18/08/2026

Quem é Aquiles (Ἀχιλλεύς) na Mitologia Grega?

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Pintura representando Tétis dando a Aquiles suas armas, por Giulio Romano, século XVI

Na tradição clássica, Aquiles é o filho de Peleu, rei dos mirmidões na região da Ftia, e de Tétis, uma imortal nereida do mar. Essa dupla natureza faz dele um semideus, situado exatamente no paralelo entre a fragilidade dos homens e a força inabalável das divindades.

O mito que envolve o seu nascimento e a sua infância reflete o esforço constante da mãe imortal em livrar o filho do destino mortal reservado a todos os homens. Para alcançar esse objetivo, Tétis teria mergulhado o recém-nascido nas águas sagradas do rio Estige. No entanto, ao segurá-lo firmemente pelo calcanhar, impediu que a água mística banhasse essa específica parte do corpo. Essa única vulnerabilidade física tornou-se o elemento definitivo de sua condição humana. Mais do que um simples detalhe, o famoso calcanhar simboliza a impossibilidade de o homem escapar totalmente de sua mortalidade. Além desse rito ritualístico, a formação de Aquiles ocorreu sob os cuidados do sábio centauro Quíron e do preceptor Fênix, que o instruíram na arte militar, na oratória, na caça e no domínio das paixões. Ao lado dele cresceu Pátroclo, seu companheiro mais próximo e figura fulcral no desenrolar de sua trágica jornada.

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A Educação de Aquiles, por James Barry, 1772

Sua história ganha maior destaque na Ilíada, o poema épico atribuído a Homero. A obra não narra toda a Guerra de Tróia, mas foca deliberadamente em poucas semanas do décimo ano do conflito, tendo como eixo condutor a fúria irrefreável do herói. 

Canta, ó Musa, a ira de Aquiles, filho de Peleu,

que fatal gerou para os gregos dores infinitas

e atirou ao Hades tantas almas valentes

de heróis, entregando seus corpos como presa aos cães

e a todas as aves de rapina — e cumpria-se a vontade de Zeus —,

a partir do momento em que pela primeira vez se separaram,

após uma contenda, o filho de Atreu, senhor de homens, e o divino Aquiles.

Proêmio do Canto I da Ilíada de Homero

Logo nos versos iniciais do épico, o poeta invoca a musa para cantar a ira de Aquiles, uma raiva devastadora desencadeada pela afronta do rei Agamêmnon. Quando Agamêmnon exige a escrava Briseis como compensação por ter de devolver sua própria cativa, ele fere gravemente a honra e o prestígio de Aquiles. Sentindo-se desrespeitado no valor de seu sacrifício, o herói decide se retirar das batalhas junto com seus temíveis mirmidões. Essa decisão desestabiliza completamente as forças gregas, demonstrando que, sem o heroísmo e a presença militar de Aquiles, os aqueus estavam fadados à derrota no cerco às muralhas troianas.

O isolamento de Aquiles e a recusa reiterada em aceitar presentes e desculpas do exército revelam a intransigência de sua personalidade e a profundidade de um código ético centrado no reconhecimento público. O herói grego movia-se por uma profecia fatalista revelada por sua mãe: ele poderia escolher entre uma vida longa, tranquila e sem glória na sua terra natal, ou uma vida curta na Guerra de Tróia, mas coroada por uma glória imperecível que perpetuaria seu nome através de gerações. Escolher Tróia significava aceitar a morte prematura em troca da imortalidade poética. Portanto, quando Agamêmnon desvaloriza o seu papel na guerra, Aquiles questiona o próprio sentido dessa escolha heroica e o preço exigido pelos deuses e pelos reis.

A virada decisiva no comportamento do personagem ocorre quando a guerra se aproxima do acampamento das naus gregas. Temendo a destruição total de suas tropas, Pátroclo implora a Aquiles permissão para vestir a armadura do herói e liderar os mirmidões ao campo de batalha para repelir os investidores troianos. Aquiles consente, mas o plano culmina na trágica morte de Pátroclo às mãos de Heitor, o príncipe e principal protetor de Tróia. O choque da perda transforma a raiva política de Aquiles em um luto avassalador e em uma fome insaciável de vingança. Abandonando seu ressentimento contra Agamêmnon, ele veste a nova e gloriosa armadura forjada pelo deus Hefesto e retorna ao combate como uma força destrutiva sem precedentes, personificando a fúria implacável que devora tudo ao seu redor.

O ápice dessa escalada é o duelo mortal entre Aquiles e Heitor fora dos muros de Tróia. Aquiles mata o rival e, cego pela dor e pela violência, ultraja sistematicamente o cadáver de Heitor, arrastando-o preso à sua carruagem ao redor do acampamento grego e negando-lhe os ritos fúnebres sagrados. Essa conduta desmedida viola as leis humanas e divinas, mostrando um herói consumido pela selvageria e desprovido de compaixão. Contudo, a iluminação humana de Aquiles ocorre no comovente encontro final do poema, quando o idoso rei Príamo, pai de Heitor, se infiltra secretamente na tenda de Aquiles para suplicar pelo corpo do filho. Diante das lágrimas do velho rei, que lhe recordam o próprio pai Peleu, Aquiles reconhece a tragédia compartilhada da existência humana. Ele abandona a brutalidade, chora ao lado de Príamo e devolve o corpo do príncipe para que receba as devidas honras fúnebres. É nesse gesto de empatia e reconciliação que o herói atinge sua verdadeira maturidade moral.

A trajetória de Aquiles se encerra antes mesmo da queda definitiva de Troia. Conforme anunciado pelos fados e pelas profecias, ele cai morto ao ser atingido no seu calcanhar por uma flecha disparada por Páris, guiada ou envenenada pelo deus Apolo. Mesmo na morte, sua imagem continua a circular, reaparecendo na Odisseia durante a descente de Odisseu ao Hades, onde a alma de Aquiles confessa preferir ser o mais humilde dos servos na terra dos vivos a governar sobre todos os mortos.

Referências Bibliográficas

COMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Garnier, 2025.

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NUNES, Carlos Alberto. Ilíada. 1. ed. Campinas-SP: Sétimo Selo, 2022.

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VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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