O conceito de fantasia (ou fantasma, do original freudiano Phantasie) não deve ser confundido com o devaneio trivial ou a mera imaginação literária. Para a psicanálise, a fantasia constitui a própria estrutura da realidade psíquica do sujeito. Ela é o cenário onde o desejo se encena e onde a pulsão busca o seu impossível objeto. Ao longo da evolução do pensamento psicanalítico, de Freud a Lacan, a fantasia deixou de ser vista apenas como uma "mentira" que encobre a verdade para se tornar o suporte fundamental que permite ao sujeito suportar o encontro com o Real.
A Gênese da Fantasia e a Realidade Psíquica em Freud
A descoberta da fantasia em Freud marca uma das mais profundas viradas epistemológicas da psicanálise. Inicialmente, no final do século XIX, Freud acreditava na "Teoria da Sedução", supondo que as neuroses eram causadas por traumas sexuais reais ocorridos na infância. No entanto, em sua célebre carta a Wilhelm Fliess em 1897, ele admite: "não acredito mais em meu neurótica". Ao perceber que seus pacientes relatavam cenas que não haviam ocorrido factualmente, Freud não abandonou a escuta, mas deslocou o foco da realidade material para a realidade psíquica.
A fantasia surge, portanto, como uma construção que visa dar conta de um excesso pulsional. Ela é uma resposta ao desamparo original (Hilflosigkeit). Quando o bebê experimenta a mítica "primeira vivência de satisfação", a memória desse prazer deixa um traço mnêmico. Diante da ausência posterior do objeto (o seio, por exemplo), o aparelho psíquico tenta alucinar essa satisfação original. A fantasia é a herdeira dessa tentativa de reatualizar o prazer perdido, situando-se no interstício entre o desejo e a satisfação.
Nesse contexto, Freud introduz o conceito de fantasias primordiais (Urphantasien), que seriam esquemas filogenéticos universais, como a cena primária (a observação do coito dos pais), a sedução pelo adulto e a castração. Essas fantasias não dependem da experiência individual direta; elas são estruturas prévias que organizam a percepção do sujeito sobre sua origem e sexualidade. A fantasia, portanto, não é um erro de percepção, mas a lente necessária através da qual o sujeito interpreta o mundo.
A Função de Anteparo e a Economia Pulsional
A fantasia opera como um mecanismo de defesa e, simultaneamente, como um motor para o desejo. Em termos econômicos, ela serve para ligar a energia pulsional que, de outra forma, seria disruptiva para o ego. A pulsão, por definição, é uma força constante que não possui um objeto natural; ela é "parcial" e "errática". A fantasia intervém para dar um roteiro, uma direção a essa força. Ela organiza a "montagem" da pulsão.
Freud, em seu texto Bate-se numa criança (1919), demonstra como a fantasia pode ser decomposta em diferentes fases gramaticais, revelando as posições subjetivas de atividade e passividade. Na fantasia "meu pai bate na criança que eu odeio", o sujeito está em uma posição de observador. Na fase seguinte, "eu sou batido pelo meu pai", o desejo se torna masoquista e o sujeito se torna o objeto. Esse jogo gramatical revela que a fantasia é o lugar onde o sujeito tenta se localizar em relação ao Outro.
Além disso, a fantasia funciona como um anteparo (écran). Ela protege o sujeito contra o horror do Real, aquilo que é inominável, o trauma puro, a ausência de sentido. Sem a mediação da fantasia, o sujeito estaria exposto a uma angústia avassaladora. Assim, a fantasia "veste" a pulsão, transformando a exigência bruta de satisfação em um cenário narrativo suportável. É por isso que, na clínica, não se deve simplesmente "desmascarar" a fantasia como se fosse uma ilusão a ser descartada; sem ela, o sujeito perde suas coordenadas de existência.
O Fantasma Lacaniano e a Lógica do Objeto Pequeno a
Jacques Lacan radicaliza a concepção freudiana ao formalizar o "fantasma". Nessa formulação, o sujeito barrado, que é o sujeito do inconsciente, marcado pela falta e pela divisão da linguagem, relaciona-se através de um punção com o objeto pequeno a. Este objeto não é um objeto comum do mundo, mas o "resto" da operação de constituição do sujeito, o resíduo que cai quando o ser humano entra na linguagem.
Para Lacan, o fantasma é o suporte do desejo. O desejo não é um ímpeto em direção a um objeto concreto, mas o desejo de uma falta. O objeto a é a causa do desejo, e a fantasia é o que dá ao sujeito a ilusão de que ele pode capturar esse objeto. No fantasma, o sujeito tenta se fixar como um objeto que completa o Outro, ou tenta recuperar a parte de si que foi perdida na alienação ao significante.
O fantasma é uma resposta à pergunta "Que quer o Outro de mim?" (Che vuoi?). Diante do enigma do desejo do Outro, que é sempre opaco e potencialmente ameaçador, o sujeito responde com a fantasia: "Ele me quer como seu objeto de prazer", ou "Ele me quer morto". O fantasma, portanto, dá uma consistência ao sujeito no lugar onde ele é apenas um vazio produzido pelo significante.
A Travessia do Fantasma e o Fim da Análise
Um dos conceitos mais complexos da técnica lacaniana é a "travessia do fantasma" (la traversée du fantasme). Se o fantasma é a janela pela qual o sujeito vê o mundo, o objetivo de uma análise não é consertar essa janela, mas levar o sujeito a reconhecer a natureza construída dessa moldura. Durante o processo analítico, o sujeito descobre que o objeto a, que ele perseguia através de suas repetições sintomáticas, é, na verdade, um vazio.
Atravessar o fantasma não significa destruí-lo, pois o sujeito não pode viver no Real puro sem enlouquecer, mas sim mudar sua relação com ele. Trata-se de uma desidentificação com a posição de objeto que o sujeito ocupava no fantasma do Outro. O sujeito deixa de ser "escravo" daquela cena fixa que se repetia em seus relacionamentos, em seus fracassos profissionais ou em seus sintomas corporais.
Essa travessia implica uma queda das garantias. O sujeito percebe que o Outro não existe como uma instância completa que detém todas as respostas; o Outro também é barrado (A). Ao final desse processo, a pulsão é liberada da fixidez do fantasma e o sujeito pode, talvez, encontrar uma nova forma de lidar com o seu "resto" ineliminável. A fantasia deixa de ser uma prisão para se tornar um espaço de criação, onde o sujeito assume a responsabilidade por seu próprio modo de gozo.
Fantasia, Gozo e a Estrutura da Realidade
A relação entre fantasia e gozo (jouissance) é o ponto onde a psicanálise se diferencia definitivamente de qualquer psicologia da consciência. O gozo, para Lacan, é uma satisfação paradoxal que envolve sofrimento e que ultrapassa o princípio do prazer. A fantasia é o instrumento que "domestica" o gozo. Ela permite que o sujeito extraia uma parcela de prazer do desprazer, organizando o modo como o corpo é afetado pelo significante.
Na neurose, a fantasia é frequentemente vivida como algo secreto e vergonhoso. O obsessivo, por exemplo, pode fantasiar com cenas de degradação para suportar sua excessiva submissão à lei moral. O histérico pode fantasiar ser o objeto de desejo de um Outro insatisfeito. Em ambos os casos, a fantasia protege o sujeito do encontro direto com a castração. Ela mantém a ilusão de que o gozo absoluto é possível, embora esteja "sempre em outro lugar" ou "proibido".
Isso posto, é crucial entender que a realidade humana é, em si mesma, fantasmática. Não existe uma "realidade objetiva" que possamos acessar sem o filtro da linguagem e da fantasia. O que chamamos de realidade é o resultado de um compromisso entre as exigências pulsionais e as interdições da cultura. A fantasia fornece a gramática e a sintaxe desse compromisso. Estudar a fantasia em psicanálise é, portanto, estudar a arquitetura íntima que sustenta a subjetividade, permitindo que o ser falante navegue entre o abismo do desejo e a solidez necessária para a vida em sociedade.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação dos Sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4.
FREUD, Sigmund (1919). 'Uma criança é espancada': uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 17, pp. 225-253.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
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MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan: o sinthoma. Tradução de Tereza Facury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
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