A transferência é um dos conceitos fundamentais da psicanálise; ocupando tanto o lugar de um dos motores da cura, como também a maior resistência ao tratamento. Freud a descobriu não como uma construção teórica prévia, mas como um fenômeno clínico incontornável que se impunha entre o médico e o paciente, transformando a relação terapêutica em um campo de batalha de afetos arcaicos. Em termos rigorosos, a transferência designa o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata-se de uma repetição de protótipos infantis, vivenciada com uma sensação de atualidade acentuada.
O analisando não recorda o que esqueceu e recalcou, mas o expressa pela atuação (acting out). Ele reproduz esses elementos não como lembranças, mas como ações; ele os repete, sem saber, naturalmente, que o está fazendo. A transferência é, portanto, esse "fragmento de experiência viva" que se desloca do passado para o presente, encontrando na figura do analista o suporte para a projeção de imagos parentais e outras figuras de autoridade ou afeto da infância.
A Gênese do Conceito e a Passagem da Sugestão ao Fenômeno Clínico
Historicamente, a transferência foi percebida por Freud como um obstáculo. Nos primórdios da técnica, especificamente no caso Anna O. (conduzido por Breuer), o surgimento de afetos intensos por parte da paciente em relação ao médico provocou o recuo deste. Freud, contudo, teve a genialidade de perceber que esse "obstáculo" era a via de acesso ao inconsciente. Em Estudos sobre a Histeria (1895), ele já descrevia a "falsa conexão" que a paciente estabelecia entre uma representação inconsciente e a pessoa do médico.
A evolução do conceito permitiu distinguir que a transferência não é provocada pela análise, mas apenas revelada por ela. O dispositivo analítico, a neutralidade, a abstinência e o setting, cria as condições de isolamento necessárias para que o fenômeno se manifeste de forma pura. Ao contrário da sugestão hipnótica, onde o médico utiliza seu poder para suplantar o sintoma, a psicanálise utiliza a transferência para que o sujeito possa reintegrar seus desejos recalcados.
A transferência opera por meio do deslocamento do afeto. Uma representação que outrora foi ligada a um objeto primordial (pai, mãe, irmãos) é desvinculada deste devido ao recalque, permanecendo o afeto "livre" no sistema inconsciente até encontrar um novo objeto substitutivo. No contexto clínico, o analista torna-se esse objeto de substituição. O rigor terminológico exige que compreendamos que o que se transfere não é a pessoa do passado, mas a relação de objeto e a fantasia a ela vinculada.
A Dinâmica das Transferências Positivas e Negativas
Freud classificou as manifestações transferenciais em dois eixos principais: a transferência positiva e a transferência negativa. A transferência positiva subdivide-se em sentimentos amigáveis ou afetuosos que são conscientes (e que auxiliam a aliança de trabalho) e sentimentos eróticos, cujas raízes são inconscientes. A transferência negativa, por sua vez, é a expressão de sentimentos hostis, agressivos ou de desconfiança em relação ao analista.
A transferência positiva sublimada é a força propulsora que mantém o paciente engajado no processo, permitindo que ele suporte as frustrações inerentes à investigação do inconsciente. No entanto, quando os sentimentos tornam-se excessivamente erotizados ou quando a hostilidade da transferência negativa impera, a transferência deixa de ser um instrumento de trabalho e torna-se a resistência mais poderosa. O paciente prefere amar ou odiar o analista a ter que recordar e elaborar suas defesas.
É fundamental notar que a ambivalência afetiva é a marca registrada da transferência. O mesmo objeto que é alvo de amor pode tornar-se alvo de ódio em um curto espaço de tempo, refletindo a estrutura da neurose do sujeito. A técnica analítica não visa eliminar a transferência negativa, mas sim interpretá-la. Ao nomear o que está ocorrendo "aqui e agora", o analista permite que o paciente perceba que seu ódio ou amor não se dirige à pessoa real do terapeuta, mas à figura que este representa no teatro psíquico do analisando.
A Neurose de Transferência como Espaço Experimental
Um dos conceitos mais sofisticados da metapsicologia freudiana é a "neurose de transferência". À medida que o tratamento avança, os sintomas originais do paciente perdem sua força e a libido começa a se concentrar quase inteiramente na relação com o analista. O paciente abandona sua neurose comum para desenvolver uma neurose artificial, centrada na figura do clínico.
Essa neurose de transferência funciona como um território intermediário entre a doença e a vida real. É um espaço transicional onde os conflitos inconscientes podem ser encenados em condições controladas. Em vez de o paciente sofrer por sintomas isolados e incompreensíveis em seu cotidiano, ele vivencia esses conflitos dentro do consultório. A análise da neurose de transferência permite que o "reino das sombras" do inconsciente seja trazido à luz do dia.
O sucesso da análise depende da resolução dessa neurose de transferência através da interpretação. O analista deve evitar a todo custo responder às demandas do paciente (regra da abstinência). Se o paciente demanda amor, o analista não ama; se demanda castigo, o analista não pune. Ao se manter como um "espelho opaco" ou, na terminologia lacaniana, ao ocupar o lugar de Pequeno Outro (objet petit a), o analista força o desejo do paciente a se confrontar com sua própria falta, em vez de encontrar uma satisfação imaginária na relação.
A Função do Analista e o Sujeito Suposto Saber
Para Jacques Lacan, a transferência é indissociável da dimensão do saber. Ele introduziu o conceito de "Sujeito Suposto Saber" (Sujet supposé savoir) para definir a mola inicial do processo transferencial. Alguém entra em análise porque acredita que há um sentido oculto em seu sofrimento e supõe que o analista detém a chave para esse saber. A transferência, portanto, começa quando o analista é colocado na posição de detentor do saber sobre a verdade do sujeito.
Entretanto, o analista sabe que ele não possui esse saber. O saber da análise é o saber do inconsciente do próprio analisando. A manobra da transferência consiste em sustentar essa suposição para permitir que o trabalho se desenrole, mas, ao mesmo tempo, em desconstruí-la ao longo do tempo. Se o analista se identifica com o lugar de mestre ou de sábio, ele impede a emergência da verdade do sujeito e cai na armadilha da contratransferência.
A contratransferência, aliás, é o conjunto de reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, especificamente, à transferência deste. Enquanto para alguns autores pós-freudianos a contratransferência é uma ferramenta de percepção, na linha mais ortodoxa e lacaniana, ela é vista como uma resistência do próprio analista. O analista deve estar suficientemente analisado para que seus próprios "pontos cegos" não interfiram na escuta e na direção do tratamento. A transferência deve ser manejada, não apenas sentida.
A Repetição e a Elaboração no Final da Análise
A transferência está intrinsecamente ligada à pulsão de morte e à compulsão à repetição. Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), observou que os pacientes repetem experiências traumáticas na transferência não porque busquem prazer, mas por uma necessidade de dominar retroativamente um estímulo que foi excessivo para o ego. A transferência é a repetição do trauma sob a forma de relação.
A superação da transferência, ou a "liquidação da transferência", marca o fim do processo analítico. Isso ocorre quando o sujeito não precisa mais projetar no analista o saber ou a autoridade sobre seu desejo. A dissolução do laço transferencial implica na queda do Sujeito Suposto Saber. O analisando reconhece que o analista é apenas um resto, um suporte que permitiu a travessia da fantasia e a assunção de sua própria castração e singularidade.
Interpretar a transferência significa mostrar ao paciente como ele está utilizando o analista para evitar a angústia de sua própria verdade. É um processo de desilusão necessário. Ao final, o que resta não é uma identificação com o analista, mas a capacidade do sujeito de lidar com seu próprio inconsciente sem a necessidade de um suporte externo. A transferência é, enfim, o artifício que permite ao desejo humano, sempre errante e mediado pelo Outro, encontrar um caminho para a sua própria enunciação.
Atualmente, a transferência permanece como o conceito que separa a psicanálise de qualquer outra forma de psicoterapia baseada na sugestão ou no aconselhamento. Ela exige do clínico uma ética rigorosa: a ética de não ceder ao seu próprio desejo e de se manter no lugar de vazio onde o inconsciente do outro possa ecoar. Sem transferência, não há análise; com ela, abre-se a possibilidade de reescrever a história subjetiva que, até então, era apenas repetida cegamente.
Até a próxima! Fiquem bem!
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