16/08/2026

Quem é Circe (Κίρκη) na Mitologia Grega?

Nos registros mitológicos gregos, Circe é descrita como uma deusa ou feiticeira, filha do deus solar Hélios e da ninfa Perseis, embora algumas versões a apontem como filha de Hécate, deusa da magia e da noite. Essa genealogia já indica sua natureza híbrida: ela pertence tanto ao domínio luminoso do Sol quanto ao sombrio da feitiçaria. Circe habita a ilha de Ea (ou Eana), um espaço fronteiriço entre o mundo dos homens e o dos deuses, onde exerce seu poder sobre plantas, poções e encantamentos, em uma morada que é cercada por animais selvagens, leões, tigres e lobos, que outrora foram homens transformados por seus feitiços, o que reforça o caráter de sua magia como instrumento de metamorfose e punição.

A aparição mais célebre de Circe ocorre na Odisseia, de Homero, quando Ulisses (Odisseu) e seus companheiros, exaustos de suas viagens, chegam à ilha da feiticeira. Ela os recebe com hospitalidade, mas, após servi-los com vinho e iguarias, toca-os com sua varinha e os transforma em porcos. Apenas Euríloco, desconfiado, escapa e alerta Ulisses. Este, advertido pelo deus Hermes, recebe uma planta mágica chamada moli, capaz de neutralizar os encantamentos de Circe. Ao confrontá-la, Ulisses obriga-a a jurar que libertará seus homens e não mais os prejudicará. Cumprindo o juramento, Circe devolve-lhes a forma humana e passa a tratá-los com generosidade, tornando-se inclusive amante do herói. Dessa união nasce Telégono, que, segundo algumas versões, viria a matar o próprio pai sem saber quem ele era.

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O episódio homérico revela a complexidade de Circe: ela não deve ser considerada propriamente uma vilã, e sim uma figura de poder e conhecimento, cuja existência, tal como as das demais personagens mitológicas, serve a uma representação. Sua magia não é gratuita; é uma forma de controle sobre o masculino, que, inclusive, muitas críticas de linha feminista traduzem como uma inversão da lógica patriarcal dos mitos gregos. Ao transformar homens em animais, Circe expõe a fragilidade da razão e da civilização diante dos instintos e da sedução. Nesse contexto, sua ilha é um espaço de suspensão das normas, onde o herói precisa confrontar tanto o perigo físico como o desejo e a tentação.

É importante pontuar que a presença de Circe na literatura clássica não está restrita à obra de Homero. Ovídio, em suas Metamorfoses, apresenta-a como personagem de outro mito: o de Glauco e Cila. Glauco, um pescador transformado em divindade marinha, apaixona-se pela ninfa Cila e pede ajuda a Circe para conquistá-la. A feiticeira, porém, apaixona-se por Glauco e, rejeitada, vinga-se transformando Cila em um monstro marinho horrendo. Essa narrativa reforça o aspecto trágico e passional de Circe, cuja magia nasce do amor frustrado e da dor. Ela é, por assim dizer, uma deusa que encarna tanto o poder criador quanto o destrutivo, o amor que gera e a vingança que destrói.

Na literatura moderna, Circe é frequentemente reinterpretada como símbolo da autonomia feminina e da sabedoria ancestral, quase sempre atrelada ao arquétipo da bruxa. O romance Circe (2019), de Madeline Miller, reconta sua história sob uma perspectiva humanizada: a feiticeira é apresentada como uma mulher que busca compreender sua própria força e lugar no mundo dos deuses e dos homens. Miller transforma Circe em metáfora da mulher que se liberta das imposições divinas e sociais, encontrando poder, igualmente, na solidão e na criação. Essa releitura contemporânea devolve à personagem uma dimensão filosófica e existencial, aproximando-a das reflexões sobre identidade e liberdade.

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Circe também aparece em diversas manifestações culturais modernas, da literatura infantojuvenil, como na série “Percy Jackson e os Olimpianos”, ao universo dos quadrinhos e jogos eletrônicos. Em todas essas versões, mantém-se o emblema da mulher poderosa, misteriosa e independente, cuja magia desafia as fronteiras entre o humano e o divino. Ela é, ao mesmo tempo, feiticeira e deusa, mãe e amante, ameaça e guia, isto é, uma síntese das contradições que permeiam o imaginário grego sobre o feminino.

Se observarmos do ponto de vista simbólico, Circe representa a transformação, não apenas física, mas espiritual. Sua arte de metamorfose é metáfora do processo de autoconhecimento e da capacidade de transcender limites. Ao transformar homens em animais, ela revela o que há de instintivo e oculto na natureza humana, transformando homens no seu animal interno. Ao passo em que libertá-los, mostra que o poder pode ser exercido com sabedoria e compaixão. Assim, Circe é uma figura de transição entre o mundo dos deuses e o dos mortais, entre o saber racional e o saber mágico, entre o domínio e a liberdade.

Referências Bibliográficas

MILLER, Madeline. Circe: Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo do Deuses e o amor dos homens. 2. ed. São Paulo: Planeta Minotauro, 2020.

OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.

HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. 1. ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

RIORDAN, Rick. Percy Jackson e os Olimpianos. (Box). Tradução de Raquel Zampil. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2024.

VERNANT, J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.


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Frederico Lima é graduado em Letras (Licenciatura Plena em Língua Portuguesa), mestre e doutor em Letras (Literatura, Teoria e Crítica) pela UFPB. Também possui formação em Psicanálise e especializações em Teoria Psicanalítica, Literatura Brasileira, e Literatura Contemporânea.

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