O que significa NEUROSE para a Psicanálise?

Para Sigmund Freud e seus sucessores, a neurose não é uma falha orgânica, mas uma solução de compromisso: uma tentativa do psiquismo de lidar com conflitos internos insolúveis entre os desejos pulsionais e as exigências da realidade ou da moralidade. É, em essência, o modo como o sujeito se organiza frente à castração e ao desejo.

A Formação do Sintoma e o Conflito Psíquico

A pedra angular para entender a neurose reside na dinâmica entre as instâncias psíquicas. Em sua obra A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud já delineava o funcionamento do aparelho psíquico, mas é em O Ego e o Id (1923) que a estrutura do conflito neurótico se torna mais nítida. A neurose nasce de um antagonismo entre o Id (reservatório das pulsões), o Ego (o mediador com a realidade) e o Superego (a herança do Complexo de Édipo e das normas sociais).

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O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos

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O processo tem início com o recalque (Verdrängung). Quando uma representação pulsional, geralmente de natureza sexual ou agressiva, é considerada incompatível com as exigências do Ego ou do Superego, ela é expulsa da consciência e enviada ao Inconsciente. No entanto, o recalque nunca é plenamente bem-sucedido. O material recalcado mantém sua carga energética (libido) e busca constantemente o retorno à consciência. O sintoma neurótico surge, então, como um "substituto" dessa satisfação pulsional impedida. Ele é uma formação de compromisso: satisfaz parcialmente o desejo de forma cifrada (para que o Ego não o reconheça e sofra) e, ao mesmo tempo, pune o sujeito através do sofrimento, satisfazendo as exigências do Superego.

Nesse sentido, o sintoma não é um erro do sistema, mas uma produção criativa do inconsciente. Como Freud argumenta em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), o sintoma é um sinal de que o Ego está tentando se defender de uma angústia que ele percebe como um perigo iminente. A neurose é, portanto, o resultado de uma defesa que falhou em sua totalidade, mas que logrou êxito em transformar o conflito em uma representação simbólica penosa.

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Inibição, sintoma e angústia

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O Complexo de Édipo e a Estruturação do Desejo

Não se pode falar em neurose sem abordar o Complexo de Édipo, que Freud descreve como o "complexo nuclear das neuroses". Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), estabelece-se que a sexualidade humana não nasce pronta, mas se desenvolve através de fases (oral, anal, fálica). É na fase fálica que o drama edípico se desenrola, servindo como o momento em que o sujeito se posiciona diante da Lei e da alteridade.

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Três ensaios sobre a teoria da sexualidade

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A neurose é, fundamentalmente, uma dificuldade de ultrapassar ou resolver o impasse edípico. O neurótico é aquele que permanece fixado aos objetos primordiais (os pais) e que não consegue processar plenamente a ameaça de castração. Para a psicanálise, a castração não é uma mutilação física, mas uma operação simbólica que impõe um limite ao gozo narcísico. Ao aceitar que não se pode "ser tudo" para a mãe e que o pai (enquanto função) representa a lei que proíbe o incesto, o sujeito entra na ordem da cultura e do desejo.

Na neurose, essa aceitação é parcial ou ambivalente. O sujeito "sabe" da castração, mas age como se não soubesse, ou sofre excessivamente por ela. O desejo do neurótico é sempre um desejo insatisfeito ou adiado, pois ele está preso na tentativa de responder ao que o Outro deseja dele. Freud demonstra que a identificação com as figuras parentais durante o Édipo forma o Superego, que no neurótico atua com uma crueldade desmedida, gerando o sentimento de culpa inconsciente, combustível essencial para a manutenção do sofrimento neurótico.

As Variantes Clínicas: Histeria e Neurose Obsessiva

Dentro da estrutura neurótica, a psicanálise distingue principalmente a histeria e a neurose obsessiva, cada uma com seu "dialeto" particular de sofrimento. A histeria, amplamente discutida nos Estudos sobre a Histeria (1895), escritos com Josef Breuer, caracteriza-se pela conversão. Aqui, o conflito psíquico é transposto para o corpo. O corpo histérico é um corpo simbólico, que "fala" através de paralisias, cegueiras ou dores que não possuem base anatômica, mas que seguem a lógica das representações mentais. O ponto central da histeria é a questão sobre o feminino e o desejo do Outro; a histérica se pergunta: "O que é ser uma mulher?".

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Estudos sobre a histeria

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Por outro lado, a neurose obsessiva, detalhadamente analisada por Freud no caso clínico conhecido como O Homem dos Ratos (1909), manifesta-se no plano do pensamento. O conflito é deslocado para ideias obsessivas, rituais compulsivos e uma dúvida paralisante. Enquanto o histérico converte a angústia em sintoma corporal, o obsessivo tenta isolar o afeto da ideia. Ele se engaja em rituais mentais ou físicos para "anular" pensamentos "maus", revelando uma luta constante contra impulsos agressivos e uma submissão masoquista ao Superego.

Jacques Lacan, em seus seminários, especialmente no Seminário 3: As Psicoses e no Seminário 5: As Formações do Inconsciente, refinou essas distinções. Para Lacan, a neurose é definida pela posição do sujeito em relação ao Grande Outro (o campo da linguagem e das leis sociais). Na neurose, o sujeito utiliza o sintoma como uma forma de sustentar sua pergunta existencial, mantendo o desejo vivo através da falta. A diferença clínica reside em como o sujeito se protege do encontro com o Real, aquilo que é impossível de simbolizar.

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O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente

Jacques Lacan

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Angústia, Transferência e a Direção do Tratamento

A angústia é o afeto que não engana e é o motor que muitas vezes leva o sujeito à análise. Em Inibição, Sintoma e Angústia, Freud altera sua teoria inicial, propondo que a angústia não é apenas libido represada, mas um sinal de alerta do Ego diante de uma ameaça de perda de objeto ou castração. O neurótico sofre de uma angústia que ele não consegue nomear, e o sintoma surge justamente como uma tentativa de ligar essa angústia a algo concreto, dando-lhe uma "morada".

O tratamento da neurose na psicanálise não visa a "cura" no sentido de um retorno a uma normalidade estatística, mas sim a uma reorganização da economia libidinal do sujeito. Isso ocorre através da transferência, conceito que Freud explorou profundamente em A Dinâmica da Transferência (1912). Na análise, o paciente projeta no analista figuras de sua história infantil, permitindo que o conflito neurótico seja reatualizado e trabalhado no "aqui e agora" da sessão. É o que Freud chamou de "neurose de transferência".

Ao falar, o neurótico começa a perceber a lógica de seus sintomas e o modo como ele se repete em suas escolhas amorosas e profissionais. A análise busca desvelar o fantasma inconsciente que sustenta a neurose. O objetivo é que o sujeito possa passar do "sofrimento neurótico", que é paralisante e repetitivo, para a "infelicidade comum" ou, preferencialmente, para uma posição onde ele possa responsabilizar-se pelo seu desejo e encontrar formas de gozo que não passem necessariamente pelo sacrifício de si mesmo. Como Lacan pontuou, trata-se de levar o sujeito a confrontar o vazio deixado pela castração sem recuar diante dele.

A Neurose na Contemporaneidade e o Mal-Estar na Cultura

Para concluir a explanação sobre a neurose, é fundamental observar sua dimensão social, discutida por Freud em O Mal-Estar na Civilização (1930). A tese central é que a cultura exige a renúncia pulsional. Para vivermos em sociedade, precisamos recalcar nossos impulsos agressivos e sexuais primários. Esse recalque social é o solo fértil para a neurose. Portanto, a neurose é, em certa medida, o preço que pagamos pela civilização.

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O mal-estar na civilização

Sigmund Freud

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No entanto, as manifestações da neurose mudam conforme o contexto histórico. Se na época de Freud a repressão sexual era o grande motor das histerias, hoje vivemos em uma sociedade que impera o "imperativo de gozo". O Superego contemporâneo não diz apenas "não faça", mas também "aproveite, consuma, seja feliz a qualquer custo". Essa mudança de paradigma cria novas formas de sofrimento neurótico, muitas vezes mascaradas sob rótulos modernos como depressão, ansiedade generalizada ou síndrome de burnout.

Ainda assim, a estrutura subjacente permanece a mesma: o sujeito em conflito com sua própria falta e com a impossibilidade de satisfação total. A psicanálise mantém sua relevância ao oferecer um espaço onde o sujeito não é apenas um conjunto de sintomas a serem eliminados por medicação, mas um ser de linguagem que possui uma verdade singular escondida em seus tropeços, esquecimentos e sofrimentos. A neurose, podemos assim afirmar, é o testemunho da humanidade do sujeito, de sua capacidade de simbolizar o que lhe dói e de sua busca incessante por um sentido em meio ao caos pulsional.

Referências Bibliográficas

BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1895). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 4 e 5. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 7. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O homem dos ratos) (1909). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 10. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id (1923). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

DOR, Joël. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus, 1991.

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Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.

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