| Por ROBERT HUFFSTUTTER - https://www.flickr.com/photos/huffstutterrobertl/6888951554/in/photolist-buKFhN-bHF4bn-bJi1KD, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=54850550 |
A questão da duração de um tratamento psicanalítico é um dos temas que mais gera curiosidade, resistência e, por vezes, críticas à disciplina criada por Sigmund Freud. Por que, em uma era de soluções instantâneas, aplicativos de meditação de cinco minutos e terapias focadas no alívio imediato de sintomas, a psicanálise mantém um percurso que pode durar anos ou até décadas? Para compreender essa temporalidade, é preciso mergulhar na natureza do objeto de estudo da psicanálise: o inconsciente.
A Diferença entre Sintoma e Causa
A principal razão para a longa duração é a distinção que a psicanálise faz entre o sintoma e o conflito psíquico subjacente.
O Sintoma como "Ponta do Iceberg"
Na medicina tradicional ou em abordagens comportamentais, o objetivo costuma ser a eliminação direta do sintoma (a insônia, o pânico, a fobia). Na psicanálise, o sintoma é visto como uma formação do inconsciente, uma solução improvisada que o sujeito encontrou para lidar com um sofrimento insuportável.
Se você apenas remove o sintoma sem tratar a causa, o psiquismo tende a criar um novo sintoma (fenômeno chamado de deslocamento). Descobrir o que esse sintoma está tentando "dizer" exige tempo, pois ele está enraizado em camadas profundas da história infantil e das fantasias do sujeito.
A Natureza do Inconsciente e a Temporalidade "Lógica"
O inconsciente não conhece o tempo cronológico. Para o nosso psiquismo, um trauma ocorrido aos cinco anos de idade pode estar tão ativo e presente hoje quanto algo que aconteceu ontem.
O Tempo Cronos vs. O Tempo Kairós
Enquanto o mundo exterior vive sob o tempo de Cronos (o relógio), a análise opera no tempo da elaboração. Jacques Lacan, psicanalista francês, introduziu o conceito de "tempo lógico", sugerindo que o tempo de uma análise depende do tempo que o sujeito leva para integrar uma verdade sobre si mesmo. Esse processo não pode ser apressado por um protocolo externo; ele depende do ritmo singular de cada analisante.
A Resistência: O Guardião do Sofrimento
Pode parecer paradoxal, mas o ser humano oferece uma resistência feroz à mudança, mesmo quando essa mudança significa parar de sofrer.
Freud descobriu que existe um "ganho secundário" na doença. O neurótico, de certa forma, se apega ao seu sofrimento porque ele é familiar e define sua identidade. Romper com esses padrões repetitivos (a compulsão à repetição) exige um trabalho de "formiguinha".
A resistência se manifesta de várias formas: o silêncio na sessão, o esquecimento de sonhos, os atrasos ou a intelectualização excessiva. O analista precisa de tempo para identificar essas resistências e ajudar o paciente a atravessá-las sem que o ego se sinta agredido e se feche ainda mais.
O Estabelecimento e o Manejo da Transferência
A psicanálise ocorre através da transferência. Este é o processo pelo qual o paciente projeta no analista sentimentos, desejos e expectativas que originalmente pertenciam às figuras de autoridade de sua infância (geralmente os pais).
Construindo o Vínculo
Para que o paciente se sinta seguro o suficiente para falar sobre seus desejos mais inconfessáveis, traumas sexuais ou fantasias agressivas, é necessário um vínculo de confiança absoluta. Esse vínculo não nasce no primeiro mês.
Muitas vezes, os primeiros anos de uma análise são dedicados apenas à construção dessa "estrada" (a transferência) por onde a verdade do inconsciente poderá circular mais tarde. Sem a transferência sólida, qualquer interpretação do analista será recebida apenas como um conselho intelectual e não produzirá mudança estrutural.
A Reedição da História Infantil
A psicanálise não é apenas uma "limpeza" de pensamentos negativos; ela é uma reedição da história. Durante o processo, o analisante não apenas recorda o passado, ele o revive na presença do analista.
Esse processo de "recordar, repetir e elaborar" (título de um famoso artigo de Freud) é necessariamente lento porque envolve a desconstrução de crenças que foram solidificadas ao longo de 20, 30 ou 40 anos de vida. Não se muda a estrutura da personalidade com a mesma velocidade com que se baixa um novo software no computador.
A Ética do Desejo vs. A Tirania da Eficácia
Vivemos em uma sociedade que exige resultados rápidos para que o indivíduo volte a ser "produtivo". A psicanálise, por outro lado, possui uma ética diferente: a ética do desejo.
O objetivo não é apenas adaptar o sujeito à sociedade ou torná-lo um funcionário mais eficiente, mas sim fazer com que ele descubra o que realmente deseja, para além das expectativas dos pais, do cônjuge ou do mercado de trabalho. Essa descoberta é um processo de desalienação. Despir-se das camadas de "quem os outros querem que eu seja" é uma tarefa hercúlea que demanda tempo e persistência.
A Neuroplasticidade e a Mudança Psíquica
Embora a psicanálise seja uma "cura pela fala", hoje sabemos, através da neurociência, que mudanças profundas no comportamento e na regulação emocional correspondem a mudanças nas conexões neurais.
A psicoterapia de longo prazo promove alterações estruturais no cérebro, especialmente em áreas ligadas à regulação de afetos e ao autoconhecimento. Essas mudanças biológicas e psíquicas ocorrem através da repetição e da ressignificação constante, o que justifica a frequência das sessões e a extensão do tratamento.
Quando a Análise Termina?
Diferente de um curso de inglês, a psicanálise não tem uma "formatura" com data marcada. Freud falava em "Análise Terminável e Interminável".
Uma análise pode chegar ao fim quando:
Os sintomas que levaram o sujeito ao consultório foram significativamente reduzidos ou ressignificados.
O sujeito consegue lidar melhor com as angústias inerentes à vida (o luto, a perda, a falta).
Houve uma mudança na forma como o sujeito se relaciona com seu desejo e com os outros.
Muitas pessoas optam por continuar o processo mesmo após a resolução do problema inicial, pois descobrem na análise uma ferramenta de autoconhecimento e de expansão da vida que consideram valiosa demais para interromper.
Conclusão
A demora na psicanálise não é uma falha do método, mas uma consequência da sua profundidade. Trata-se de um respeito ao tempo humano, que é subjetivo e complexo. Em um mundo que nos pressiona a sermos rápidos e superficiais, a psicanálise oferece o luxo da lentidão, o direito de investigar, com cuidado e rigor, o mistério de quem somos.
O investimento de tempo em uma análise é, em última análise, um investimento na liberdade. Liberdade para não ser mais escravo de padrões inconscientes e para escrever a própria história com mais consciência e menos repetição dolorosa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário