Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O conceito de NEUROSE para a Psicanálise

Por Max Halberstadt - Esta imagem está disponível na Divisão de Gravuras e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos com o número de identificação digital cph.3g04946.Esta marcação não indica o estado dos direitos de autor da obra aqui mostrada. Continua a ser necessária uma marcação normal de direitos de autor. Veja Commons:Licenciamento para mais informações., Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5234443

De acordo com a metapsicologia freudiana, o aparelho psíquico é regido por uma dinâmica de forças onde o Id (reservatório das pulsões), o Ego (instância de mediação e contato com a realidade) e o Superego (herdeiro do Complexo de Édipo e representante das normas morais) travam uma batalha constante. Na neurose, ocorre um processo de recalque (Verdrängung), onde uma representação ligada a um desejo pulsional é considerada incompatível com as exigências do Ego ou com os ideais do Superego. Essa ideia é, então, expulsa da consciência e mantida no inconsciente. No entanto, o recalque nunca é plenamente bem-sucedido; o desejo recalcado mantém sua carga energética (libido) e busca incessantemente uma via de retorno. O sintoma neurótico surge, portanto, como o "retorno do recalcado". Ele é uma formação substitutiva: uma maneira de o desejo se satisfazer de forma disfarçada, passando pelo "crivo" da censura psíquica. O sofrimento do neurótico advém do fato de que ele não reconhece a origem de seus sintomas, vivenciando-os como algo estranho a si mesmo (ego-distônico), embora eles sejam produções de sua própria subjetividade.

O Complexo de Édipo e a Estruturação da Subjetividade

Não se pode falar de neurose em psicanálise sem centralizar o papel do Complexo de Édipo. Freud postulou que a neurose é o "negativo da perversão" e que sua gênese remonta às experiências da infância, especificamente ao modo como a criança atravessa o drama edípico. É através deste complexo que o sujeito se introduz na cultura e aceita a Lei da proibição do incesto. Na estrutura neurótica, o sujeito aceitou a castração simbólica, o reconhecimento de que não se pode ser tudo para o Outro e de que o desejo é marcado por uma falta fundamental. A neurose é, portanto, o resultado de uma fixação ou de um desfecho específico desse processo. Enquanto na psicose há uma "foraclusão" (rejeição) do Nome-do-Pai (o significante da Lei), na neurose a Lei é integrada, mas o desejo permanece em um estado de conflito permanente com essa interdição. O neurótico é aquele que "pergunta" constantemente sobre seu desejo e sobre seu lugar diante do Outro, utilizando o sintoma como uma forma de sustentar essa dúvida existencial. A angústia, nesse contexto, funciona como o sinal de que o Ego está sob a ameaça de ser inundado por uma excitação pulsional que ele não consegue processar ou que o recalque está falhando.

As Variedades Clínicas da Neurose: Histeria e Neurose Obsessiva

Embora a estrutura neurótica compartilhe a base do recalque, ela se manifesta predominantemente através de duas grandes formas clínicas: a histeria e a neurose obsessiva. Na Histeria, o conflito psíquico é convertido em sintomas corporais (conversão) ou manifestado através de uma insatisfação crônica e de uma identificação com o desejo do Outro. O corpo histérico "fala" aquilo que a palavra não consegue articular, apresentando paralisias, anestesias ou dores que não possuem uma base orgânica neurológica, mas seguem a lógica das representações inconscientes. Já na Neurose Obsessiva, o conflito é deslocado para o campo do pensamento. O sujeito é invadido por ideias intrusivas, rituais compulsivos e uma dúvida paralisante. O obsessivo tenta, através do pensamento e do controle excessivo, anular a possibilidade da perda e da castração, criando uma espécie de fortaleza mental para se proteger do desejo, que é percebido como perigoso ou sujo. Em ambas as formas, a libido fica "represada" e o sujeito perde a capacidade de amar e trabalhar de forma plena, ficando aprisionado em repetições que visam evitar o encontro direto com a verdade de seu desejo.

A Dinâmica da Transferência e a Cura na Psicanálise

O tratamento da neurose na clínica psicanalítica não visa a eliminação sumária do sintoma, como se fosse um defeito biológico, mas sim a sua decifração. O dispositivo analítico propicia o surgimento da transferência, fenômeno onde o paciente projeta no analista figuras de sua história infantil. Na transferência, a neurose comum se transforma em "neurose de transferência", permitindo que os conflitos arcaicos sejam reencenados no aqui-agora da sessão. Através da associação livre, o neurótico é convidado a falar o que quer que lhe venha à mente, sem julgamento moral ou lógico. Esse processo permite que as cadeias de significante que sustentam o sintoma sejam desarticuladas. A "cura" em psicanálise não significa a chegada a um estado de felicidade inabalável ou normalidade estatística, mas sim a conquista de uma maior autonomia do sujeito em relação aos seus determinismos inconscientes. É a transição da "miséria neurótica" para a "infelicidade comum", como dizia Freud, permitindo que o sujeito possa lidar com a falta constitutiva da vida sem ser paralisado por sintomas incapacitantes.

Referências Bibliográficas

DOR, Joël. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus, 1991.

FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil ("O homem dos lobos"), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 16: O eu e o id, "Autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica - uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Minha Foto
Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.