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Para a psicanálise, a psicose não é apenas um "adoecimento mental" ou um desequilíbrio químico, mas uma das três grandes estruturas clínicas (ao lado da neurose e da perversão). Ela descreve um modo singular de o sujeito se organizar psiquicamente, de habitar a linguagem e de se relacionar com a realidade. Enquanto o neurótico duvida e o perverso desafia, o psicótico tem uma relação de certeza com o que lhe acontece, pois a sua estrutura é marcada por um mecanismo fundamental chamado foraclusão.
O Mecanismo Central: A Foraclusão do Nome-do-Pai
A grande contribuição para o entendimento moderno da psicose veio de Jacques Lacan, que sistematizou os conceitos de Freud. Lacan propôs que a psicose ocorre devido à foraclusão (do francês forclusion) do Nome-do-Pai.
No desenvolvimento infantil "normal" (neurótico), o Nome-do-Pai intervém como uma função simbólica que separa a criança da relação fusional com a mãe, introduzindo a Lei e a linguagem. Isso é o que a psicanálise chama de metáfora paterna. Quando essa função falha e não é inscrita no inconsciente, o sujeito fica privado do recurso simbólico que organiza o mundo.
Sem o Nome-do-Pai, o indivíduo não consegue se situar como um "sujeito desejante" dentro da cultura. O resultado é que a Lei não vem de dentro (como culpa ou moral), mas é sentida como algo que vem de fora, muitas vezes de forma invasiva e persecutória.
A Ruptura com a Realidade e o Retorno no Real
Uma das definições clássicas da psicose é a ruptura com a realidade. No entanto, a psicanálise explica que essa ruptura ocorre porque houve uma falha no Simbólico (a linguagem). Quando algo que não foi simbolizado pelo sujeito é "convocado" pela vida (como um trauma, uma grande responsabilidade ou uma perda), o sujeito não tem ferramentas mentais para lidar com isso.
O que foi foracluído do simbólico, então, retorna no Real. Esse "retorno" manifesta-se através das alucinações e dos delírios. Para a psicanálise, a alucinação não é um erro dos sentidos, mas uma percepção de algo que o sujeito não pôde integrar como pensamento. Se ele não consegue "falar" sobre sua angústia, a angústia fala "através" de vozes externas ou visões.
O Delírio como Tentativa de Cura
Diferente do que se possa imaginar, o delírio não é o problema central da psicose, mas sim uma tentativa de solução. Freud, ao analisar o caso do juiz Daniel Paul Schreber, percebeu que o delírio é um esforço do sujeito para reconstruir um mundo que desabou.
Quando o psicótico sofre o "surto" (o desencadeamento), o seu mundo torna-se um caos sem sentido. O delírio vem para dar uma explicação: "as vozes me perseguem porque eu sou um escolhido", ou "o governo instalou um chip em mim". Por mais doloroso que seja o conteúdo do delírio, ele serve para amarrar o sujeito à realidade novamente, criando uma lógica onde antes só havia o vazio.
Fenômenos Elementares: Alucinação e Eco de Pensamento
Na clínica da psicose, observamos os chamados fenômenos elementares. O mais comum é a alucinação auditivo-verbal, onde o sujeito ouve vozes que o comentam, o xingam ou o ordenam. Há também o "eco de pensamento", onde a pessoa sente que seus pensamentos estão sendo transmitidos para o mundo ou que todos sabem o que ela está pensando.
Isso acontece porque, na psicose, a fronteira entre o "eu" e o "outro" é frágil. Como não houve a mediação simbólica adequada, o sujeito pode se sentir invadido pelo gozo do Outro, sem defesas para manter sua privacidade psíquica. O corpo do psicótico é muitas vezes sentido como algo estranho, fragmentado ou sob controle de forças externas.
Tipos de Psicose: Paranoia, Esquizofrenia e Melancolia
Embora a estrutura seja a mesma (foraclusão), a psicose se manifesta de formas diferentes:
Paranoia: Marcada pelo delírio sistematizado. O mundo é interpretado através de uma lógica de perseguição ou grandeza. O paranoico é o "mestre da interpretação", encontrando significados ocultos em cada detalhe.
Esquizofrenia: Caracteriza-se por uma fragmentação maior da linguagem e do corpo. O discurso pode tornar-se incompreensível (salada de palavras) e o sujeito sofre com a sensação de desintegração física.
Melancolia: Uma forma grave de psicose onde o sujeito é "devorado" por um objeto perdido. Há um autodesprezo absoluto e uma identificação com o nada, levando a estados de catatonia ou risco severo de suicídio.
A Psicose Não Desencadeada e a Estabilização
É fundamental entender que uma pessoa pode ter uma estrutura psicótica e nunca "surtar". A psicanálise chama isso de psicose ordinária ou psicose não desencadeada. O sujeito pode levar uma vida normal através de "suplências", muletas psíquicas que mantêm o mundo no lugar, como um trabalho muito rígido, uma religião ou uma rotina obsessiva.
O objetivo do tratamento psicanalítico na psicose não é "trazer o sujeito para a razão" ou confrontar o delírio como se fosse uma mentira. O analista deve se colocar na posição de "secretário do alienado", ajudando o paciente a encontrar uma estabilização. Isso significa ajudar o sujeito a construir uma "metáfora de substituição" (o que Lacan chamou de Sinthome) que lhe permita viver em sociedade sem ser inundado pela angústia do Real.
Conclusão
A psicose, para a psicanálise, revela a fragilidade da nossa conexão com a realidade. Ela nos mostra que o mundo que habitamos é construído pela linguagem e que, quando essa construção falha, o ser humano precisa recorrer a criações extraordinárias, como o delírio, para sobreviver psiquicamente. Respeitar a psicose é reconhecer a dignidade de um sujeito que, diante do abismo, tenta desesperadamente inventar um lugar para si no mundo.
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