Para situar adequadamente o conceito de pressão de que trata a clínica analítica, é preciso marcar a distinção entre o instinto biológico e a pulsão. O instinto, característico das espécies animais, organiza-se mediante esquemas pré-formados, herdados e rigidamente fixados na biologia, visando à adaptação e à sobrevivência por meio de um objeto específico e pré-determinado pela natureza. A pulsão humana, denominada em alemão por Trieb, afasta-se radicalmente desse determinismo orgânico. Freud indicou que ela se localiza na fronteira entre o somático e o psíquico, agindo como como um conceito limite. Enquanto o estímulo externo pode ser evitado por meio de reações de fuga, a pulsão nasce no interior do próprio organismo, como uma força constante e ineludível da qual a mente não pode se esquivar.
É exatamente nessa constante exigência interna que mora a dimensão do empuxo. O Drang não se manifesta de maneira episódica ou oscilante como uma necessidade biológica pontual, a exemplo da sede ou da fome, que cessam completamente após a satisfação orgânica. A pressão pulsional é caracterizada por sua natureza ininterrupta e incessante. Trata-se de uma força de empuxo continuada que exige ininterruptamente do psiquismo alguma forma de elaboração, processamento ou descarga. Essa energia fundamental coloca o aparelho psíquico em permanente estado de tensão, impedindo o sujeito de permanecer em um estado de repouso absoluto e forçando o surgimento da atividade mental, da linguagem, do pensamento e do desejo.
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A ideia de exigência de trabalho, frequentemente reiterada no texto freudiano sobre as pulsões e seus destinos, revela o caráter dinâmico e transformador do empuxo. A energia somática não ingressa na mente de forma bruta ou direta; para se tornar representável, a pulsão precisa passar por um processo de tradução psíquica. O empuxo é a força que impele essa tradução, obrigando o psiquismo a ligar essa quantidade energética a elementos qualitativos, como as representações de palavra e de coisa, além dos afetos. Sem a força constante do Drang, o aparelho mental permaneceria inerte; é justamente essa pressão que força o indivíduo a criar caminhos de expressão, dando origem às formações do inconsciente, às construções fantasmáticas e a toda a complexa rede de significações da vida psíquica.
Ao analisar o papel da pressão na dinâmica do sintoma neurótico, é possível observar que o represamento dessa força constante gera estados de angústia e sofrimento. Quando os mecanismos de defesa do ego entram em conflito com o empuxo da pulsão, impedindo o acesso direto ao alvo pulsional, a energia retida não se extingue. Devido ao caráter incansável do Drang, a energia busca vias alternativas de escoamento. O sintoma surge, assim, como um arranjo de compromisso entre o desejo recalcado e as forças repressoras, funcionando como uma via substitutiva pela qual a pressão se descarrega de maneira parcial e disfarçada. Na escuta analítica, reconhece-se o sintoma como uma evidência viva e dolorosa da persistência intransigente do empuxo pulsional.
Na evolução da teoria freudiana, a concepção de Drang estende-se em reflexões de enorme alcance clínico e teórico, especialmente com a introdução da última dualidade pulsional em mil novecentos e vinte. A articulação entre a pulsão de vida e a pulsão de morte reconfigura a compreensão do empuxo. Nas pulsões de vida, conhecidas como Eros, o empuxo atua no sentido de ligar, associar e criar unidades cada vez maiores e mais complexas, promovendo a integração psíquica e a busca de novas conexões objetais. Por outro lado, a pulsão de morte demonstra um empuxo direcionado à desligadura, ao desmantelamento das redes de significação e ao retorno do psiquismo a um estado inorgânico de ausência de tensão, expressando-se clinicamente através da compulsão à repetição.
A força irrefreável do Drang na pulsão de morte manifesta-se com clareza nos fenômenos em que o sujeito repete exaustivamente situações dolorosas do passado, sem que isso lhe traga qualquer ganho aparente de prazer. Trata-se de um impulso silencioso e obstinado que insiste em reativar vivências traumáticas. O empuxo, nesse contexto, revela sua face mais enigmática e desestruturante: ele não busca a satisfação alinhada aos interesses do ego, mas sim o cumprimento de uma tendência primária de descarga total. Entender essa modalidade devastadora de pressão permite ao psicanalista diagnosticar as instâncias de resistência inconsciente ao tratamento e o apego paradoxal do paciente ao próprio sofrimento.
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O ensino de Jacques Lacan trouxe contribuições importantes para a releitura desse conceito, ao formalizar a diferença entre o desenvolvimento biológico e o circuito da pulsão na linguagem. Para o psicanalista francês, a pulsão é estruturada como uma montagem, uma ficção coerente e gramatical que contorna a falta fundamental no ser falante. Lacan traduz o empuxo como o momento de força da pulsão, destacando que essa pressão não deve ser confundida com um impulso biológico cego ou um vetor Puramente mecânico. O Drang lacaniano é a insistência da própria cadeia significante, a força com que a estrutura da linguagem empurra o sujeito na busca incessante por um objeto para sempre perdido, o chamado objeto causa de desejo.
Essa perspectiva elucida por que a satisfação pulsional nunca é plena ou definitiva. Sendo a pressão algo estrutural e constante, o circuito da pulsão contorna o objeto sem jamais devorá-lo ou assimilá-lo completamente. O objeto da pulsão é indiferente e substituível; o que realmente importa no processo é o próprio trajeto, o ato de dar a volta ao redor do objeto e retornar ao ponto de partida, satisfazendo a pressão no decorrer do próprio percurso. A ilusão de que existiria um objeto definitivo capaz de aplacar para sempre o Drang é desfeita na clínica psicanalítica, onde o sujeito aprende a se haver com o fato de que o desejo renasce continuamente a partir da impossibilidade do preenchimento absoluto.
No trabalho da clínica, a consideração sobre o Drang orienta o manejo da transferência e a interpretação das formações inconscientes. O analista não deve buscar eliminar a pressão pulsional, pois isso equivaleria à própria extinção da vida psíquica do paciente. O objetivo do processo terapêutico é auxiliar o paciente a modificar os destinos de suas pulsões, permitindo que o empuxo encontre vias de escoamento menos destrutivas e mais criativas. A sublimação, por exemplo, é um dos caminhos mais nobres para lidar com a pressão, ao redirecionar a energia pulsional para alvos não sexuais valorizados social e culturalmente, como a arte, a ciência e o trabalho intelectual.
Outro aspecto fundamental a ser destacado é a relação entre a pressão da pulsão e a constituição do corpo erógeno. Diferente do corpo anatômico estudado pela medicina, o corpo na psicanálise é mapeado pelas zonas erógenas, bordas corporais recortadas pela linguagem e pelo investimento afetivo dos cuidadores primários. A pressão origina-se nessas bordas corporais, mas seu destino depende do modo como a história do sujeito metabolizou tais forças. O empuxo transforma o corpo biológico em um território de gozo e linguagem, onde cada sintoma corporal e cada inibição refletem a maneira como a pressão da pulsão está sendo endereçada e significada na economia psíquica.
Referências Bibliográficas
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Comprar na AmazonFREUD, Sigmund. (1923-1925). O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, vol. 16.
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Comprar na AmazonLAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2022.
Ver na AmazonNASIO, Juan-David. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.
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