Este é um tema de extrema complexidade na clínica psicanalítica, pois a perversão desafia a própria estrutura do tratamento: a lei simbólica e a alteridade. Diferente da neurose, onde o sujeito sofre com a dúvida e o recalque, na perversão o sujeito busca a certeza e o desmentido da castração.
A ESTRUTURA DA TRANSFERÊNCIA NA PERVERSÃO E O LUGAR DO ANALISTA
Para compreender como o analista deve manejar a tentativa de ser colocado como cúmplice, é preciso primeiro entender a natureza da transferência na estrutura perversa. Freud, em seus textos clássicos, e posteriormente Lacan, indicaram que o perverso não se dirige ao analista como um "sujeito suposto saber" (típico da neurose), mas como um "objeto" ou alguém a quem ele deve "fazer saber".
Na perversão, a transferência é frequentemente estabelecida sob a égide do desafio. O sujeito perverso entra na análise não para descobrir algo sobre seu desejo inconsciente, já que ele se crê o detentor da verdade sobre o gozo, mas para subverter o dispositivo analítico. O manejo aqui exige que o analista não aceite o lugar de "Outro" que o perverso tenta lhe impor. O perverso tenta transformar o analista em um instrumento de seu próprio gozo.
Diferente do neurótico que busca a aprovação ou o amor do analista, o perverso busca a reação. Quando ele tenta colocar o analista como cúmplice, ele está, na verdade, tentando provar que o analista é tão "sujo" ou "falho" quanto qualquer outra pessoa, negando assim a função da Lei que o analista representa. O manejo inicial consiste em manter uma neutralidade que não seja passiva, mas sim uma "recusa ativa" em ocupar o lugar de espelho das fantasias do paciente.
A ARMADILHA DA COMPLICIDADE: O DESMENTIDO E A BUSCA POR VALIDAÇÃO
O sujeito perverso utiliza o mecanismo do desmentido (Verleugnung). Ele sabe que a lei existe, mas age como se ela não existisse. Quando ele relata seus atos ao analista, muitas vezes atos que beiram a ilegalidade ou a falta de ética, e busca o olhar de cumplicidade, ele está tentando arrastar o analista para dentro de seu sistema de desmentido.
Ser "cúmplice" significa, para o perverso, que o analista validou sua posição de exceção à regra. Se o analista ri de uma "esperteza" do paciente ou se cala de forma a parecer que aprova o comportamento abusivo, o tratamento acabou ali mesmo. O analista tornou-se um semelhante, um parceiro de crime, e perdeu a função de alteridade necessária para o processo analítico.
O manejo nesse ponto exige uma pontuação clínica precisa. O analista não deve ser o moralista que julga (o que daria ao perverso o prazer de ser a "vítima" da sociedade), nem o cúmplice que valida. A resposta deve ser dirigida à responsabilidade do sujeito. Se o paciente diz: "Nós sabemos que o mundo funciona assim, não é, doutor?", o analista deve devolver a questão: "O que o leva a crer que eu compartilho dessa visão?". É necessário quebrar o "nós" imaginário que o perverso tenta construir.
O ANALISTA COMO TESTEMUNHA: DO GOZO À PALAVRA
Além da cumplicidade, o perverso busca o analista como testemunha. No entanto, não é a testemunha da verdade histórica, mas a testemunha de sua "potência". Ele quer que o analista assista (através do relato) às suas conquistas sobre o Outro, como ele conseguiu enganar alguém ou como ele exerce seu poder.
Nesse cenário, o analista corre o risco de se tornar um voyeur. O relato perverso é frequentemente carregado de detalhes que visam chocar ou fascinar. Se o analista se mostra fascinado, ele está participando do circuito do gozo do paciente. O manejo clínico aqui é o de transformar a "cena" relatada em "palavra" analisada.
O analista deve atuar como uma testemunha da falta, e não da potência. O perverso tenta encobrir sua própria castração através desses relatos de poder. Ao ocupar o lugar de testemunha, o analista deve focar não no sucesso da manobra do paciente, mas no que ele está tentando evitar com aquilo. A pergunta clínica por trás do manejo é: "O que essa necessidade de testemunho revela sobre o vazio que o sujeito tenta preencher?".
O ATO ANALÍTICO FRENTE À TENTATIVA DE SEDUÇÃO E DESAFIO
O manejo da transferência na perversão exige uma firmeza que muitas vezes beira o ato autoritário, mas um autoritarismo do dispositivo, não da pessoa do analista. O perverso testa os limites constantemente: atrasa pagamentos, falta a sessões, tenta mudar as regras do contrato analítico. Essas são tentativas de transformar o analista em um objeto que ele pode manipular.
Manejar a tentativa de ser posto como cúmplice envolve o que Lacan chamou de "não ceder de seu desejo" enquanto analista. O desejo do analista não é o de curar ou de educar, mas o de fazer o sujeito confrontar sua própria verdade. Quando o perverso tenta seduzir o analista para uma posição de camaradagem, o manejo deve ser o corte.
O corte não é apenas silêncio; às vezes é uma intervenção verbal dura que reestabelece a distância necessária. Se o paciente tenta colocar o analista no lugar de testemunha de sua "superioridade", o analista deve apontar o caráter repetitivo e defensivo dessa postura. O manejo ético é manter a barra da lei simbólica erguida, lembrando ao paciente que, naquele espaço, as regras da análise são soberanas e não estão sujeitas às suas negociações habituais.
A ÉTICA DO DESEJO E A RESPONSABILIZAÇÃO DO SUJEITO
Por fim, o manejo culmina na questão da responsabilização. O sujeito perverso tende a desresponsabilizar-se de seus atos, colocando a culpa no Outro ou na "natureza das coisas". Ao tentar fazer do analista um cúmplice, ele busca dividir a responsabilidade: "Se você sabe e não diz nada, você também é parte disso".
O analista deve devolver a responsabilidade ao sujeito de forma sistemática. O manejo não deve focar no conteúdo moral do ato, mas na posição do sujeito em relação ao seu próprio desejo e às consequências dele. A técnica exige que o analista suporte o ódio que muitas vezes surge quando ele se recusa a ser cúmplice.
Quando o perverso percebe que não pode manipular o analista, ele pode tentar abandonar a análise. O sucesso do manejo está em conseguir manter o sujeito no tratamento sem aceitar o convite para a perversão mútua. É um equilíbrio delicado entre a acolhida clínica e o rigor ético, onde o analista se mantém como o ponto de resistência contra o qual o desmentido do perverso deve colidir para que algo da verdade do sujeito possa, enfim, emergir.
SUGESTÃO DE LEITURA SOBRE ESSA TEMÁTICA
Tempo e ato na Perversão: Ensaios Psicanalíticos
Flávio Ferraz
Um olhar incauto poderia considerar esse convite um desvario. Caracterizada pelo desvio, pela afronta, pela transgressão, por uma visão quase utilitária da alteridade, como poderia a perversão ser pensada sob uma dimensão ética?
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