O conceito de TRANSFERÂNCIA para a Psicanálise

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Longe de ser apenas um fenômeno secundário ou uma "interferência" no processo de cura, ela constitui o próprio terreno onde o tratamento se desenrola. Para compreender a transferência, é preciso recuar à sua descoberta freudiana, quando Sigmund Freud percebeu que o paciente não apenas recordava fatos de sua história infantil, mas os repetia e os reencenava na figura do analista. Esse deslocamento de afetos, desejos e expectativas de figuras parentais para o terapeuta é o que define a dinâmica transferencial. Ela opera sob a lógica do inconsciente, onde o tempo é circular e os investimentos objetais do passado permanecem vivos, buscando satisfação ou resolução no presente. No rigor da terminologia, a transferência é um processo de atualização do desejo inconsciente, uma "neurose de transferência" que substitui a neurose comum, permitindo que o conflito psíquico seja tratado em tempo real dentro do setting analítico. Sem a transferência, a psicanálise seria meramente uma conversa intelectualizada ou uma sugestão hipnótica; com ela, torna-se uma experiência emocional transformadora.

A Gênese e a Evolução do Conceito na Teoria Freudiana

O conceito de transferência não nasceu pronto; ele emergiu das falhas e das surpresas da clínica. Inicialmente, nos Estudos sobre a Histeria (1895), Freud via a transferência como um obstáculo, uma "falsa conexão" que o paciente estabelecia entre uma ideia reprimida e a pessoa do médico. No entanto, a genialidade de Freud residiu em transformar o impedimento em ferramenta. Ele compreendeu que o que o paciente não consegue recordar devido à resistência, ele expressa através da ação e do afeto direcionados ao analista. Ao longo de sua obra, especialmente em textos como A Dinâmica da Transferência (1912) e Observações sobre o Amor de Transferência (1915), Freud refinou a distinção entre transferência positiva (composta por sentimentos de confiança e amor, que facilitam a aliança de trabalho) e transferência negativa (sentimentos de hostilidade ou resistência). Existe ainda a transferência positiva sublimada, que é o motor intelectual da análise, e a transferência erótica, que pode funcionar como uma resistência poderosa ao pretender substituir o trabalho de fala pela exigência de amor físico ou romântico. O rigor terminológico aqui nos obriga a notar que a transferência é um fenômeno universal da psique humana, presente em todas as relações, mas é na psicanálise que ela é isolada, manejada e interpretada tecnicamente para fins terapêuticos.

O Lugar do Analista e a Função da Transferência em Lacan

A contribuição de Jacques Lacan trouxe uma nova dimensão ao entendimento da transferência, centrando-a na função do saber e do desejo. Lacan postula que a transferência se inicia no momento em que o analisante atribui ao analista o lugar de "Sujeito Suposto Saber" (Sujet Supposé Savoir). O paciente acredita que o analista detém a verdade sobre o seu sintoma e o sentido oculto do seu sofrimento. Essa suposição é o que autoriza a fala e mantém o paciente no processo. Todavia, a psicanálise lacaniana enfatiza que o analista não deve ocupar esse lugar de mestre, mas sim "sustentar" essa posição para que o desejo do analisante emerja. A transferência, sob essa ótica, está ligada à pulsão e ao objeto a. Não se trata apenas de repetir sentimentos em relação ao pai ou à mãe, mas de como o sujeito se organiza em torno do vazio central do seu desejo. Lacan também diferencia a transferência como um fenômeno de "amor" (que é sempre uma demanda de ser amado pelo outro) da dimensão da "verdade" que o processo busca desvelar. O manejo técnico consiste em não responder à demanda do paciente (regra da abstinência), frustrando a repetição neurótica para que o sujeito possa confrontar a falta constitutiva de seu ser.

A Dimensão da Resistência e a Repetição no Setting Analítico

Um dos aspectos mais complexos da transferência é sua relação intrínseca com a resistência. Freud observou que a transferência torna-se a mais poderosa arma da resistência justamente quando ela é mais intensa. Quando o paciente se aproxima de um núcleo traumático ou de um desejo reprimido intolerável, ele "foge" para a transferência, focando sua atenção inteiramente no analista, seja amando-o excessivamente, seja odiando-o, para evitar a dor da recordação. É o que Freud chamou de Agir (Acting out). O rigor técnico exige distinguir o ato de recordar do ato de repetir. A transferência é a repetição em estado puro. O sujeito repete na presença do analista seus padrões de submissão, rebeldia, sedução ou isolamento. O trabalho do analista é interpretar essas atuações, devolvendo ao paciente o sentido histórico e inconsciente de seus gestos. A "neurose de transferência" funciona como um palco artificial onde o conflito psíquico é convocado a se manifestar. Através da interpretação gramatical e afetiva desse fenômeno, busca-se a elaboração (Durcharbeitung), processo que permite ao ego integrar conteúdos que antes estavam cindidos ou recalcados, reduzindo o poder do sintoma sobre a vida do sujeito.

Contratransferência e o Enquadre Ético do Atendimento

Não se pode falar de transferência sem mencionar a contratransferência, que se refere ao conjunto de reações inconscientes do analista à pessoa do analisante e, especificamente, à transferência deste. Originalmente vista por Freud como uma mancha ou uma falha na neutralidade do analista, algo que deveria ser eliminado através da análise pessoal do próprio profissional, a contratransferência passou a ser vista por autores posteriores, como Paula Heimann e Heinrich Racker, como um instrumento valioso de informação sobre o mundo interno do paciente. No entanto, o rigor ético da psicanálise exige que o analista mantenha uma "atenção flutuante" e não atue seus próprios complexos. A transferência é uma via de mão dupla em termos de comunicação inconsciente, mas o analista deve permanecer como um espelho ou uma tela em branco (metáfora clássica freudiana) para não contaminar a projeção do paciente. O manejo da transferência exige que o analista suporte o peso de ser o objeto de ódio ou de amor sem se deixar seduzir ou ofender. É essa neutralidade benevolente que garante a segurança do setting e permite que a transferência seja resolvida ao final da análise, momento em que o paciente "desinveste" a figura do analista e recupera para si a autoridade sobre seu próprio saber e desejo.

Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian Ingo Lenz. Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica: uma arqueologia das estratégias de cura. São Paulo: Annablume, 2011.

FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12.

FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor de transferência (1915 [1914]). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12.

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: a transferência. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

RACKER, Heinrich. Transferência e Contratransferência. Tradução de Elza de Andrade. Rio de Janeiro: Imago, 1982.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica - uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.