A fundamentação do conceito de acting out remonta ao ensaio técnico de Sigmund Freud de 1914, intitulado Recordar, Repetir e Elaborar. Neste texto seminal, Freud estabelece uma distinção crucial para o manejo da transferência: o paciente, ao encontrar resistências no processo de livre associação, muitas vezes deixa de recordar o que foi recalcado para, em vez disso, repeti-lo em forma de ação. Freud utiliza o termo alemão Agieren para descrever esse fenômeno. O sujeito não se lembra de ter sido desafiador ou sedutor com figuras de autoridade na infância; ele simplesmente age de forma desafiadora ou sedutora com o analista.
A repetição (Wiederholung) é, portanto, o motor do acting out. Quando o material inconsciente não consegue encontrar o caminho das representações de palavra (Wortvorstellungen), ele transborda para o campo das representações de coisa (Sachvorstellungen) traduzidas em atos. É uma forma de memória que se expressa não pelo pensamento, mas pela motilidade. Freud percebeu que essa "atuação" é uma resistência à cura, pois o ato interrompe a cadeia associativa. Enquanto o sujeito atua, ele não fala; e se não fala, o analista não pode interpretar o sentido latente daquele movimento. No entanto, o acting out não é puramente negativo. Ele traz para a cena analítica a "presença" do conflito, oferecendo um fragmento vivo da realidade psíquica que, embora mudo, é eloquente em sua estrutura.
A evolução do pensamento freudiano para a Além do Princípio do Prazer (1920) trouxe novas camadas ao conceito. A repetição deixa de ser apenas uma resistência do ego e passa a ser entendida como vinculada à pulsão de morte (Todestrieb). O acting out, nesse sentido, pode ser visto como uma tentativa do aparelho psíquico de "ligar" uma excitação traumática que não pôde ser processada. O sujeito repete o trauma na ação na esperança inconsciente de dominá-lo, embora, na maioria das vezes, acabe apenas reafirmando o ciclo de sofrimento.
A Releitura Lacaniana: Acting Out versus Passagem ao Ato
Jacques Lacan, em seu Seminário 10, A Angústia, refinou drasticamente a compreensão do acting out, diferenciando-o da "passagem ao ato" (passage à l'acte). Para Lacan, o acting out é essencialmente uma mensagem endereçada ao Outro. É uma montagem, uma encenação que, apesar de ocorrer fora da fala, possui uma estrutura de linguagem. O sujeito "atua" porque não consegue dizer algo, mas essa atuação é um apelo à interpretação. É como se o sujeito levantasse um cartaz no meio da sessão (ou fora dela) para que o analista o leia.
Diferente da passagem ao ato, que é um movimento de saída da cena, uma ruptura radical onde o sujeito se desliga do laço social e se identifica com o objeto resto (o objeto a), o acting out permanece dentro da dialética do desejo. O acting out é "mostração". Lacan utiliza o exemplo do caso da "Jovem Homossexual", de Freud, para ilustrar isso. Quando a jovem passeia com a "dama de duvidosa reputação" diante do escritório do pai, ela não está apenas vivendo seu desejo; ela está encenando uma provocação dirigida ao olhar do pai. É uma mensagem cifrada em comportamento.
Nesse contexto, o acting out surge quando há uma falha na interpretação do analista ou quando o analista se torna "surdo" ao desejo do sujeito. Ele funciona como um corretivo à técnica. Se o analista não escuta a palavra, o paciente é forçado a "dar um espetáculo". A função do analista diante do acting out não é punir o comportamento ou tentar corrigi-lo através de conselhos morais, mas sim reintegrar esse ato à cadeia simbólica, transformando o "fazer" em "dizer".
A Dimensão da Transferência e o Lugar do Analista
O acting out é intrinsecamente ligado à transferência. Frequentemente, ele é descrito como uma "transferência selvagem" ou uma transferência que não foi devidamente manejada no setting. Quando o vínculo transferencial torna-se excessivamente carregado de libido ou de agressividade, e o espaço simbólico da análise não suporta tal tensão, o acting out ocorre como uma descarga. É o que chamamos de acting out na transferência (dentro da sessão) ou acting out em relação à transferência (fora da sessão, mas motivado por ela).
Um ponto fundamental é que o acting out aponta para a falta de um significante. O sujeito atua aquilo que não tem nome. Na clínica contemporânea, marcada por patologias do narcisismo e estados limite, o acting out é onipresente. Pacientes que se cortam, que se envolvem em situações de risco ou que abandonam tratamentos de forma abrupta estão, muitas vezes, em pleno acting out. O desafio para o clínico é não responder ao ato com outro ato. Se o analista se irrita, se desespera ou tenta controlar a vida do paciente, ele abandona sua posição de neutralidade e entra no "teatro" do paciente, reforçando a repetição em vez de dissolvê-la.
A interpretação do acting out deve ser cautelosa. Lacan alertava que interpretar o acting out como se fosse um sintoma clássico pode, às vezes, precipitar uma passagem ao ato. Isso ocorre porque o acting out já é, por si só, uma tentativa desesperada de simbolização. O analista deve, primeiramente, reconhecer a quem essa "atuação" se dirige. Ao ocupar o lugar do Grande Outro que testemunha e valida a dor sem ser destruído por ela, o analista permite que o sujeito recupere a capacidade de mediar sua existência através da palavra.
O Estatuto do Objeto e a Função do Ato na Estrutura
Para aprofundar o rigor terminológico, é preciso discutir a relação entre o acting out e o objeto a. Na teoria lacaniana, o objeto a é o objeto causa de desejo, aquilo que falta e que sustenta a busca do sujeito. No acting out, o sujeito tenta mostrar esse objeto, ele o coloca em cena. Há uma prevalência do olhar: o sujeito quer ser visto em sua condição de objeto. Enquanto no sintoma o sentido está "nas entrelinhas" da fala, no acting out o sentido está na visibilidade da ação.
Essa visibilidade serve como uma defesa contra a angústia de castração. Ao atuar, o sujeito cria uma realidade factual que preenche o vazio deixado pela falta de resposta do Outro. É uma forma de onipotência: "Se eu ajo, eu controlo a cena". Contudo, essa onipotência é ilusória, pois o sujeito permanece cativo da repetição inconsciente. Ele é "atuado" pela pulsão tanto quanto ele "atua". A distinção entre o eu (ego) que acredita estar no controle e o sujeito do inconsciente que repete o trauma é onde reside o sofrimento psíquico.
O acting out também pode ser compreendido através da teoria das pulsões de Freud, especificamente a pulsão escópica (do olhar). Muitas vezes, o ato é um "fazer-se ver" para um Outro que o sujeito supõe ser cego ou indiferente. Em termos topológicos, poderíamos dizer que o acting out é um curto-circuito entre o Imaginário e o Real, saltando por cima do Simbólico. O objetivo do tratamento psicanalítico é restabelecer a primazia do Simbólico, permitindo que o Real da pulsão seja mediado por metáforas e metonímias, reduzindo a necessidade de exibições dramáticas na realidade externa.
Considerações Técnicas e a Elaboração do Atuado
A finalidade última do manejo do acting out na análise é a Durcharbeitung, ou elaboração. Elaborar significa percorrer repetidamente as resistências até que o sujeito possa integrar o que foi atuado em sua história pessoal. Não basta que o analista saiba o que o acting out significa; é necessário que o paciente consiga subjetivar essa verdade. A transição do acting out para a elaboração exige tempo e uma sustentação constante do enquadre (setting) analítico.
O analista deve estar atento aos sinais de que um acting out está para ocorrer. Frequentemente, há um empobrecimento das associações, um aumento da tensão corporal ou uma fixação em temas triviais da realidade externa que escondem a tempestade interna. Ao intervir, o analista busca "frustrar" o acting out não no sentido de proibi-lo, mas de não dar a resposta esperada pelo circuito da repetição. Se o paciente atua para ser rejeitado, a não-rejeição do analista cria um vazio que obriga o paciente a falar sobre sua expectativa de rejeição.
Em suma, o acting out é uma peça fundamental do quebra-cabeça clínico. Ele marca o limite da palavra, mas também o início de uma nova possibilidade de verdade. Compreendê-lo exige rigor para não confundi-lo com mera rebeldia e sensibilidade para escutar o grito silencioso que habita cada gesto impulsivo. Na economia do desejo, o acting out é o testemunho de que algo do sujeito pede passagem, preferindo o risco da ação ao silêncio do esquecimento.
Referências Bibliográficas
Fenichel, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. Tradução de Samuel Penna Reis. São Paulo: Atheneu, 2000.
Freud, Sigmund. Obras completas, volume 10: Observações sobre um caso de neurose obsessiva ("O Homem dos Ratos"), Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Freud, Sigmund. Obras completas, volume 12: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia ("O caso Schreber"), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Freud, Sigmund. Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil ("O homem dos lobos"), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Lacan, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
Lacan, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Roudinesco, Elisabeth; Plon, Michel. Dicionário de Psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Zimerman, David E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.
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