O que significa RECALQUE (Repressão) para a Psicanálise?

A psicanálise, inaugurada por Sigmund Freud na virada do século XIX para o XX, não é apenas uma terapia, mas uma profunda investigação sobre as profundezas da mente humana. No cerne dessa investigação reside um conceito que atua como a pedra angular de todo o edifício psicanalítico: o Recalque (ou Repressão, do alemão Verdrängung). Sem a compreensão deste mecanismo, a psicanálise perderia seu objeto de estudo principal, o inconsciente, uma vez que é o recalque que, em última instância, o produz e o mantém povoado.

A Gênese do Recalque e a Divisão do Psiquismo

Para entender o recalque, precisamos primeiro aceitar a premissa freudiana de que a mente não é uma unidade homogênea e consciente. O recalque é a operação psíquica pela qual o sujeito tenta repelir ou manter no inconsciente representações (pensamentos, imagens, lembranças) ligadas a uma pulsão que, embora busque satisfação, provocaria desprazer ao sistema consciente por entrar em conflito com exigências morais, éticas ou sociais.

É importante distinguir que o recalque não é um esquecimento comum. Quando esquecemos onde deixamos as chaves, trata-se de uma falha de memória cotidiana. No recalque, o "esquecimento" é ativo e motivado. A representação não desaparece; ela é banida da consciência, mas mantém sua carga energética intacta no porão da mente. Freud descreve esse processo como uma defesa do Ego (Eu). O Ego, ao se deparar com um desejo que considera perigoso ou vergonhoso, por exemplo, um desejo hostil contra uma figura amada ou uma fantasia sexual que desafia os valores do indivíduo, utiliza o recalque como uma "barreira" para preservar sua integridade.

Esse processo divide o aparelho psíquico. O que é recalcado passa a habitar o Inconsciente, um sistema que opera sob leis próprias, como a ausência de contradição e a atemporalidade. O recalque, portanto, é o que inaugura a separação entre o que sabemos sobre nós mesmos e o que efetivamente nos move. Somos, em grande parte, estranhos para nós mesmos justamente porque o recalque esconde as nossas motivações mais primitivas e cruas.

O Processo Dinâmico: Recalque Primário e Secundário

Freud subdividiu o mecanismo de repressão em fases para explicar como o inconsciente é formado e como ele continua a operar ao longo da vida. O primeiro estágio é o chamado Recalque Primário (Urverdrängung). Este não é um evento consciente, mas um processo mítico e estruturante que ocorre na infância. Ele consiste na fixação da pulsão a uma representação psíquica. É como se fosse a criação de um "núcleo de atração" no inconsciente. Esse núcleo não é composto por memórias claras, mas por traços que servirão de base para que recalques futuros ocorram. Sem o recalque primário, o psiquismo seria um caos de estímulos sem direção.

Após essa fundação, temos o Recalque Propriamente Dito ou Recalque Secundário. Este é o processo que observamos na clínica psicanalítica. Ele atua sobre os "derivados" do que foi originalmente recalcado ou sobre pensamentos que, por associação, se ligam ao núcleo reprimido. Aqui, a mente opera por uma dupla força: a consciência empurra o conteúdo indesejado para fora (repulsão), enquanto o núcleo inconsciente já estabelecido o puxa para dentro (atração).

O recalque exige um gasto constante de energia, o que Freud chamava de "contra-investimento". Imagine tentar manter uma boia debaixo d'água em uma piscina. No momento em que você para de fazer força, a boia sobe à superfície. O psiquismo gasta uma quantidade enorme de energia vital apenas para manter certas verdades longe da consciência. Por isso, pessoas com muitos conteúdos recalcados frequentemente sentem um cansaço inexplicável ou uma paralisia criativa; sua energia psíquica está "ocupada" guardando a porta do inconsciente.



O Retorno do Recalcado e a Formação de Sintomas

Um dos axiomas mais famosos da psicanálise é que "o recalque nunca é totalmente bem-sucedido". O material reprimido é indestrutível e busca constantemente uma via de saída para obter satisfação. Como a porta direta para a consciência está trancada, o desejo recalcado precisa se disfarçar para passar pelo "censor" psíquico. É o que chamamos de Retorno do Recalcado.

Esse retorno acontece através de formações substitutivas e de compromisso. O desejo original volta à cena, mas de forma irreconhecível, deformada e mediada. Os principais exemplos são:

  • Sintomas Neuróticos: Um medo irracional (fobia) ou uma compulsão de limpeza podem ser, na verdade, disfarces para um desejo agressivo ou sexual que foi recalcado. O sintoma é um "mal-entendido" psíquico que traz, ao mesmo tempo, o sofrimento da repressão e uma pequena parcela de satisfação disfarçada do desejo.

  • Atos Falhos: Quando trocamos uma palavra por outra em um discurso ou "esquecemos" um compromisso importante, o inconsciente está furando o bloqueio do recalque para expressar uma verdade que o consciente tentava esconder.

  • Sonhos: Para Freud, o sonho é a "estrada real para o inconsciente". No sono, a censura relaxa, permitindo que os desejos recalcados apareçam em imagens simbólicas.

  • Chistes (Piadas): O humor muitas vezes permite que digamos verdades proibidas de forma socialmente aceitável, aliviando a tensão do recalque.

O retorno do recalcado prova que o que tentamos enterrar vivo continua a exercer influência sobre nosso comportamento, nossas escolhas amorosas e nossas doenças.

Recalque, Moralidade e Civilização

A psicanálise não vê o recalque apenas como uma patologia individual, mas como uma necessidade para a vida em sociedade. Em sua obra O Mal-Estar na Civilização, Freud argumenta que a cultura exige a renúncia pulsional. Para vivermos juntos, não podemos sair por aí satisfazendo todos os nossos impulsos agressivos ou sexuais de forma imediata. O recalque é, portanto, o preço que pagamos pela segurança e pelo progresso da civilização.

Entretanto, esse preço é alto. Se o recalque for excessivo ou rígido demais, o indivíduo adoece de neurose. Se for frouxo demais, o indivíduo pode cair na perversão ou na psicose, onde a barreira entre o desejo e a realidade é rompida. A saúde psíquica, sob a ótica psicanalítica, não é a ausência de recalque, o que seria impossível, mas uma relação mais flexível com o que foi recalcado.

O processo civilizatório redireciona a energia do que foi recalcado para fins socialmente valorizados, um mecanismo conhecido como Sublimação. Quando um cirurgião canaliza pulsões agressivas para salvar vidas, ou um artista transforma angústias sexuais em uma pintura, eles estão dando um destino nobre ao que, de outra forma, seria reprimido. O recalque é o motor silencioso por trás das maiores obras da humanidade, mas também a sombra que paira sobre o sofrimento psíquico humano.

A Prática Clínica: Tornar Consciente o Inconsciente

O objetivo final da terapia psicanalítica é intervir no processo de recalque. O analista não busca simplesmente "destruir" o recalque, pois ele tem uma função protetiva, mas sim enfraquecer a barreira para que o sujeito possa lidar conscientemente com o que antes era insuportável.

Através da Associação Livre, o paciente é convidado a falar tudo o que lhe vem à mente, sem filtro. Ao fazer isso, ele começa a relaxar a guarda do recalque. O analista escuta as lacunas, os silêncios e as repetições, buscando os "rastros" daquilo que foi banido. Quando o sujeito consegue colocar em palavras uma lembrança ou desejo que estava recalcado, ocorre uma descarga emocional (catarse) e uma reorganização da psique.

Trabalhar o recalque significa dar ao sujeito a chance de escolher o que fazer com seus desejos, em vez de ser cegamente conduzido por eles. É a transição do "Isso fala em mim" para o "Eu falo por mim". Ao final de um processo analítico bem-sucedido, o recalque deixa de ser um mestre tirânico que gera sintomas dolorosos e passa a ser apenas uma das muitas ferramentas que o Ego utiliza para navegar na complexa realidade da existência humana.

Até a próxima! Fiquem bem!

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