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A compreensão da neurose é o pilar fundante da psicanálise. Foi a partir do tratamento de pacientes diagnosticados com "histeria" no final do século XIX que Sigmund Freud começou a mapear o funcionamento do aparelho psíquico, percebendo que os sintomas físicos e as angústias mentais não eram frutos de degeneração orgânica, mas sim o resultado de conflitos internos profundos e inconscientes. Para a psicanálise, a neurose não é uma doença no sentido médico tradicional, mas sim uma estratégia defensiva do sujeito diante de desejos que ele não consegue integrar à sua consciência.
Para entender a neurose, precisamos primeiro aceitar a premissa de que a mente humana é dividida. Freud propôs que o psiquismo é composto por instâncias em constante tensão: o Id (o reservatório dos impulsos e desejos primitivos), o Superego (a internalização das normas sociais e morais) e o Eu ou Ego (a instância mediadora que tenta equilibrar essas forças com a realidade externa). A neurose nasce justamente do fracasso ou da dificuldade dessa mediação. O sujeito neurótico experimenta um desejo que entra em contradição com seus valores morais ou com as exigências da realidade. Esse desejo, geralmente de natureza sexual ou agressiva e muitas vezes ligado a vivências da infância, é percebido pelo Ego como uma ameaça.
O mecanismo central da neurose é o recalque (ou repressão). Quando um impulso se torna insuportável para a consciência, o Ego "empurra" essa representação para o inconsciente. No entanto, o que é recalcado não desaparece; ele permanece ativo e busca uma via de escoamento. Como a consciência impede a expressão direta desse desejo, ele retorna de forma disfarçada, manifestando-se como o que chamamos de sintoma. O sintoma neurótico é, portanto, uma formação de compromisso: ele satisfaz o desejo de forma simbólica e punitiva ao mesmo tempo. Por exemplo, uma pessoa que sente uma raiva intensa por um ente querido pode desenvolver um tique nervoso ou uma fobia, que serve tanto para expressar a tensão reprimida quanto para castigar o sujeito pela "maldade" do pensamento original.
Diferente da psicose, onde há uma ruptura com a realidade, o neurótico mantém o seu senso de realidade preservado. Ele sofre com seus sintomas, percebe que algo está errado, mas não consegue evitar o comportamento ou o pensamento obsessivo. A neurose é, fundamentalmente, uma questão de grau. Freud chegou a afirmar que somos todos, em alguma medida, neuróticos, pois a civilização exige que renunciemos a grande parte de nossos impulsos em troca da convivência social. A patologia só se caracteriza quando esse sofrimento se torna paralisante, impedindo o indivíduo de amar e trabalhar com liberdade.
Existem três grandes estruturas clínicas dentro da neurose, cada uma com sua forma específica de lidar com a angústia:
Histeria: Aqui, o conflito psíquico é convertido no corpo. Na época de Freud, isso se manifestava em paralisias ou cegueiras sem causa biológica. Hoje, vemos a histeria em formas de insatisfação crônica, na busca constante pelo olhar do outro e em somatizações variadas. O histérico questiona a sua própria identidade e o seu desejo.
Neurose Obsessiva: O conflito se desloca para o pensamento. O sujeito é invadido por ideias intrusivas, dúvidas paralisantes e rituais de verificação. Há uma tentativa desesperada de controlar a realidade e os próprios impulsos através da lógica e da moralidade rígida.
Fobia (Histeria de Angústia): A angústia interna é projetada em um objeto externo (animais, lugares fechados, altura). Ao evitar o objeto fóbico, o sujeito acredita estar se protegendo da angústia que, na verdade, é interna.
Um ponto crucial para a psicanálise é a origem infantil da neurose. Freud descobriu que o desenvolvimento da sexualidade infantil e o atravessamento do Complexo de Édipo são determinantes. É nesse período que a criança lida com as primeiras grandes proibições e aprende a lidar com a autoridade e o desejo. A forma como essas experiências são assimiladas criará as "linhas de fratura" na personalidade do adulto. Se a criança não consegue elaborar bem as frustrações ou os traumas dessa fase, ela pode fixar sua energia psíquica em pontos específicos do desenvolvimento, facilitando o surgimento da neurose na vida adulta diante de novos estressores.
A "cura" na psicanálise não significa o extermínio do conflito, pois o conflito é inerente à condição humana, mas sim a transformação da "miséria neurótica em infelicidade comum", como dizia Freud. O processo analítico busca dar voz ao inconsciente, permitindo que o sujeito compreenda a origem de seus sintomas. Ao falar sobre sua dor, o paciente retira o véu do recalque e pode, finalmente, dar um novo destino aos seus desejos. Em vez de ser escravo de repetições inconscientes e sintomas dolorosos, o sujeito ganha autonomia para lidar com suas faltas.
A neurose na psicanálise é o testemunho de uma verdade que o sujeito não pôde suportar conscientemente. É um grito do inconsciente que utiliza o sofrimento para sinalizar que algo na economia psíquica está em desequilíbrio. Compreendê-la exige mergulhar na história singular de cada indivíduo, entendendo que cada sintoma é uma mensagem cifrada esperando para ser lida e traduzida em palavras.
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