Penélope e a reconquista de sua terra natal. Com a intervenção de Atena, sua divina padroeira, Zeus ordenou a libertação do herói. Após resistir a mais uma tempestade provocada por Poseidon, Odisseu naufragou na ilha de Esquéria, lar dos Feácios, onde foi acolhido pelo rei Alcínoo e pela princesa Nausícaa. Impressionados com a narrativa de suas desventuras, os Feácios garantiram-lhe transporte seguro até Ítaca.
Ao desembarcar finalmente em sua terra natal, vinte anos após sua partida, Odisseu encontrou o reino mergulhado no caos. Dezenas de nobres pretendentes ocupavam seu palácio, devorando seus bens e pressionando a rainha Penélope a se casar com um deles. Com o auxílio da deusa Atena, que o disfarçou sob a aparência de um velho mendigo, o herói adentrou o palácio sem ser reconhecido, revelando sua identidade apenas ao filho Telêmaco, ao fiel porqueiro Eumeu e à sua antiga ama Euricleia, que o identificou por uma cicatriz na perna.
Penélope, demonstrando uma inteligência equivalente à do marido, instituiu o desafio do arco para definir seu destino: o homem que conseguisse vergar o pesado arco de Odisseu e disparar uma flecha através das argolas de doze machados alinhados ganharia sua mão. Nenhum dos pretendentes obteve êxito na tentativa. Odisseu, ainda sob o disfarce de mendigo, tomou o arco com facilidade, realizou o feito e, com o apoio de Telêmaco e de servos leais, promoveu o massacre dos pretensos usurpadores, reestabelecendo sua autoridade soberana sobre Ítaca.
A prova final de reconhecimento entre Odisseu e Penélope deu-se por meio do segredo do leito conjugal, esculpido pelo próprio herói no tronco de uma oliveira enraizada no solo do palácio, detalhe que apenas os dois conheciam. Com a pacificação promovida pela intervenção de Atena, a harmonia foi definitivamente reestabelecida na ilha.
Referências Bibliográficas
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