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Para a psicanálise, o conceito de objeto de desejo não se refere a uma coisa física ou a uma pessoa em sua totalidade concreta, mas sim a uma construção psíquica complexa. Enquanto no senso comum "desejar" algo implica querer possuir um objeto específico para obter satisfação, na teoria psicanalítica, especialmente a partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, o objeto de desejo é marcado por uma falta fundamental e por uma busca incessante que nunca se completa.
A Origem: Do Objeto de Satisfação ao Objeto de Desejo
Para entender o que é o objeto de desejo, precisamos diferenciar necessidade, demanda e desejo.
Necessidade: É biológica (fome, sede). Ela pode ser satisfeita por um objeto real (comida, água). Quando o bebê sente fome e é alimentado, a necessidade é momentaneamente suprimida.
Desejo: Nasce no momento em que a necessidade é atendida, mas algo "sobra". Freud explica que a primeira experiência de satisfação deixa um traço de memória. O sujeito passa a buscar não apenas o leite, mas a sensação de prazer vinculada àquele momento original.
O objeto de desejo, portanto, é um substituto para uma satisfação mítica perdida. Como essa satisfação original nunca pode ser plenamente recuperada, o desejo é, por definição, insaciável. O objeto que buscamos no mundo real é apenas um "representante" temporário.
O Objeto em Freud: A Pulsão e o Alvo
Freud introduziu o conceito de objeto da pulsão (Objekt). Diferente do instinto animal, que tem um objeto fixo (um leão faminto busca carne), a pulsão humana é "desnaturada". O objeto da pulsão é o elemento mais variável dela: pode ser uma pessoa, uma parte do corpo, um objeto inanimado ou até algo abstrato.
Segundo Freud, o encontro com o objeto de desejo é sempre um "reencontro". Estamos sempre tentando achar algo que perdemos na infância (o seio materno, o cuidado total). No entanto, como o sujeito cresceu e a realidade mudou, esse reencontro é sempre parcial e levemente frustrante, o que nos empurra a continuar desejando.
Lacan e o "Objeto a": A Causa do Desejo
Jacques Lacan levou essa ideia adiante com o conceito de objeto pequeno a (objet petit a). Para Lacan, o objeto não é aquilo que o desejo visa, mas sim aquilo que causa o desejo.
O objeto a é uma espécie de "resto" ou sobra que cai quando o sujeito entra no mundo da linguagem (o Simbólico). Quando passamos a falar, perdemos uma parte de nossa espontaneidade biológica; essa perda cria um vazio, um buraco no ser. O objeto de desejo funciona como uma "tampa" para esse buraco.
Lacan utiliza exemplos de objetos que se destacam do corpo para ilustrar como o desejo se ancora:
O seio: O primeiro objeto de separação.
As fezes: O objeto de troca e controle.
O olhar: Ser visto pelo outro.
A voz: O chamado e a resposta.
A Função da Falta
O ponto central da psicanálise é que o desejo só existe porque algo falta. Se tivéssemos tudo o que quiséssemos, o desejo morreria. Por isso, o objeto de desejo é, paradoxalmente, um objeto que só mantém seu valor enquanto não é plenamente alcançado ou possuído.
Muitas vezes, quando finalmente conquistamos o "objeto dos nossos sonhos" (um carro, um cargo, um parceiro), sentimos um vazio logo em seguida. Isso ocorre porque aquele objeto real não era o objeto a; ele era apenas uma tela onde projetamos nossa falta. O desejo rapidamente se desloca para o próximo objeto, em um processo chamado de metonímia do desejo.
O Objeto de Desejo na Contemporaneidade
No mundo atual, o capitalismo explora intensamente essa estrutura psíquica. O mercado tenta nos convencer de que o objeto a (a causa do nosso vazio) pode ser comprado. Ele vende produtos como se fossem a solução definitiva para a nossa falta. No entanto, a psicanálise nos ensina que nenhum consumo é capaz de preencher o desejo humano, pois o desejo não quer um objeto, ele quer continuar desejando.
O objeto de desejo na psicanálise não é um "o quê", mas um "porquê". Ele é o motor que nos mantém vivos, movendo-nos de uma busca para outra. Entender que o objeto é inerentemente perdido permite que o sujeito pare de buscar a completude impossível e passe a lidar de forma mais criativa com sua própria falta.
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