Quem é Laertes na Mitologia Grega?

Conhecido na tradição ocidental como o pai de Odisseu (ou Ulisses, na tradição latina), Laertes representa uma ponte crucial entre a era dos grandes heróis pan-helênicos da geração pré-troiana e o universo reflexivo e doméstico que caracteriza o poema épico da Odisseia. A análise de sua trajetória revela uma personagem multifacetada, cuja vida abrange desde as glórias militares da juventude até a dor do luto em vida e a subsequente regeneração pela justiça divina e pelo reencontro.

Genealógicame de linhagem ilustre, Laertes era filho de Arcésio e de Calcomedusa (ou Aemeria, a depender da fonte mitográfica). Como soberano de Ítaca e das ilhas vizinhas do Mar Jônio, como Cefalênia e Lêucade, ele reinou sobre um território insular estratégico e próspero. Seu casamento com Anticleia, filha do célebre e astuto Autólico, este por sua vez descendente direto do deus Hermes, uniu duas linhagens de notável astúcia e prestígio. Dessa união nasceram Odisseu e sua irmã mais nova, Ctimene. Cumpre notar que, na tradição mitológica, embora a versão homérica consagrada estabeleça indubitavelmente Laertes como o genitor biológico e legítimo de Odisseu, correntes variantes e posteriores da tragédia grega sugeriam uma paternidade alternativa atribuída a Sísifo, o ardiloso rei de Corinto, que teria seduzido Anticleia antes de seu matrimônio com o rei itacense. Todavia, no tecido moral e afetivo da epopeia, é Laertes quem molda o caráter do herói de Ítaca.

Antes de se recolher à penumbra da velhice, Laertes desfrutou de uma juventude lendária, integrando os mitos mais prestigiados da era heroica. Ele figurou entre os destemidos Argonautas que, sob o comando de Jasão, embarcaram na nau Argo em direção à Cólquida para conquistar o Velo de Ouro. Além disso, os relatos clássicos o colocam como um dos valorosos participantes da Caça ao Javali de Calidão, empreitada que reuniu a elite dos guerreiros gregos para livrar a Etólia da besta devastadora enviada por Ártemis. Em termos de proezas militares locais, destaca-se a sua liderança na tomada da fortaleza de Nérico, situada na costa da Cefalênia, feito marcial que consolidou sua reputação como soberano destemido e estrategista de mérito.

Conforme o tempo avançou, Laertes tomou a decisão de abdicar voluntariamente do trono de Ítaca em favor de seu filho Odisseu. Essa transição pacífica de poder marcou o início de um período de grande tranquilidade, que contudo seria tragicamente interrompido pela eclosão da Guerra de Troia. Com o comboio de Naus itacenses partindo para o conflito e o subsequente desaparecimento de Odisseu no mar durante longos vinte anos, a casa real de Ítaca mergulhou em um colapso gradual. A dor da incerteza e a saudade avassaladora consumiram a família. Anticleia, sua esposa, não suportou a dor do desgosto e acabou por falecer, enquanto Laertes, esmagado pela mágoa e incapaz de conter a insolência dos nobres locais que conspiravam contra sua família, optou pelo exílio voluntário longe do palácio real.

O retrato de Laertes durante a ausência de Odisseu é uma das passagens mais comoventes da literatura épica. Afastado da corte infestada pelos Pretendentes que consumiam os bens de seu filho e assediavam sua nora Penélope, o velho rei retirou-se para uma modesta propriedade rural nos arredores de Ítaca. Ali, despido de qualquer insigniador de realeza, passou a viver como um simples camponês. Trajando túnicas remendadas, polainas grosseiras para se proteger dos espinhos e um chapéu de pele de cabra, Laertes dedicava seus dias ao trabalho braçal, arando a terra e cuidando de pomares e vinhas ao lado de servos fiéis. Essa imersão na terra não representava apenas decadência física, mas sim um luto prolongado e a recusa consciente em desfrutar do luxo régio enquanto o destino de seu filho permanecia incerto.

A apoteose da narrativa de Laertes ocorre no Canto XXIV da Odisseia, no encerramento da jornada de regresso de Odisseu. Após massacrar os Pretendentes no palácio, Odisseu dirige-se à fazenda do pai para revelar sua identidade. Em um primeiro momento, movido por sua habitual cautela e amor ao disfarce, Odisseu testa o velho pai, fingindo ser um estrangeiro que conhecera o herói itacense. Ao ver o pranto convulsivo e a dor profunda que a simples menção de seu nome provocava em Laertes, Odisseu desfaz a farsa e se revela. Para convencer o idoso incrédulo, o herói aponta para a cicatriz provocada por um javali na juventude e enumera detalhadamente as árvores de fruto que Laertes lhe dera de presente quando criança no mesmo pomar, amendoeiras, figueiras e videiras que simbolizavam a herança viva e o afeto paterno.

O reencontro é coroado por uma metamorfose divina. A deusa Atena intervém diretamente, banhando Laertes, renovando suas forças, aumentando sua estatura e devolvendo-lhe o vigor da juventude. Banhado, ungido e vestido com trajes dignos de um rei, Laertes reassume o seu papel de guerreiro quando os familiares dos Pretendentes mortos marcham para se vingar de Odisseu. No confronto final, é o próprio Laertes quem lança a lança decisiva que mata Eupeites, o pai do arrogante Pretendente Antínoo, selando com honra a vitória da dinastia de Ítaca e demonstrando que a nobreza e a bravura da casa de Arcésio permaneciam inquebrantáveis.

Referências Bibliográficas

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