Para Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, a libido representa a expressão dinâmica, na vida psíquica, da pulsão sexual. Trata-se de uma energia quantificável, embora não mensurável por instrumentos físicos, que se desloca, se investe e se transforma ao longo do desenvolvimento do sujeito. O conceito de libido é o fio condutor que permite entender desde a formação da personalidade até a etiologia das neuroses e a natureza dos laços sociais.
A Natureza da Libido e a Teoria das Pulsões
A libido é a energia das pulsões que têm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra "amor": amor sexual, amor-próprio, amor de pais e filhos, amizade e até o amor por objetos concretos ou ideias abstratas. Freud introduz essa força motriz para explicar como o aparelho psíquico lida com as exigências internas de satisfação. Diferente do instinto (Instinkt), que possui um objeto fixo e um objetivo predeterminado biologicamente, a pulsão (Trieb) é uma "exigência de trabalho" imposta ao psiquismo devido à sua ligação com o corpo. A libido é a face energética dessa exigência.
No início de sua obra, Freud estabeleceu um dualismo pulsional entre as pulsões sexuais (libido) e as pulsões de autoconservação (ou pulsões do ego). Enquanto as pulsões de autoconservação visam a manutenção da vida orgânica, a libido é plástica, mutável e capaz de se fixar em diversos objetos. Com o avanço da teoria, especialmente em 1920 com a obra "Além do Princípio do Prazer", Freud reformula esse dualismo para o conflito entre Eros (pulsão de vida, movida pela libido) e Thanatos (pulsão de morte). Nesse novo contexto, a libido assume a função primordial de neutralizar a pulsão de morte, unindo substâncias vivas em unidades cada vez maiores e garantindo a continuidade da existência através da ligação de energia.
A característica fundamental da libido é a sua viscosidade e mobilidade. Ela pode ser retirada de um objeto (desinvestimento) e direcionada a outro (reinvestimento), ou até mesmo retornar para o próprio ego. Esse movimento é o que define a economia psíquica. Quando a libido encontra barreiras para sua satisfação no mundo externo, ela pode sofrer um processo de regressão, retornando a pontos de fixação da infância, o que constitui a base dos sintomas neuróticos. O sintoma, portanto, é uma forma de satisfação substitutiva de uma libido que não encontrou escoamento na realidade.
O Desenvolvimento Libidinal e a Sexualidade Infantil
Um dos pontos mais revolucionários e polêmicos da psicanálise foi a afirmação de que a libido não surge apenas na puberdade, mas está presente desde o nascimento através da sexualidade infantil. Freud descreve a libido como uma força que percorre diferentes zonas erógenas do corpo, organizando o desenvolvimento psíquico em fases sucessivas: oral, anal, fálica e, após o período de latência, a fase genital. Cada fase representa uma forma distinta de organização da libido e de relação com o objeto.
Na fase oral, a libido está concentrada na mucosa da boca; o ato de sugar não visa apenas a nutrição, mas a obtenção de um prazer organal que é a primeira manifestação da pulsão sexual. Na fase anal, a zona de investimento desloca-se para a função excretora, onde o controle dos esfíncteres torna-se o palco das tensões entre o desejo do indivíduo e as exigências da cultura. A fase fálica é o ápice do desenvolvimento infantil, onde a libido se volta para os órgãos genitais e o Complexo de Édipo se estabelece. Aqui, a libido encontra seu primeiro grande conflito estruturante: o desejo pelo objeto primordial (a mãe) e a interdição representada pela função paterna (castração).
A forma como a libido atravessa essas etapas determina a estrutura da personalidade. Se houver uma carga excessiva de libido em determinada fase (fixação), o indivíduo manterá uma tendência inconsciente de buscar aquele tipo específico de satisfação ao longo da vida. A sublimação é outro destino possível para a libido: em vez de buscar a satisfação sexual direta, a energia libidinal é desviada para fins socialmente valorizados, como a arte, a ciência e o trabalho criativo. A civilização, para a psicanálise, é construída sobre a renúncia da satisfação pulsional imediata em favor do investimento libidinal em objetivos culturais.
Libido Objetal e Libido Narcísica
A introdução do conceito de narcisismo em 1914 alterou profundamente a compreensão da economia libidinal. Até então, acreditava-se que a libido estava sempre direcionada a objetos externos (libido objetal). Freud percebeu, contudo, que existe um estado original em que o ego é o seu próprio objeto de investimento. Ele denominou isso de narcisismo primário. Nesse estado, a libido está toda concentrada no "Eu", e o bebê sente-se o centro do universo.
À medida que o indivíduo se desenvolve, parte dessa libido é enviada para objetos externos; no entanto, o ego permanece como o grande reservatório de onde os investimentos partem e para onde retornam. Há uma relação de vasos comunicantes entre a libido do ego (narcísica) e a libido de objeto: quanto mais se gasta de uma, mais se empobrece a outra. O exemplo clássico de Freud para ilustrar o empobrecimento da libido do ego é o estado de apaixonamento, onde o sujeito "transfere" quase toda a sua libido para o objeto amado, sentindo-se pequeno e dependente.
Inversamente, em estados de luto, melancolia ou esquizofrenia, ocorre uma retirada massiva da libido dos objetos do mundo externo e seu retorno para o ego. Na esquizofrenia (ou neurose narcísica), esse retorno é tão radical que o sujeito perde o contato com a realidade, pois não há mais energia disponível para investir nas representações de mundo. A saúde psíquica, portanto, depende de um equilíbrio dinâmico entre a capacidade de amar (investir no outro) e a capacidade de manter uma reserva de estima e integridade para o próprio ego.
A Libido na Clínica Psicanalítica e a Transferência
Na prática clínica, a libido é o motor do tratamento através do fenômeno da transferência. A transferência nada mais é do que o deslocamento de investimentos libidinais antes dirigidos às figuras parentais para a pessoa do analista. O paciente "re-atualiza" seus conflitos infantis na relação com o terapeuta, permitindo que a libido fixada em fantasias inconscientes seja liberada e colocada em movimento.
O trabalho analítico consiste em ajudar o sujeito a desvendar para onde sua libido está fugindo ou onde ela está aprisionada. Muitas vezes, a resistência ao tratamento ocorre porque o ego não quer abrir mão de uma satisfação libidinal, por mais sofrida que ela seja (o ganho secundário da doença). A cura, em psicanálise, não é a eliminação da libido, o que seria a morte psíquica, mas sim a conquista de uma maior plasticidade libidinal, permitindo que o sujeito seja capaz de "amar e trabalhar", como Freud sucintamente definiu a normalidade.
Além disso, o conceito de libido permite compreender os fenômenos de massa e a identificação. Em "Psicologia das Massas e Análise do Eu", Freud explica que o que mantém um grupo unido não são apenas interesses comuns, mas laços libidinais "inibidos em sua meta". Os membros de um grupo investem sua libido no líder (como ideal do ego) e identificam-se uns com os outros através desse investimento comum. Isso demonstra que a libido é a "cola" que sustenta a estrutura social, desde o casal até as grandes instituições como a Igreja e o Exército. Sem a coesão promovida pela libido, o tecido social se fragmentaria sob o peso da agressividade inerente às pulsões.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2016.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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