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Na psicanálise, o conceito de perversão não deve ser confundido com o juízo moral ou com a ideia de "maldade" do senso comum. Trata-se de uma das três estruturas clínicas fundamentais, ao lado da neurose e da psicose, que descreve uma forma específica de o sujeito se posicionar diante da lei, do desejo e da castração.
Enquanto a neurose é marcada pelo recalque e a psicose pela foraclusão (rejeição total da lei), a perversão é definida pelo mecanismo da denegação (ou verleugnung). Para entender essa estrutura, é preciso mergulhar na forma como o sujeito perverso lida com a falta e com a autoridade simbólica.
O Mecanismo da Denegação e o Fetiche
O ponto de virada para a constituição da perversão ocorre durante o desenvolvimento psicossexual, especificamente no enfrentamento da castração. Freud explica que a criança, ao perceber a diferença anatômica entre os sexos, confronta-se com a ideia de que o Outro (representado inicialmente pela mãe) não é onipotente; ele é "faltante".
O neurótico aceita essa falta (embora sofra com ela), e o psicótico a ignora. O perverso, por outro lado, opera em dois tempos: ele reconhece a falta, mas age como se ela não existisse. É o famoso "eu sei, mas mesmo assim...". Ele denega a castração criando um substituto que preencha esse vazio. Esse substituto é o fetiche.
O fetiche não é necessariamente um objeto físico (como um sapato ou tecido), embora possa ser. No sentido psicanalítico, o fetiche é qualquer coisa que o sujeito coloque no lugar da falta do Outro para evitar a angústia da castração. Ao fazer isso, o perverso se protege da ideia de que ele próprio possa ser limitado pela lei ou pelo desejo alheio.
O Perverso como Instrumento do Prazer do Outro
Diferente do neurótico, que vive mergulhado na dúvida e na culpa ("Será que eu fiz certo?", "O que o outro quer de mim?"), o perverso tem uma certeza absoluta sobre o que causa o seu prazer. No entanto, há um paradoxo aqui: Lacan aponta que o perverso não busca o seu próprio prazer de forma egoísta, mas se coloca como um instrumento para produzir o gozo no Outro.
O perverso desafia a Lei para demonstrar que ela é falha. Ele precisa de uma testemunha para o seu ato. O exibicionista, por exemplo, não busca apenas o prazer de se mostrar, mas a reação de choque ou horror da vítima. Essa reação confirma que ele conseguiu "atravessar" a barreira do outro, tornando-o um objeto de sua vontade.
A Relação com a Lei e o Desafio às Normas
Na clínica psicanalítica, a perversão é caracterizada por um desafio constante ao "Pai Simbólico" (a instância que impõe limites). O perverso não quer destruir a lei; pelo contrário, ele precisa que a lei exista para que ele possa transgredi-la. Sem a norma, o seu ato perde o sentido.
Enquanto o neurótico fantasia sobre o proibido, o perverso passa ao ato. Ele busca desmascarar a hipocrisia das normas sociais, agindo como se estivesse acima delas ou como se fosse o único que realmente sabe como as coisas funcionam. Ele se vê como o "executor" de uma verdade que os outros têm medo de encarar.
Perversão vs. Comportamento Perverso
É fundamental diferenciar a estrutura perversa do comportamento perverso. Um neurótico pode ter fantasias ou comportamentos sexuais que fujam da norma (fetiches, BDSM, etc.) sem que sua estrutura psíquica seja perversa. O que define a estrutura não é o ato sexual em si, mas a posição subjetiva:
A Ausência de Dúvida: O perverso raramente busca análise por conta própria, pois não sofre com o conflito interno ou com a culpa característica da neurose. Ele geralmente chega ao consultório por imposição da justiça ou de familiares.
O Desejo de Saber: O perverso acredita saber o que o Outro deseja. Ele não se pergunta "quem sou eu?", ele afirma "eu sou aquele que te faz gozar".
A Fetichização do Outro: O parceiro do perverso é frequentemente reduzido a um objeto, uma peça em um cenário montado para a satisfação de uma lógica rígida.
A Perversão na Sociedade Contemporânea
Muitos psicanalistas contemporâneos discutem se vivemos em uma era de "perversão generalizada". Em uma cultura que incentiva o consumo desenfreado e o "gozo a qualquer preço", as barreiras simbólicas que antes sustentavam a neurose parecem estar enfraquecendo.
Onde a lei é frágil, a perversão floresce. Vemos isso em comportamentos de manipulação social, na objetificação extrema do outro através das telas e na recusa em aceitar qualquer limite individual em prol do coletivo. O sujeito contemporâneo é empurrado a ser um "consumidor de fetiches", o que borra as fronteiras entre a estrutura clínica e o sintoma social.
Conclusão: O Desafio Clínico
Tratar a perversão é um dos maiores desafios para o psicanalista. Como o sujeito perverso tenta transformar o próprio analista em um objeto de seu jogo ou em uma testemunha de sua "superioridade", o manejo da transferência exige um rigor ético extremo.
O objetivo da análise não é "moralizar" o perverso, mas tentar fazer com que ele saia da posição de instrumento de gozo para a posição de sujeito desejante. É tentar introduzir uma fresta de dúvida onde só existe a certeza absoluta do fetiche.
A perversão na psicanálise é uma tentativa desesperada e engenhosa de negar a incompletude humana. É uma estrutura que nos ensina sobre os limites da lei e as complexas formas que o ser humano encontra para lidar com o abismo do desejo.
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