Ájax Telamônio era filho de Telamão, rei da ilha de Salamina, e de Periboia, sendo neto de Éaco e bisneto do próprio Zeus. Por essa linhagem ilustre, o herói salamínio trazia consigo um sangue nobre e a herança de uma dinastia marcada pelo vigor físico e pela proximidade com o divino. Seu pai fora companheiro de Héracles em expedições anteriores, e a lenda narra que o próprio Héracles teria envolvido o jovem Ájax em sua pele de leão de Nemeia, rogando a Zeus que concedesse ao menino um corpo invulnerável como o couro do monstro e uma força equivalente à sua. Contudo, a invulnerabilidade de Ájax não era absoluta, pois o local onde a aljava de Héracles cobria a pele de leão permaneceu como seu único ponto vulnerável, prefigurando, assim como no caso de Aquiles, a efemeridade implícita mesmo na maior das compleições físicas.
Na Guerra de Troia, Ájax Telamônio destacou-se devido ao seu vigor defensivo, da compostura inabalável e da coragem desprovida de artifícios. Na Ilíada, ele é retratado como o mais forte, colossal e impressionante guerreiro entre todos os aqueus que aportaram no litoral troiano, superado em habilidade marcial e velocidade apenas por Aquiles. Ao contrário de outros heróis que dependiam de conselhos astutos ou de intervenções divinas diretas para sobressair-se nos combates, Ájax caracterizava-se pela autossuficiência. Seu equipamento mítico tornou-se emblemático na iconografia arcaica: um imenso escudo feito de sete camadas de couro de touro recobertas por uma chapa de bronze, estrutura tão pesada e imponente que se assemelhava a uma muralha inexpugnável.
A atuação de Ájax no conflito foi marcada por momentos cruciais de preservação da causa grega. Quando Aquiles se retira da batalha em razão de sua contenda com Agamêmnon, os troianos, liderados por Heitor, desferem uma investida avassaladora que ameaça incendiar as naus aqueias ancoradas na praia. É Ájax Telamônio quem assume o comando do exército em momentos de desespero iminente, agindo como maior defensor dos gregos. Em um duelo épico narrado no canto VII da Ilíada, Ájax e Heitor enfrentam-se ao longo de um dia inteiro sem que haja um vencedor definitivo, resultando na troca respeitosa de presentes entre os dois adversários ao término da peleja: Heitor presenteia Ájax com sua espada adornada com tachas de prata, e Ájax concede ao líder troiano seu cinturão purpúreo. Mais tarde, essa mesma troca revelaria um caráter trágico e desastroso para ambos.
O auge do desespero e do heroísmo de Ájax ocorre durante a batalha pelas naus e, subsequentemente, na disputa pelo corpo de Pátroclo. Protegendo a pálida carcaça do companheiro tombado, o filho de Telamão sustenta sozinho o ataque de dezenas de inimigos, desferindo golpes devastadores e impedindo que a armadura e o cadáver de Pátroclo caiam em mãos troianas. Diante da escuridão profunda que Atena lança sobre o campo de batalha para estagnar o combate, Ájax profere uma das mais célebres súplicas da literatura clássica, rogando a Zeus não a salvação de sua vida, mas a clareza da luz para que possa lutar e morrer enxergando seus opositores.
Entretanto, o mito de Ájax Telamônio ganha contornos dolorosos no período que se segue à morte de Aquiles. Instituído o julgamento para determinar quem herdaria as armas de filho de Peleu, confeccionadas pelo deus Hefesto, a disputa concentrou-se entre Ájax e Odisseu. Ájax argumentava com base na sua bravura insuperável e em seus feitos diretos no campo de batalha, enquanto Odisseu recorria à sua retórica persuasiva, à sua astúcia e à utilidade de suas estratégias para a vitória final do exército. Sob a influência de Atena, os líderes aqueus julgaram a disputa em favor de Odisseu.
Sentindo-se profundamente desonrado e tomado pela fúria de ver sua coragem preterida em favor da eloquência política, Ájax concebeu a intenção de degolar os comandantes gregos durante a noite. Contudo, a deusa Atena interveio diretamente em sua mente, acometendo-o de um delírio avassalador. Em seu estado de desvario, o herói confundiu os rebanhos de gado e ovelhas dos gregos com os próprios chefes militares aqueus, massacrando os animais e torturando os carneiros como se fossem Agamemnon, Menelau e Odisseu. Ao recobrar a lucidez e constatar a extensão de sua degradação mental e da vergonha que cobria seu nome, Ájax compreendeu que sua honra heroica foi manchada. Impossibilitado de retornar a Salamina diante de seu pai sem o triunfo esperado, e recusando-se a viver em uma existência destituída de glória, o herói dirige-se a um local isolado da praia troiana e crava no próprio peito a espada que recebera de Heitor, cometendo suicídio. Esse episódio foi imortalizado pelo dramaturgo Sófocles na tragédia intitulada Ájax, obra que explora a transição dolorosa entre a antiga ética aristocrática e guerreira e a nova ordem social pautada pela reflexão política.
Paralelamente à figura do filho de Telamão, a mitologia grega registra a existência de Ájax Oileu, reinante sobre os lócrios e filho do rei Oileu. Diferenciando-se sensivelmente do seu homônimo em estatura física e em hábitos marciais, Ájax, o Menor, destaca-se pela sua agilidade prodigiosa no manejo da lança e pela sua velocidade excepcional na corrida, sendo superado nesse quesito apenas por Aquiles. Ele combate frequentemente ao lado do Telamônio na Ilíada, formando uma dupla temível apelidada de os dois Ájaces, atuando em perfeito sincronismo tático nos momentos de maior pressão militar.
Apesar de sua destreza guerreira, o destino de Ájax Oileu é marcado pela impiedade e por transgressões graves contra a ordem divina. Durante o saque de Troia, no momento do colapso definitivo da cidade, a princesa e profetisa Cassandra buscou refúgio no templo da deusa Atena, abraçando a estátua sagrada da divindade em busca de proteção inviolável. Desrespeitando o caráter sagrado do santuário e as leis universais do asilo religioso, Ájax Oileu arrastou Cassandra violentamente do altar e a violentou. A estátua da deusa, de acordo com as narrativas mitográficas, teria virado os olhos em direção ao céu para não presenciar tamanha profanação.
A fúria de Atena contra o sacrilégio cometido pelo rei dos lócrios abateu-se sobre a frota grega durante a jornada de regresso à pátria. Ao navegar de volta para a Grécia, a nau de Ájax Oileu foi despedaçada por tempestades violentas desencadeadas pela deusa com a colaboração do deus dos mares, Posídon. O herói lócrio conseguiu emergir das águas e escalar um rochedo escarpado no mar, conhecido como as rochas Giras, onde zombou abertamente dos deuses, afirmando que nem mesmo as divindades olímpicas conseguiriam afogá-lo. Em resposta à sua hýbris, Posídon golpeou o rochedo com seu tridente, fendendo a rocha ao meio. A parte sobre a qual Ájax se apoiava despencou nas profundezas do oceano, afogando o guerreiro.
Referências Bibliográficas
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Comprar na AmazonGRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
Comprar na AmazonHOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço.1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Comprar na AmazonKURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. Tradução de Trajano Vieira. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
Comprar na AmazonSÓFOCLES. Ájax. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2022.
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