Quem é Polifemo (Πολύφημος) na Mitologia Grega?

polifemo
Polifemo, Reconstrução da Vila de Tibério em Sperlonga, século I

Seu próprio nome, derivado do grego Polýphemus, carrega uma ambiguidade linguística fascinante, podendo ser traduzido tanto como "aquele que é muito falado" ou "famoso", quanto como "aquele que fala muito". Filho do deus dos mares, Poseidon, e da ninfa marinha Toosa, Polifemo não pertence à geração dos ciclopes primordiais descritos por Hesíodo na Teogonia, aqueles três irmãos, Brontes, Estéropes e Árges, que forjavam os raios de Zeus nas entranhas da terra, mas sim a uma raça posterior de gigantes monstruosos de um só olho, pastoris e selvagens, instalados em uma ilha distante, tradicionalmente associada pela literatura posterior à Sicília.

A manifestação mais célebre e estruturante de Polifemo na literatura ocidental encontra-se no Canto IX da Odisseia de Homero. Quando Odisseu e seus companheiros desembarcam na terra dos Ciclopes durante o conturbado regresso de Tróia, deparam-se com uma sociedade que carece de todos os pilares da polis grega. Os ciclopes descritos por Homero não possuem leis, não cultivam a terra, não realizam assembleias e vivem isolados em cavernas nas montanhas, sem qualquer senso de comunidade ou respeito aos deuses olímpicos. Ao adentrar a vasta gruta de Polifemo, Odisseu espera encontrar a xenia, o sagrado dever de hospitalidade protegido por Zeus, que impunha ao anfitrião acolher e presentear o viajante. Todavia, a resposta do gigante é uma afronta radical às normas divinas e humanas. Polifemo zomba abertamente dos deuses e devora imperturbavelmente vários tripulantes de Odisseu, aprisionando os sobreviventes na caverna mediante o bloqueio da entrada com uma rocha colossal que nenhum mortal comum conseguiria mover.

Diante do horror e da impossibilidade de vencer o gigante pela força bruta, o herói de Ítaca recorre à sua virtude distintiva: a metis, a inteligência astuta e ardilosa. Odisseu oferece a Polifemo um vinho puro e potentíssimo, presente do sacerdote Maron, servindo-o até que o monstro caia em um sono profundo e embriagado. Antes de adormecer, o ciclope pergunta o nome do estrangeiro, e Odisseu responde com a célebre tirada semântica: afirma chamar-se "Ninguém" (Outis, em grego). Enquanto o gigante dorme, Odisseu e seus homens aquecem a ponta de uma grande estaca de oliveira no fogo e a cravam no único olho de Polifemo, cegando-o definitivamente. Abalado pela dor lancinante, o ciclope ruge e convoca os outros ciclopes da ilha. Quando seus pares perguntam quem o está atacando ou matando, Polifemo grita que "Ninguém" o está matando pela astúcia e não pela força, fazendo com que os vizinhos concluam tratar-se de um castigo divino inevitável e se retirem sem prestar auxílio.

A fuga da caverna consolida a vitória do intelecto sobre a ferocidade agrária e irracional. Odisseu atamara seus homens sob os laparotes dos grandes carneiros do rebanho de Polifemo. Ao amanhecer, o ciclope cego tateia apenas o dorso das ovelhas ao deixá-las sair para o pasto, permitindo que os gregos escapem incólumes para suas naus. No entanto, o desfecho da narrativa revela a trágica falha trágica do herói humano, a hubris ou desmedida. Já em segurança no mar, incapaz de conter o orgulho, Odisseu grita seu verdadeiro nome e linhagem para o gigante derrotado. De posse da identidade do algoz, Polifemo lança enormes rochedos contra a frota e roga uma terrível maldição a seu pai, Poseidon, pedindo que Odisseu jamais retorne à pátria ou que, se o destino assim o permitir, chegue tarde, sozinho, em nau alheia e encontre a casa repleta de desgraças. Essa prece torna-se o motor dramático que desencadeia as peripécias e os anos adicionais de sofrimento enfrentados pelo herói ao longo da epopeia.

Embora o retrato homérico de Polifemo como uma besta canibal e ímpia tenha dominado o imaginário arcaico, a tradição poética posterior, em especial durante os períodos helenístico e romano, operou uma transformação fascinante na figura do ciclope. No século IV a.C., o poeta Filóxeno de Citéria introduziu uma vertente satírica e lírica em que Polifemo aparece apaixonado pela nereida Galateia. Essa faceta foi magistralmente desenvolvida pelo poeta bucólico Teócrito em seus Idílios. Em Teócrito, Polifemo deixa de ser o monstro devorador de homens para tornar-se uma figura quase trágica e patética: um gigante rústico e solitário que tenta curar a dor do amor não correspondido por meio do canto pastoral e da poesia, lamentando sua aparência feia e o fato de habitar em um elemento diferente do da amada.

Essa vertente romântica e brutal encontra seu ápice nas Metamorfoses do poeta romano Ovídio. Na narrativa ovidiana, o amor não correspondido de Polifemo por Galateia ganha contornos sombrios quando o ciclope descobre que a ninfa ama o jovem Ácis, filho do deus Fauno e de uma ninfa dos rios. Consumido por um ciúme avassalador, Polifemo persegue o casal e, em um acesso de fúria monumental, arranca um pedaço de uma montanha e o arremessa contra Ácis, esmagando o rival. Compadecida, Galateia transforma o sangue do amado mortos em um rio transparente na Sicília, eternizando a dor da perda e a violência destrutiva da paixão cega do ciclope.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, J. S. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.

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COMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Garnier, 2025.

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GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

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GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

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VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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