O que significa Pulsão (Trieb, Drive) para a Psicanálise?
Pulsão (Trieb) é um conceito que Sigmund Freud construiu para suprir uma necessidade fundamental da sua interpretação da mente: articular o somático e o psíquico, o corpo biológico e a mente representacional. Já nesse ponto é importante pontuar que pulsão não se confunde com o aquilo que entendemos como instinto (Instinkt), tampouco se reduz a uma reação fisiológica. Ela é uma força constante, uma exigência de trabalho imposta ao psiquismo em razão de sua ligação com o corpo orgânico.
Na língua alemã, Freud dispunha de ambas as palavras e fez um uso rigoroso de suas distinções. O instinto pertence ao domínio da biologia tradicional, referindo-se a comportamentos hereditários, pré-fixados e adaptativos que garantem a sobrevivência da espécie. O animal, diante de uma necessidade orgânica, responde com um padrão reflexo e estereotipado, voltado para um objeto específico na natureza. A pulsão humana, por outro lado, carece dessa pré-determinação biológica. Ela é moldável e profundamente pervertida pela linguagem e pela cultura. Ou seja, o ser humano não se satisfaz apenas como o animal se alimenta ou se reproduz; a satisfação humana passa pelo crivo do sentido, do símbolo e da fantasia. A pulsão é o resultado do descarrilamento dos instintos naturais provocado pela entrada do sujeito no universo do discurso.
Freud formalizou a estrutura do conceito ao decompor a pulsão em quatro elementos constituintes fundamentais, que funcionam em perfeita engrenagem. O primeiro deles é a fonte, conhecida como Quelle. A fonte é o processo somático que ocorre em um órgão ou parte do corpo, do qual emana o estímulo inicial. Esse local do corpo é chamado de zona erógena, uma região cutânea ou mucosa particularmente sensível às trocas com o ambiente e com o outro carente de cuidado, como a boca, o ânus ou os órgãos genitais. Contudo, é vital sublinhar que qualquer pedaço do corpo pode se tornar uma zona erógena, desde que seja erotizado pelas experiências primárias de cuidado e afeto. A fonte é, em suma, o ancoradouro corporal de onde a força psíquica retira a sua energia originária.
O segundo elemento constitutivo é a pressão, denominada Drang. A pressão é o fator motor da pulsão, a quantidade de força ou a medida de exigência de trabalho que ela representa para a mente. Trata-se de uma força constante e ininterrupta. Diferente de um estímulo externo, do qual o indivíduo pode fugir escondendo-se ou fechando os olhos, não há como escapar da pressão pulsional, pois ela surge do próprio interior do organismo. Essa constância gera um estado de tensão contínuo no psiquismo, que busca incessantemente formas de descarga para retornar a um nível de energia aceitável. A pressão é a pura manifestação da energia psíquica em movimento, o impulso incansável que força o sujeito a agir, pensar, fantasiar e criar sintomas.
O terceiro pilar é o objetivo, o Ziel. O objetivo final de qualquer pulsão é sempre a atração da satisfação, alcançada por meio da redução do estado de excitação e tensão na fonte corporificada. No entanto, o caminho para atingir essa satisfação raramente é direto ou simples. Freud demonstrou que a pulsão pode ter o seu objetivo inibido, desviado ou modificado ao longo da vida do indivíduo. A satisfação pulsional pode ser obtida por caminhos parciais, substitutivos e sublimados. O que a psicanálise ensina é que a satisfação plena e definitiva é uma ilusão estrutural, de modo que o objetivo pulsional se realiza muitas vezes no próprio percurso, no próprio movimento de buscar, e não na posse definitiva de uma meta terminativa.
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O quarto e mais fascinante elemento é o objeto, denominado Objekt. O objeto é aquilo através do qual, ou mediante o qual, a pulsão pode atingir seu objetivo de satisfação. Se há um ponto em que a pulsão se distancia radicalmente do instinto é justamente na natureza do objeto. Enquanto o instinto possui um objeto fixo e natural determinado pela biologia, o objeto da pulsão é infinitamente variável, contingente e substituível. O objeto da pulsão não está originalmente ligado a ela; ele é apenas o elemento mais plástico e ajustável da equação. Uma pessoa pode satisfazer uma mesma pulsão através de objetos reais, imaginários, artísticos, profissionais ou sintomáticos. O objeto pode ser uma pessoa externa, uma parte do próprio corpo ou uma construção abstrata da mente. Ele vale não por sua realidade física, mas por seu valor de investimento afetivo e fantasmático para o sujeito.
Ao longo de sua investigação clínica, Freud reformulou o seu modelo teórico das pulsões em momentos vitais de sua obra, dividindo essa evolução em duas grandes fases. A primeira dualidade pulsional contrapunha as pulsões de auto-conservação, ou pulsões do eu, às pulsões sexuais. As pulsões de auto-conservação visavam a manutenção da vida orgânica do indivíduo, como a fome e a sede, operando sob a lógica das necessidades biológicas básicas. Já as pulsões sexuais eram orientadas pela busca do prazer organicamente desvinculado da sobrevivência estrita, manifestando-se desde a mais tenra infância de forma polimorfa e fragmentada. Nesses primeiros textos, a sexualidade psicanalítica ampliava-se para além da genitalidade, cobrindo todo o campo do prazer corporal e da busca de sentido afetivo.
Contudo, a observação dos traumas provocados pela Primeira Guerra Mundial, aliada à análise de fenômenos clínicos como a repetição compulsiva de experiências dolorosas e o masoquismo, levou Freud a revisar radicalmente a sua metapsicologia no ano de 1920. Surge então a segunda dualidade pulsional, constituída pelo célebre embate entre pulsão de vida, conhecida como Eros, e pulsão de morte, denominada Thanatos. A pulsão de vida reúne sob o seu manto as antigas pulsões sexuais e de auto-conservação, tendo como função primordial a ligação, a união, a criação de unidades cada vez maiores e a preservação da complexidade das redes psíquicas e sociais. Eros é a força criativa, o amor, a produção artística e a construção do laço interpessoal.
Em contrapartida, a pulsão de morte surge como uma força silenciosa, porém inexorável, que opera no sentido oposto ao de Eros. O objetivo da pulsão de morte é desfazer as ligações, decompor as estruturas complexas, reduzir a tensão psíquica a zero e retornar o organismo a um estado inorgânico primordial. Ela se manifesta clinicamente na destrutividade, na agressividade voltada para fora, na auto-sabotagem, na reação terapêutica negativa e na compulsão à repetição de situações sofríveis. Longe de ser um mero desejo de morrer no sentido biológico, a pulsão de morte revela uma tendência fundamental da matéria viva de resistir às transformações e ao trabalho exigido pela vida, buscando um descanso absoluto que só a ausência de tensão pode oferecer.
Na psicanálise lacaniana, o conceito de pulsão ganha contornos ainda mais apurados a partir da articulação com a teoria da linguagem e com o campo do desejo. Jacques Lacan enfatizou que a pulsão não deve ser entendida como uma força biológica subjacente, mas como uma montagem cultural e linguística. Para Lacan, a pulsão gira em torno de um vazio central, um furo na estrutura do sujeito que não pode ser preenchido por nenhum objeto real. A pulsão realiza um circuito em volta do objeto causa de desejo, contornando-o sem jamais devorá-lo por completo. É esse movimento de contorno que produz o gozo, uma forma de satisfação paradoxal que muitas vezes ultrapassa os limites do prazer e se roça com o sofrimento e o excesso.
A clínica psicanalítica é, em essência, o espaço onde o sujeito é convidado a escutar as demandas de sua própria pulsão e as formas como o seu inconsciente se organizou para responder a elas. O sintoma neurótico, por exemplo, nada mais é do que uma formação de compromisso, um arranjo defensivo através do qual uma pulsão reprimida encontra uma satisfação substitutiva e disfarçada, ainda que ao preço de grande sofrimento psíquico. Quando o sujeito reprime um impulso pulsional por considerá-lo incompatível com os seus valores morais ou com as exigências da civilização, a energia pulsional não desaparece; ela se desvia para o subterrâneo do psiquismo e retorna sob a forma de angústia, obsessões, inibições ou dores somáticas sem causa orgânica.
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Nesse contexto, um dos destinos mais nobres e criativos que a pulsão pode ter é a sublimação. A sublimação ocorre quando a energia de uma pulsão sexual ou agressiva é desviada do seu objetivo original de satisfação direta e redirecionada para metas socialmente valorizadas, como a criação artística, a investigação científica, o trabalho intelectual ou a ação comunitária. Através da sublimação, a força pulsional que poderia se descarregar de maneira destrutiva ou sintomática transforma-se em cultura e civilização. O artista que pinta uma tela, o cirurgião que opera um corpo ou o escritor que elabora uma narrativa estão, em última análise, emprestando a sua força motor à pulsão devidamente sublimada.
A relação entre a pulsão e o sofrimento da civilização foi amplamente examinada por Freud em seus escritos socioculturais. Viver em sociedade exige que o ser humano renuncie a uma parcela considerável de suas exigências pulsionais, especialmente no que diz respeito à agressividade e à satisfação sexual desmedida. Em troca de segurança e de proteção comunitária, o sujeito aceita restringir a sua liberdade pulsional. No entanto, essa renúncia não se faz sem um alto custo psíquico. O excesso de exigência repressiva por parte da cultura resulta em um sentimento difuso de culpa e em um mal-estar estrutural, pois a pulsão represada acaba se voltando contra o próprio eu por meio da instância punitiva da consciência moral.
A psicanálise contemporânea continua a debater o papel da pulsão nas novas formas de subjetivação e no sofrimento psíquico do século vinte e um. As transformações nas famílias, a aceleração do tempo, a mediatização do corpo e o consumo desenfreado oferecem novos objetos e novos circuitos para a descarga pulsional. Muitas das patologias atuais, como a compulsão alimentar, as adições em substâncias ou em tecnologias, a hiperatividade e as crises de pânico, revelam um desarranjo na capacidade do psiquismo de articular e ligar a energia da pulsão através da palavra e da metáfora. O corpo do sujeito contemporâneo torna-se, com frequência, o palco direto de descargas pulsionais não simbolizadas.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Autêntica, 2013.
FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Autêntica, 2020.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2022.
NASIO, Juan-David. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.
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