A distinção entre acting-out perverso e acting-out neurótico não é apenas uma questão de comportamento observável, mas de estrutura psíquica, posição subjetiva e função do ato dentro da economia do sujeito.
A expressão acting-out tornou-se um conceito-chave na psicanálise para designar atos que emergem como forma de expressão inconsciente, frequentemente em substituição à palavra. Embora o termo seja o mesmo, sua função e seu significado variam profundamente conforme a estrutura psíquica do sujeito. Assim, um acting-out em um sujeito neurótico não tem o mesmo valor clínico que um acting-out em um sujeito perverso.
Estrutura psíquica e posição subjetiva: o ponto de partida fundamental
A primeira distinção entre acting-out perverso e acting-out neurótico não está no ato em si, mas na estrutura psíquica que o sustenta.
A estrutura neurótica
O neurótico, seja histérico, obsessivo ou fóbico, organiza sua vida psíquica a partir da castração simbólica. Isso significa que ele reconhece, ainda que inconscientemente, a falta, o limite, a impossibilidade de completude.
Essa falta é o motor de sua angústia, de seus sintomas e também de seus acting-outs.
No neurótico, o acting-out costuma surgir como:
- uma tentativa de chamar o Outro a decifrar algo;
- um pedido de interpretação;
- um apelo ao reconhecimento;
- uma forma de expressar um conflito interno que não encontrou simbolização.
O neurótico sofre com o ato. Ele não o vive como triunfo, mas como algo que o ultrapassa.
A estrutura perversa
O perverso, por outro lado, organiza sua subjetividade a partir da negação da castração. Ele não aceita a falta como constitutiva e tenta, por meio do ato, desmentir o limite.
O acting-out perverso, portanto, não é um pedido de interpretação, mas um desafio ao Outro.
Ele funciona como:
- uma demonstração de poder;
- uma tentativa de controlar o desejo do Outro;
- uma encenação destinada a provar que a lei pode ser burlada;
- uma forma de gozo que se realiza no próprio ato.
Enquanto o neurótico sofre com o ato, o perverso goza com ele.
O ato como expressão da estrutura
A grande chave aqui é:
o mesmo comportamento pode ser neurótico ou perverso dependendo da estrutura do sujeito.
Por exemplo:
- Um furto pode ser um acting-out neurótico (um pedido de olhar) ou perverso (um desafio à lei).
- Uma relação sexual impulsiva pode ser um acting-out neurótico (busca de amor) ou perverso (uso do outro como objeto).
O ato não define a estrutura; a estrutura define o ato.
A função do Outro: apelo versus desafio
Outro eixo essencial para diferenciar os dois acting-outs é a relação com o Outro, entendido como o campo simbólico, a lei, o olhar, o lugar do desejo.
Acting-out neurótico: apelo ao Outro
No acting-out neurótico, o sujeito tenta dizer algo ao Outro.
É um ato que funciona como mensagem.
O neurótico age porque:
- não consegue simbolizar algo;
- não consegue dizer algo diretamente;
- precisa que o Outro interprete seu ato.
O ato é uma forma de comunicação.
Ele é dirigido ao Outro, mesmo que o sujeito não saiba disso.
Exemplos clínicos:
- a adolescente que se envolve em situações de risco para ser “vista” pelos pais;
- o obsessivo que comete um erro no trabalho para provocar uma reação do chefe;
- a histérica que se coloca em situações dramáticas para suscitar cuidado.
O acting-out neurótico é sempre um pedido, ainda que inconsciente.
Acting-out perverso: desafio ao Outro
No acting-out perverso, o sujeito não apela ao Outro, ele o provoca.
O ato é uma forma de mostrar ao Outro que ele não tem poder.
O perverso age para:
- desmentir a lei;
- expor a inconsistência do Outro;
- colocar o Outro em posição de voyeur;
- produzir gozo no próprio ato de transgressão.
O ato não é um pedido, mas uma afirmação.
Não é comunicação, mas demonstração.
Exemplos clínicos:
- o exibicionista que se mostra para provocar choque;
- o pedófilo que desafia a lei e a moral;
- o sádico que transforma o Outro em objeto de sua cena.
O acting-out perverso é uma encenação destinada a capturar o Outro.
O lugar do olhar
Lacan destaca que o acting-out envolve o olhar do Outro.
Mas:
- no neurótico, o olhar é buscado como reconhecimento;
- no perverso, o olhar é manipulado como instrumento de gozo.
Essa diferença é decisiva na clínica.
A relação com a lei e a castração: submissão, conflito ou desmentido
A terceira diferença fundamental está na relação com a lei simbólica.
O neurótico e a lei
O neurótico reconhece a lei, mas sofre com ela.
Ele vive em conflito com o limite, mas não o nega.
Seu acting-out expressa:
- culpa;
- angústia;
- ambivalência;
- conflito entre desejo e proibição.
Mesmo quando transgride, o neurótico sente o peso da transgressão.
O perverso e a lei
O perverso não vive em conflito com a lei, ele a desmente. Ele não a reconhece como limite simbólico, mas como obstáculo contingente.
Seu acting-out expressa:
- triunfo;
- gozo na transgressão;
- ausência de culpa;
- manipulação da lei como parte da cena.
O perverso não sofre com o ato; ele se realiza nele.
A castração como eixo diferenciador
A castração simbólica é o ponto de corte:
- No neurótico, ela é reconhecida e causa angústia.
- No perverso, ela é negada e causa gozo.
O acting-out é uma expressão direta dessa posição subjetiva.
A relação com o desejo e o gozo: conflito versus encenação
Aqui entramos no coração da diferença clínica: a economia libidinal.
Acting-out neurótico: conflito entre desejo e lei
O neurótico vive dividido entre:
- o desejo inconsciente;
- a lei interna;
- a culpa;
- a necessidade de reconhecimento.
Seu acting-out é uma tentativa de resolver esse conflito, mas de forma fracassada.
Ele age porque não consegue simbolizar o que deseja.
O ato é uma descarga, mas também um pedido de interpretação.
Acting-out perverso: gozo na cena
O perverso não vive conflito entre desejo e lei.
Ele organiza sua vida psíquica para encenar uma cena que lhe permita gozar.
O acting-out perverso é:
- uma montagem;
- uma teatralização;
- uma coreografia destinada a produzir gozo;
- uma forma de capturar o Outro como cúmplice ou testemunha.
O perverso não quer resolver conflito, ele quer sustentar a cena.
O objeto e o Outro
No neurótico:
- o Outro é desejado;
- o objeto é perdido;
- o sujeito sofre com a falta.
No perverso:
- o Outro é manipulado;
- o objeto é instrumentalizado;
- o sujeito goza com a cena.
Essa diferença aparece de forma cristalina no acting-out.
Indicadores clínicos diretos: como diferenciar na prática
Agora chegamos ao ponto mais prático: quais são os indicadores clínicos que permitem diferenciar um acting-out perverso de um acting-out neurótico?
Indicadores do acting-out neurótico
Indicadores do acting-out perverso
Conclusão
A distinção entre acting-out perverso e acting-out neurótico não está no comportamento em si, mas na estrutura psíquica, na função do ato, na relação com o Outro, na posição diante da lei e na economia do desejo e do gozo.
Em resumo:
O neurótico age porque sofre.
O perverso age porque goza.
O neurótico pede interpretação.
O perverso desafia o Outro.
O neurótico reconhece a lei e sofre com ela.
O perverso desmente a lei e triunfa sobre ela.
O neurótico busca reconhecimento.
O perverso busca encenar sua cena.
Essas diferenças são fundamentais para a direção do tratamento, para a leitura clínica e para a compreensão profunda do sujeito.
Sugestão de leitura sobre essa temática
A perversão e a psicanálise
Luis Izcovich
A perversão, um dos conceitos mais importantes da psicanálise, ainda suscita muitas dúvidas e discussões. Questões como “os perversos são analisáveis?” ou “existem mulheres perversas?” são objeto de debate.
Adquirir na Amazon