O que significa CLIVAGEM DO EGO na Psicanálise?

A clivagem do ego é um daqueles conceitos que parecem simples à primeira vista, “o eu dividido”, mas que, quando levados a sério, desestabilizam qualquer visão unitária e homogênea do sujeito. Em vez de um ego coerente, transparente a si mesmo, a psicanálise freudiana, sobretudo em sua fase tardia, introduz a ideia de um Eu que pode sustentar simultaneamente posições contraditórias em relação à realidade, sem que uma anule a outra. Essa coexistência paradoxal, longe de ser mero detalhe técnico, toca o núcleo da teoria da defesa, da relação com a realidade e da própria concepção de estrutura psíquica.

O termo “clivagem” (Spaltung, Ichspaltung) aparece em Freud desde cedo, em articulação com a histeria, a hipnose e a “clivagem da consciência”, mas é apenas nos textos tardios, em especial “O fetichismo” (1927), “A clivagem do eu no processo de defesa” (1938) e o “Esboço de psicanálise” (1940), que ele ganha estatuto conceitual preciso, ligado à problemática da negação (Verleugnung) e à relação do ego com a realidade. A partir daí, a clivagem do ego será retomada e reelaborada por diversos autores, como Melanie Klein, Bion, Winnicott, Green, entre outros, que deslocam o acento da psicose e do fetichismo para o campo mais amplo das neuroses, dos estados-limite e da clínica contemporânea.

Conceituação freudiana da clivagem do ego

Em “O fetichismo” (1927), Freud descreve pela primeira vez, de modo explícito, a clivagem do ego como um fenômeno em que duas atitudes psíquicas em relação à realidade coexistem no mesmo sujeito. O contexto é a recusa da castração: diante da percepção da ausência de pênis na mulher, o menino é confrontado com uma realidade que contraria uma expectativa narcísica e pulsional. A resposta não é simplesmente o recalque (Verdrängung), mas algo mais complexo: uma parte do ego reconhece a realidade da castração, enquanto outra parte a desmente (Verleugnung), mantendo a crença na existência de um pênis materno ou de um substituto fetichista.

Freud insiste no caráter paradoxal dessa situação: não se trata de uma oscilação entre crença e descrença, mas de uma coexistência simultânea de duas posições incompatíveis, que não se anulam e tampouco se integram. O fetichista “sabe” e “não sabe” ao mesmo tempo; ou melhor, uma parte do ego sabe, outra não quer saber. A clivagem do ego é, então, a solução encontrada para evitar uma ruptura mais radical do aparelho psíquico: em vez de um colapso, o ego se divide, permitindo que duas correntes psíquicas se mantenham lado a lado.

No texto “A clivagem do eu no processo de defesa” (1938), Freud retoma o problema, ampliando-o. Ele se pergunta como é possível que o ego, confrontado com uma exigência pulsional incompatível com a realidade, não sucumba à desorganização. A resposta é que o ego “se cliva”: uma parte se submete à realidade, outra se mantém fiel à exigência pulsional, sustentando a negação da realidade. A clivagem, nesse sentido, não é apenas um mecanismo de defesa entre outros, mas uma forma de articulação entre defesas distintas, em particular, entre a negação (Verleugnung) e o recalque (Verdrängung).

No “Esboço de psicanálise” (1940), Freud generaliza ainda mais a noção, sugerindo que a clivagem do ego não é exclusiva da psicose, mas pode estar presente em estados mais próximos da neurose. Ele observa que, mesmo na psicose, o ego raramente se separa inteiramente da realidade; ao contrário, mantém-se uma relação parcial com ela, ao lado de uma recusa. Isso reforça a ideia de que a clivagem é um modo de compromisso: o ego não abdica totalmente da realidade, mas também não renuncia à satisfação pulsional que a contraria.

Laplanche e Pontalis, no “Vocabulário da Psicanálise”, sublinham esse ponto: a clivagem do ego designa a coexistência, no ego, de duas atitudes em relação à realidade, uma que a reconhece, outra que a nega, sem que haja influência recíproca entre elas. Não se trata, portanto, de fragmentação caótica, mas de uma divisão organizada, ainda que paradoxal, que permite ao sujeito manter, ao mesmo tempo, um vínculo com a realidade e uma produção de desejo que a desmente.

Clivagem, Verleugnung e relação com a realidade

A clivagem do ego está intrinsecamente ligada ao mecanismo de negação (Verleugnung), tal como Freud o descreve no contexto do fetichismo e da psicose. Diferentemente do recalque, que opera sobre representações pulsionais, expulsando-as da consciência e remetendo-as ao inconsciente, a negação incide sobre a percepção da realidade: o sujeito percebe algo, mas recusa reconhecê-lo como tal. A percepção não é apagada; ela é, por assim dizer, “desautorizada”.

No caso paradigmático da castração, o menino vê a ausência de pênis na mulher, mas recusa aceitar o que vê. A percepção é registrada, mas o juízo é negado. A clivagem do ego é a forma estrutural que torna possível essa operação: uma parte do ego admite a percepção e o juízo correspondente (“a mulher não tem pênis”), outra parte os desmente (“ela tem um pênis, ou algo equivalente”). O fetiche funciona como um compromisso entre essas duas posições: é um substituto que, ao mesmo tempo, lembra e desmente a castração.

Freud distingue, assim, dois eixos:

  • Eixo da realidade: ligado à função de prova de realidade do ego, à sua capacidade de reconhecer as limitações impostas pelo mundo externo.
  • Eixo pulsional: ligado às exigências do Id, ao desejo de manter uma crença ou uma fantasia que garante certa economia de prazer e de proteção narcísica.

A clivagem do ego é o dispositivo que permite que esses dois eixos coexistam sem se anularem. Ela não é, portanto, uma simples defesa “contra” a realidade, mas uma forma de manter, simultaneamente, um vínculo com a realidade e uma zona de desmentido que preserva o investimento pulsional.

É importante diferenciar a clivagem do ego de outros fenômenos aparentados, como a fragmentação do ego ou a clivagem de objetos (splitting of the object). A fragmentação do ego, tal como descrita em certos quadros psicóticos graves, implica uma desorganização profunda da unidade do Eu, com perda da coesão e da continuidade da experiência de si. Já a clivagem do ego, no sentido freudiano, supõe uma certa organização: as duas partes clivadas mantêm uma forma de estabilidade, ainda que não se reconheçam mutuamente.

Por outro lado, a clivagem de objetos, tal como desenvolvida por Melanie Klein, refere-se à divisão do objeto em “bom” e “mau”, em função das posições esquizoparanóide e depressiva. Embora haja afinidades entre esses usos do termo “clivagem”, não se trata do mesmo conceito. Em Freud, a ênfase recai sobre a divisão do próprio ego em relação à realidade; em Klein, sobre a divisão do objeto e das imagos, como defesa contra angústias persecutórias e depressivas.

A relação com a realidade é, assim, o ponto nevrálgico da clivagem do ego. Freud insiste que, na psicose, o sujeito não rompe simplesmente com a realidade; ele a recusa em certos pontos, ao mesmo tempo em que a reconstrói segundo as exigências do desejo. A clivagem permite que uma parte do ego continue a operar de modo relativamente adaptado, enquanto outra parte se engaja em uma produção delirante ou fetichista. Essa duplicidade é o que torna a clínica tão complexa: o sujeito pode, em certos domínios, mostrar-se perfeitamente “realista”, enquanto, em outros, permanece submetido a uma negação radical.

Desenvolvimentos pós-freudianos do conceito

A partir de Freud, o conceito de clivagem do ego será retomado e transformado por diversos autores, que o deslocam para outros campos da psicopatologia e da teoria. Melanie Klein, por exemplo, faz da clivagem (splitting) um mecanismo central da posição esquizoparanóide, em que o objeto é dividido em “bom” e “mau” para lidar com angústias persecutórias intensas. Embora Klein fale sobretudo de clivagem de objetos, a consequência é também uma clivagem do ego, na medida em que o sujeito se identifica com aspectos parciais do objeto.

Bion, por sua vez, descreve modalidades de clivagem ligadas à incapacidade de metabolizar experiências emocionais. Em sua teoria do pensamento, a clivagem pode ser entendida como uma forma de expulsar elementos beta (experiências não pensadas) para o exterior, impedindo sua transformação em elementos alfa. A clivagem, nesse contexto, não é apenas um mecanismo de defesa, mas um obstáculo ao próprio processo de simbolização.

Winnicott introduz nuances importantes ao pensar a clivagem em relação ao falso self e às falhas ambientais. Em certos casos, o sujeito pode desenvolver uma organização defensiva em que uma parte do self se adapta às exigências externas, enquanto outra parte permanece encapsulada, não integrada à experiência consciente. Embora Winnicott não use sempre o termo “clivagem do ego” no sentido estrito freudiano, sua descrição de um self dividido, com áreas não comunicantes, ressoa fortemente com a problemática da Ichspaltung.

Autores como André Green retomam a clivagem em articulação com o “negativo” na psicanálise. Green enfatiza que a clivagem pode operar não apenas como divisão entre duas posições, mas como apagamento, “desinvestimento” de certas áreas da experiência psíquica. A clivagem, nesse sentido, pode estar na base de estados de vazio, de “psicose branca”, em que não há delírio manifesto, mas uma espécie de apagamento da vida psíquica.

Na tradição francesa, a distinção entre clivagem do ego, clivagem das imagos e fragmentação do ego é cuidadosamente trabalhada. A clivagem do ego é pensada como um mecanismo de defesa de tipo psicótico, que visa evitar a angústia de fragmentação e de morte. A clivagem das imagos, por sua vez, é considerada um mecanismo mais frequente em estados-limite, em que o sujeito divide as figuras de objeto em boas e más para evitar a perda do objeto e o recurso a defesas mais radicais. A fragmentação do ego, finalmente, é vista como um processo de descompensação psicótica acabada, em que a unidade do Eu se rompe.

Ferenczi, em seus estudos sobre o trauma e a identificação com o agressor, descreve formas de clivagem psíquica em que a criança, diante de um abuso, identifica-se com o agressor e introjeta sua figura, ao preço de uma perda de confiança em seus próprios sentidos. O ego, nesse contexto, pode ficar “fora de ação”, com predominância do Id e do Supereu, o que aproxima a clivagem do ego de uma resposta extrema ao trauma. Essa linha será retomada por autores que pensam a “perversão traumática” e as saídas não neuróticas para o trauma.

Clivagem, estrutura e clínica contemporânea

A clivagem do ego, tal como se consolidou na tradição psicanalítica, não pode ser reduzida a um mecanismo pontual, restrito ao fetichismo ou à psicose. Ela se tornou um operador conceitual para pensar uma série de fenômenos clínicos que escapam ao modelo clássico da neurose de transferência, centrado no recalque e na formação de compromisso.

Na clínica dos estados-limite, por exemplo, é frequente observar sujeitos que mantêm, lado a lado, representações e atitudes contraditórias, sem que isso produza conflito neurótico no sentido estrito. Em vez de conflito entre desejo e defesa, há uma espécie de coexistência de registros não integrados: o sujeito pode, em um momento, reconhecer a dependência de um objeto, e, em outro, negar radicalmente essa dependência, sem que uma posição seja elaborada à luz da outra. A clivagem do ego, aqui, funciona como defesa contra angústias de desintegração e de perda de objeto, mas ao preço de uma dificuldade de simbolização e de historicização.

Na clínica da perversão, a clivagem do ego continua a ser um conceito central. O fetichista, por exemplo, pode levar uma vida aparentemente “normal” em muitos aspectos, mantendo um vínculo com a realidade e com as normas sociais, enquanto, em outro registro, permanece submetido à lógica fetichista, que desmente a castração e organiza a sexualidade em torno de um objeto parcial. A clivagem permite que essas duas correntes coexistam: uma parte do ego sabe que o fetiche é um substituto, outra parte o trata como condição absoluta da excitação sexual.

Na psicose, a clivagem do ego se articula com outros mecanismos, como a rejeição (Verwerfung) e a projeção. Em certos quadros, é possível observar que o sujeito mantém uma relação relativamente preservada com a realidade em alguns domínios, enquanto, em outros, está submetido a uma construção delirante. A clivagem do ego, nesse caso, é o que permite que o sujeito não se desorganize por completo, mas também o que impede uma integração mais ampla da experiência.

A clínica contemporânea, marcada por quadros que não se encaixam facilmente nas categorias clássicas de neurose e psicose, tem levado muitos autores a pensar a clivagem do ego como um mecanismo estruturalmente presente em diversas configurações subjetivas. Em vez de perguntar apenas “há ou não há clivagem?”, a questão passa a ser: “como a clivagem opera neste sujeito?”, “entre quais registros ela se estabelece?”, “que tipo de compromisso ela sustenta entre realidade e desejo?”.

Do ponto de vista técnico, isso implica uma atenção particular às contradições não elaboradas no discurso do analisando, às zonas de não comunicação entre diferentes registros de experiência, às “ilhas” de realidade psíquica que não se articulam entre si. A interpretação, nesse contexto, não visa apenas levantar o recalque, mas, muitas vezes, favorecer uma certa comunicação entre partes clivadas do ego, sem precipitar uma integração forçada que poderia ser vivida como ameaçadora.

A clivagem do ego, portanto, não é apenas um conceito descritivo, mas um operador clínico que orienta a escuta e a intervenção. Ela convida o analista a considerar que, em um mesmo sujeito, podem coexistir, de modo relativamente estável, posições incompatíveis em relação à realidade, ao desejo, ao objeto. Em vez de buscar uma unidade imaginária do Eu, a psicanálise, ao levar a sério a Ichspaltung, assume a heterogeneidade constitutiva do sujeito e a complexidade de suas defesas.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund (1893-1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2. 

FREUD, Sigmund (1927). Fetichismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, pp. 175-185. 

FREUD, Sigmund ([1938] 1940). A divisão do ego no processo de defesa. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1975. v. 23, pp. 309-312. 

BION, Wilfred. R. (1962). Aprender da Experiência. São Paulo: Blucher, 2021.

GREEN, André. (1983). O trabalho do negativo. Rio Grande do Sul: Artmed, 2009.

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Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.

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