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Para a psicanálise, o conceito de denegação (do alemão Verneinung) representa um dos mecanismos mais fascinantes da mente humana, pois marca o ponto exato onde o inconsciente e o pensamento consciente se encontram. Introduzido formalmente por Sigmund Freud em 1925, esse processo descreve a situação em que um sujeito formula um desejo, pensamento ou sentimento reprimido, mas o faz sob a condição de negá-lo. Em termos simples, é a maneira pela qual a verdade sobre o desejo de alguém emerge na consciência, mas "fantasiada" com um sinal de menos.
Diferente do recalque (onde o conteúdo é mantido totalmente inacessível), na denegação a ideia reprimida consegue vencer a barreira da censura e chegar ao intelecto. No entanto, o sujeito recusa-se a reconhecer-se naquela ideia. Freud exemplifica isso com o relato de um paciente que, ao descrever uma figura de um sonho, diz: "Você pergunta quem pode ser essa pessoa no sonho. Não é minha mãe". Para o psicanalista, essa negação é a prova de que a pessoa é, de fato, a mãe. O paciente retira a repressão intelectual, mas mantém a resistência afetiva; ele admite o conteúdo, mas não a sua propriedade sobre ele.
A denegação funciona como um substituto intelectual do recalque. É uma etapa evolutiva do aparelho psíquico, pois permite que o pensamento se liberte das limitações da repressão. Através do "não", o ego ganha a capacidade de manipular conteúdos que antes eram perigosos demais para serem pensados.
Este mecanismo revela uma distinção crucial entre dois tipos de julgamento: Julgamento de Atribuição: O desejo de decidir se algo é "bom" ou "mau", útil ou prejudicial ao ego; Julgamento de Existência: A capacidade intelectual de admitir que algo existe na realidade, independentemente de ser prazeroso ou não.
A denegação permite que o sujeito realize o segundo sem necessariamente aceitar o primeiro. É como se o indivíduo dissesse: "Eu admito que isso existe, mas não tem nada a ver comigo". É fundamental não confundir a denegação (Verneinung) com outros termos que muitas vezes são traduzidos como "recusa":
Denegação (Verneinung): Comum na neurose; o conteúdo é admitido intelectualmente, mas negado como verdade pessoal.
Renegação (Verleugnung): Típica do fetichismo/perversão; o sujeito percebe uma realidade (como a castração), mas age como se não a visse.
Foraclusão/Rejeição (Verwerfung): Típica da psicose; o conteúdo é radicalmente expulso do universo simbólico do sujeito, retornando "de fora" como alucinação.
Ou seja, a denegação é uma vitória parcial do inconsciente: o reprimido retorna à luz, mas o sujeito ainda precisa da máscara do "não" para suportar a sua visão.
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