A Hora da Estrela, obra derradeira de Clarice Lispector publicada em 1977, configura-se como um testamento literário da autora. Sob a superfície de uma narrativa sobre a miséria social de uma retirante alagoana no Rio de Janeiro, oculta-se uma investigação ontológica e psíquica profunda. Para a psicanálise, o texto de Clarice não é apenas uma representação da pobreza, mas um mapeamento do desamparo primordial (Hilflosigkeit), da construção (ou falência) da subjetividade e do papel do Outro na constituição do eu.
A obra é estruturada através da voz de Rodrigo S.M., um narrador que, ao tentar contar a história de Macabéa, acaba revelando sua própria angústia existencial. Esta dualidade estabelece, de imediato, um espelhamento narcísico. Como aponta Hélène Cixous em L'Exil de Clarice Lispector, a escrita clariceana opera na fronteira entre o "eu" e o "outro", onde o ato de narrar é uma tentativa violenta de dar contorno a um objeto que escapa.
O Narrador e a Transferência da Angústia
Rodrigo S.M. não é apenas um mediador; ele é o analista e, simultaneamente, o paciente de sua própria narrativa. Ele confessa que Macabéa o "invade" e que escrevê-la é uma necessidade vital, quase uma tentativa de cura. Sob a ótica freudiana, podemos interpretar Rodrigo como o sujeito que tenta simbolizar o real traumático. Ele se sente culpado por sua posição de classe e de saber, e essa culpa se manifesta em uma relação de transferência com a protagonista.
A insistência de Rodrigo em descrever a "feiura" e a "insignificância" de Macabéa revela uma projeção de suas próprias carências. Na psicanálise lacaniana, o sujeito é constituído pela falta. Rodrigo, ao deparar-se com a carência absoluta de Macabéa, que não tem sequer consciência de sua própria falta, confronta o Real, aquilo que não pode ser nomeado ou simbolizado. Macabéa é o "ponto cego" do narrador; ela existe em um estado de pré-subjetividade, um estágio onde o "Espelho", conforme proposto por Jacques Lacan, parece não ter cumprido sua função de integração.
Macabéa e o Vazio do Desejo
Macabéa é descrita como alguém que "come o ar" e "não se queixa". Ela é o epítome do desamparo. Em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud discute o estado de desamparo original do bebê, que depende inteiramente do Outro para sobreviver e para ser inserido na ordem simbólica (a linguagem). Macabéa, embora adulta, permanece nesse estado de desamparo psíquico. Ela habita a linguagem de forma precária: gosta de ouvir anúncios de rádio (Rádio Relógio) que fornecem fatos isolados e inúteis, demonstrando uma fragmentação do sentido.
Diferente do sujeito neurótico comum, que deseja o que o Outro deseja, Macabéa parece estar à margem do desejo. Ela "é", mas não sabe "o que é". Quando ela olha no espelho, não vê uma identidade, mas uma imagem baça. Isso remete ao conceito de Winnicott sobre o "brincar e a realidade": faltou a Macabéa um ambiente suficientemente bom que lhe conferisse um sentido de "self" contínuo. Sua existência é uma sucessão de momentos desconexos, uma sobrevivência biológica desprovida de investimento libidinal significativo.
A relação de Macabéa com Olímpico de Jesus ilustra essa dinâmica. Olímpico é o sujeito fálico, agressivo, que tenta compensar sua própria inferioridade através do poder e da humilhação. Para Macabéa, ele não é um objeto de amor no sentido romântico, mas um ponto de contato com o social, por mais abusivo que seja. A ruptura ocorre quando Olímpico a troca por Glória, que representa o excesso, de carne, de sangue, de vitalidade e, psicanaliticamente, de acesso ao gozo.
O Simbolismo da Fome e o Objeto Pequeno a
A fome de Macabéa não é apenas física; é uma fome ontológica. Ela se alimenta de "fatias de papel" ou de sonhos de ser como Marilyn Monroe. Na teoria lacaniana, o objeto pequeno a é a causa do desejo, aquilo que sempre falta. Para Macabéa, esse objeto é inacessível porque ela mesma ocupa o lugar do objeto descartado pelo social. Ela é o "resto", o que sobra da engrenagem urbana.
A temática do corpo em Clarice, como discutido por Vilma Arêas em Clarice Lispector com a ponta dos dedos, é central. O corpo de Macabéa é um corpo "mudo". Ela tem ovários murchos, uma "tosse de luxo" (tuberculose) e uma postura encurvada. É um corpo que não reclama seu espaço no mundo. A psicanálise nos ensina que o sintoma é uma forma de comunicação; a doença de Macabéa é o único discurso que seu corpo consegue proferir diante da opressão.
A Hora da Estrela: O Encontro com o Real
O título da obra refere-se ao momento da morte, a "hora da estrela" em que Macabéa finalmente se torna o centro das atenções. É irônico e trágico que sua subjetivação ocorra apenas no instante de sua aniquilação. Após consultar a cartomante Madame Carlotinha, uma figura que representa o "Grande Outro" que promete um futuro de riqueza e amor (o estrangeiro loiro), Macabéa sai à rua imbuída de uma esperança inédita. Esse excesso de esperança, esse "gozo" súbito, é o que a leva ao atropelamento por um Mercedes-Benz amarelo.
Neste momento, o Mercedes funciona como o Real que rompe a fantasia. Macabéa, ao morrer, vomita uma "estrela de mil pontas", o que Rodrigo interpreta como o nascimento de sua alma. Do ponto de vista psicanalítico, a morte de Macabéa é a sua única forma de singularização. É o momento em que o "infans" (aquele que não fala) finalmente alcança uma dimensão trágica, saindo da invisibilidade para a imortalidade estética.
A Alteridade e a Ética da Escrita
A obra de Clarice Lispector, lida através de autores como Julia Kristeva em Poderes do Horror, revela o "abjeto". Macabéa é o abjeto, aquilo que a sociedade tenta expelir para manter sua própria identidade limpa e organizada. Rodrigo S.M., ao se aproximar desse abjeto, coloca em risco sua própria sanidade. Ele escreve "com o corpo", em um estado de transe que mimetiza o processo analítico onde o analista deve se deixar afetar pela transferência do paciente.
A temática da identidade em A Hora da Estrela também dialoga com as ideias de Stuart Hall sobre a fragmentação das identidades na pós-modernidade, embora sob uma lente mais existencialista. Macabéa é a identidade "zero", o grau mínimo de existência humana que desafia a nossa capacidade de empatia. Clarice nos força a olhar para o que Freud chamou de Das Unheimliche (o estranho/inquietante): reconhecemos em Macabéa algo de nós mesmos, um desamparo que tentamos recalcar através do consumo e da linguagem estruturada.
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Sigmund Freud
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A Hora da Estrela vai além da simples crítica social por não se contentar com a denúncia da pobreza material. Ela denuncia a pobreza do ser. A genialidade de Clarice Lispector é percebida na sua utilização primorosa da estrutura narrativa para demonstrar como o sujeito é construído através do olhar do outro. Se ninguém olha para Macabéa, ela deixa de existir. Rodrigo S.M. é aquele que dá o olhar, mas é um olhar carregado de angústia e de uma "piedade odiosa".
A obra convida à reflexão sobre a responsabilidade ética do sujeito frente ao desamparo alheio. Na clínica psicanalítica, o analista deve sustentar o lugar de escuta para que o sujeito possa emergir de seu silêncio traumático. Rodrigo tenta fazer isso, mas falha porque não consegue separar sua dor da dor de Macabéa. Essa falha, contudo, é o que produz a beleza literária da obra: um texto que sangra, que hesita e que, por fim, silencia diante da morte.
A trajetória de Macabéa é o percurso do sujeito que busca um lugar no Simbólico e só o encontra na margem extrema, no ato final. Como afirma Benedito Nunes em O Dorso do Tigre, a escrita de Clarice é um mergulho no "ser", onde a linguagem é constantemente desafiada pela experiência inefável da vida. A Hora da Estrela permanece, portanto, como um dos mais potentes estudos sobre a solidão humana e a fragilidade do "eu" diante do mundo.
Referências Bibliográficas
ARÊAS, Vilma. Clarice Lispector com a ponta dos dedos. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
CIXOUS, Hélène. L'Exil de Clarice Lispector: de la faim à l'amour. Paris: des femmes-Antoinette Fouque, 2010.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O Inquietante (1919). In: Obras Completas, volume 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NUNES, Benedito. O dorso do tigre. São Paulo: Perspectiva, 2009.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Artigos e Ensaios:
BRAIT, Beth. A personagem em "A Hora da Estrela". Revista de Letras, São Paulo, v. 23, p. 57-64, 1983.
GARCIA, Roza. A escrita do desamparo em Clarice Lispector. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte, n. 32, p. 115-124, 2009.
PELLEGRINO, Hélio. A estrela sobe. Folha de S. Paulo, Folhetim, 13 nov. 1977. (Ensaio sobre o lançamento da obra).
SANTIAGO, Silviano. A hora da estrela e a literatura brasileira contemporânea. Revista Iberoamericana, v. 50, n. 126, p. 111-125, 1984.
A hora da estrela
Por: Clarice Lispector
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