Na mitologia grega, a figura de Agamêmnon (ou Agamemnon) sobressai-se como a perfeita síntese do poder real, do orgulho desmedido e da fatalidade que persegue as linhagens marcadas pelo destino. Rei de Micenas, ou de Argos, a depender da tradição trágica ou épica consultada, Agamêmnon é célebre por ter sido o comandante supremo das forças gregas (os aqueus) durante a Guerra de Tróia. Contudo, a sua trajetória vai muito além da célebre campanha militar cantada por Homero na Ilíada: sua vida e sua morte inserem-se em uma das narrativas mais sombrias, complexas e dramáticas de todo o repertório mítico helênico, entrelaçando ambição política, dever religioso, conflitos familiares e a inexorável maldição da Casa dos Atridas.
Para compreender integralmente quem é Agamêmnon, faz-se indispensável recuar às origens de sua linhagem ancestral. Ele era filho do rei Atreu e de Aérope, sendo, portanto, neto de Pélops e bisneto de Tântalo.
O ponto de inflexão na vida de Agamêmnon ocorre quando Páris, príncipe troiano, seduz e se evade com Helena para Tróia. Honrando o juramento que os soberanos gregos haviam feito a Tíndaro, Agamêmnon assume a liderança de uma frota gigantesca disposta a cruzar o Mar Egeu para resgatar a cunhada e vingar a afronta à honra de Menelau. Não obstante, a soberba do rei de Micenas manifesta-se antes mesmo da partida. Reunida na baía de Áulis, a frota grega viu-se imobilizada pela absoluta ausência de ventos propícios. A deusa da caça, Ártemis, irritada porque Agamêmnon abatera um cervo sagrado em seu bosque e se gabara de ser um caçador superior à própria divindade, exigiu uma reparação terrível: a imolação de Ifigênia, a filha primogênita de Agamêmnon e Clitemnestra.
O dilema moral enfrentado por Agamêmnon em Áulis expõe o âmago de sua caracterização mítica. Ele encontrava-se dividido entre o afeto paternal e o dever inegociável de comandante supremo, pressionado pelos chefes exércitos que exigiam a partida das naus. Triunfando a ambição política e a responsabilidade militar sobre o amor familiar, o rei atraiu a filha a Áulis sob o falso pretexto de casá-la com o herói Aquiles. O sacrifício da jovem inocente acalmou a fúria divina e permitiu a viagem das naus, porém plantou no coração de Clitemnestra um ódio inextinguível que frutificaria anos mais tarde.
Durante os dez longos anos do cerco de Tróia, Agamêmnon destacou-se como a figura de autoridade máxima entre os reis gregos (ánax andrôn, ou rei dos homens). Embora fosse um guerreiro corajoso e capaz no campo de batalha, suas falhas de caráter frequentemente ameaçaram a própria sobrevivência do exército aqueu. O episódio central da Ilíada tem início justamente com um ato de prepotência de Agamêmnon. Ao recusar devolver Criseide, sua cativa de guerra, ao pai dela, Crises, um sacerdote de Apolo, o rei atrai uma terrível peste sobre o acampamento grego. Forçado pela assembleia dos guerreiros a ceder e libertar a moça para cessar o castigo divino, Agamêmnon exige, como compensação ao seu orgulho ferido, a posse de Briseide, a prisioneira que havia sido concedida a Aquiles. A afronta ao maior dos guerreiros gregos faz com que Aquiles se retire da batalha, levando as forças helênicas à beira da ruína total antes que a reconciliação ocorra após a morte de Pátroclo.
Com a queda de Tróia, conquistada mediante a astúcia do Cavalo de Madeira, Agamêmnon iniciou sua jornada de regresso a Micenas carregado de glória, espólios e acompanhado da princesa troiana Cassandra, a profetisa amaldiçoada que previra, sem que ninguém nela acreditasse, o desastre que aguardava o soberano.
O desfecho do monarca, imortalizado magistralmente pelo dramaturgo Ésquilo na tragédia Agamêmnon (primeira peça da trilogia Oréstia), reveste-se de dramática ironia. Ao desembarcar vitorioso em seu pátio e caminhar sobre tapetes de púrpura estendidos por Clitemnestra, em um gesto de sutil indução à hýbris (arrogância imoderada), o rei foi recebido com falsas demonstrações de afeto. No interior do palácio, enquanto se banhava, Agamêmnon foi enredado em uma túnica sem aberturas e brutalmente assassinado a golpes de machado por Clitemnestra e Egisto. Cassandra sofreu o mesmo destino fatal.
Seu assassinato exige vingança, perpetuando a maldição familiar através de seus filhos sobreviventes, Orestes e Electra.
Referências Bibliográficas
BRANDÃO, J. S. Dicionário Mítico-Etimológico. 1ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.
Ver na AmazonÉSQUILO. Oréstia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides. [Tradução de Mario da Gama Kury]. 8ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.
Ver na AmazonEURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. [Tradução de Mario da Gama Kury]. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
Ver na AmazonGRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
Ver na AmazonHOMERO. Ilíada. [Tradução de Frederico Lourenço]. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.
Ver na AmazonVERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
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