Quem é Eumeu na Mitologia Grega?

Imortalizado no poema épico de Homero, a Odisseia, Eumeu é o fiel subulco, ou seja, o pastor de porcos do rei Odisseu (Ulisses), o qual encarna virtudes cardeais do mundo helênico arcaico, como a fidelidade incondicional, a modéstia, a religiosidade profunda e, acima de tudo, o cumprimento sagrado das leis da hospitalidade, conhecidas entre os gregos pelo conceito de xenia. A relevância de Eumeu para a mitologia e para a literatura clássica ultrapassa sua condição socioeconômica de escravo, destacando como a nobreza de espírito e a retidão ética, na cosmovisão homérica, podem residir mesmo naqueles que ocupam os degraus mais humildes da hierarquia social.

Para compreender a densidade dramática e ética de Eumeu, é indispensável examinar suas origens fidalgas, relatadas no Canto XV da Odisseia. Eumeu não nasceu na servidão. Ele era filho de Ctesia, filho de Ormeno, rei da ilha de Sira, um domínio próspero situado acima de Ortygia, onde os homens viviam sem enfermidades sob a bênção protecionista dos deuses Apolo e Ártemis. A trajetória do jovem príncipe sofreu uma reviravolta trágica quando uma fenícia, acolhida no palácio real como serva, foi seduzida por um marinheiro da Fenícia. Em troca de uma passagem de volta à sua terra natal, a mulher concordou em trair a casa que a acolhera, roubando taças de ouro do palácio e sequestrando o pequeno Eumeu. Contudo, durante a viagem marítima, a justiça divina manifestou-se por meio de Ártemis, que castigou a serva traidora com a morte instantânea. Os marinheiros fenícios seguiram viagem e aportaram em Ítaca, onde venderam o menino a Laertes, rei da ilha e pai de Odisseu.

Na casa real de Ítaca, Eumeu encontrou um destino marcado pelo afeto e pela dignidade. Foi criado por Anticléia, mãe de Odisseu, ao lado da princesa Ctimene, a filha caçula da família. Anticléia tratou o jovem cativo com rigoroso desvelo e carinho quase maternal, vestindo-o adequadamente e garantindo-lhe formação e sustento. Quando a jovem Ctimene se casou e partiu para a ilha de Same, Eumeu foi incumbido de gerir as propriedades rurais da família, assumindo o cargo de chefe dos pastores de suínos. Nessa função, demonstrou honestidade exemplar, zelando pelo patrimônio do rei com rigoroso senso de dever.

A verdadeira estatura moral de Eumeu desvela-se durante os vinte anos de ausência de Odisseu, período que abrange a década da Guerra de Tróia e a década de atribulações que se seguiu no regresso do herói. Na ausência do soberano, a ilha de Ítaca mergulhou no caos sob a invasão dos aristocratas locais, os pretendentes à mão da rainha Penélope. Enquanto a elite decadente dilapidava a riqueza do palácio, exigindo banquetes diários e sacrificando o melhor do gado, Eumeu permaneceu firme em sua rusticidade. Apesar das pressões e da escassez provocada pelo roubo constante dos animais mais gordos por parte dos pretendentes, o subulco protegeu os rebanhos do seu mestre ausente e jamais perdeu a esperança no retorno de Odisseu, nutrindo uma devoção leal à memória do seu senhor e à casa de Laertes.

O papel de Eumeu alcança o ápice dramático quando Odisseu finalmente desembarca em Ítaca. Por orientação da deusa Atena, o herói assume o disfarce de um velho e miserável mendigo para avaliar a fidelidade daqueles que permaneceram em sua terra natal. O primeiro destino de Odisseu é justamente a humilde choupana de Eumeu. Sem reconhecer o próprio rei por trás dos trapos e da aparência envelhecida, Eumeu recebe o desconhecido com exemplar devoção às regras da xenia. O porqueiro defende o visitante do ataque dos cães de guarda, oferece-lhe lugar de honra, compartilha da pouca comida que lhe resta, abate leitões em sua homenagem e estende sua própria capa sobre o visitante para protegê-lo do frio da noite. Para a teologia grega arcaica, os mendigos e estrangeiros eram protegidos diretos de Zeus Xenios (Zeus, o guardião dos hóspedes). Ao acolher o necessitado sem esperar recompensa, Eumeu manifesta uma piedade que contrasta radicalmente com o comportamento ímpio e arrogante dos nobres pretendentes no palácio.

Esse acolhimento transforma a choupana rústica de Eumeu no verdadeiro centro moral de Ítaca. É ali que se dá o emocionante reencontro entre Telêmaco, o jovem filho de Odisseu, e o velho subulco, a quem o príncipe trata com filial afeto, chamando-o carinhosamente de "pai". É também sob o teto de Eumeu que pai e filho se reúnem em segredo e tramam a vingança contra os usurpadores. Ao ter a identidade do mestre revelada, Eumeu chora de alegria e renova seu juramento de vassalagem, colocando-se à disposição para o combate iminente.

Durante a sangrenta batalha contra os pretendentes no salão do palácio, conhecida como a mnesterofonia, Eumeu desempenha uma função tática decisiva ao lado de Odisseu, Telêmaco e de Filete, o leal pastor de vacas. Eumeu auxilia no bloqueio das saídas, garante que as armas dos nobres fiquem inacessíveis, captura e castiga o traidor Melântio, o cabreiro que fornecia armas aos pretendentes, e combate de armas na mão na linha de frente. Com a vitória e a restauração da ordem legítima em Ítaca, a fidelidade de Eumeu é recompensada: ele é libertado de sua condição servil, elevado ao status de cidadão e reconhecido como herói da casa real.

Referências Bibliográficas

BULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.

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GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

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KÉRÉNYI, K. A mitologia dos gregos: A história dos heróis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Petrópolis, 2015, v. 3.

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VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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