POSIÇÃO ESQUIZOPARANOIDE: Entenda o Conceito de Melanie Klein

A obra de Melanie Klein representa uma das mais profundas revoluções no pensamento psicanalítico pós-freudiano. Ao focar no desenvolvimento emocional primitivo da criança, Klein desbravou o que chamamos de "pré-edípico", explorando os primeiros meses de vida e a formação do mundo interno. O conceito de posição esquizoparanoide não é apenas uma fase cronológica, mas uma configuração mental que define como lidamos com a ansiedade, o objeto e a nossa própria agressividade.



O CONCEITO DE POSIÇÃO E A DINÂMICA DO EGO PRIMITIVO

Diferente de Freud, que utilizava o termo "fase" para descrever o desenvolvimento psicossexual (oral, anal, fálica), Melanie Klein optou pelo termo posição. Esta escolha terminológica é fundamental para entender sua teoria. Enquanto uma "fase" sugere algo que é atravessado e deixado para trás, uma "posição" refere-se a uma constelação de defesas, ansiedades e relações de objeto que permanecem no psiquismo por toda a vida.

A posição esquizoparanoide ocorre, teoricamente, desde o nascimento até aproximadamente os quatro meses de idade. No entanto, em momentos de estresse, trauma ou insegurança na vida adulta, o indivíduo pode "regredir" ou reativar esses mecanismos.

Neste estágio inicial, o ego é imaturo, mas já possui uma função essencial: lidar com a pulsão de morte. Klein postula que, desde o nascimento, a criança sente uma tensão interna provocada por essa força autodestrutiva. Para não ser aniquilado por essa ansiedade, o ego utiliza mecanismos de defesa primitivos para organizar a experiência caótica do mundo externo e interno.

A CISÃO: O MUNDO DIVIDIDO ENTRE O BOM E O MAU

O termo "esquizo" na posição esquizoparanoide deriva da cisão (splitting), o mecanismo de defesa central deste período. Para o bebê, a realidade é fragmentada. Ele não consegue perceber a mãe (ou o cuidador) como uma pessoa total, com qualidades e defeitos. Em vez disso, a mãe é percebida como "objetos parciais".

  • O Seio Bom: Quando o bebê é alimentado, acalentado e sente prazer, ele projeta sua pulsão de vida no objeto. O seio torna-se o "seio bom", uma fonte de gratificação total, amor e segurança.
  • O Seio Mau: Quando o bebê sente fome, frio ou dor, e a gratificação não é imediata, ele sente uma frustração insuportável. Como ele não consegue processar que a mesma mãe que o alimenta é a que "falha", ele projeta sua pulsão de morte e agressividade para fora. O seio torna-se o "seio mau", um perseguidor que o ataca de volta.

Essa divisão é uma estratégia de sobrevivência psíquica. Ao separar drasticamente o "bom" do "mau", o bebê protege o objeto bom da contaminação pelo objeto mau. Se o bom e o mau se misturassem nessa fase de fragilidade, o ego sentiria que o amor seria destruído pelo ódio, o que geraria uma angústia catastrófica.

IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA E ANSIEDADE PERSEGUITÓRIA

A segunda parte do nome, "paranoide", refere-se à natureza da ansiedade predominante: a ansiedade persecutória. Como o bebê projeta seus próprios impulsos agressivos no objeto externo (o seio mau), ele passa a sentir que o mundo externo é hostil e perigoso. Ele teme ser destruído, invadido ou fragmentado por esses objetos que ele mesmo "carregou" com seu ódio.

Para lidar com isso, entra em jogo a identificação projetiva. Este é um processo complexo onde o indivíduo não apenas projeta sentimentos para fora, mas projeta partes do próprio self dentro do objeto para controlá-lo ou para se livrar de partes indesejadas.

  • No bebê: Ele projeta sua raiva no seio para "controlar" a fonte da dor.
  • Na patologia adulta: Pode se manifestar como uma paranoia intensa, onde a pessoa acredita que os outros possuem as intenções agressivas que, na verdade, pertencem a ela mesma.

Nessa dinâmica, a relação não é de troca, mas de controle e defesa. O foco não é o cuidado com o outro, mas a preservação do eu contra a aniquilação.

O PAPEL DA INVEJA PRIMITIVA

Melanie Klein introduziu um conceito controverso e brilhante em sua obra tardia: a inveja. Na posição esquizoparanoide, a inveja difere do ciúme. O ciúme requer três pessoas (eu, o outro e um terceiro) e é uma emoção da posição depressiva. A inveja, porém, é uma relação de dois: o bebê e o seio.

A inveja surge quando o bebê percebe que o seio possui tudo o que ele precisa para sobreviver (leite, calor, vida), mas esse objeto retém o que é bom para si ou não está disponível o tempo todo. Em vez de apenas desejar o que o seio tem, o impulso invejoso deseja estragar a fonte do prazer para que ela não cause mais o sentimento de inferioridade ou falta.

Se a inveja for muito intensa, ela dificulta a saída da posição esquizoparanoide, pois o bebê acaba atacando e "estragando" inclusive o seio bom, impedindo que ele introjete uma base sólida de segurança e amor.

A TRANSIÇÃO PARA A POSIÇÃO DEPRESSIVA E A INTEGRAÇÃO

A saúde mental, para a psicanálise kleiniana, depende da capacidade do ego de amadurecer e integrar esses fragmentos. Conforme o bebê cresce e as experiências positivas (seio bom) superam as negativas, ele começa a ganhar confiança na estabilidade do mundo.

Aos poucos, o bebê percebe algo revolucionário e doloroso: o seio que ele odiou e o seio que ele amou são, na verdade, a mesma coisa. O objeto parcial torna-se um objeto total. É aqui que a posição esquizoparanoide começa a ceder lugar à posição depressiva.

Nesta transição:

  • A ansiedade muda: De medo de ser destruído (persecutória), para o medo de ter destruído o objeto amado com o próprio ódio (ansiedade de perda/culpa).
  • A cisão diminui: O indivíduo passa a aceitar que as pessoas são ambivalentes, nem totalmente boas, nem totalmente más.
  • Surge a reparação: O desejo de consertar o dano causado pela agressividade.

Entretanto, é vital notar que ninguém "cura" a posição esquizoparanoide. Em situações de crise política, términos de relacionamento ou ambientes de trabalho tóxicos, é comum voltarmos a ver o mundo em "preto e branco", dividindo as pessoas entre aliados (heróis) e inimigos (vilões). Entender a posição esquizoparanoide é, portanto, entender a base da nossa intolerância à ambivalência e a nossa busca incessante por bodes expiatórios para as nossas próprias angústias.

SUGESTÃO DE LEITURA SOBRE ESSA TEMÁTICA

Introdução à obra de Melanie Klein

Baseado em conferências proferidas no Instituto de Psicanálise de Londres e posteriormente revisado, o volume organiza conceitos centrais que antes circulavam de forma fragmentada, conferindo coerência narrativa à obra de Klein.

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