O que significa RECUSA (Verleugnung) para a Psicanálise?

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Diferente da neurose, que se baseia no "recalque", ou da psicose, que se baseia na "foraclusão", a perversão opera em um equilíbrio instável entre o saber e o crer. Este texto explora as nuances da recusa, sua origem na castração e como ela molda a relação do sujeito perverso com a lei e o desejo.

A Etimologia e o Conceito de Verleugnung

O termo Verleugnung foi traduzido para o português como recusa, desmentido ou negação. Sigmund Freud introduziu este conceito de forma mais robusta em seus textos tardios, especialmente em O Fetichismo (1927) e A Divisão do Ego no Processo de Defesa (1938/1940).

Diferente da Verneinung (denegação neurótica), onde o sujeito expressa um desejo proibido sob a forma de uma negação ("Eu não quis dizer que minha mãe é chata"), a recusa perversa é muito mais radical. Ela não nega o afeto ou a ideia, mas sim uma percepção da realidade externa. O perverso vê algo, mas age como se não tivesse visto.

O Cenário Primordial: A Castração

Para a psicanálise, a estrutura do sujeito é decidida pela forma como ele lida com a falta no Outro, simbolizada pela castração anatômica da mãe.

A Descoberta da Diferença Sexual

Na infância, a criança acredita que todos os seres humanos possuem o falo (o pênis, em termos imaginários). Ao perceber que a mãe não o possui, a criança enfrenta uma crise de realidade.

  • O Neurótico: Aceita a castração (recalca o desejo incestuoso) e submete-se à Lei do Pai.
  • O Psicótico: Rejeita a castração inteiramente (foraclusão), não integrando o Nome-do-Pai.
  • O Perverso: Ele vê que a mãe não tem o pênis, mas recusa essa percepção.

A recusa é, portanto, uma manobra defensiva que permite ao sujeito manter duas crenças contraditórias simultaneamente: "Eu sei que a mulher não tem falo, mas, ainda assim, ela o possui (através de um substituto)".

A Divisão do Ego (Spaltung)

A consequência direta da recusa é uma cisão no ego. Freud argumenta que o ego do perverso se divide em duas partes que não se comunicam de forma integrada:

  • Uma parte que reconhece a realidade: Ele sabe que a castração existe e que as regras sociais e biológicas são reais.
  • Uma parte que sustenta a fantasia: Ele mantém a crença de que a falta pode ser preenchida ou ignorada através de um objeto ou ato específico.

Diferente do neurótico, que sofre com o conflito interno e a culpa, o perverso convive com essa divisão sem necessariamente sentir angústia. Ele "desmente" a castração para se proteger da angústia de aniquilação que a ideia de falta provoca.

O Fetiche como Monumento da Recusa

O exemplo clássico da recusa é o fetichismo. O objeto fetiche (um sapato, uma peça de roupa, uma parte do corpo) funciona como um substituto do "pênis materno" que o sujeito se recusa a admitir que não existe.

O fetiche é um "triunfo" sobre a castração. Ele permite que o sujeito mantenha o acesso ao prazer sexual sem ter que enfrentar a alteridade e a falta do Outro. O objeto fetiche "estanca" o buraco deixado pela percepção da castração.

A Perspectiva Lacaniana: O Perverso como Instrumento do Gozo

Jacques Lacan trouxe uma nova dimensão ao conceito de recusa ao focar no desejo e na lei. Para Lacan, o perverso não é alguém que simplesmente ignora a lei; pelo contrário, ele é um defensor fervoroso da Lei, mas de uma forma distorcida.

O Desmentido da Lei

Enquanto o neurótico questiona a lei ("Por que devo obedecer?"), o perverso se coloca como o próprio instrumento do Gozo do Outro. Ele tenta provar que a Lei é uma farsa, ou que ele é o único que sabe o que o Outro realmente quer.

Na estrutura perversa, o sujeito não se submete à castração simbólica (a Lei do Pai que limita o prazer). Ele tenta restaurar o gozo absoluto. A recusa, aqui, recai sobre a incompletude do Outro. O perverso se recusa a aceitar que o Outro (a sociedade, a mãe, Deus) seja faltante.

O Ato Perverso e o Desafio ao Outro

A clínica da perversão é marcada pelo "passar ao ato". O perverso frequentemente desafia os limites sociais para provocar uma reação no Outro.

  • Provocação da Angústia: O objetivo do perverso não é apenas o prazer sensorial, mas sim causar angústia no próximo. Ao ver a angústia no outro, o perverso confirma que o outro é faltante, enquanto ele (o perverso) permanece no controle.
  • A Lei como Jogo: O perverso conhece as regras melhor do que ninguém. Ele as utiliza para encontrar "brechas". A recusa aqui funciona como um mecanismo que diz: "A regra existe para os outros, mas eu descobri como contorná-la".

Diferenças Clínicas Importantes

É crucial distinguir a perversão como estrutura dos atos perversos que neuróticos podem cometer.

  • Neurose com traços perversos: O sujeito pode ter fantasias ou práticas sexuais diversas, mas sente culpa, questiona-se e utiliza essas práticas como uma forma de lidar com seu desejo recalcado.
  • Estrutura Perversa: Não há o questionamento subjetivo da neurose. O sujeito está convicto de sua posição. A recusa é estável.

A Recusa na Contemporaneidade

Hoje, a psicanálise estuda como a cultura do consumo e as redes sociais podem favorecer mecanismos de recusa. Vivemos em uma era que incentiva o "gozo sem limites" e a negação da falta.A recusa se manifesta no discurso social quando ignoramos as limitações sistêmicas (como a finitude dos recursos ou a impossibilidade de satisfação plena) em prol de uma imagem de completude idealizada. O sujeito contemporâneo é constantemente convidado a "recusar" sua própria castração através de objetos de consumo que prometem a felicidade total, funcionando como fetiches modernos.

O Manejo Clínico: O Desafio do Analista

Tratar um sujeito de estrutura perversa é um dos maiores desafios para o psicanalista. Como o perverso não sofre da mesma forma que o neurótico (ele não busca o sentido de um sintoma, pois seu sintoma é o seu modo de prazer), a entrada em análise é rara.

Normalmente, o perverso chega ao consultório por pressão externa (justiça, cônjuge) ou quando seu mecanismo de recusa falha momentaneamente e a angústia "vaza".

O analista não deve se colocar na posição de juiz moralizador, pois isso apenas reforçaria o jogo do perverso. O objetivo é tentar introduzir uma fenda na certeza do sujeito, transformando o "desmentido" em uma questão subjetiva, levando-o a confrontar a própria falta que ele tanto tenta tapar.

Conclusão

A recusa é o pilar que sustenta o universo perverso. Ela é uma solução criativa, porém custosa, para o dilema da castração. Ao recusar a falta no Outro, o sujeito perverso constrói um mundo onde ele é o mestre do prazer, mas ao custo de uma divisão profunda em seu ego e de uma relação de objeto marcada pelo controle e pela instrumentalização.

Sugestão de leitura sobre essa temática

A parte obscura de nós mesmos: Uma história dos perversos

Elisabeth Roudinesco

Nesse livro, a prestigiada historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco apresenta e interpreta a história dos perversos no Ocidente através de suas figuras emblemáticas: de Barba Azul e os santos místicos na Idade Média, ao fenômeno do nazismo, dos pedófilos e terroristas nos dias de hoje. Mostra como a perversão, definida em cada época de um modo diverso, exibe o que não cessamos de dissimular: a parte obscura de nós mesmos, a negatividade presente em cada um. E ainda reflete sobre a sua erradicação. Eliminar a perversão não seria destruir a distinção entre bem e mal que fundamenta a civilização?

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