12/01/2026

O que é Histeria na Psicanálise? O caso Anna O. e a teoria de Freud

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A história da histeria confunde-se com a própria fundação da clínica psicanalítica. Para entender essa estrutura, é obrigatório recuar ao momento em que a medicina vitoriana se viu impotente diante de sintomas que desafiavam a lógica da anatomia. O texto a seguir explora a evolução desse conceito, centrando-se no encontro entre Josef Breuer, Sigmund Freud e a paciente que mudou o curso da psicologia moderna: Anna O.

O Encontro Clínico: Breuer e o "Nascimento" da Cura pela Fala

Embora Freud seja o nome mais associado à psicanálise, o "clique" inicial veio de seu colega e mentor, o médico austríaco Josef Breuer. Entre 1880 e 1882, Breuer tratou de Bertha Pappenheim, imortalizada na literatura clínica como Anna O. Ela apresentava um quadro dramático: tosse persistente, paralisias de membros, distúrbios de visão e fala, e estados de ausência mental.

Breuer fez uma descoberta acidental e revolucionária: ele percebeu que, quando Anna O. conseguia relatar a origem exata de um sintoma sob um estado de autohipnose, o sintoma desaparecia. Ela mesma apelidou esse processo de "talking cure" (cura pela fala) ou "chimney sweeping" (limpeza de chaminé). O caso de Anna O. forneceu a prova de que os sintomas histéricos tinham um sentido, eram "resíduos" de experiências traumáticas que não haviam sido devidamente processadas emocionalmente.

O Trauma e o Afeto Estrangulado

Freud, ao analisar o trabalho de Breuer, formulou a tese de que "os histéricos sofrem principalmente de reminiscências". Isso significava que o sintoma não era uma falha biológica, mas uma memória traumática que, por ser dolorosa demais para a consciência, acabava sendo reprimida.

No entanto, a memória reprimida não perdia sua força. Freud e Breuer propuseram que cada trauma traz consigo um "afeto" (uma carga emocional). Se essa emoção não pudesse ser expressa no momento do trauma (por vergonha, medo ou imposição social), ela ficava "estrangulada" e buscava uma saída alternativa. Na histeria, essa saída é a conversão: a energia mental é transformada em um fenômeno físico. No caso de Anna O., sua incapacidade de beber água (hidrofobia) foi curada quando ela conseguiu expressar a raiva e o nojo que sentiu ao ver o cachorro de sua dama de companhia bebendo em um copo, uma memória que ela havia sufocado.

A Divergência entre Freud e Breuer: A Sexualidade

A parceria entre os dois médicos começou a ruir quando Freud passou a observar que, na raiz de quase todos os conflitos histéricos, havia uma temática sexual ou uma fantasia erótica reprimida. Breuer, mais conservador, sentia-se desconfortável com essa ênfase. O encerramento do caso Anna O., inclusive, foi marcado por um episódio de "gravidez imaginária" (pseudociese), onde a paciente, em uma crise, afirmava estar grávida de Breuer, um fenômeno que hoje conhecemos como transferência erótica maciça, mas que na época assustou o médico.

Freud, por outro lado, mergulhou nesse abismo. Ele percebeu que a histeria não era apenas sobre traumas externos, mas sobre o conflito entre o desejo e a defesa. Para a psicanálise freudiana, a histérica é um sujeito atravessado por um desejo que ela não pode admitir como seu.

A Estrutura da Histeria: O Desejo e o Outro

Ao avançar para além de Breuer, a psicanálise lacaniana refinou o entendimento da histeria como uma posição subjetiva. A pergunta central da histérica não é sobre a doença, mas sobre a identidade: "O que é ser uma mulher?" ou "O que eu sou para o outro?".

A histérica frequentemente se coloca em uma posição de insatisfação. Ela busca um mestre, alguém que detenha o saber (como Anna O. buscou em Breuer), mas apenas para mostrar que esse mestre falha. Essa "manutenção do desejo como insatisfeito" serve para garantir que o desejo nunca morra. Se o outro (o mestre, o parceiro, o médico) desse a resposta definitiva, a busca terminaria, e para a estrutura histérica, o fim da busca é sentido como uma espécie de morte subjetiva.

O Corpo como Texto: A Conversão Moderna

Diferente do que muitos pensam, a histeria não desapareceu com o fim da era vitoriana; ela apenas mudou de linguagem. Na época de Breuer, as paralisias eram comuns porque o corpo era o principal meio de expressão reprimido. Hoje, a histeria manifesta-se em sintomas mais sutis e difusos, condizentes com a nossa cultura:

  • Fibromialgia e dores sem causa orgânica: Onde o sofrimento psíquico "vaza" para as articulações e músculos.

  • Crises de ansiedade: Manifestações de um afeto que não encontra palavras para ser nomeado.

  • Transtornos de imagem: Onde o corpo é moldado para capturar ou rejeitar o olhar do outro.

A Identificação Histérica

Um ponto fundamental observado por Freud é a facilidade com que a histérica se identifica com o desejo alheio. No famoso "sonho da bela açougueira", Freud explica como a paciente deseja algo (um salmão defumado) apenas para poder renunciar a ele, identificando-se com uma amiga que ela considera uma rival. Na histeria, o sujeito muitas vezes não sabe o que quer, então ele olha para o lado para ver o que o outro deseja, e passa a desejar aquilo, não pelo objeto, mas pela posição que o outro ocupa.

Conclusão: Da Hipnose à Associação Livre

O legado de Breuer e o sofrimento de Anna O. permitiram que Freud abandonasse a hipnose, que era uma forma de "sugestão" vinda de fora, em favor da associação livre. Na análise de uma estrutura histérica, o objetivo não é apenas eliminar o sintoma, mas permitir que o sujeito se aproprie de sua própria história.

A histeria nos ensina que o corpo não é apenas uma máquina biológica, mas um livro escrito com as tintas das nossas relações afetivas. Através da psicanálise, a histérica deixa de encenar seu sofrimento no corpo para começar a narrá-lo, transformando o "enigma do sintoma" em uma verdade subjetiva suportável.

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