| Nascimento de Vênus, de William-Adolphe Bouguereau (1879), no Museu de Orsay |
Para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, a libido não era apenas um sinônimo para o "desejo sexual" no sentido vulgar ou puramente biológico da palavra. Ela representa a energia vital, a força motriz que impulsiona o aparelho psíquico em busca de prazer e preservação.
Neste texto, exploraremos a complexidade dessa energia que molda a subjetividade humana, desde as suas origens nas pulsões até as suas transformações na cultura e nos laços sociais.
A Natureza da Pulsão e o Conceito de Energia Psíquica
Para entender a libido, é preciso primeiro compreender o conceito de Pulsão (Trieb). Diferente do instinto, que é puramente biológico e possui um objeto fixo (como o animal que caça por fome), a pulsão humana é uma força constante que exige trabalho do psiquismo. A libido é, essencialmente, a manifestação dinâmica da pulsão sexual na vida mental.
Freud postulou que o aparelho psíquico opera sob o princípio do prazer, buscando reduzir a tensão gerada pelo acúmulo de energia. Quando sentimos uma necessidade, uma carga de libido se desprende e busca um "objeto" para se satisfazer. No entanto, na psicanálise, o objeto da libido é contingente e variável. Isso significa que podemos investir nossa energia em pessoas, ideias, objetos de consumo ou até em nós mesmos. Em relação à libido, Freud pontua que:
"Sua produção, aumento ou diminuição, distribuição e deslocamento devem propiciar-nos possibilidades de explicar os fenômenos psicossexuais observados" (Freud apud Fadiman; Frager, 1986, p. 9-10).
Essa energia é quantitativa, embora não possamos medi-la em laboratório. Ela flui, acumula-se e se desloca. Imagine a libido como uma corrente elétrica: ela pode acender uma lâmpada (um amor saudável), causar um curto-circuito (uma obsessão) ou ser desviada para alimentar uma máquina diferente (a criatividade artística). A forma como essa energia é distribuída define a saúde mental ou a formação de sintomas neuróticos.
O Desenvolvimento Psicossexual e a Plasticidade da Libido
Um dos pontos mais polêmicos da teoria freudiana foi a afirmação de que a libido está presente desde o nascimento. Ao contrário da visão vitoriana de que a sexualidade despertava apenas na puberdade, Freud demonstrou que a criança possui uma vida sexual rica, embora "polimorficamente perversa", ou seja, sem a finalidade reprodutiva e focada em diferentes zonas do corpo.
A libido atravessa fases específicas, onde a energia se concentra em diferentes zonas erógenas:
Fase Oral: O prazer está ligado à amamentação e à exploração pela boca.
Fase Anal: O foco se desloca para o controle dos esfíncteres e a relação com a autoridade e a entrega.
Fase Fálica: O interesse se volta para os órgãos genitais e para o Complexo de Édipo.
Essa jornada não é linear e livre de percalços. A libido pode sofrer Fixações, onde parte da energia fica "presa" em uma fase anterior devido a traumas ou excesso de satisfação. Mais tarde, na vida adulta, em momentos de crise, o indivíduo pode sofrer uma Regressão, onde a libido retorna a esses pontos de fixação, manifestando-se em comportamentos infantis ou sintomas específicos. A plasticidade da libido, sua capacidade de mudar de alvo e de forma, é o que permite a terapia: se a energia está mal investida, o trabalho analítico busca redistribuí-la de forma mais funcional.
Narcisismo e a Libido do Eu
Originalmente, Freud focava na libido voltada para objetos externos (outras pessoas). No entanto, em 1914, ele introduziu uma mudança fundamental com o conceito de Narcisismo. Ele percebeu que a libido também pode ser investida no próprio indivíduo.
Ele diferenciou dois estados:
Libido do Eu (Libido Narcísica): Quando a energia está concentrada no Ego. É necessária para a nossa sobrevivência e autoestima, mas, em excesso, impede o estabelecimento de vínculos com o mundo.
Libido Objetal: Quando a energia é direcionada para fora, para as pessoas e o mundo ao redor.
A dinâmica entre essas duas formas de libido é como um reservatório: quanto mais energia você gasta amando os outros, menos resta para si mesmo, e vice-versa. O equilíbrio é delicado. Em casos de psicoses, por exemplo, Freud observou que o sujeito retira toda a libido dos objetos externos e a volta inteiramente para o seu próprio Eu, criando uma realidade interna absoluta e desconectada do consenso social. Já no apaixonamento extremo, ocorre o oposto: o Eu se "esvazia" de libido para hiperinvestir no ser amado, o que explica por que nos sentimos vulneráveis quando amamos intensamente.
Sublimação e o Destino Social da Energia Sexual
Se a libido fosse apenas busca por prazer sexual direto, a civilização dificilmente teria sido construída. Freud argumenta que a cultura exige a renúncia de parte da satisfação pulsional. É aqui que entra o conceito de Sublimação.
A sublimação é um processo em que a libido é desviada de um alvo sexual ou agressivo direto para um alvo socialmente valorizado e não sexual. A energia que poderia ser usada para a busca de prazer corporal é canalizada para a ciência, a arte, o trabalho e a intelectualidade. Um cirurgião pode estar sublimando pulsões agressivas (o ato de cortar) em uma atividade que salva vidas. Um artista canaliza sua libido para a criação de uma obra que gera prazer estético em terceiros.
Diferente do recalque (onde a energia é sufocada e gera sintomas), na sublimação a energia flui livremente em uma nova direção. Ela é o motor do progresso humano, mas carrega um custo: o "Mal-estar na Civilização". Como nunca conseguimos satisfazer plenamente nossa libido devido às regras sociais, vivemos em um estado constante de insatisfação residual. A psicanálise não busca eliminar essa insatisfação, mas ajudar o sujeito a encontrar formas menos dolorosas de lidar com ela.
A Dualidade entre Eros e Tânatos
Mais tarde em sua obra, Freud percebeu que a libido (que ele passou a chamar de Eros) não era a única força em jogo. Ele introduziu a Pulsão de Morte (Tânatos). Enquanto a libido busca unir, criar laços, conservar a vida e complexificar as relações, a pulsão de morte busca a desintegração, o retorno ao inanimado e a repetição do que é destrutivo.
A vida psíquica é o campo de batalha entre essas duas forças. A libido tenta constantemente "amarrar" a pulsão de morte. Por exemplo, no sadismo ou no masoquismo, vemos uma fusão dessas forças: o prazer da libido misturado à destruição da pulsão de morte.
A psicanálise entende que somos movidos por um desejo que nunca se cala totalmente, o qual nos faz levantar da cama, o que nos faz criar obras de arte, o que nos faz buscar o outro, mas também é a fonte de nossos conflitos mais profundos. Dessa forma, o tratamento psicanalítico visa libertar a libido de seus nós traumáticos para que ela possa ser investida naquilo que Freud considerava os dois pilares de uma vida plena: a capacidade de amar e de trabalhar.
Referências
FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. São Paulo: HARBRA, 1986.
FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237.
SILVA, Frederico de Lima. Literatura e violência: efeitos do desmentido na contística de Rinaldo de Fernandes. 2017. 205 f. Dissertação (Letras) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/11915. Acesso em: 10 fev. 2026.
SILVA, Frederico de Lima. O pudor da Esfinge ou, simplesmente, mais uma divida/dúvida sobre as mulheres?: um estudo da perversão feminina na literatura de Rinaldo de Fernandes. 2025. 324 f. Tese (Doutorado em Letras) – Centro de Ciência Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2026. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37167. Acesso em: 10 fev. 2026.
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