De que maneira o conceito de foraclusão do Nome‑do‑Pai se articula com a estrutura perversa na leitura lacaniana?

A teoria lacaniana das estruturas clínicas (neurose, psicose e perversão) constitui um dos pilares mais sólidos da psicanálise contemporânea. Entre esses pilares, o conceito de Nome‑do‑Pai e sua operação simbólica ocupa um lugar central. A partir dele, Lacan formula a lógica da foraclusão, mecanismo específico da psicose, mas que também ilumina, por contraste, a lógica da perversão. Embora a perversão não seja definida pela foraclusão do Nome‑do‑Pai, sua articulação com esse conceito é fundamental para compreender a posição subjetiva do perverso, sua relação com a Lei, com o desejo do Outro e com o gozo.

A perversão não é psicose, mas também não é neurose; ela se organiza em torno de uma relação particular com a Lei, com o falo e com o desejo do Outro. A foraclusão, enquanto conceito, ajuda a compreender essa posição.

O Nome‑do‑Pai e a foraclusão: fundamentos estruturais

Para compreender a articulação entre foraclusão e perversão, é necessário começar pelo próprio conceito de Nome‑do‑Pai. Em Lacan, o Nome‑do‑Pai não é simplesmente a figura empírica do pai, mas uma função simbólica que opera como significante da Lei, instaurando a metáfora paterna e possibilitando a entrada do sujeito na ordem simbólica.

O Nome‑do‑Pai como operador da Lei

O Nome‑do‑Pai é o significante que:

  • introduz a Lei da castração,
  • separa a criança do desejo materno,
  • institui a falta como condição do desejo,
  • organiza o campo do Outro simbólico.

A metáfora paterna substitui o significante do desejo da mãe pelo Nome‑do‑Pai, produzindo o efeito de significação que funda o sujeito desejante.

A foraclusão como mecanismo específico

A foraclusão (Verwerfung) é o mecanismo pelo qual um significante fundamental, o Nome‑do‑Pai, não é inscrito no simbólico. Diferentemente do recalque neurótico, que mantém o significante no inconsciente, a foraclusão implica que o significante nunca entrou no simbólico. Como consequência:

  • a Lei não se inscreve,
  • a metáfora paterna não opera,
  • o sujeito fica exposto ao real sem mediação simbólica.

A psicose é, portanto, a estrutura em que o Nome‑do‑Pai está foracluído.

A importância da foraclusão para pensar a perversão

Embora a perversão não seja definida pela foraclusão, Lacan utiliza o conceito para delimitar a perversão por contraste. A perversão é uma estrutura em que:

  • o Nome‑do‑Pai não está foracluído,
  • a metáfora paterna opera, mas de modo particular,
  • a Lei é reconhecida, porém desmentida (Verleugnung).

Assim, a foraclusão funciona como ponto de referência para entender o que a perversão não é, mas também para compreender como ela se organiza em relação à Lei.

A perversão como estrutura: entre a Lei e sua desmentida

A perversão, na leitura lacaniana, não é um conjunto de comportamentos, mas uma posição subjetiva diante da Lei, do desejo e do gozo. O perverso não é alguém que “não tem Lei”, mas alguém que se coloca como instrumento da Lei, ao mesmo tempo em que a desmente.

A Verleugnung como mecanismo da perversão

Freud já havia indicado que a perversão se organiza em torno da desmentida (Verleugnung) da castração. O sujeito perverso:

  • reconhece a castração,
  • mas simultaneamente a nega,
  • sustentando duas crenças contraditórias.

Lacan retoma essa lógica e a articula com o Nome‑do‑Pai: o perverso não rejeita o Nome‑do‑Pai (como na psicose), mas o desmente.

A Lei existe, mas o perverso se coloca como seu executor

Na perversão:

  • a Lei é reconhecida,
  • mas o sujeito se coloca como aquele que encarna a Lei,
  • ou como aquele que faz a Lei funcionar.

O perverso não é sem Lei; ele é demasiado próximo da Lei, a ponto de se colocar como seu agente.

A função do falo na perversão

O falo, enquanto significante da falta, é reconhecido, mas o perverso tenta:

  • tamponar a falta,
  • encarnar o falo para o Outro,
  • oferecer-se como objeto que satisfaz o gozo do Outro.

Essa posição é inseparável da relação com o Nome‑do‑Pai, pois é a partir da Lei que o falo adquire sua função simbólica.

A perversão como resposta à castração

A perversão é uma forma de resposta à castração:

  • não pela recusa radical (como na psicose),
  • nem pela aceitação via recalque (como na neurose),
  • mas pela desmentida que permite ao sujeito sustentar uma posição de exceção.

Essa posição de exceção é crucial para entender a articulação com a foraclusão.

A articulação entre foraclusão e perversão: distinções e aproximações

Embora a foraclusão seja o mecanismo da psicose, Lacan utiliza esse conceito para delimitar a perversão. A articulação se dá em três níveis: estrutural, lógico e clínico.

A perversão não é psicose: o Nome‑do‑Pai está presente

Na psicose:

  • o Nome‑do‑Pai está foracluído,
  • a metáfora paterna não opera,
  • o sujeito não tem acesso à Lei simbólica.

Na perversão:

  • o Nome‑do‑Pai não está foracluído,
  • a metáfora paterna opera,
  • a Lei é reconhecida, mas desmentida.

Essa diferença é fundamental.

A proximidade entre perversão e psicose

Apesar da diferença estrutural, há uma proximidade lógica:

  • ambas as estruturas lidam com a Lei de maneira não‑neurótica,
  • ambas se relacionam com o gozo de forma direta,
  • ambas questionam a função do falo como significante da falta.

Essa proximidade explica por que Lacan, em alguns momentos, aproxima a perversão da psicose, sem jamais confundi-las.

A foraclusão como limite da perversão

A perversão se define por não ultrapassar o limite da foraclusão. O perverso:

  • reconhece a Lei,
  • mas tenta contorná-la,
  • sem jamais abolir sua existência.

Se o Nome‑do‑Pai estivesse foracluído, não haveria perversão, mas psicose.

A função do Outro na perversão e na psicose

Na psicose:

  • o Outro é inconsistente,
  • o sujeito é invadido pelo real.

Na perversão:

  • o Outro é consistente,
  • mas o sujeito tenta sustentar o gozo do Outro.

A foraclusão ajuda a entender essa diferença.

A posição subjetiva do perverso: o sujeito como objeto do gozo do Outro

A articulação entre foraclusão e perversão se torna mais clara quando examinamos a posição subjetiva do perverso. Lacan define a perversão como uma estrutura em que o sujeito se coloca como objeto a para o gozo do Outro.

O perverso como instrumento da Lei

O perverso não rejeita a Lei; ele a encena. Ele se coloca como:

  • aquele que faz a Lei funcionar,
  • aquele que satisfaz o gozo do Outro,
  • aquele que ocupa o lugar de exceção.

Essa posição só é possível porque o Nome‑do‑Pai não está foracluído.

O fetichismo como paradigma

O fetichismo é o paradigma da perversão porque mostra claramente a lógica da desmentida:

  • o sujeito sabe que a mãe é castrada,
  • mas sustenta um objeto que “prova” o contrário.

Essa duplicidade só é possível porque a Lei existe, mas é desmentida.

O perverso e o gozo do Outro

O perverso se coloca como objeto que:

  • provoca o gozo do Outro,
  • garante a satisfação do Outro,
  • sustenta a fantasia do Outro.

Essa posição é radicalmente diferente da psicose, onde o Outro é invasivo e persecutório.

A foraclusão como referência clínica e teórica para compreender a perversão

Por fim, é importante examinar como a foraclusão funciona como referência para a clínica da perversão.

A clínica diferencial

A distinção entre psicose e perversão é crucial na clínica:

  • na psicose, há ruptura com o simbólico,
  • na perversão, há manipulação da Lei.

A foraclusão é o critério que permite essa distinção.

A função do analista diante do perverso

O analista não deve ocupar o lugar do Outro gozador. A clínica com perversos exige:

  • não ceder ao convite para encenar a fantasia perversa,
  • não ocupar o lugar de exceção,
  • sustentar a falta no Outro.

A foraclusão, como conceito, ajuda a evitar confusões clínicas.

A perversão como resposta à inconsistência do Outro

A perversão é uma tentativa de:

  • tamponar a falta no Outro,
  • garantir que o Outro goze,
  • sustentar a consistência da Lei.

A foraclusão, ao contrário, revela a inconsistência radical do Outro na psicose.

A importância da foraclusão como limite estrutural

A foraclusão funciona como:

  • limite da perversão,
  • referência para distinguir estruturas,
  • operador teórico que ilumina a lógica da Lei.

Sem o conceito de foraclusão, a perversão seria confundida com psicose ou com neurose.

Conclusão

A articulação entre o conceito de foraclusão do Nome‑do‑Pai e a estrutura perversa na leitura lacaniana não se dá por identidade, mas por contraste e delimitação. A perversão não é definida pela foraclusão; ao contrário, ela só existe porque o Nome‑do‑Pai não está foracluído. No entanto, a foraclusão é essencial para compreender a posição do perverso diante da Lei, do falo e do desejo do Outro.

A perversão é uma estrutura em que:

  • a Lei é reconhecida, mas desmentida,
  • o sujeito se coloca como objeto do gozo do Outro,
  • a falta é manipulada, não abolida,
  • o Nome‑do‑Pai opera, mas é contornado.

A foraclusão, enquanto mecanismo da psicose, funciona como ponto de referência que permite delimitar a perversão e compreender sua lógica interna. Assim, a articulação entre esses conceitos é fundamental para a teoria e para a clínica psicanalítica.

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