Quem é Anticleia na Mitologia Grega?

Anticleia (em grego antigo, Ἀντίκλεια) é uma nobre figura cuja existência se entrelaça com algumas das linhagens mais astutas do mundo mítico e cuja história culmina em um dos episódios mais comoventes da poesia épica ocidental. Embora não seja protagonista de grandes guerras ou batalhas épicas, Anticleia representa a quintessência do amor materno, da dor da separação e da fragilidade da vida mortal em contraste com a incessante busca por glória heroica.

Anticleia era filha de Autólico e de Anfitéia. A figura de Autólico é de extrema relevância no mito grego: lendário ladrão e trapaceiro, ele era filho do próprio deus Hermes com Chione. De seu pai divino, Autólico herdou a habilidade da dissimulação, a capacidade de metamorfosear o gado roubado e a arte de prestar juramentos ambíguos. Assim, Anticleia carregava em suas veias o sangue de Hermes, a divindade dos viajantes, dos ladrões e da astúcia. Foi justamente Autólico quem deu o nome ao seu neto, Odisseu, nome que na tradição clássica carrega o sentido daquele que causa ou sofre ressentimento e dor. Através de Anticleia, portanto, a célebre metis (a inteligência astuta e perspicaz) de Odisseu encontra raízes diretas tanto no plano mortal quanto no plano divino.

No que tange à sua vida conjugal e familiar, Anticleia casou-se com Laertes, o rei de Ítaca e filho de Arcísio. Dessa união nasceram dois filhos: Ctimene e Odisseu, o futuro herói da Guerra de Tróia e protagonista da Odisseia. Contudo, subsiste na tradição mitológica uma versão alternativa e de grande apelo dramático sobre a verdadeira paternidade de Odisseu, frequentemente explorada pelos dramaturgos trágicos da Grécia Clássica, como Ésquilo e Sófocles. Segundo esse relato heterodoxo, Autólico teria roubado o gado de Sísifo, o notoriamente astuto rei de Corinto. Sísifo, percebendo o roubo porque havia marcado previamente os cascos de seus animais com marcas secretas, seguiu as pegadas até a morada de Autólico. Para se vingar do ardiloso ladrão, Sísifo teria seduzido ou violentado Anticleia logo antes de seu casamento formal com Laertes. Por esse prisma narrativo, Odisseu seria filho biológico de Sísifo, o que explicaria, na ótica de seus detratores e rivais, a sua propensão à manipulação e ao engano. Não obstante, a tradição homérica dominante prefere manter Laertes como seu pai legítimo e dedicado.

A grande aparição de Anticleia na literatura clássica ocorre no Canto XI da Odisseia, no célebre episódio conhecido como a Nekyia, no qual Odisseu desce às margens do Submundo para consultar o adivinho cego Tirésias sobre o seu regresso a Ítaca. Instruído pela feiticeira Circe, o herói realiza libações e sacrifícios de animais escuros na entrada do Hades para atrair os espíritos dos mortos. É nesse cenário sombrio e nebuloso que Odisseu avista, para seu imenso espanto e desgosto, a sombra de sua mãe. Quando havia partido para Tróia, duas décadas antes, Anticleia ainda estava viva. A visão de seu espectro revela ao herói uma tragédia pessoal ocorrida no lar durante a sua ausência, mas Odisseu, mantendo o autocontrole exigido pelo ritual, precisa conter a própria dor e afastar temporariamente a mãe com a sua espada até que Tirésias beba do sangue sacrificial e pronuncie a sua profecia.

Assim que as obrigações com o adivinho são cumpridas, Odisseu permite que a sombra de Anticleia se aproxime e beba do sangue para recuperar momentaneamente a memória e a fala articulada. Segue-se então um dos diálogos mais tocantes da antiguidade. Odisseu indaga aflito sobre a causa da morte de sua mãe, perguntando se ela fora vítima de uma doença longa e dolorosa ou atingida pelas flechas suaves da deusa Ártemis. A resposta de Anticleia desvela a dimensão profunda do sofrimento doméstico causado pela guerra. Ela esclarece que não fora consumida por enfermidades nem ferida por deuses; a causa de sua morte fora a saudade avassaladora (pothos), o desgosto profundo e a incerteza constante quanto ao destino de seu amado filho. O tempo interminável de espera rompera o seu coração mortal.

Além de revelar a causa de sua morte, Anticleia oferece a Odisseu um panorama precioso sobre a situação de sua família em Ítaca. Ela o reconforta ao confirmar que Penélope permanece fiel e em constante choro nos aposentos do palácio, resistindo à crescente pressão dos pretendentes. Relata também que o jovem Telêmaco administra as propriedades com dignidade e que seu pai, Laertes, retirou-se para os campos, vivendo em extrema humildade, vestido com roupas maltrapilhas e dormindo no chão junto às cinzas da lareira, consumido pela velhice e pela dor da ausência do filho.

Movido por uma dor avassaladora, Odisseu tenta abraçar o espectro de sua mãe por três vezes. Contudo, em todas as tentativas, a sombra de Anticleia escorrega por entre seus braços como uma fumaça ou um sonho fugaz. Diante da frustração e do pranto de Odisseu, que questiona se aquilo seria apenas uma ilusão cruel enviada por Perséfone, Anticleia proferiu uma explicação fundamental para a escatologia e a antropologia homérica. Ela explica que este é o destino inelutável de todos os mortais após a morte: quando o sopro da vida abandona o corpo, os ossos e a carne deixam de ser mantidos juntos pelos músculos, pois a força do fogo da pira funerária tudo consome, e a alma (psyche) passa a vagar alada, como uma sombra imperceptível.

Referências Bibliográficas

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KÉRÉNYI, K. A mitologia dos gregos: A história dos heróis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Petrópolis, 2015, v. 3.

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VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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