| Psicologia Cérebro Psicanálise - Imagens grátis no Pixabay |
A Teoria do Enquadre (ou Setting) representa uma das evoluções mais significativas da técnica psicanalítica pós-freudiana. Enquanto Freud focou intensamente no conteúdo das associações do paciente, autores como José Bleger e Donald Winnicott voltaram seus olhares para o continente: a moldura que sustenta o processo analítico.
Definição de Enquadre: Do Procedimento à Estrutura Psíquica
O enquadre psicanalítico não é apenas um conjunto de regras logísticas. Tradicionalmente, ele compreende as constantes do tratamento: o horário fixo, a frequência das sessões, o local, os honorários e a neutralidade do analista. No entanto, para a psicanálise moderna, ele é muito mais do que isso.
O Enquadre como "Não-Processo"
José Bleger, psicanalista argentino de grande influência, trouxe uma definição revolucionária: o enquadre é o "não-processo". Se a análise é o processo (o que muda, o que se associa, o que se transforma), o enquadre é o que deve permanecer imóvel para que essa mudança ocorra.
Imagine um experimento químico: o processo é a reação entre as substâncias, mas o enquadre é o tubo de ensaio. Se o tubo de ensaio for instável ou reagir quimicamente com as substâncias, o experimento falha. Assim, o enquadre serve como uma base de segurança que permite ao paciente "se perder" em suas fantasias sem que a realidade externa colapse.
José Bleger: O Enquadre como Instituição e Depósito da Simbiose
Bleger aprofundou a compreensão do enquadre ao tratá-lo como uma "instituição" dentro da relação analítica. Para ele, o enquadre guarda a parte mais primitiva da personalidade do paciente.
O "Mudo" que Sustenta o Discurso
Segundo Bleger, o enquadre é algo que normalmente não se percebe. Ele é "mudo". Só notamos o enquadre quando ele é quebrado (um atraso do analista, uma mudança de sala, uma interrupção).
Ele teorizou que o paciente deposita no enquadre a sua parte psicótica ou simbiótica. Isso significa que as partes do ego que nunca se diferenciaram totalmente da realidade externa encontram refúgio na constância das regras analíticas.
- O Enquadre como Protese: Para pacientes com estruturas mais frágeis, o enquadre funciona como uma prótese de ego. A imobilidade do setting sustenta a integridade do sujeito.
- A Quebra do Enquadre: Quando o analista falha na manutenção dessas constantes, o que vem à tona não é apenas uma reclamação consciente, mas a angústia catastrófica dessa parte primitiva que perdeu seu suporte.
Donald Winnicott: O Enquadre como Ambiente Sustentador (Holding)
Para o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, a importância do enquadre está diretamente ligada à relação mãe-bebê. Ele não via o enquadre apenas como regras, mas como um Ambiente Suficientemente Bom.
O Conceito de Holding
Winnicott utilizou o termo holding (sustentação) para descrever como a mãe protege o bebê das pressões do mundo externo enquanto o seu ego ainda é imaturo. Na clínica, o enquadre exerce exatamente essa função.
- Espaço Potencial: O enquadre cria um "espaço transicional" ou espaço potencial. É um território entre a realidade interna e a externa, onde o paciente pode brincar com ideias, símbolos e afetos.
- Regressão ao Cuidado: Em casos de pacientes com falhas ambientais graves na infância, o enquadre permite uma "regressão à dependência". O paciente sente que o analista (através do rigor do setting) está segurando o mundo para que ele possa, finalmente, desabar e se reconstruir.
O Enquadre como Ferramenta de Manejo em Casos Difíceis
Originalmente, a técnica freudiana foi pensada para as neuroses clássicas (histerias e obsessões), onde o paciente tem um ego bem formado. No entanto, a Teoria do Enquadre tornou-se vital para o tratamento de Borderlines, Psicóticos e Casos Limite.
Do "Interpretar" ao "Manejar"
Winnicott e Bleger propuseram que, com esses pacientes, a interpretação verbal (explicar o inconsciente) é menos importante do que o manejo do enquadre.
- A Presença como Mensagem: Para um paciente que sofreu abandono, o fato de o analista estar lá, exatamente no mesmo horário e com a mesma postura, comunica mais do que qualquer teoria complexa.
- Segurança Terapêutica: O enquadre rígido impede que o paciente atue (acting out) de forma destrutiva. Ele oferece limites que o paciente não consegue dar a si mesmo. O enquadre é a lei que organiza o caos pulsional.
A Dialética entre Flexibilidade e Rigidez
Um dos pontos mais debatidos na psicanálise contemporânea é até onde o enquadre deve ser rígido ou flexível. A importância dessa teoria reside no equilíbrio entre a "moldura de ferro" e a "moldura viva".
O Risco da Reificação
Bleger alertava para o perigo de o enquadre se tornar uma "couraça" para o próprio analista. Se o analista se esconde atrás de regras burocráticas para evitar o contato emocional com o paciente, o enquadre deixa de ser sustentador para se tornar repressivo.
A Adaptação Necessária
Winnicott, por outro lado, mostrava que o analista deve ser capaz de adaptar o enquadre às necessidades do paciente. Se um paciente está em crise aguda, o "setting" pode exigir sessões extras ou uma mudança na forma de comunicação.
- A Função do Analista: O enquadre não é um fim em si mesmo, mas um meio para que a vida psíquica floresça.
- O Enquadre Interno: Mais importante do que as paredes do consultório é o "enquadre interno" do analista, sua capacidade mental de manter a ética, a escuta e a atenção flutuante, independentemente das pressões externas.
Conclusão
A importância da Teoria do Enquadre para a psicanálise reside no fato de que ela humanizou a técnica. Com Bleger, aprendemos que o silêncio e as regras são os depositários da nossa estabilidade psíquica mais arcaica. Com Winnicott, compreendemos que o consultório é um útero simbólico que permite o nascimento do verdadeiro Self.
Sem o enquadre, a psicanálise seria apenas uma conversa comum. Com ele, torna-se um laboratório sagrado onde o tempo para e a alma pode, finalmente, se revelar.
Sugestão de leitura sobre essa temática
Da pediatria à psicanálise: Escritos reunidos
José Bleger
Nesta reunião de artigos, que acompanha o percurso de Winnicott da pediatria à psiquiatria e ao nascente campo da psicanálise infantil, é possível observar o diálogo entre essas diferentes perspectivas tomando corpo nas ideias e na prática de Winnicott, e apreciar as diferentes modalidades de escuta que o psicanalista e pediatra foi concatenando ao longo de sua carreira
Adquirir na Amazon