O que significa o Outro (Grande Outro) para a Psicanálise?

Para compreender o conceito de Grande Outro (escrito com "A" maiúsculo, do francês Grand Autre), é necessário mergulhar na complexidade da obra de Jacques Lacan. Este não é apenas um termo técnico, mas a espinha dorsal de como o sujeito se constitui, deseja e se comunica.
Diferente do "outro" (com "o" minúsculo), que representa o semelhante ou a imagem no espelho, o Grande Outro é uma alteridade radical. Ele é o lugar da linguagem, a ordem simbólica e a mediação necessária para que o ser humano deixe de ser um organismo biológico e se torne um sujeito da cultura.

A Distinção Fundamental: o outro (a) e o Outro (A)

Antes de definir o Grande Outro, precisamos entender o seu par dialético. Lacan utiliza as letras a (autre) e A (Autre) para evitar confusões semânticas.
  • O pequeno outro (a): Representa o eixo imaginário. É o nosso semelhante, a pessoa que vemos à nossa frente, o reflexo no espelho. É a base das relações de identificação, projeção, rivalidade e narcisismo. Quando você sente inveja de um colega ou se identifica com um personagem de filme, você está lidando com o pequeno outro.
  • O Grande Outro (A): Representa o eixo simbólico. Ele não é uma pessoa real, mas um lugar. É a "tesouraria dos significantes". É a cultura, a lei, a linguagem e as normas sociais que preexistem ao nascimento do indivíduo.

O Outro como Lugar da Linguagem

Lacan afirma que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem". Se isso é verdade, o inconsciente é, essencialmente, o discurso do Outro.
Imagine uma criança que nasce. Antes mesmo de emitir o primeiro choro, ela já foi "falada" pelos pais. Ela tem um nome, uma expectativa de gênero, um lugar na árvore genealógica. Esse "banho de linguagem" que nos precede é o Grande Outro. Nós não inventamos as palavras que usamos; nós as pegamos emprestadas do Outro para tentar expressar quem somos.

A Tesouraria dos Significantes

O Outro é o repositório de todos os símbolos. Para que uma palavra tenha sentido, ela precisa ser reconhecida por um sistema externo. Se eu invento uma língua que só eu falo, eu não sou um sujeito; eu estou fora do laço social. O Outro é o terceiro elemento que valida a comunicação entre duas pessoas.

O Desejo é o Desejo do Outro

Uma das frases mais famosas de Lacan é: "O desejo do homem é o desejo do Outro". Isso pode ser interpretado de três formas complementares, todas cruciais para entender o conceito:
  • Desejamos ser o objeto de desejo do Outro: A criança busca ser aquilo que falta à mãe (o Outro primordial), para ser amada e reconhecida.
  • Desejamos o que o Outro deseja: Nossos objetos de desejo são frequentemente moldados pelo que a cultura ou os nossos modelos valorizam. O marketing moderno, por exemplo, opera inteiramente no campo do Grande Outro, ditando o que "devemos" querer.
  • Desejamos a partir do lugar do Outro: O nosso próprio desejo é mediado pelos significantes que o Outro nos forneceu.
Exemplo Prático: Por que alguém busca uma carreira de prestígio? Muitas vezes, não é por uma inclinação biológica, mas para responder a uma demanda invisível do Grande Outro (a família, a sociedade, o status) que diz o que é ser "alguém na vida".

O Outro Primordial: A Função Materna

Nos primórdios do desenvolvimento psíquico, a mãe (ou quem exerce o cuidado) ocupa a posição de Grande Outro. Ela é a primeira mediadora do mundo. Quando o bebê chora, a mãe interpreta esse choro: "ah, ele está com fome" ou "ele quer colo".
Nesse momento, a mãe transforma um grito biológico em um significante. Ela dá sentido ao vazio do sujeito. No entanto, para Lacan, é fundamental que o sujeito perceba que esse Outro (a mãe) também é faltante. Ela também deseja coisas fora da relação com o bebê (o pai, o trabalho, outros interesses). Essa percepção da "falta no Outro" é o que permite ao sujeito não ser devorado pelo Outro e começar sua própria jornada de desejo.

O Registro do Simbólico e a Lei

O Grande Outro é sinônimo da Ordem Simbólica. Ele é a Lei que organiza a sociedade. Na teoria freudiana, isso se aproxima do conceito de Supereu, mas na visão lacaniana, é mais amplo.
O Outro é o que garante que o "sim" seja "sim" e o "não" seja "não". É a convenção social que permite que a vida em grupo seja possível. Sem o Grande Outro, cairíamos na psicose, um estado onde o código da linguagem é privado e a realidade simbólica se desintegra.

O Grande Outro não existe

Mais tarde em seu ensino, Lacan introduz uma nuance provocadora: "O Outro não existe".Isso não significa que a linguagem ou a sociedade não existam, mas sim que o Outro é incompleto. Não existe um "garante" último da verdade. Não existe um sentido final para a vida escondido em algum lugar. O Outro é barrado (A), o que significa que ele também possui uma falta, uma inconsistência. Aceitar que o Outro não tem todas as respostas é o objetivo final de uma análise.

O Outro na Contemporaneidade

Como o conceito de Grande Outro se aplica hoje? Vivemos em uma era onde as instituições tradicionais (Igreja, Estado, Família Patriarcal), que outrora encarnavam o Grande Outro de forma sólida, estão em crise.
  • Na Neurose: O sujeito sofre tentando agradar um Outro que ele imagina ser exigente e completo. Ele se pergunta obsessivamente: "Che cosa vuoi?" (O que queres de mim?).
  • Na Paranoia: O sujeito acredita que o Outro é uma figura malévola e todo-poderosa que o persegue ou o observa (o "Big Brother").
  • Na Pós-Modernidade: Com a "evaporação do pai", o Grande Outro parece ter se fragmentado. Em vez de uma Lei única, temos os algoritmos das redes sociais ou o imperativo do consumo, que atuam como novos lugares de endereçamento do nosso desejo.

A Ética da Psicanálise e o Grande Outro

O percurso de uma análise lacaniana envolve mudar a relação do sujeito com o Outro. No início, o paciente chega ao analista acreditando que este é o Sujeito Suposto Saber, uma personificação do Grande Outro que detém a verdade sobre o seu sofrimento.
Ao longo do processo, o analista deve "cair" dessa posição. O paciente descobre que o analista não tem a resposta e que o Grande Outro é, na verdade, um lugar vazio. Essa travessia permite ao sujeito:
  • Desidentificar-se: Deixar de ser apenas o que o Outro queria que ele fosse.
  • Assumir a sua falta: Reconhecer que a completude é impossível.
  • Responsabilizar-se pelo desejo: Se o Outro não existe como um guia infalível, o sujeito é livre (e condenado) a inventar seu próprio sentido.

Conclusão

Em suma, o Grande Outro é a dimensão sem a qual o ser humano não passaria de um animal. Ele é a estrutura que nos permite falar, prometer, mentir, amar e criar leis. Ele é a alteridade radical que nos habita e nos constitui.
O Grande Outro nos lembra de que nunca estamos "sós" no sentido estrito, pois carregamos conosco a linguagem e as expectativas de uma cultura. Mas é também entender que, para sermos verdadeiros sujeitos, precisamos aprender a lidar com o silêncio e com a falha desse mesmo Outro.

Sugestão de leitura sobre essa temática

O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise

Desde 1973, Jacques-Alain Miller vem lançando os 26 volumes de O Seminário, referente aos seminários ministrados por Lacan em Paris, de 1953 a 1980 – indispensáveis para o conhecimento integral da revolucionária leitura empreendida por Lacan da obra de Freud. Acompanhando de perto os lançamentos na França, a Zahar publica mais essa grande contribuição para o campo psicanalítico no Brasil.

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Autor

Sobre o Autor

Frederico Lima é escritor, psicanalista em formação contínua, especialista em Teoria Psicanalítica, doutor em Letras pela UFPB, com trabalhos publicados em Revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos.

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O conteúdo deste blog tem caráter informativo, não substituindo a análise pessoal ou supervisão, e não deve ser utilizado como meio para autodiagnósticos. Se estiver passando por um momento psíquico complicado, busque apoio presencial de um analista.