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08/09/2026

O que significa Alvo ou Finalidade (Ziel) para a Psicanálise?

O alvo ou finalidade, traduzido do alemão Ziel, não está associado, como se acredita, a um objetivo consciente ou de uma meta voluntária colocada pelo sujeito, e sim vinculado à dinâmica inconsciente atrelada à teoria das pulsões, ou seja, como o modo pelo qual a força pulsional busca alcançar a sua satisfação.

No desenvolvimento das categorias teóricas da psicanálise, Freud estabeleceu quatro elementos constituintes do conceito de pulsão, denominação traduzida do termo Trieb. A pulsão se diferencia do instinto biológico puramente hereditário e fixo, pois não possui um objeto predeterminado pela genética para a sua realização. Seus quatro pilares são a fonte, a pressão, o objeto e a finalidade. A fonte diz respeito ao processo somático que ocorre em um órgão ou parte do corpo, gerando um estímulo que se traduz psiquicamente. A pressão representa o fator motor, a quantidade de exigência de trabalho imposta ao aparelho psíquico. O objeto é aquilo através do qual ou no qual a pulsão pode atingir seu objetivo. E, por fim, o Ziel é propriamente essa finalidade: a remoção do estado de estimulação na fonte pulsional, proporcionando a experiência de satisfação.

Ao contrário da necessidade biológica, como a fome, que encontra a cessação do estímulo com a ingestão do alimento, a pulsão nunca se satisfaz de maneira definitiva. O alvo da pulsão é, nesse contexto, uma busca constante de descarga e de retorno a um estado de menor tensão psíquica, operando sob o comando do princípio do prazer. Contudo, essa satisfação é marcada por uma impossibilidade estrutural. O psiquismo humano, marcado pela linguagem e pela cultura, perdeu qualquer acesso a um objeto primordial idealizado que pudesse extinguir totalmente a tensão. Assim, a finalidade da pulsão revela-se em sua dinâmica circular e repetitiva: a pulsão contorna o objeto para retornar a si mesma, encontrando um tipo de satisfação no próprio circuito que percorre.

É fundamental destacar a maleabilidade e a plasticidade do Ziel ao longo do desenvolvimento psíquico. Freud demonstrou que as pulsões parciais, dominantes na sexualidade infantil, possuem alvos múltiplos e descentralizados. Na fase oral, a finalidade da pulsão volta-se para a incorporação e a sucção; na fase anal, para o controle, a retenção e a expulsão; na fase fálica, para a exibição e a investigação. Apenas com a chegada da puberdade ocorre uma tentativa de organização e subordinação dessas pulsões parciais sob a primazia genital, onde a finalidade parece coincidir temporariamente com a reprodução e o encontro sexual adulto. Todavia, a psicanálise adverte que o componente infantil e parcial jamais se extingue, continuando a habitar e a direcionar os alvos inconscientes da vida adulta.

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Outro desdobramento teórico imprescindível do conceito refere-se às transformações que o alvo pulsional pode sofrer quando encontra impedimentos para sua realização direta. O aparelho psíquico lança mão de mecanismos de defesa sofisticados para lidar com as exigências da civilização e da realidade externa. Entre essas transformações, destacam-se a inibição quanto ao alvo e o processo de sublimação. Na inibição quanto ao alvo, a pulsão é desviada de sua finalidade abertamente sexual ou destrutiva, resultando em laços afetivos duradouros, como a amizade, o amor parental e a solidariedade social. O sujeito obtém uma satisfação atenuada e aceitável moralmente, permitindo a convivência em grupo e o fortalecimento das alianças humanas.

Por sua vez, a sublimação representa um dos destinos mais nobres da pulsão. Nela, o Ziel é alterado sem que ocorra o recalque da força pulsional. O estímulo original, que exigiria uma descarga direta no corpo ou sobre o outro, é canalizado para atividades valorizadas culturalmente, como a criação artística, a investigação científica e o trabalho intelectual. O artista, o cientista e o pensador não abandonam a energia da pulsão, mas refinam a sua finalidade, deslocando-a de um alvo erótico ou agressivo bruto para uma realização simbólica que enriquece o patrimônio da cultura. A sublimação evidencia como a finalidade psíquica é plástica e capaz de se reconfigurar diante das exigências do ideal do eu.

À medida que a teoria freudiana avançava no século XX, a concepção de Alvo sofreu uma revisão significante com a introdução do dualismo pulsional em 1920. Ao postular a existência da pulsão de morte em oposição à pulsão de vida, a psicanálise introduziu uma nova e inquietante camada da finalidade psíquica. Se a pulsão de vida, denominada Eros, tem como alvo conservar as unidades vivas, criar conexões cada vez mais complexas e manter a coesão da substância psíquica, a pulsão de morte opera em sentido oposto. O alvo derradeiro da pulsão de morte é a redução absoluta da tensão psíquica ao zero, o retorno do ser vivo ao estado inorgânico do qual emergiu. Essa tendência à desintegração e ao desligamento mostra que há no psiquismo uma força que visa à destruição e à repetição compulsiva, desvelando uma finalidade que desafia a própria lógica da autoconservação.

O ensino do psicanalista francês Jacques Lacan trouxe outras contribuições para a compreensão do Ziel, relendo os textos de Freud à luz da linguística e da estrutura do inconsciente. Lacan destacou que a pulsão não deve ser confundida com uma força biológica que busca alcançar uma meta externa. Para o autor, a finalidade da pulsão não é atingir o objeto, mas sim contorná-lo. O verdadeiro alvo da pulsão é a realização do seu próprio circuito, onde a satisfação é obtida no próprio trajeto de ir e vir. Nesse sentido, Lacan distingue o gol, enquanto meta a ser alcançada, da trajetória que o jogador faz em campo. A pulsão encontra sua satisfação não na posse final de um objeto imaginário, mas na repetição contínua da sua jornada em torno de um vazio central.

Essa perspectiva lacaniana altera profundamente o entendimento do processo analítico e de sua própria finalidade. Se o alvo da pulsão não é a captura de um objeto definitivo, o objetivo de um tratamento psicanalítico tampouco pode ser a adaptação do sujeito a um padrão normativo de felicidade ou a eliminação completa dos sintomas. A análise visa permitir que o sujeito reconheça a estrutura de seu desejo, identifique as amarras de suas repetições inconscientes e construa um novo saber fazer com a sua pulsão. A finalidade do percurso analítico envolve uma travessia das ilusões fantasmáticas, na qual o analisante passa a assumir a responsabilidade pela sua própria posição subjetiva e pela forma particular como busca o gozo.

No campo da clínica psicanalítica, o diagnóstico e a escuta terapêutica dependem da apreensão de como o alvo pulsional se apresenta no sintoma. Um sintoma neurótico, por exemplo, manifesta-se frequentemente como um compromisso entre a busca inconsciente pela satisfação da pulsão e a oposição da censura egoica. O sintoma é uma realização substitutiva da finalidade pulsional, onde a satisfação ocorre de forma disfarçada e acompanhada de sofrimento consciente. A pessoa que sofre de uma neurose obsessiva ou de uma histeria vivencia o retorno do recalcado justamente porque a finalidade da pulsão encontra caminhos travessos para se expressar, desafiando a vontade racional do indivíduo.

A perversão e a psicose também oferecem montagens distintas quanto ao Alvo. Estruturalmente, a perversão caracteriza-se pela fixação em alvos e objetos pulsionais que se desviam das normas genitais socialmente estabelecidas, colocando o sujeito como instrumento do gozo do outro e desafiando a lei da interdição do incesto. Já na estrutura psicótica, o desencadeamento revela uma fratura na amarração simbólica, fazendo com que a pulsão retorne de forma desregulada no corpo ou na realidade externa, sob a forma de alucinações e delírios, onde a finalidade pulsional perde as balizas que o nome do pai e a metáfora paterna costumam fornecer na neurose.

A questão da agressividade e da destrutividade humana se torna mais compreensível quando analisada sob a ótica da finalidade da pulsão. A hostilidade que frequentemente surge nas relações interpessoais e nos fenômenos de massa não é vista pela psicanálise como um mero descarrilamento da razão, mas como uma manifestação direta ou indireta de alvos pulsionais hostis que buscam a descarga. O impulso de dominação, a inveja e o sadismo mostram como a destruição pode se tornar um alvo primário, demandando do sujeito e da cultura um esforço constante de ligação e neutralização por meio das forças eróticas de preservação e alteridade.

Referências Bibliográficas

FELDSTEIN, Richard, FINK, Bruce; JAANUS, Marie. (Orgs.). Para Ler O Seminário 11 De Lacan. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Autêntica, 2013.

FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. 1. ed. Belo Horizonte-MG: Autêntica, 2020.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

NASIO, Juan-David. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.

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