O que é NARCISISMO para a Psicanálise?
Dinâmica das PulsõesLonge de ser, como entendido no senso comum, uma mera descrição da vaidade ou do autoerotismo vulgar, o narcisismo é um dos fenômenos que permitiram a Freud transitar da primeira para a segunda tópica, redefinindo a estrutura do aparelho psíquico e a dinâmica das pulsões. Para a psicanálise, o narcisismo não é uma patologia em si, mas um estágio do desenvolvimento libidinal e uma condição estruturante da subjetividade.
A Gênese do Eu e o Narcisismo Primário
No início do desenvolvimento psíquico, não existe uma unidade comparável ao Eu (Ego). Freud postula que o indivíduo nasce em um estado de anarquismo pulsional, onde as pulsões parciais buscam satisfação de forma independente e autoerótica nas diversas zonas erógenas do corpo. O narcisismo primário surge, portanto, como uma operação psíquica nova que permite a unificação dessas pulsões dispersas. Não se trata de um estado puramente biológico, mas de uma construção que exige que o sujeito se tome como objeto de amor antes de poder dirigir sua libido para o mundo exterior.
Nesse estágio, a criança vivencia o que a teoria chama de "onipotência do pensamento". O Eu é o centro do universo, um receptáculo de toda a libido disponível. Não há ainda uma distinção clara entre o sujeito e o objeto; o mundo é uma extensão das necessidades e desejos da criança. Esse estado de perfeição imaginária é frequentemente sustentado pelo desejo dos pais, que projetam no filho suas próprias aspirações narcísicas não realizadas, o famoso "Sua Majestade, o Bebê". O narcisismo primário funciona como um protetor inicial, uma reserva libidinal necessária para a sobrevivência psíquica, antes que as exigências da realidade e as frustrações inevitáveis obriguem o sujeito a investir em objetos externos.
A transição desse estado para a alteridade é marcada pela percepção de que o Eu não é autossuficiente. A libido, antes estagnada no Eu, começa a fluir para os objetos que prometem satisfação. Aqui, Freud introduz a distinção crucial entre libido do Eu e libido de objeto. Existe uma relação de vasos comunicantes entre ambas: quanto mais libido é investida no objeto, mais o Eu se empobrece, e vice-versa. O estado de apaixonamento extremo é o exemplo máximo da libido de objeto, onde o Eu se anula em favor da glorificação do outro, enquanto o estado de megalomania ou de certas psicoses exemplifica o recolhimento total da libido para o Eu.
O Narcisismo Secundário e a Retirada da Libido
O narcisismo secundário não deve ser confundido com uma evolução cronológica linear, mas sim como um movimento de refluxo. Ele ocorre quando a libido, anteriormente investida em objetos externos, é retirada e reconduzida para dentro do Eu. Esse processo de introversão da libido pode ser observado em diversas situações, desde estados orgânicos de dor e doença, onde o interesse do sujeito se volta exclusivamente para o seu corpo sofrido, até quadros clínicos complexos como a esquizofrenia e a paranoia.
Na psicose, especificamente naquelas que Freud classificou como neuroses narcísicas, o sujeito retira o investimento libidinal das representações de objeto. Ao contrário da neurose de transferência (histeria ou neurose obsessiva), onde a libido retirada da realidade é reinvestida em objetos fantasiáticos, na psicose a libido retorna ao Eu, produzindo o delírio de grandeza ou a hipocondria. O mundo externo perde seu brilho e sua significação pulsional porque o reservatório do Eu está sobrecarregado.
Este movimento de refluxo também é essencial para compreendermos o processo do luto e da melancolia. Na melancolia, a perda de um objeto amado não resulta em um desinvestimento gradual, mas em uma identificação narcísica com o objeto perdido. O Eu "engole" o objeto, e a sombra do objeto cai sobre o Eu. A partir daí, as críticas e o ódio que seriam dirigidos ao outro são direcionados ao próprio Eu, agora transformado em substituto do objeto. O narcisismo secundário, portanto, revela a fragilidade das fronteiras entre o sujeito e suas identificações, demonstrando que o Eu é, em grande parte, um sedimento de investimentos de objeto abandonados.
A Formação do Ideal do Eu e a Consciência Moral
A saída do narcisismo primário e a entrada na ordem social e cultural exigem a renúncia à onipotência infantil. No entanto, o ser humano é incapaz de abrir mão de uma satisfação outrora desfrutada. Para compensar a perda da perfeição narcísica da infância, o sujeito projeta diante de si um Ideal do Eu (Ideal-Ich). Este ideal torna-se o herdeiro do narcisismo primário; é para este modelo idealizado que a libido é agora dirigida.
O Ideal do Eu é construído a partir das exigências ambientais, das críticas dos pais e das expectativas culturais. Ele funciona como um parâmetro de perfeição ao qual o Eu real tenta se adequar. Paralelamente, surge uma instância de observação e censura, que mais tarde Freud consolidará como o Supereu, encarregada de medir a distância entre o Eu atual e o Ideal do Eu. O sentimento de autoestima (Selbstgefühl) depende diretamente dessa dinâmica: ele aumenta quando o Eu age de acordo com o ideal e diminui drasticamente quando há uma falha em atingir esses padrões, resultando em sentimentos de inferioridade ou culpa.
É fundamental distinguir o Ideal do Eu do Eu Ideal. Enquanto o Eu Ideal é uma formação imaginária de onipotência (um resquício do narcisismo primário onde o sujeito acredita "ser" o máximo), o Ideal do Eu é uma bússola simbólica (o que o sujeito "deve ser"). A tensão entre essas instâncias define grande parte do sofrimento neurótico contemporâneo, onde a cobrança por uma performance perfeita e a manutenção de uma imagem idealizada consomem a economia libidinal do sujeito, deixando pouco espaço para o investimento real em laços afetivos e projetos de vida que não visem apenas o espelhamento do próprio ego.
Narcisismo e a Teoria das Pulsões
A introdução do narcisismo na teoria freudiana em 1914 causou um abalo sísmico na primeira dualidade pulsional, que separava as pulsões sexuais (preservação da espécie) das pulsões de autoconservação ou pulsões do Eu (preservação do indivíduo). Ao descobrir que o Eu também pode ser investido sexualmente, Freud percebeu que as pulsões de autoconservação eram, na verdade, também pulsões libidinais. Isso gerou um impasse teórico: se tudo é libido, como explicar o conflito psíquico?
Essa crise conceitual levou Freud, anos depois, em "Além do Princípio do Prazer" (1920), a formular a segunda dualidade pulsional: Eros (pulsão de vida) e Tânatos (pulsão de morte). Nesse novo contexto, o narcisismo é visto como uma manifestação de Eros, uma força de coesão que tenta manter a unidade do organismo e do Eu. No entanto, existe também um "narcisismo de morte" ou narcisismo negativo, um conceito explorado posteriormente por autores como André Green.
O narcisismo negativo não busca a exaltação do Eu, mas sim o seu aniquilamento, uma tendência ao desinvestimento radical. Enquanto o narcisismo positivo busca a plenitude e a unificação, o negativo visa o retorno ao estado inorgânico, ao vazio absoluto, desligando o sujeito de qualquer conexão com o prazer ou com o outro. Essa nuance é vital para o tratamento de pacientes com estruturas "borderline" ou psicossomáticas graves, onde o desinvestimento da vida é mais pronunciado do que o conflito clássico entre desejo e proibição. O narcisismo, portanto, deixa de ser apenas uma questão de "amor-próprio" e passa a ser compreendido como a própria tensão entre a vida e a inércia psíquica.
O Estádio do Espelho e a Identificação Imaginária
A contribuição de Jacques Lacan ao tema do narcisismo é indispensável para o rigor terminológico da psicanálise contemporânea. Lacan reformula o narcisismo freudiano através do conceito de Estádio do Espelho. Para ele, o Eu não é um dado biológico, mas uma construção imaginária que ocorre entre os seis e dezoito meses de vida. Ao ver sua imagem refletida no espelho (ou no olhar da mãe, que serve como espelho), a criança, que ainda vive uma experiência de fragmentação corporal e falta de coordenação motora, antecipa uma unidade que ainda não possui.
Essa imagem especular é a base do Eu. O sujeito se identifica com essa forma totalizada e externa, criando uma alienação constitutiva: o Eu é o Outro. O narcisismo, nesta perspectiva, é essa relação erótica e agressiva com a própria imagem. É erótica porque há um júbilo na descoberta da unidade, mas é agressiva porque essa imagem é uma estátua rígida, uma ilusão de completude que o sujeito nunca poderá habitar plenamente no plano da realidade orgânica.
Essa leitura lacaniana retira o narcisismo do campo da psicologia do desenvolvimento e o coloca no campo da estrutura do sujeito. O narcisismo torna-se a base da dimensão do Imaginário, onde o sujeito fica capturado em jogos de espelhos, buscando constantemente o reconhecimento e a validação na imagem que projeta para o mundo. A análise, portanto, não visa fortalecer esse Eu narcísico, como propunham algumas correntes da Ego Psychology, mas sim atravessar essa miragem imaginária para que o sujeito possa se situar na ordem do Simbólico, ou seja, na ordem da linguagem e do desejo que não passa apenas pelo reconhecimento especular.
A compreensão profunda do narcisismo permite ao analista identificar as resistências que surgem no tratamento. Quando um paciente se recusa a abandonar um sintoma porque ele se tornou parte de sua identidade narcísica, ou quando a transferência se torna maciçamente idealizada, estamos diante das defesas do Eu contra a castração e a falta. Podemos dizer, portanto, que o narcisismo é uma tentativa do ser humano de negar sua incompletude fundamental.
Até a próxima! Fiquem bem!
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Frederico Lima
Psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica e doutor em Letras, com tese sobre a aproximação entre Literatura e Psicanálise. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.
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