Explorar o conceito de Desamparo (Hilflosigkeit) na psicanálise é mergulhar na própria essência da constituição humana. Para Freud e seus sucessores, o desamparo não é apenas um sentimento passageiro de solidão, mas a condição estruturante do sujeito. É o ponto de partida de nossa vida psíquica, a raiz de nossa necessidade de cultura, religião e vínculos sociais.
O Desamparo Biológico: A Prematuridade do Nascimento
Diferente de outros mamíferos que, poucas horas após o nascimento, já conseguem caminhar ou buscar alimento, o ser humano nasce em um estado de radical inacabamento. Esta é a tese da prematuridade biológica.
O bebê humano é incapaz de realizar a "ação específica" necessária para eliminar as tensões que surgem de suas necessidades endógenas (fome, frio, dor). Ele não pode ir até a comida; a comida precisa vir até ele. Esse estado de impotência motora e funcional é o que Freud define como o desamparo original.
A Tensão Excedente
Quando o organismo é inundado por estímulos que não consegue processar ou descarregar sozinho, ocorre um trauma. O desamparo biológico expõe o sujeito a uma quantidade de energia psíquica que ele não tem ferramentas para lidar.
Essa vulnerabilidade inicial cria uma dependência absoluta de um Outro. Sem a intervenção de um cuidador, o recém-nascido sucumbiria. Portanto, a nossa entrada no mundo é marcada por um "grito", que inicialmente é apenas uma descarga motora, mas que, ao ser interpretado pelo adulto, torna-se o primeiro esboço de comunicação.
O Desamparo como Motor da Socialização e do Amor
Se o ser humano fosse autossuficiente desde o nascimento, provavelmente não seríamos seres sociais. O desamparo é a "fonte primordial" de todos os motivos morais e éticos.
A Transformação do Grito em Chamado
Quando o bebê chora por causa da fome (desamparo), o cuidador (geralmente a mãe ou quem exerça a função materna) não apenas alimenta, mas interpreta aquele choro. O adulto atribui um sentido ao desespero do bebê: "Ah, você está com fome" ou "Você quer colo".
Nesse momento, o desamparo biológico se transforma em uma relação de objeto. O bebê percebe que a única forma de sobreviver e obter prazer é mantendo o amor e a atenção desse Outro.
- Dependência do Amor: O medo do desamparo evolui para o medo da perda do amor.
- A Origem da Moral: Para não ser abandonado (e, consequentemente, não cair no desamparo mortal), o sujeito passa a renunciar a certos impulsos para agradar a autoridade externa.
É aqui que nasce a civilização. O desamparo nos obriga a criar laços, leis e contratos sociais. Somos seres de linguagem porque precisamos pedir ajuda.
Desamparo Psíquico e a Angústia de Castração
Na evolução da teoria freudiana, o conceito de desamparo ganha camadas mais sofisticadas, especialmente na obra Inibição, Sintoma e Angústia (1926). Freud distingue o desamparo biológico inicial do desamparo psíquico.
A Angústia como Sinal
O desamparo psíquico ocorre quando o ego se sente incapaz de lidar com uma exigência pulsional interna ou uma ameaça externa. A angústia, então, surge como um sinal de alerta. O ego "lembra" do desamparo original e emite um sinal de angústia para evitar que a situação se torne traumática novamente.
A Castração, no sentido psicanalítico, é uma forma de desamparo simbólico. É o reconhecimento de que não somos "tudo" para o Outro e que não possuímos todos os meios para satisfazer nossos desejos. Aceitar a castração é aceitar um nível de desamparo inerente à condição humana, abandonando a fantasia de onipotência infantil. O neurótico, muitas vezes, é aquele que luta exaustivamente para não admitir seu desamparo, criando sintomas que tentam, inutilmente, controlar o incontrolável.
O Desamparo e a Criação das Religiões
Em O Futuro de uma Ilusão (1927) e O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud utiliza o conceito de desamparo para explicar fenômenos coletivos e culturais, especialmente a religiosidade.
O Pai Protetor
Diante das forças esmagadoras da natureza (terremotos, doenças, a morte), o adulto volta a se sentir como a criança desamparada que foi um dia. A psique humana, incapaz de suportar o terror da insignificância e da finitude, "regride" e busca um substituto para a figura paterna protetora da infância.
- A Divindade: Deus é construído como um pai exaltado que protege o fiel contra os perigos do destino e do desamparo.
- Providência Divina: A crença de que "há um sentido para o sofrimento" serve como um anteparo psíquico contra o vazio do desamparo absoluto.
A psicanálise sugere que a religião é uma tentativa cultural de tratar o desamparo estrutural. No entanto, Freud propõe que o amadurecimento da humanidade (o "processo civilizatório") exigiria que o homem aceitasse sua "educação para a realidade", reconhecendo que está sozinho diante do cosmos, sem a proteção de uma figura parental mística.
O Desamparo na Clínica Contemporânea: Melancolia e Vazio
Na clínica atual, o desamparo aparece com frequência não apenas como angústia, mas como um sentimento de vazio existencial ou "desvitalização". Diferente da neurose clássica (conflito entre desejo e proibição), as patologias do desamparo revelam um sujeito que se sente desamparado pelo próprio simbólico.
A Falha na Função de Amparo
Se o "Outro" primordial falhou em dar sentido ao sofrimento da criança, o sujeito pode crescer sem ferramentas internas para nomear o que sente. Isso gera:
- Atuações (Acting out): O sujeito age impulsivamente porque não consegue elaborar o desamparo através da fala.
- Depressão e Melancolia: Uma entrega ao desamparo, onde o mundo perde o valor porque o sujeito se sente radicalmente abandonado por qualquer instância de cuidado.
- Solidão no Coletivo: Mesmo em um mundo hiperconectado, o desamparo persiste quando os vínculos são superficiais e não oferecem suporte ao sofrimento psíquico individual.
A análise, nesse contexto, funciona como um novo lugar de amparo, não para prometer uma proteção eterna, mas para ajudar o paciente a suportar seu desamparo constituinte sem ser aniquilado por ele. O objetivo é transformar o desamparo paralisante em uma "falta" criativa, permitindo que o sujeito construa seus próprios caminhos.
Conclusão
O desamparo, para a psicanálise, é a nossa marca de origem. É o que nos torna humanos, vulneráveis e, paradoxalmente, criativos. Reconhecer o desamparo não é um sinal de fraqueza, mas o primeiro passo para a conquista de uma autonomia possível. Como diria Lacan, a única coisa de que se pode ser culpado é de ter cedido de seu desejo; e o desejo, no fundo, é o que tentamos inventar para preencher o abismo do nosso desamparo original.
Sugestão de leitura sobre essa temática
Pânico e Desamparo
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O pânico instala-se quando se revela subitamente ao sujeito aquilo que para este é insuportável: a constatação de que o desamparo é o destino último - e o ponto de partida - de tudo o que sustenta a linguagem. A cura psicanalítica, por sua vez, supõe que o sujeito possa tolerar esse fundo de desamparo (Hilflosigkeit) e fazer dele não um foco sintomático de desespero, mas uma fonte de criatividade e de autoengendramento poético. Nessa perspectiva, a Hilflosigkeit constitui, paradoxalmente, a única garantia do "pouco de liberdade" de que o sujeito dispõe para sustentar o inesgotável de seu desejo.
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