Quem é Hermes na Mitologia Grega?


As origens históricas e arqueológicas de Hermes remontam à Grécia Micênica, como comprovam os registros em escrita Linear B encontrados nos palácios de Pilos e Cnosso. O próprio nome do deus parece estar intimamente ligado à palavra herma, que designava um monte de pedras ou um pilar quadrangular encimado por uma cabeça humana e dotado de um falo ereto. Esses monumentos primitivos eram erigidos ao longo de caminhos, limites territoriais e cruzamentos para marcar fronteiras e garantir a proteção dos viajantes. Assim, antes mesmo de se consolidar como uma deidade antropomórfica refinada na poesia homérica, Hermes já exercia uma função arquetípica essencial: a sacralização dos espaços de transição e do movimento no espaço físico.

Na narrativa mitológica da tradição grega, expressa de maneira magistral no Hino Homérico a Hermes, o deus é filho de Zeus e da ninfa Maia, uma das Plêiades. Seu nascimento ocorreu em uma caverna no monte Cilene, na Arcádia. Desde as suas primeiras horas de vida, Hermes manifestou a natureza ambígua e prodígio que o caracterizaria. Ainda bebê, ao sair do berço, encontrou uma tartaruga na entrada da gruta; matando o animal, utilizou seu casco juntamente com tripas de ovelha para inventar a lira, o primeiro instrumento de cordas da tradição helênica. No mesmo dia, tomado por um apetite insaciável e por um desejo incontido de afirmar sua estatura divina, viajou até a Pieria e roubou o rebanho de gado pertencente ao seu irmão, o deus Apolo.

Para ocultar seu delito, Hermes demonstrou uma astúcia engenhosa: fez os animais caminharem de costas para que as pegadas parecessem ir na direção oposta e atou ramos de árvores aos seus próprios pés para disfarçar os passos. Quando Apolo descobriu o roubo e confrontou o recém-nascido, Hermes negou categoricamente o crime com discursos persuasivos e cínicos diante de Zeus. O rei dos deuses, divertindo-se com a audácia e o engenho do filho caçula, ordenou que Hermes revelasse o paradeiro do rebanho. A reconciliação entre os dois irmãos selou-se quando Hermes presenteou Apolo com a lira recém-inventada. Encantado com a música divina do instrumento, Apolo concedeu a Hermes o cajado de ouro e o domínio sobre os rebanhos, consagrando o jovem deus como mestre da música, da barganha e da negociação.

A iconografia clássica de Hermes reflete com precisão sua natureza itinerante e funcional. É frequentemente representado trajando o pétaso, um chapéu de abas largas utilizado por viajantes para se protegerem do sol, e calçando as talárias, sandálias aladas que lhe conferem a capacidade de voar a velocidades extraordinárias para cumprir as ordens dos deuses. Em suas mãos, ele ostenta o caduceu, um bastão entalhado ao redor do qual se entrelaçam duas serpentes, simbolizando a paz, a diplomacia e o poder de conciliação. O caduceu tornou-se o emblema supremo dos mensageiros e embaixadores no mundo antigo, garantindo-lhes inviolabilidade durante o exercício de suas missões em terras estrangeiras.

O papel de Hermes como mensageiro de Zeus coloca-o no centro dos principais episódios da mitologia heroica e épica. Na Odisseia de Homero, é ele quem viaja até a ilha de Ogígia para ordenar à ninfa Calipso que libere Odisseu, permitindo que o herói retorne à sua pátria em Ítaca. É também Hermes quem fornece a Odisseu a erva mágica moly, capaz de neutralizar os feitiços da bruxa Circe. Na Ilíada, Hermes atua como protetor do velho rei Príamo, guiando-o secretamente através do acampamento grego até a tenda de Aquiles para resgatar o corpo de seu filho Hélio. Em todos esses episódios, manifesta-se a aptidão do deus para cruzar barreiras perigosas, sejam elas físicas, mágicas ou políticas.

Além de intervir no mundo dos vivos, Hermes cumpre a tarefa fundamental de psicopompo. Ao contrário de Hades, que governa o mundo subterrâneo mas raramente dele sai, Hermes possui livre trânsito entre o Olimpo, a Terra e o Submundo. Quando o sopro vital de um mortal se apaga, é Hermes quem toma sua mão e guia a sombra através das trevas até as margens do rio Estige, onde o barqueiro Caronte assume a condução do espírito. Essa função mediadora reforça sua condição de deus liminar, único capaz de habitar os limiares entre a vida e a morte, a luz e a escuridão, a palavra dita e o segredo guardado.

A complexidade de Hermes manifesta-se ainda em sua dimensão ética e social. Enquanto protetor dos Comerciantes, ele favorece a troca, a circulação de bens e a prosperidade resultante do contato interpessoal. Simultaneamente, por ser o patrono dos ladrões e dos trapaceiros, ele abençoa o uso da inteligência ardilosa, conhecida pelos gregos como metis. Essa aparente contradição revela que a religiosidade grega não percebia Hermes como uma divindade maligna, mas sim como a personificação do imprevisto, da sorte fortuita e das oportunidades súbitas que surgem nas dobras da vida cotidiana.

Referências Bibliográficas

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SILVA, Frederico de Lima. Quem é Hermes na Mitologia Grega?. Blog Frederico Lima, agosto 09, 2026. Disponível em: <https://www.fredericolima.com.br/2026/08/hermes-mitologia-grega.html>. Acesso em: ....
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Graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB, com especializações em Teoria Psicanalítica, Literatura Brasileira e Literatura Contemporânea. Assessor de editoração digital de periódicos científicos desde 2021 e revisor de trabalhos acadêmicos.